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18.8.09

Os com-jaleco

Hippie colombiano anda alinhado



(Essa esquina foi publicada originalmente na piauí 35 e é assinada em compadrio com a cidadã paulisto-bogotana Camila Moraes)

Numa recente terça-feira nublada, Alejandro - um hippie colombiano que acha meio insólito "isso de dar o sobrenome" (e por isso não dá) - estava sentado na calçada diante da matéria-prima de seu labor: contas, miçangas, palhinhas. Foi quando apareceu um colega seu aflito, sacudindo um jornal (gratuito, como convém) no ar.

Uma das manchetes espalhou apreensão naquele canto de praça em que a década de 60 parecia imortal: "Hippies terão uniforme." "O que essa mulher vai fazer a gente usar?", pensou o colombiano do alto dos seus suspeitos, mas declarados, 42 anos de idade. (Suas rugas remetem mais à quadra dos 60, ainda que a disposição geral seja de uns trinta e poucos.)

A mulher é Blanca Inés Durán, engenheira concursada que desde o ano passado se tornou subprefeita de Chapinero, algo como a Rive Gauche ou o East Side de Bogotá: o bairro dos boêmios e artistas, talvez um dos quarteirões mais tolerantes de toda a Colômbia.

O espanto dos alternativos é que Blanca sempre foi considerada "um deles". Não necessariamente "deles", os hippies, mas "deles", os diferentes. Ali estava, afinal, uma lésbica militante que só aceitara disputar o cargo ao saber que dois ou três candidatos conservadores queriam fechar os diversos bares gays da região. Os mesmos bares - ela própria conta - onde afogara as mágoas do fim de seu primeiro casamento com uma mulher.

A surpresa com o viés autoritário da medida não se restringiu à turma da miçanga. A imprensa colombiana fez troça da iniciativa, anunciando a distribuição de escovas e tubos de laquê num novo programa, "Hippie Limpo e Bem Penteado".

Quando a poeira baixou, vieram à tona os principais pontos da medida. Se a palavra "uniforme" havia causado choques apopléticos nos cabeludos, foi quase fatal a notícia de que seriam obrigados a portar um "carnê". Para domar a ansiedade, muito se fumou, e de tudo. Teriam eles de pagar mensalidade para trabalhar na rua? Não, o carnê se tornaria apenas uma espécie de carteira de identidade. Pela qual teriam de pagar? Também não.

Durou pouco o alívio. O pessoal logo se deu conta de que portar identificação equivaleria a uma sentença de morte para quem vive do comércio de badulaques e outras mercadorias nem sempre aprovadas pelo Ministério da Saúde.

Com o sociologuês tinindo, Blanca explica: "A idéia é que só os participantes dos nossos projetos de reinserção econômica recebam os carnês. O que queremos é justamente que as pessoas encontrem projetos produtivos e deixem sua situação de rua."

Como a frase não parece significar nada, é o caso de perguntar coisas mais concretas. E a história dos uniformes? "Não se trata exatamente de uniformes, mas de jalecos. Precisamos identificar quem tem carnê e quem não tem, compreende?" Durante quanto tempo os sem-jaleco ainda poderão vender na rua? "Em pouco mais de um ano todos os ambulantes estarão uniformizados. Vamos fazer batidas frequentes para garantir que isso seja cumprido." Ou seja: quem estiver na rua por falta de opção poderá contar com os programas do governo. Quem estiver por opção, que vá atrás de outras praças para exercer o desbunde.

Um projeto que mexe com a identidade dos hippies metendo-os em uniformes - vá lá, jalecos - não poderia ter chegado em momento mais crítico, justo quando eles próprios nutrem dúvidas sobre quem exatamente são.

"Não existe isso de ser hippie e ponto. Tem vários tipos: hippie ermitão, hippie andarilho, hippie caminhante...", explica Alejandro. Qual seria a diferença entre esses dois últimos? "Bom, o andarilho passa a vida andando, mas não faz nada. Já o caminhante é artesão, se movimenta, vende suas coisas num lado e no outro. Eu já fui hippie andarilho. Hoje acho que sou caminhante, um artesão comum e nada mais." Ele fala com os olhos meio perdidos na fumaça. Seu corpo traz tatuagens desbotadas e o cabelo está preso por uma faixa apache.

Ao lado de Alejo está Rodolfo, outro que também não declina o sobrenome. Como trabalha com figuras de arame, pode-se supor que seja hippie caminhante. Essa história de jaleco e carnê o deixou muito desgostoso. Está ponderando se não seria hora de correr mundo de novo, como fez outras vezes. Já viveu na Europa, de país em país, vendendo pulseirinha de palha por 8 euros. Voltou "bem de vida", se deu até ao luxo de trazer para a Colômbia uma cadelinha cocker - "Lindinha", ele diz.

Seu rumo agora deve ser outro: Venezuela. "Dizem que lá o Chávez apóia os vendedores de rua. Parece que dá até mesada", comenta, torcendo com um alicate as pétalas de arame de uma flor. A revolução bolivariana está prestes a virar odara.

"Hippie tem que viver nas comunidades, senão, não é hippie. Sabe Woodstock? Pois é, ser hippie é aquilo", Alejo sintetiza. "Ter liberdade, fazer amor sem preocupação, ficar pelado num rio..." Donde a consternação geral: ficar pelado em rio é muito difícil de jaleco. A subprefeita Blanca Inés Durán não está compreendendo esse lado.

Distribuição alternativa

(publicado na piauí 35)

Pedro - se é que ele se chama Pedro - já lançou dezenas de filmes brasileiros no mercado. Graças a ele, seja no Japão, no Canadá, na Romênia ou no Tocantins, cinéfilos tiveram acesso a uma enorme variedade de obras, desde comédias da pornochanchada a documentários papo cabeça vistos por uma meia dúzia de gatos pingados. Ainda assim, Pedro não é famoso; a imprensa especializada ignora seu trabalho. Até onde se sabe, ele não compareceu (porque nem o convidaram) à posse da nova diretoria da Agência Nacional do Cinema, um beija-mão que reuniu o "quem é alguém" do ramo, em junho.

Produtores ciosos, auteurs soberbos, distribuidores neurastênicos, tremei! Neste exato momento, Pedr1nho - com o número 1 no lugar do i - pode estar jogando suas obras na internet, para gáudio dos internautas sedentos por filmes nacionais gratuitos. Pedr1nho é provavelmente - difícil ter certeza, dado que a classe pirata não tem sindicato - o maior fornecedor de audiovisual brasileiro não contabilizável na rede.

O fruto de seu esforço pode ser visto nos principais sites de compartilhamento gratuito de arquivos, como o The Pirate Bay, o Mininova e o Demonoid, que escapam da perseguição aos infratores de direitos autorais materializando-se a cada par de meses em novo servidor, com frequência sediado em outro país.

Pedro faz questão de não ser confundido com um camelô que vende dvds arrasa-quarteirão hollywoodianos, -shows de pagode e música sertaneja. Ele tem, com o perdão da palavra, uma griffe. O freguês que recorre aos seus serviços sabe exatamente que nicho ele explora: filme nacional. É pegar ou largar. No catálogo há também documentários de surfe, shows de rock e animações legendadas. (Pedro não quis explicar se é surfista ou tem filhos.)

A carreira de pirata desse administrador de empresas de trinta e poucos anos começou em 2004, quando ele pôs na rede o arquivo de Dois Perdidos numa Noite Suja, filme de José Joffily baseado na peça homônima de Plínio Marcos. Pouco mais de 40 mil espectadores pagaram ingresso para ver a fita no cinema, resultado considerado modesto. "Eu achava que ninguém ia se interessar, mas acabou que muita gente baixou e começou a me pedir para lançar outras coisas do Brasil", ele conta. "A partir daí, não parei mais."

A sacada foi incluir as palavras "Brazilian Cinema" no nome do arquivo. Assim, para assistir a um filme brasileiro, não é preciso buscar nenhum título específico. Basta digitar as duas palavras no Google e acrescentar a palavra torrent, nome de um tipo de sistema que permite compartilhar qualquer conteúdo com Deus e o mundo. Em frações de segundo, uma variada videoteca da produção brasileira pós-retomada se abre diante dos olhos do cinéfilo deslumbrado. O que se vê são páginas e mais páginas que oferecem, por exemplo, Feliz Natal, de Selton Mello, Doutores da Alegria, de Mara Mourão, O Aborto dos Outros, de Carla Gallo, Querô, de Carlos Cortez, Cão sem Dono, de Beto Brant, e Baixio das Bestas, de Claudio Assis.

Pedr1nho já contrabandeou mais de 150 filmes para a rede. A oferta pode ser bem direcionada, mas a clientela é heterogênea. Há o grupo dos que reclamam do preço de um dvd. Outros vivem no interior, em cidades onde a oferta de filmes nacionais nas salas de exibição é especialmente anêmica. Um terceiro grupo, numeroso e especialmente agradecido, se compõe de brasileiros que moram no exterior e dependem da web para ver filmes nacionais. E há, por fim, um número significativo de estrangeiros que se interessam pela produção brazileira. "Um pessoal da Bulgária já me escreveu algumas vezes, dizendo que montaram uma 'Brazilian night' em Sófia com os filmes que eu pus na rede", se empolga o bucaneiro. "Eles baixam as legendas em inglês e traduzem para o búlgaro. Dizem que é um sucesso." É mais do que Celso Amorim já fez pelas relações Brasil-Bulgária.

Em 2005, Pedr1nho se juntou a nomes agora totêmicos do "udigrúdi internético" do país - gente que se escondia atrás de apelidos esdrúxulos como 614uc0, ToToH ou huricane_brazil - para fundar o Compartilhando, um dos primeiros sites brasileiros a oferecer de graça arquivos não só de filmes, mas também de videogames, músicas e livros. O site foi de vento em popa durante dois anos, até a Polícia Federal avisar ao huricane_brazil virtual que sua versão de carne e osso podia acabar na cadeia, caso ele insistisse na pirataria a torto e a direito.

O fato de ter a polícia no calcanhar não quer dizer que piratas como -Pedr1nho não tenham um código de ética, ainda que peculiar. "Outro dia caiu na minha mão uma cópia do l.a.p.a", o documentário de Cavi Borges e Emílio Domingos sobre o mundo do hip-hop no Rio de Janeiro. "Não copiei", diz ele. É que os produtores estão tentando distribuir o filme pelas comunidades pobres do Rio, e Pedr1nho, como Robin Hood, não gosta de tirar o pão de quem tem poucos recursos.

Exemplo contrário é o filme Estômago, de Marcos Jorge. Pedr1nho ficou orgulhoso em pirateá-lo. "Um baita filme, cara. E foi muito mal explorado comercialmente no Brasil. Eu quase não consegui ver. Se o diretor lançasse na rede e as pessoas pudessem pagar o que quisessem para assistir, eu não teria pirateado", diz ele, propondo um business model alternativo para o cinema nacional. É esse o modelo adotado, por exemplo, pela banda inglesa Radiohead para distribuir seu disco In Rainbows. "O Estômago tinha que ter representado a gente no Oscar, em vez daquele filme horroroso, o Última Parada 174."

Pedr1nho garante que não se vê como um justiceiro audiovisual, mas, como ates-ta sua opinião sobre L.A.P.A. e Última -Parada, há um juízo moral, estético, econômico - político, na verdade -, que o faz decidir se vai ou não gastar as onze horas necessárias para transferir um dvd para a rede. "Eu já coloquei de tudo. Agora, só o que gosto." Ele cita um exemplo: "Pirateei Irma Vap: o Retorno." O filme, dirigido por Carla Camurati, não mereceu uma recepção particularmente festiva, nem por parte do público, nem por parte da crítica. "Hoje em dia eu jamais lançaria isso", diz Pedr1nho. No Brasil, todo mundo é crítico de cinema. Até os piratas.

15.7.09

Onze casinhas engraçadas

De frente para o mar, sem janelas

(publicado originalmente na piauí 34)


A residência de Hugo Simas de Carvalho Filho parece ter saído daquela cançãozinha infantil de Vinicius de Moraes: "Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada" - ou melhor, teto há, mas é um passeio público. O contratempo não impediu Carvalho de ter telefone fixo, água corrente e ar-condicionado, além de uma das vistas mais bonitas do Rio de Janeiro - isto é, embora a casa não tenha janelas.

Carvalho - conhecido como Cabo, sua patente quando foi dispensado do Exército - mora no airoso bairro da Urca, ao lado do segundo marco mais importante do bairro (o primeiro é o Pão de Açúcar). Seu vizinho é o célebre Cassino da Urca, um prédio de estilo eclético que, entre 1922 e 1933, abrigou o Hotel Balneário, depois o Cassino e mais tarde a TV Tupi, entre 1953 e 1979, quando então foi entregue às traças. No momento, o prédio está sendo reformado pelo Istituto Europeo di Design, o ied, para abrigar a filial carioca da instituição, fundada em Milão.

Não se acha sua casa logo de cara. Primeiro, amarrado numa frondosa amendoeira, se avista um varal de roupas, depois uma mesa com algumas cadeiras de plástico e por fim um caiaque ver-melho tostado pelo sol. É o quintal. O Cabo, um homem corpulento de 65 anos, mora há mais de três décadas ali.

"Ali" significa de frente para a Baía de Guanabara, debaixo da calçada eleva-da que circunda a Praia da Urca. É por isso que, ao acordar, o Cabo apenas cruza uma breve faixa de areia e já está no mar para cumprir seus 5 quilômetros diários de natação. Originalmente havia ali "cabines de vestir", construídas pelo Hotel Balneário para que os hóspedes pudessem recatadamente vestir suas roupas de banho e nadar nas águas ainda límpidas da baía. Com o passar dos anos, entretanto, a pudicícia se tornou démodé e as cabines acabaram abandonadas. Isto é, até a chegada do Cabo.

Seu primeiro contato com o bairro foi no final dos anos 60, já quando ele trabalhava como salva-vidas. Entre um salvamento e outro - o que naquele espelho d'água devia acontecer a cada solstício de inverno -, investigou o território. Todas as cabines estavam vazias e caindo aos pedaços. Ele levou dez anos até decidir se mudar. Primeiro instalou um catre numa cabine, depois um fogareiro a gás na seguinte, até que começou a pôr abaixo as paredes entre elas para criar cômodos mais espaçosos. "Que é que eu ia fazer? Eu fui... tomando, né?", diz ele, demorando a escolher o verbo. "Faz muito tempo, isso."

Hoje a casa equivale a onze cabines. As paredes foram cobertas de ladrilhos, "para evitar a umidade"; a cor, azul-bebê, foi escolhida - curiosamente - para "dar a impressão de mais espaço". É de fato apertado, mas há um quarto para ele e a mulher, outro para o filho, de 8 anos, e uma sala-cozinha com fogão, duas geladeiras e outras comodidades do-més-ticas. Carvalho se apressa em mostrar o relógio de luz e uma conta, além de colar o gancho do telefone no ouvido do vi-si-tan-te para que ouça a linha. "Aqui não tem gato, não. Eu pedi e eles instalaram, ué. Como todo mundo."

Há certa justiça poética em sua história. Um dia o Cabo deixou a vila de pescadores onde nasceu, na região de Niterói, para trabalhar no Rio. A casa que tinha lá passou anos fechada, até que as Forças Armadas anexaram o terreno ao Forte do Imbuí e todas as casas sem uso (como a dele) foram demolidas. O Cabo não associa a invasão da Urca a esse episódio, mas confessa que de vez em quando pega o caiaque e cruza a Baía de Guanabara até a praia onde morou: "E eu não posso descer na areia, dá para acreditar?"

O Cabo acredita na instituição da propriedade privada: "Não fosse eu para vigiar o prédio do cassino, isso aqui tinha virado um paiol de vagabundos", garante. Forasteiros que tentassem pernoitar ou se drogar ali eram suma-riamente escorraçados.

Ele conta ter recebido com alegria a notícia de que o prédio seria refor-ma-do - mas o ied não gostou de descobrir a vizinhança. No ano passado um fun-cionário interpelou o Cabo e, educa-da-mente, disse que ele teria de sair dali.

A questão ainda é nebulosa. A es-cri-tura do prédio não estipula com exatidão se as cabines fazem parte ou não do conjunto. O Cabo, por sua vez, tem algumas taxas pagas, mas nenhum documento de posse. O complexo cabineiro habita um vácuo jurídico.

Está em curso uma polêmica fundiária que divide o bairro, mas, é bom que se diga, o Cabo não está no centro dela. Os olhos se voltam para o ied , acusado de se instalar ali sem avaliar impactos sobre trânsito, segurança e rede de esgoto. A associação de moradores encheu as ruas de cartazes bradando "ied não". A obra, cujo custo total se estima em 17 milhões de reais, está no fim da primeira fase. Há algumas semanas, a Câmara de Vereadores decidiu por unanimidade tombar o imóvel, destinando-o ao uso cultural, decisão recebida como um nocaute pela turma do não.

Inspirado pela reação dos habitantes locais, o Cabo decidiu levar seu caso a instâncias extraordinárias. "O prefeito nem me deixa chegar perto", ele diz, mas com Lula acha mais fácil. Já conseguiu até entregar três cartas ao chefe da nação, em diferentes eventos no Rio. "Sempre fiz de um jeito muito discreto", sublinha.

O Cabo pediu que o presidente falasse com os militares para lhe permitirem voltar a morar com a parentela na antiga vila de pescadores. Recebeu três respostas com o timbre do Palácio do Planalto: entendiam seu pleito, mas não havia o que pudessem fazer. A idéia, então, é ser mais chamativo da próxima vez que Lula estiver na cidade. "Vou beijar o pé dele para vocês da imprensa tirarem foto", avisa. "Aí eu quero ver."

28.5.09

Chita, o imortal

O macaco do Tarzã ataca outra vez

(ilustração de Andrés Sandoval; publicado na piauí 32)

No dia 9 de abril, ao sentar-se à mesa do jantar, o macaco Chita se animou com o bolo coberto com marshmallow e chantilly. Era dietético, para diabéticos como Chita. Percebeu, em seguida, que não estava só. Na pequena sala branca, decorada por telas abstratas de sua autoria, havia mais de vinte pessoas - entre elas, repórteres de tevês americanas e alemãs. Chita não ligou para a tropa, assim como não deu muita bola para o cone colorido de papelão que vestia na cabeça. Chita estava acostumado a essas coisas. Com certa nonchalance, tascou uma dentada no doce, e o bote foi registrado instantaneamente por um sem-número de flashes. Era seu aniversário. O 77º.

Enquanto tratadores, cinéfilos e talvez até os chimpanzés do mundo celebravam esse feito de longevidade, o jornalista Richard Dean Rosen lamentava mais um ano de ilusões coletivas na história do cinema: "As pessoas precisam de ídolos. Eu mesmo ignorei, por um tempo, os indícios de que não havia um Chita original." Contratado em 2007 para escrever a biografia do primata, Rosen quase enterrou o mito. Antes de suas pesquisas, rezava a lenda que, em 1932, nos cafundós da África, Chita fora separado da mãe. Ainda bebê, migrara da Libéria com seu futuro tratador, Tony Gentry. Chegara aos Estados Unidos a bordo da Pan Am, companhia aérea à qual Chita teria sobrevivido com décadas de vantagem.

Aos 5 anos, já acostumado ao clima seco e temperado de Hollywood, Chita, que ainda se chamava Jiggs, teve sua grande oportunidade na terra do cinema: o convite para atuar num filme de Tarzã, ao lado do ex-campeão de natação Johnny Weissmuller. Como tantos atores que fazem sucesso em seu primeiro papel, Jiggs mudou de nome e passou a ser tratado de Chita. Era uma época de ouro para os primatas de Hollywood, que gozaram de prestígio até o final dos anos 40. Passados os anos, e descrente do futuro de Tarzã, Weissmuller abandonou a carreira de Rei das Selvas e foi vender piscinas pelo país adentro. A Chita restou o ostracismo que enxota dos estúdios os chimpanzés com mais de 10 anos, quando se tornam adultos, mal-humorados e perigosamente mais fortes do que os humanos com que contracenam, sejam eles Tarzã ou não. Passou a viver exclusivamente da caridade de Tony Gentry - que, ao adoecer, em 1990, passou sua guarda ao sobrinho Dan Westfall, também amestrador de Hollywood.

Na casa nova em Palm Springs, Califórnia, Chita e Westfall se deram bem. O novo agente diagnosticou seu diabetes, tratado, até hoje, com duas injeções diárias de insulina. Mudou-lhe a dieta, retirando a cerveja, o chocolate e os ovos com bacon que lhe serviram de combustível na ascensão ao estrelato e na conversão em americano da gema. E investiu na fama pregressa de Chita. Primeiro, erigiu uma estátua de bronze do macaco em seu jardim. Depois, transformou a casa em museu de ex-estrelas, batizada com a sigla CHEETA, juntando o nome artístico do chimpanzé - que por lá se escreve com "ee" em vez de "i" - com a razão social de sua empresa, a Creative Habitats and Enrichment for Endangered & Threatened Apes. Ou seja, "Habitats Criativos e Enriquecedores para Primatas Ameaçados & em Perigo".

Investiu, também, numa segunda carreira para o macaco. Chita é hoje um pintor de relativo sucesso no mercado de arte internacional, com cerca de mil obras espalhadas pelo mundo. "Umas 15 no Brasil", Westfall afirma. São quadros abstratos, algo simples e meio parecidos entre si, como convém à obra de um artista que encontrou seu espaço entre colecionadores e não pode sair por aí, inventando coisas que só servem para confundir os marchands. Oficialmente, a obra de Chita não é vendida. Mas o tratador aceita doações para a causa dos primatas criativos ameaçados ou em perigo. Cada tela sai em média por 200 dólares.

Sempre atento às brechas mercadológicas, em 2001 Westfall conseguiu que Chita, aos 69 anos, fosse reconhecido como o macaco mais longevo do mundo pelo Livro dos Recordes. E não foi só. Sendo um poço de idéias, certo dia, diante de uma livraria, Westfall teve outra inspiração. Se Arnold Schwarzenegger, Monica Lewinsky e Paris Hilton tinham suas próprias biografias, por que o seu primata não mereceria essa honra? Apostou numa autobiografia, escrita por ghost-writer, mas assinada por Chita. E convidou para a parceria literária com o macaco o jornalista nova-iorquino Richard Dean Rosen.

Rosen é um primata investigativo do gênero repórter. Bastou-lhe um mês de convivência com o tema para se intrigar com um detalhe do currículo de seu biografado. O primeiro vôo transatlântico havia ocorrido em 1927, no bimotor de Charles Lindbergh. "Me perguntei: será que em 1932, ano em que Chita chegara aos Estados Unidos, já havia vôos comerciais entre os dois continentes?" Rosen verificou. Os vôos tinham começado em 1939. Sete anos depois da decolagem de Chita para a fama.

E como explicar que o animal tenha aparecido jovem e garboso em Tarzã, o Homem Macaco, nos anos 30, e ainda em plena forma para contracenar com o ator Rex Harrison em O Fabuloso Doutor Dolittle, nos anos 60? Rosen investigou duas hipóteses - ou o chimpanzé mentia a idade descaradamente ou era um fenômeno de longevidade, mas não um grande ator aposentado. Armado com uma fotografia do perfil de Chita, que o identificava de maneira conclusiva pelas dobras da orelha, passou "horas, dias, semanas" procurando a estrela primata nos velhos filmes que tinham macacos no elenco. "Se ao menos eu conseguisse provar que o meu Chita participou de algum filme, um só já bastava..." Não conseguiu. A história do cinema não registrava um único fotograma com o seu Chita. Era preciso dizer o impensável: este Chita era um embuste.

Rosen marcou entrevistas com velhos amigos de Tony Gentry, o inventor do macaco e da história. "Eles chegaram a rir de mim. Não era segredo que Gentry às vezes aumentava as histórias." Concluiu que aúnica coisa que ligava Chita às estrelas de cinema era a idade indeterminada. O macaco poderia ter 74, 62, 61 ou, mais provavelmente, 49 anos - o que é uma complicação insolúvel para quem está às voltas com a biografia autorizada de uma lenda viva. Deu a triste notícia a Westfall que, inconsolável, desistiu do livro. Rosen acabou dono de "uma sacola de verdades que não interessa a ninguém". Muito menos a Chita, que não pensa haver vida sem bolo em festa de aniversário.

10.12.08

O renascentista de Miraflores

O nariz de Fidel é um problema



(Publicada originalmente na Piauí 27)

O venezuelano Armando Julio Reverón foi um dos principais pintores modernistas de sua época. Seu compatriota Jesús-Rafael Soto, falecido em 2005, ficou notório pelo legado de obras cinéticas. O caraquenho Carlos Cruz-Diez já teve suas peças expostas no MoMA, na Tate Modern e no Centre Georges Pompidou, três templos da arte contemporânea. É considerado hoje um dos maiores artistas plásticos vivos da América Latina.

Mas o quadro mais caro a ir a leilão na Venezuela não foi assinado por nenhum deles, e sim por um diletante, famoso por outras façanhas que não as pictóricas: Hugo Rafael Chávez Frias, apresentador televisivo de verve, cantor bissexto, militar condecorado e presidente em tempo integral da República Bolivariana.

La Luna de Yare foi vendida em setembro a três empresários venezuelanos. Os 550 mil bolívares fortes (cerca de 480 mil reais) desembolsados caíram direto nos cofres do Partido Socialista Unido da Venezuela, empenhado em mais uma campanha. As eleições regionais - que muitos encaram como um novo plebiscito sobre Chávez - ocorreram na segunda quinzena de novembro.

A tela, de 50 centímetros de base por 60 de altura, fez parte do jogo político desde sua criação: foi pintada em 1993, enquanto Chávez esteve preso na Penitenciária de Yare, após um fracassado golpe contra o presidente Carlos Andrés Pérez. Reproduzindo a paisagem gradeada vista de sua cela, o artista pintou um céu negro, uma lua alaranjada, uma guarita de vigilância e dois postes acesos, cada um com sua nuvem de cupins. Embaixo da janela, colocou uma frase do filósofo grego Sexto Empírico, não se sabe se rabiscada na parede original ou se acrescentada apenas na tela: "O moinho dos deuses... mói lento!" A frase está pela metade, parecendo manifestar pouco mais que tédio. O verdadeiro sentido vem à tona quando se conhece a outra parte: "Mas mói muito fino." É a perfeita expressão de um homem que sabia ter perdido a batalha, mas não a guerra.

Quando a notícia do leilão se espalhou, a intelligentsia local se retorceu em cólicas estéticas. "Não exibiria o quadro no meu museu porque só exponho obras criadas por artistas. E para a minha coleção pessoal não quero isso nem se me for dado", disse um iracundo Ali Cordero Casal, presidente do prestigioso Museo de Arte Acarigua-Araure. Noves fora as ressalvas às grades ("nota-se certo esforço", ajuizou mais de um), a maioria fez coro com o artista Ricardo Benaim, que cunhou o termo "cagante" especialmente para descrever a obra. "Chávez é nosso melhor artista conceitual. Se em vez da presidência se dedicasse a fazer performances do que é ser um chefe de Estado, seria convidado para todas as mostras." Pela pintura? "Pagaria trinta contos." Parecia não haver mais caldo a entornar quando o maior crítico de arte do país, Perán Erminy, levantou suspeitas sobre a autoria da obra. Por pior que fosse o quadro, disse, ainda era muito melhor que tudo já feito pelo suposto autor: "Não corresponde em nada à maneira dele pintar. As grades, por exemplo, estão bem feitas, em linha reta, espaçadas com regularidade. Tudo que Chávez desenha fica torto. É uma coisa quase patológica."

Erminy fala com propriedade. Foi o primeiro - e até onde se sabe, único - curador a montar uma exposição do Chávez pintor, no Museo Salvador Valero, quando ele ainda estava preso. "Eu preparava uma coletiva de artistas populares quando seu pai apareceu com três quadros. Pedi mais alguns para fazer uma individual - me pareceu curioso que um militar golpista tivesse pendores artísticos." Hoje, justifica sua escolha com o seguinte argumento estético: "A qualidade era muito baixa. Tão baixa que chegava a ser interessante."

Mas, se não foi Chávez, quem, então, cometeu La Luna de Yare?

O nome salta da língua de Erminy com a rapidez da certeza: Efraín "Chepín" Lopez, pintor militar de 72 anos especializado em cenas históricas. Segundo o crítico, quando Chávez foi eleito e mudou-se para o Palácio Miraflores, encontrou-o pintando telas oficiais num pequeno estúdio. Com o tempo, Chepín teria se tornado seu amigo e preceptor. "Ele se impacientava porque Chávez não seguia suas instruções, e acabava pedindo os quadros para terminá-los. Contente de ver suas obras aperfeiçoadas, Chávez contribuía com sua assinatura." Erminy diz que o guerrilheiro que expôs no começo dos anos 90 seria incapaz de manejar luz e profundidade da maneira que se vê na tela.

Chepín tem uma versão diferente. "Conheci Chávez há 33 anos, na Escola de Infantaria e Blindados, onde nasceu nossa grande amizade. Às vezes, fazíamos juntos murais em quartéis e coisas assim. Nessa época ele estava iniciando sua formação histórica, filosófica, moral e espiritual. É um ser especial, um coração bondoso." Sim, mas e o quadro? "Pois é, houve esse crítico que disse que La Luna de Yare seria minha. Não, nunca. Isso é sagrado. O que faço para o presidente é limpar seus pincéis, deixar tudo arrumado no estúdio e dar alguns conselhos." Ele cita um exemplo: "Outro dia, Chávez me acordou no meio da noite para pedir ajuda com um retrato que está pintando de Fidel. Está tendo problemas com o nariz." Chepín garante que, desde as primeiras aulas, o exguerrilheiro tem todas as ferramentas para fazer um quadro nos moldes de La Luna. "As linhas, os círculos, os triângulos, tudo, tudo, tudo."

Influências e estilo do mandatário são outro tema controverso. "É um pintor quase autodidata, popular. Muito espontâneo. Lê muito, muitos livros de pintura, de arte, mas faz sua própria pintura, uma pintura cheia de poesia. Ele é um poeta ingênuo, de muita pureza", afirma Chepín. O crítico de arte Erminy tem opinião mais cética: "Influências? Não sei se existe alguma", contesta. "Não é como se ele quisesse fazer algo expressionista ou distorcido. Sai assim involuntariamente. A única coisa que consigo imaginar como influência de Chávez são uns calendários com fotos de chalezinhos suíços muito populares nos vilarejos do interior. Os oito ou nove óleos da mostra que organizei mostravam esse tipo de paisagem."

Vitupérios ditos e desmentidos expostos, parecia que a polêmica seria tão renhida quanto curta. Foi quando se soube que o preço recorde sequer havia sido pago por um trabalho original: o que estava dentro da moldura vendida aos três empresários era uma cópia fotográfica. Segundo Erminy, "dessas feitas com máquina xérox colorida". E sequer era a primeira cópia, dada há um ano para o líder cubano Fidel Castro (é razoável supor que ainda adorne seus aposentos em Havana).

A tela original, feita por quem quer que seja, fora vendida dez anos antes ao petro-empresário venezuelano Rafael Tudela, pelo equivalente a 2 mil reais, num leilão para financiar a campanha da primeira eleição de Chávez. A se tomar pelo valor atingido uma década depois, o quadro valorizou 240 vezes, ou 12 000%. Em tempos de nova instabilidade petrolífera, a Venezuela já tem sua salvação.

8.12.08

O homem elefante

Elefante que se preza ouve Bob Dylan



(Publicada originalmente na Piauí 27)

À meia-noite de 23 de setembro, uma elefanta chamada Hildra fugiu do Gran Circo Unión, nos arredores da Cidade do México. Tudo aconteceu muito rápido: junto com dois outros paquidermes, ela havia sido liberada para tomar água; na volta, um gato preto passou-lhe entre as patas. Assustada, Hildra se descontrolou, arrebentou um portão de metal e ganhou a rodovia México-Pachuca. Correu por alguns quilômetros até alcançar a via expressa que levava a Teotihuacán. Ao atravessar na contramão a cancela número três do pedágio, viu crescerem os faróis do ônibus conduzido por Tomás López Durán. O veículo se chocou contra as 4 toneladas e meia do animal, encerrando ali a história de ambos.

Uma hora e meia depois, apitou um alerta no computador de Dan Koehl, em Estocolmo. Aos 49 anos, ele comanda de um laptop em sua cozinha o site www.elephant.se, maior base de dados sobre elefantes no mundo. Através de uma comunidade chamada Elephant Gossip [Fofoca de Elefante], Koehl recebe dicas de quase trinta informantes regulares - estudiosos e tratadores dos Estados Unidos, Sri Lanka, Tailândia e da Europa. Foi assim que, pouco tempo após a publicação do óbito por uma agência de notícias, Koehl já acrescera ao fato as informações de que Hildra nascera numa selva da Índia, 45 anos antes, e que, provavelmente, fora comprada de algum circo americano. br /> br /> O site, com poucas imagens, tem um design tão delicado quanto a pele de um paquiderme. Não rende um centavo, mas é atualizado cerca de vinte vezes por semana. É nele que Koehl monitora os mais de 4 mil elefantes de 98 países dos quais tem conhecimento, noticiando nascimentos (como o de Samudra, nos Estados Unidos), óbitos (Suwako, no Japão), transferências (Raisa, enviada do Rio de Janeiro para Sorocaba), tramitação de leis (nova reserva para os animais na Índia) e ameaças (60 elefantes selvagens mortos no Sri Lanka em 2008). Além disso, o site ainda conta com tratados históricos, estudos sobre o comportamento da manada e detalhadas instruções relativas à saúde do animal, com dicas que vão do pH ideal da água à forma correta de lhes cortar a unha. É uma Bíblia em tempo real para quem lida ou gosta dos bichos, algo entre o New York Times e a Wikipedia da elefantografia. O responsável pela obra assina seus e-mails como "Dan Koehl, enciclopédia de elefantes".

A paixão zoológica de Koehl surgiu aos 17 anos, quando, numa visita de quatro meses ao Sri Lanka, conheceu os mahouts, homens que dedicam suas vidas ao simpático animal. No retorno à casa, o encanto virou trabalho sério: hoje, além de prestar consultoria a instituições européias, parques zimbabuenses e orfanatos de animais na Tailândia, é ele quem trata a pão-de-ló os três elefantes do rei Carl Gustaf da Suécia. Nesses últimos trinta anos, Koehl passou mais tempo ao lado de elefantes que de homens. Conhece profundamente o comportamento do bicho, segundo ele, de inteligência comparável à de cetáceos (baleias, botos e golfinhos) e grandes primatas (chipanzés, bonobos, orangotangos, gorilas e humanos - mas não todos). "Na verdade, a variação dentro desses grupos é maior que a variação entre esses grupos, o que equivale a dizer que um elefante brilhante pode ser muito mais inteligente que uma pessoa burra", ensina. Uma prova rápida é dada quando Koehl pede a seus pupilos que trombeteiem. "Sawadee!", vocifera, a que Sao Noi (Menininha) e Kuo (Flor de lótus) prontamente respondem, soando como dez Miles Davis sem partitura. Saudar na língua-mãe - os dois foram um presente do governo tailandês, em cuja língua sawadee é algo como "e aí?" - é um sinal de deferência de Koehl, já que a maior parte da comunicação entre humanos e elefantes se dá num dialeto que mistura o cingalês, o alemão e o inglês, fruto do último século e meio de relações entre as duas espécies. O Ceilão, hoje Sri Lanka, foi um dos lugares onde o alemão Carl Hagenbeck, o maior mercador de animais selvagens do século XIX, capturou mais exemplares para seu plantel. O que o alemão foi para o tráfico, o americano P. T. Barnum foi para o circo, explicando a porção anglófona do léxico elefantino. Koehl diz, contudo, que o dialeto é flexível feito tromba. "Eles aprendem comandos e línguas rapidamente."

Avesso ao ambientalismo politicamente correto, o tratador desdenha do discurso anticirco de grupos de defesa dos animais, lamentando que alguns estados no Brasil tenham proibido os paquidermes em espetáculos. "As pessoas não sabem que, em certas partes da Ásia, elefantes são animais tão domésticos quanto cães e cavalos. Para mim, o ideal seria que espécimes fora da natureza dividissem seu tempo entre zoológicos e circos onde fossem bem tratados. Só zoológico os deixa deprimidos, reumáticos, flácidos. Já o circo é um bom workout, e incita o contato com humanos. Precisam das duas coisas."

Para ilustrar, ele cita o caso do terceiro elefante real - Saba, uma quarentona vinda do zoológico de Dompierre-sur-Besbre, na França. "Lá, ela vivia com outra elefanta em regime de separação absoluta dos humanos, sendo alimentada e lavada através de uma grade. Mas o caso é que Saba não tem a menor paciência para elefantes e adora gente. Resultado: estava entediadíssima quando chegou." Koehl diz que nos bosques de sua majestade, a amiga tem espaço para passear e interagir com animais de outras espécies. Garante, inclusive, que ela gosta de música, com especial predileção pelo pop americano dos anos 60. "Como eu sei? Bom, se um bicho de 4 toneladas sai de onde está e pára do meu lado balançando a tromba quando eu canto Wooden Heart, do Elvis, ou Tomorrow Is a Long Time, do Bob Dylan, acho que é porque está se divertindo. Herbívoros encaram o silêncio como sinal de que há predadores por perto, sabe?" Para que nenhum elefante em cativeiro tenha que lidar com o angustiante ruído da solidão, Koehl tem empenhado grande parte do seu tempo nos últimos meses em um projeto de âmbito global: uma rede telefônica sem fronteiras, conectando animais de diferentes zoológicos. Ele explica que elefantes usam infra-sons para se comunicarem a grandes distâncias na natureza. O ruído dá conta de quem está falando, inclusive. "Por isso pensei: e se instalarmos microfones e alto-falantes em dois lugares diferentes para que eles se comuniquem? Veja o caso da Saba: ela está muito bem aqui, mas soube que a elefanta que ficou para trás andava triste, pensativa. Imagine: você vive com alguém por anos e de repente essa pessoa desaparece. Não seria genial que elas pudessem se falar de novo, dizer 'está tudo em ordem, pode ficar tranqüila' e tocar a vida adiante?"

O projeto experimental começa este mês com os elefantes do Zoológico de Colônia, na Alemanha. Para evitar qualquer desentendimento na conversa - a despeito do poliglotismo dos bichos -, Koehl preferiu que todos os elefantes nessa fase inicial fossem de origem asiática.

13.10.08

Pou!



Nem só de linho e seda vive o mundo da moda

(Publicada originalmente na Piauí 25)

Miguel Caballero já deu mais de 200 tiros em clientes e colabo-radores, quase sempre aos sábados, para não incomodar a vizinhança de Polanco, bairro chique da Cidade do México. É algo que o colombiano atarracado de 40 anos faz com certa naturalidade. Pega o seu trezoitão, carrega-o, encosta o cano niquelado e frio à altura da barriga da vítima, avisa que vai disparar quando disser "três" e puxa o gatilho lá pelo dois e meio. Muitas vezes, registra a cena em vídeo - são os próprios baleados que pedem. Com anos de prática, ele diz haver uma beleza na expressão da vítima após o disparo: uma cara que mistura doses iguais de "Será que morri?" com "Isso é um milagre". Caballero é talvez o mais refinado - e confiável - alfaiate de roupas blindadas do México.

Há muitas fábricas de colete à prova de bala, mas poucas que conjuguem elegância com a capacidade de parar um tirambaço. Como a blindagem de aramida é flexível, Caballero faz questão de dar ao cliente uma prova de que a indumentária funciona. Uma prova de fogo. "Mas não basta chegar aqui, sacar um maço de 4 mil dólares e dizer: 'Quero levar esse casaco nível três.' Não é assim que trabalhamos", ensina o alfaiate. Cada cliente tem o passado checado numa lista de procurados do país de origem e em outra do FBI. Só aí pode tomar o tiro em paz. As roupas são vendidas em três tipos de blindagem, que pesam de 1 a 3 quilos. A mais leve evita tiros de 38 e 9 milímetros, pistolas usadas pela Polícia Militar do Rio de Janeiro. A proteção mediana é eficaz contra a Mini-Uzi, que caiu no gosto dos traficantes. E a roupa mais pesada resiste até a submetralhadora HK MP5, usada pelo Bope. Seria a indumentária ideal para o verão carioca?

"Dá uma sensação de poder, não dá?", pergunta ele enquanto o interlocutor se recupera do peteleco calibre 38 na barriga e do susto que imediatamente põe o corpo em estado de alerta. Não há um hematoma para contar a história, apenas uma sensação de calor, que logo se dissipa. "Isso que você está sentindo é apenas adrenalina", explica. Nossas primeiras jaquetas eram muito quentes, mas aprendemos a revesti-las com um forro que equilibra a temperatura. Não queremos que nossos clientes morram de tiro, e nem de calor."

Caballero ingressou na haute couture defensiva há dezesseis anos, época em que a taxa de seqüestro estava em alta na Colômbia. A idéia lhe surgira um pouco antes, quando era estudante de administração na Universidade dos Andes. Atento, reparara que seus colegas mais abastados preferiam ser escoltados a andar de colete, para evitar o desconforto (e a má aparência) em público. Teve um estalo: o que faltava não era blindagem. Era requinte.

Com a fábrica funcionando, o nome do alfaiate virou um must nas rodas sociais: uma jaqueta assinada por Caballero passou a ser peça obrigatória no guarda-roupa da elite antenada. E continuaria sendo caso Álvaro Uribe não tivesse sido eleito à presidência em 2002, impondo uma política linha-dura que acabou por diminuir a criminalidade. Com o nicho de mercado minguando, restou a opção de costurar para fora.

Da Colômbia, a Miguel Caballero Ltda., que se autodenomina especialista em "high security fashion", ganhou o mundo. Hoje, a grife tem filiais em sete países da América Latina. Do outro lado do oceano, África do Sul, Espanha, Itália, Áustria, Ucrânia e Reino Unido. Em Londres, o público-alvo (ou simplesmente "alvo") não é formado de ingleses, mas da nova safra de milionários russos e árabes, que marcam hora num discreto escritório da cadeia de lojas Harrods. No último ano, a empresa de Caballero faturou 9 milhões de dólares.

Como o alfaiate está onde o crime está, a atual menina dos seus olhos é mesmo a loja da Cidade do México, bem integrada a uma vizinhança de Diesel, Gucci, Prada, Hugo Boss e outras grifes do prêt-à-porter. Ainda que em números absolutos a criminalidade não tenha aumentado tanto para a população mais rica - gangues de traficantes têm mantido suas escaramuças nas periferias -, a percepção de insegurança vem batendo recordes a cada mês, e os seqüestros estão outra vez em alta. Caballero tem vendido roupa como pan caliente.

Por ora, ele investe nos desenhos tradicionais. A linha Black Collection traz camisas pólo, capas de chuva e jaquetas de couro com corte italiano. Já a linha Gold, menos sofisticada, reúne guayaberas, sobretudos e jaquetas de camurça. O plano para o futuro é abrir uma linha jovem, seguindo as últimas tendências da moda hip-hop. "Você tem idéia de quantos rappers comprariam?", pergunta. Hoje, a maior parte da clientela é formada por empresários e funcionários do governo. Há prefeitos, deputados, senadores, governadores e também presidentes na lista. Caballero se esquiva do assunto, comentando que certa vez "gente do palácio" veio reclamar que a informação vazou para a imprensa. Ainda assim, o recorte do jornal La Crónica de Hoy, criticando o presidente mexicano e seu ministério, continua orgulhosamente pendurado na parede: "Não nos protegem e ainda se blindam", diz a manchete.

Mais ao lado, estão as fotos dos poucos clientes oficiais: o presidente Álvaro Uribe, alguns prefeitos colombianos notórios no combate à violência, o príncipe Felipe, de Astúrias, o casal real da Jordânia e o ator anglo-esquimó Steven Segal. Na maioria das imagens, Caballero aparece ao lado deles. A lista, contudo, é maior, tirada a saca-rolhas do Armani da blindagem: o presidente -bonitão Rafael Correa, do Equador, tem um ou dois ternos; e sabe aquelas guayaberas vermelhas de manga comprida que o venezuelano Hugo Chávez usa de vez em quando? Pois é.

Num cabide próximo repousa outra guayabera, essa branca, muito similar à usada por Lula quando adota o estilo cucaracha. Corre o boato de que ela teria sido presenteada pelo hermano Chávez. O alfaiate desconversa, enrubesce, diz preferir tomar um tiro sem colete a confirmar a informação. Oferece um café, uma mudança de assunto e adianta que gostaria de abrir uma loja no Brasil, se não fosse pela burocracia excessiva do país.

Fiel à grife, Caballero não sai à rua sem sua jaqueta paramentada, capaz de parar sem problema um balaço de Colt 44. Medo de seqüestro, diz. Então ficou rico com os coletes à prova de balas? A seu lado, um assistente argentino ensaia um riso, e em seguida emudece, talvez lembrando que o homem à sua direita lhe deu um tiro quando decidiu contratá-lo.

10.10.08

Versões e mortes



Há quarenta e um anos, nesse mesmo dia, o cadáver de Che Guevara, morto na véspera, era mostrado para o mundo na lavanderia do Hospital Nuestro Senhor de Malta, na pequena cidade de Vallegrande, entre a planície e o altiplano boliviano. Hoje, como se vê acima, a lavanderia está coberta de rabiscos em homenagem ao homem mais famoso que já se deitou ali.

Há treze meses – antes, portanto, que todo mundo publicasse algo a respeito – a piauí publicou um texto meu sobre a morte de Che e os homens que a levaram a cabo. Um mês depois, já durante a febre, a revista Gatopardo, do México, publicou outra reportagem minha sobre o mesmo assunto.

São textos radicalmente diferentes entre si e também radicalmente diferentes das edições brutas que mandei a eles. Apenas para levar em conta o tamanho, o publicado pela Gatopardo é o menor de todos, seguido pelo publicado pela piauí; o bruto entregue à piauí é 50% maior que o publicado, e o bruto entregue à Gatopardo é de longe o maior: teve de ser cortado à metade para acolher as muitas fotos e caber na grade da revista.

O corte faz parte do jogo jornalístico e sem dúvida foram edições extremamente bem executadas pelos editores. Guardo com carinho até hoje todas as versões rabiscadas por Mario Sergio Conti e Dorrit Harazim, da piauí, atentos aos menores detalhes de todas as histórias tratadas no texto. As vinte e tantas páginas da minha versão definitiva da reportagem ocupariam, pelos meus cálculos, metade de uma piauí, o que é inteiramente ridículo. Isso sem mencionar que as pautas devem caber também na cabeça dos editores e eles, obviamente, não estão tão mobilizados pelo assunto quanto o repórter que, nesse caso, passou três anos e meio, ainda que sem saber, investigando a pauta. Quem era mesmo aquele mestre que dizia que o bom escritor escreve com a outra ponta do lápiz, a da borracha?

Aqui no blog, contudo, eu sou o editor e temos espaço à vontade. Portanto, acho mais do que saudável e – perdoem-me o desperdício de bits – interessante comparar todas. Então aqui está a última versão enviada para a piauí e a última versão enviada para a Gatopardo.

Quais são as maiores diferenças? Na piauí a matéria se move entre dois tempos: a época da morte e hoje. Meio de molecagem, deixei o que era mais antigo com verbos no presente e as coisas mais recentes no passado. A piauí foi mais responsável e me pediu que mudasse isso. O resultado é bom, mas para mim a conformação anterior é melhor – ainda que, no caminho, muitos erros, confusões e faltas de clareza tenham sido eliminados pela edição, melhorando bastante a reportagem. O ideal seria mesclar as duas edições.

No caso da Gatopardo, os cortes foram extensíssimos e algo da estrutura mudou com isso. Narro, por exemplo, o atentado perpetrado contra o homem que capturou Che, Gary Prado, em três partes. Entre elas, outros assuntos. Gera um certo suspense. Isso se perdeu na matéria final, embora ela tenha ficado muito – muito – mais ágil.

Uma coisa que as matérias da piauí quase não têm e as da Gatopardo têm é a discussão sobre quem mandou matar Che. É, como esse post, um jogo de versões. No bruto da Gatopardo há muito sobre isso e é quase definitivo sobre o provisório que se sabe hoje. Para quem tem interesse, é a fonte.

Por último, fotografar a matéria foi um desafio. Foi a primeira vez que realmente tive que pensar em como seriam as fotos de algo que ainda escreveria. Alguma coisa foi feita com material de arquivo (parte dele pesquisado por mim, inclusive), mas precisávamos de fotos atuais. Busquei refletir nelas um certo temor ou incômodo dos personagens em tratar do assunto. Abaixo seguem três delas. Na ordem, com patentes da época: Major Miguel Ayoroa, Comandante Gary Prado e um soldado raso que preferiu manter anonimato.





19.9.08

Vai uma balinha aí?











Qual será o final dessa explosiva reportagem? Leia na piauí de outubro!

12.9.08

Pauta



– Então queria, basicamente, saber da possibilidade de uma entrevista com o senhor.
– Sí, claro, no hay problema.
– A que horas pode ser?
– Hm... como a las dos de la tarde está bien? Hay que ser hoy o mañana. Después vuelvo a Bogotá.
– Então tudo bem. Às duas estou aí.
– Perfecto. (Tapa o bocal do telefone e pergunta para uma pessoa a seu lado). ¿Está listo el revólver? Es que viene un reportero... ¿Sí? (De volta para mim) Bueno, okay, señor Douglas. A las dos le esperamos.

1.9.08

Claque! Ziruiiiiir!

Na Lapa, a lenta agonia da fotografia vapt-vupt tem data para terminar


Teste de cor da Polaroid, © Gliesh

(publicada na Piauí)


Com gestos mais elegantes que as circunstâncias lhe permitem, Sérgio Silveira dobra o corpo até nivelar a câmera com a freguesia, que se arruma à sua frente para caber no enquadramento. Por trás do visor, ele eriça a sobrancelha esquerda, aperta o botão do disparador e – claque! – desperdiça a primeira fotografia.

O “claque” comanda as próximas cenas. Sua máquina não faz “clique”. É uma Polaroid – grande, ruidosa, cada vez mais parecida com as câmeras de fole que andavam em voga em 1939, quando ela inaugurou a fotografia instantânea. Os fregueses conferem o resultado na hora, assim que a imagem se revela no retângulo de papel desbotado pelo excesso de luz. Como o flash os lavou, os fregueses parecem almas penadas, assombrando a noite carioca num restaurante da Lapa.

Silveira não espera que eles peçam. Oferece outra fotografia, de graça. Mexe nos controles da engenhoca e – claque! – a mágica, dessa vez, dá certo. “Ziruiiiiir”, diz a Polaroid, expelindo a foto. Os clientes examinam, aprovam, ele recebe os 15 reais pelo serviço, insere num envelope a segunda tentativa, dá baixa da primeira com uma anotação breve – “uma superexposição” – e sai pelo salão, em busca de outros interessados em experimentar a última palavra em obsolescência tecnológica.

Silveira, na Lapa, é o Gaúcho. Como a Polaroid, ele foi desenhado em outra época. Usa o cabelo grisalho para trás, com fixador, e bigode aparado com rigor geométrico. Veste calça bege, camisa branca, blazer preto e gravata borboleta. Não ficaria desambientado numa galeria de presidentes latino-americanos dos anos 30 ou 40 do século passado. Ele sabe disso. “Olhe para mim: com este terno, minha câmera e essa gravata, eu sou uma vitrine”, comenta.

Em seu estilo, tudo tem uma explicação: “Sem gravata, sou um qualquer, ninguém me deixaria entrar para vender minhas fotos. Com uma gravata comum, sou um cliente comum. Por isso, tem que ser a borboleta. E bordô, para não me confundirem com um garçom.” Correndo atrás de trabalho, desde que saiu do Rio Grande do Sul, Silveira já morou em Santos, São Paulo e Brasília. Tentou o interior do Paraná, antes de se fixar de vez no Rio de Janeiro. Fez um pouco de tudo. Vendeu contrabando, foi chefe de pessoal numa construtora, defendeu empresas em ações trabalhistas, vendeu clássicos da literatura de porta em porta.

Os clássicos da literatura lhe mudaram a vida. Sua mulher o traiu com um vendedor da equipe e ele a devolveu à mãe. Foi morar então atrás da Central do Brasil, “com um despertador”. Reaprumou-se ao ganhar de presente uma Yashica, cópia japonesa da Rolleiflex, e conhecer um espanhol capaz de consertar no laboratório qualquer erro que ele cometesse com a máquina.

Assim, virou fotógrafo. Ou “homem-vitrine”, de Yashica no pescoço, flash na mão, bateria a tiracolo e uma grande ampliação pendurada nas costas. Passou a eternizar os encontros efêmeros de casais nas mesas boêmias do velho centro carioca. Apesar da gravata bordô e dos olhos esbugalhados, ele é discreto, e passa entre as mesas sem dizer palavra. Limita-se a acenar com a câmera e esperar que um dedo se levante para chamá-lo. Com o tempo, trocou a Yashica pela Rolleiflex legítima, mas ela não o livrou da rotina de tirar a foto, receber um sinal, levar o filme para a revelação e voltar no dia seguinte para entregar a mercadoria e receber o pagamento.

A Polaroid foi uma revolução em sua carreira. Com ela, acabou o vai-e-vem, era claque! ziruiiiiir! Ou seja, vapt-vupt! Com o que ela lhe rendia, bancou os estudos do filho no Colégio Naval e se mudou para uma pensão mais decente. Até que as coisas deixaram de funcionar como antes. Em meados da década de 90, teve problemas de visão. Logo ele, um fotógrafo. Com descolamento de retina, perdeu 100% do olho direito e 40% do esquerdo. Mas aprendeu a fotografar, como ele diz, “de canhota”. Garante que, hoje, enxerga melhor através do visor do que sem ele.

Catástrofe mesmo, a seu ver, foi o advento das câmeras digitais. Pior que elas, só os telefones celulares com câmera, que induzem até os casais menos equipados a esticar o braço nas mesas da Lapa e se fotografar como se estivessem examinando os dentes num espelho de bolso. Supra-sumo da quinta-essência da tecnologia moderna, num vapt-vuptíssimo a Polaroid virou velharia. O que não é brincadeira, para quem andou por tantas décadas nas mãos de profissionais, testando a iluminação dos estúdios, gravando locações no cinema para garantir a continuidade das filmagens ou tornando ainda mais imediata a produção de artistas como Andy Warhol.

Para Silveira, foi um desastre. Ele teve que se especializar, nos últimos anos, em retratar saudosistas, desses que, mesmo em mesas de bares, têm ouvidos para ouvir e entender seu claque! ziruiiiiir! Depois de perder o mercado consumidor, os fornecedores o desertaram. Minada pela popularidade avassaladora das câmeras digitais, a Polaroid Corporation, de Massachussetts, jogou a toalha no ano passado. Silveira recebeu, meses atrás, uma carta avisando que a empresa garantiria o fornecimento de filmes para os donos de suas máquinas até dezembro de 2007 no máximo.

Os fãs da Polaroid tradicional se organizaram e, por meio do site savepolaroid.com, iniciaram uma campanha internacional reivindicando a sobrevivência da máquina. Em vão. As fábricas da Polaroid começaram a fechar nos Estados Unidos, no México e na Holanda. Em seguida, veio a PoGo, a nova impressora da empresa. Portátil, alimentada a bateria, menor que uma caixa de seus antigos filmes, a PoGo imprime em qualquer lugar fotografias tiradas por câmeras digitais e celulares alheios.

Com os pés no chão, Silveira estocou todos os filmes que conseguiu encomendar em São Paulo, no Peru e na Colômbia. Pelas suas contas, tem munição até o fim do ano. E, do próximo réveillon em diante, ainda não decidiu o que fará. A fotografia digital não lhe parece uma alternativa razoável: “Estou com 75 anos. Levei 40 para ser o melhor com uma Polaroid. Se mudar agora, vou levar outros 40. E a essa altura vou estar com 115. Ora, com 115 não vou querer pegar sereno na rua, entende?”

7.7.08

Crimes e castigos

O propósito da fé de leões e pretos velhos




(Publicado originalmente na Piauí 22)


Quando Afonso Henrique Alves Lobato abriu a porta daquele sobrado no Catete, no Rio, e subiu correndo a escada até o 2º andar, esperava encontrar nada menos que um demônio - ou vários -, mas o que encontrou foram apenas imagens de devoção. No centro de um altar estava Jesus Cristo, rodeado por Santa Bárbara, Nossa Senhora da Conceição, São Jorge, São Sebastião e Santo Antônio; no chão, uma grande estátua de São Lázaro. Ou, dependendo da orientação do devoto, Oxalá, Iansã, Oxum, Ogum, Oxóssi, Exu e, no chão, Omulu. Isso e mais diversas imagens menores de Iemanjá (ou Nossa Senhora da Glória), do cacique Cobra Coral (sem correlato na hagiografia cristã) e de pretos e pretas velhas (idem), algumas com quase oitenta anos de vela e reza nas costas.

Afonso Lobato começou a atirar as imagens no chão. Dominique Pereira, sua amiga de fé, completava o serviço, esmigalhando os cacos com os pés. Raimundo Pessoa e Alessandro dos Santos, que demoraram mais para subir a escada, não tiveram tempo de ajudar os companheiros a levar a cabo a obra de Deus. Os santos já eram pó.

A confusão se instalara minutos antes, quando os quatro, freqüentadores da casa evangélica Geração Jesus Cristo, começaram a fazer proselitismo na fila de aflitos que esperava diante do Centro Cruz de Oxalá. Lobato, segundo relatou, disse aos umbando-kardecistas que, ao invocar santos, eles estavam na verdade chamando o demônio. "Maria Mulambo nunca fez nada por eles, o Tranca-Rua não morreu por eles. Jesus morreu na cruz. Falei que eles ainda tinham chance de se salvar, mesmo sendo espíritas. Tudo sem impor nada, sem gritar nada", diria mais tarde.

A destemperança foi deflagrada quando um dos não-salvos inverteu o jogo. Declarou que levaria o nome dos crentes para o terreiro, presumivelmente para que fossem objetos de um trabalho. Lobato não estava para ecumenismos. Com idéias nada cristãs na cabeça, tocou a campainha e, inadvertidamente, alguém lá dentro puxou a cordinha que abre o trinco. Em questão de segundos o andar de cima estava forrado de cabeças de santo e de pretos velhos decapitados. Meia dúzia de senhoras seguravam o espanto entre as mãos.

Depois de bater boca com um senhor que, "além de pai-de-santo, ainda era homossexual", como lembrou Lobato, o grupo quis ganhar a rua. Os quatro desceram a escada estreita, mas a tranca emperrou. Encurralado ao pé da escada, o quarteto só viu a calçada quando a porta foi aberta por fora. Lá estavam vinte umbando-kardecistas furiosos, além de quatro policiais e duas viaturas.

Na delegacia, os jovens não pareciam arrependidos e reagiram estoicamente ao serem enquadrados nos artigos 147 (ameaça), 163 (danos ao patrimônio) e 208 (ultraje a culto) do Código Penal. Enquanto o grupo depunha - "O diabo estava naquela casa!", disseram -, o pastor da congregação, Tupirani Lores, tentou em vão conter a curiosidade dos jornalistas. "Eles não iam fazer isso do nada, são pessoas pacatas e tranqüilas, exemplos na nossa igreja. Fiquei muito surpreso. Não incentivamos esse tipo de atitude. Só vou saber exatamente o que aconteceu no culto de amanhã."

A repercussão foi grande. Jornais populares puseram o caso na manchete principal da primeira página. Apresentadores de televisão franziram o cenho ao abrir telejornais com o assunto. Na Assembléia Legislativa, houve pendenga entre os deputados Átila Nunes, umbandista militante - "Queria ver fazer isso em Bagdá!" -, e Édino Fonseca, pastor da Assembléia de Deus, que contra-atacou em estilo vale-tudo: "Extremos existem também entre os umbandistas, como quando eles fazem sacrifício de crianças."

A comoção e o interesse duraram menos de 24 horas. Já naquela noite, quando o pastor Tupirani assumiu o púlpito da Geração Jesus Cristo, numa rua escura do bairro de Santo Cristo, atrás da Central do Brasil, o caso caminhava rapidamente para longe da pauta jornalística. Ninguém estava lá para ouvir o que ele tinha a dizer sobre o caso.

O pastor é um homem de bom porte, sem um único fio de cabelo fora do lugar. Sua presença cala imediatamente os fiéis. Embalado por um violão elétrico, ele canta a plenos pulmões o hino Nosso General, cujo refrão admoesta com vigor bélico: "O nosso general é Cristo/ Seguimos os seus passos/ Nenhum inimigo nos resistirá!"

Enquanto a música soava, ouviu-se o barulho de um objeto pesado que se chocava contra o telhado. É rotina, ninguém estranha. Tupirani trovejou: "O palhaço já está atirando pedras de novo! Mas atira escondido, porque é covarde. Nós já sabemos que ele é ligado à boca de fumo aí em cima. Se ele nos atira pedras, irmãos, nem faz idéia do tamanho da pedra que o Nosso Senhor Jesus Cristo vai atirar na cabeça dele. Amém?" (O pastor tem o cacoete de usar o amém - "assim seja", em hebraico - na forma interrogativa, como se dissesse: "Certo?")

Depois de imprecar contra o vizinho palhaço, Tupirani passou às leituras bíblicas. Dado o ocorrido, os incautos esperariam um bom Sermão da Montanha ou, quem sabe, a passagem em que se fala sobre oferecer a outra face. Não. O trecho escolhido trouxe o profeta Eliseu na guerra contra os sírios.

Todos os sermões de Tupirani podem ser comprados em CDs, a 1,50 real cada. Um de seus maiores sucessos é Guerra 1 e 2, obra em que pega fogo: "Jesus Cristo não veio a este mundo com bandeira da paz, amém? (Amém!) Jesus Cristo veio a este mundo com sangue. Sangue da guerra! Sim ou não? (Aleluia!) Jesus Cristo não veio a este mundo como pacificador. Não, não. Não veio. Quem é teu Cristo? É um Cristo de paz ou da guerra? Para mim, Jesus Cristo é homem de guerra!" O tom não varia muito ao longo de quase setenta minutos. Lembra um pouco Dick Cheney imprecando contra Sad-dam Hussein.

O pastor já foi da Igreja Universal. Foi também umbandista, espírita, batista e pentecostal. Resolveu abrir sua própria casa em 1999, quando saía do templo onde pregava e, segundo consta, se deparou com um anjo de aspecto abatido que o espreitava com um papel amarelado na mão. Era um mensageiro divino. Tupirani desdobrou o papel e leu nele a palavra "Restauração". Decidiu na hora que fora escolhido para trazer o cristianismo de volta aos trilhos.

Passado o furor iconoclasta contra o Centro Cruz de Oxalá, tanto o pastor como seu discípulo Lobato se mostram serenos. O protagonista do quebra-quebra diz que se arrepende do que fez, embora pouco se importe com a decisão do tribunal dos homens. (Será em agosto a primeira audiência do processo.) Tupirani, por sua vez, reafirma o que disse à imprensa no dia da confusão: não é um agente da intolerância, não instruiu nem incitou Lobato e colegas a fazer o que fizeram. O que não o impediu de proclamar, do alto do púlpito, poucos dias depois do ocorrido: "Como pastor, acredito que esse ministério não forma cordeiros. Esse ministério é para formar leões!" Não propriamente a mais dócil das criaturas, como se sabe.

30.6.08

Mulheres de atos

Às vésperas de completar mil anos com uma população estritamente masculina, quatro moças chegam ilegalmente à península de Santo Atanásio



(Publicada orginalmente na Piauí 22. A versão orgininal, mais extensa e apimentada, pode ser lida aqui)

Pouco depois da separação formal entre a Igreja Católica Romana e a Cristã Ortodoxa, o governo bizantino em Constantinopla determinou, em 1060, que a península - salpicada por diversos mosteiros cristãos - onde se levanta o Monte Atos, na Grécia, fosse livrada de todas as fêmeas, a começar pelas da espécie humana.

A partir daquele ano, os mais de 30 mil hectares daquela terra verdejante foram consagrados à louvação da Virgem Maria. Nenhuma fêmea deveria competir com a mãe de Deus, segundo o decreto do imperador Constantino Monomachos.

Fosse lavadeira ou esposa de pescador, fosse égua, vaca, cadela ou cabra, foram expulsas da península. Como o decreto ainda vige, de feminino, lá, resta apenas a suposta mão direita de Maria Madalena, algumas gatas para conter a população de ratos (de ambos os sexos), passarinhas (por desobedientes) e galinhas (porque a gema de seus ovos é necessária na pintura de ícones - ou seria difícil demais identificar o sexo de cada pinto?).

Foi nesse cenário varonil que desembarcaram, no último sábado de maio, cinco imigrantes ilegais da Moldávia. Eram um homem de 41 anos e quatro mulheres na faixa dos 20. Como a península fica na União Européia, buscavam oportunidades, emprego, direitos.

Em três dias, haviam percorrido 900 quilômetros.

Primeiro, foram por terra até a Ucrânia. Depois, pagaram quatro mil euros a atravessadores que, pelo estreito de Bósforo, os levaram do mar Negro ao de Mármara. Ali, cruzaram o mar Egeu nos Dardanelos e, finalmente, chegaram à península do Atos.

Foram encontrados nos arredores do atracadouro do mosteiro Megisti Laura, o mais antigo e maior dos vinte da península, construído a partir do ano de 958 por Santo Atanásio, o atônita, que morreu octogenário quando um tijolo lhe caiu na cabeça. Eles se esconderam numa praia pedregosa para evitarem denúncias e deixaram para o dia seguinte a decisão do que fazer. Num outro lugar, não seria complicado se misturar à multidão. Não é o caso do Estado Monástico da Montanha Sagrada, designação oficial da península, que é habitada por pouco mais de dois mil monges de longas barbas e batas negras. No dia seguinte, duas das moças foram avistadas por monges, que avisaram o inspetor de polícia da cidade vizinha de Tessalônica, Stergios Apostolidis.

Não era a primeira vez que mulheres entravam no bastião ortodoxo. A península recebeu centenas de refugiados gregos de ambos os sexos quando de uma revolta, em 1770, e novamente meio século depois, durante a guerra de independência. Todas foram expulsas assim que o perigo passou. No século passado, suas praias também foram visitadas por Aliki Diplarakou. Metida num hábito de monge, a Miss Europa 1930 (perdeu nas finais do Miss Universo, realizadas no Rio de Janeiro) passeou discretamente pelos mosteiros sem que ninguém percebesse sua beleza de 18 anos.

Submetidos apenas ao ministério das Relações Exteriores grego, o estado monástico é extremamente cioso de seus costumes e domínios. Monges e governo, em toda a Grécia, vivem às turras, já que a Igreja Ortodoxa é a maior proprietária de terras do país. Os moradores de Skyros, por exemplo, estão em pé de guerra com a congregação do Megisti Laura por conta de um projeto milionário que prevê a implantação de mais de cem ruidosas turbinas de energia eólica na pequena e preservada ilha. Na própria península de Atos, houve escaramuças no início do ano, quando 500 moradores do balneário de Halkidiki, seis deles mulheres, entraram em atrito com a polícia. Numa manifestação, eles alegavam que os monges estariam a empurrar a fronteira da península para dentro de suas terras.

Assim como as guerras, os costumes e o ambientalismo, também a questão migratória chegou para perturbar a rotina de reza e expiação do enclave.

Todos os dias, cerca de 1 400 imigrantes entram ilegalmente na União Européia. Países do Mediterrâneo - Espanha, França, Itália e Grécia, principalmente - são os mais visados. Na outra ponta da equação há nações africanas, asiáticas e do Oriente Médio. Mas também vizinhos europeus com a economia em frangalhos.

Nos anos soviéticos, a Moldávia se tornou uma economia de médio porte, com uma boa produção de alimentos e um razoável distrito industrial, o de Transnistria. O regime sovié-tico começou a ser desmantelado em 1989, e dois anos depois o governo moldávio em Chisinau proclamou independência em relação a Moscou.

Em alguns dias, Transnistria deu vazão a aspirações nacionalistas e se separou da Moldávia, levando com ele todas as indústrias (boa parte produzia rifles Kalashnikov) e suas receitas. Orgulhosamente independente, sem saída para o mar e incapaz sequer de produzir parafusos e dobradiças, a Moldávia se tornou um dos países mais pobres da Europa.

Hoje, seu maior produto de exportação é gente. Homens fortes para consertar banheiros na França e lavrar campos na Bélgica, mulheres bonitas para atender pedidos em bares da Itália, dançar nuas na Espanha e se prostituir na Rússia, Kosovo, China e nos Emirados Árabes.

O grupo que chegou à ilha dos monges está longe de ser uma exceção. Um quarto da população economicamente ativa não mora na Moldávia. A maioria dos que saem é de mulheres - e pelo menos 25% delas deixaram filho para trás. Não é improvável, portanto, que o destino das quatro jovens encontradas em Atos fosse, ainda que não soubessem, um prostíbulo.

Elas estão na "idade de corte", no linguajar das máfias que fazem tráfico de prostitutas. Fazem parte de uma população de aproximadamente 150 mil jovens que organizações humanitárias acompanham, para evitar a prostituição forçada e os abusos físicos e psicológicos.

A Constituição grega traz duas provisões para as mulheres de Atos. A primeira determina que imigrantes ilegais devem ser detidos por quarenta dias, e em seguida deportados para seus países de origem. A segunda diz que mulheres que violarem a segregação do Estado Monástico da Montanha Sagrada serão punidas com até dois anos de detenção. Mas pelo menos desse último pecado, os monges que as encontraram decidiram perdoá-las.

16.6.08

Assassinas!

A Floresta da Tijuca caiu nas mãos de alienígenas



(Publicada originalmente na Piauí 21)

"Olha que tristeza!", diz o ecólogo Rodolfo Cesar Real de Abreu, apontando uma árvore que, para os desavisados, não passaria de uma jaqueira. Por sinal, uma bela, frondosa e inofensiva jaqueira que até daria para chamar de alegre, caso existisse uma classificação botânica para o estado de alma das plantas.

Mas Abreu não deixa por menos. Dá umas pancadinhas no tronco, avalia as frutas, examina a folhagem e, com um travo de melancolia, volta ao ataque: "Eu fico triste de ver isso. Acho que é a mesma sensação de quando o médico descobre um câncer no corpo do paciente." Para ele, não há tanta diferença assim entre um pé de Artocarpus heterophyllus e um daqueles tumores igualmente impronunciáveis que crescem na sombra, ocultam por muito tempo os seus sintomas e só dizem a que vieram depois de atingir proporções letais.

A jaqueira, em seus primeiros tempos, também foi assintomática. É uma imigrante. Veio da Índia com os colonizadores portugueses, que antes de aportar no Brasil se aclimataram aos trópicos na África e na Ásia. Em menos de 200 anos, a árvore indiana estava solidamente enraizada aqui, parecendo brasileira da gema, nascida e criada no clima quente e úmido do litoral baiano. Acabou desembarcando oficialmente no Rio de Janeiro cinco anos antes da família real.

É invasora por natureza. Mas só na virada do milênio virou inimiga, depois que um censo vegetal do Parque Nacional da Tijuca revelou a presença de jaqueirais quase homogêneos na floresta urbana que os cariocas, com certa complacência, chamam de "mata atlântica". Há pontos onde se contam 200 jaqueiras por hectare. É jaqueira à beça, mesmo para os padrões de uma reserva florestal ameaçada de invasão por treze favelas.

Dois engenheiros florestais - Luiz Fernando Lopes e Henrique Guerreiro - deram aos administradores do parque a receita para botar a jaqueira no devido lugar, ou seja: sob a hegemonia das árvores nativas. O remédio que recomendaram parecia simples e discreto. Cortava-se, com um facão, um anel de 15 centímetros de largura ao redor do tronco, secionando os vasos por onde corria a seiva entre as raízes e as folhas; a árvore morreria aos poucos, de inanição, e viraria um toco inerte da maneira mais natural possível, sem a estridência das motosserras. Tudo no melhor figurino do manejo florestal.

Assim foi. Mas, há dois anos, quando o programa já havia anelado mais de 2 mil árvores ainda jovens e extirpado cerca de 42 mil mudas, entraram na briga os defensores das indefesas jaqueiras, denunciando o extermínio como crime ambiental. Não adiantou alegar que a Artocarpus heterophyllus não é nativa. Ela se adaptou tão bem por aqui que, no século XVIII, um botânico a classificou como Artocarpus brasiliensis. "O fato de se encontrar também na Índia não significa que ela não seja brasileira", argumentou Flávia Tavares, artista plástica e defensora intransigente do vegetal imigrante. Na condição de vizinha das jaqueiras na Floresta da Tijuca, Flávia levou o caso a um blog na internet, como tema de debate, e ao Ministério Público, como ação civil pública.

De lá para cá, a febre da indignação popular amainou. O domínio das jaqueiras prossegue, devagar e sempre, e este ano, em seu louvor, já foram arrancadas 4 mil mudas. Mas a refrega de 2006 deixou em Rodolfo de Abreu o ressentimento contra elas, como se um pé de jaca, além de invasor, fosse capaz de fazer intriga contra a boa-fé dos ecologistas. Ele caminha por alguns minutos pela borda do Parque Nacional, no Horto. De repente, pára e comanda: "Agora que você já sabe identificar uma jaqueira, olhe em volta."

Olha-se em volta. Há plantas rasteiras e musgo no chão. Algum lixo também, mas felizmente pouco. O que há ali para achar estranho?

As jaqueiras. Só dá jaqueira. "Se a gente não fizer alguma coisa com essa peste, ela não deixa mais nada nascer", diz Abreu. Não é difícil suspeitar de onde vem tanta jaca. Cada fruta que se esparrama no chão explode em no mínimo 200 caroços. Em média, mais de 70% das sementes germinam, adubadas pela própria fruta em decomposição. A jaqueira é uma eficientíssima máquina de reprodução. Abreu suspeita que as mudas tenham propriedades alelopáticas, ou seja: impedem qualquer outra coisa de vingar.

"Estamos começando a testar a hipótese", comenta o ecólogo Daniel Raíces, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. "O mais provável é que se trate de uma guerra química. Algum componente nas folhas e nas raízes da árvore inibe o crescimento de outras espécies. Já medimos a quantidade de luz solar na base dos troncos de jaqueira e constatamos que ela faz mais sombra que a média das árvores de mesmo porte existentes na mata atlântica." Em suma: "É provável que seja uma combinação de tudo isso."

A jaqueira conta ainda com poderosos aliados na fauna. Não alimenta os pássaros, mas oferece banquetes para vários bichos, inclusive o Callithrix jacchus, um sagüi que veio do Nordeste para conquistar os morros do Rio de Janeiro. Trata-se do popular mico. De bigodes brancos e rabo listrado, parece feito sob encomenda para a vitrine de uma loja de brinquedos. Nem por isso convence a bióloga Helena Bargallo. "Ai, olha aqui essa foto: um mico agarrado numa jaca", diz ela. "Que horror! Esse bicho transmite raiva, toxoplasmose, febre amarela! Está dizimando os ninhos de aves ameaçadas dentro do Parque Nacional!"

Estragos semelhantes podem ser imputados aos macacos-pregos e aos quatis, que proliferam na Floresta da Tijuca como os micos nordestinos. Mas os macacos-pregos e os quatis são nativos. E para Helena Bargallo isso faz toda a diferença. O problema é explicar à opinião pública a conveniência de manejar o sagüi tal como se deve fazer com a jaqueira: matando quantos forem necessários para controlar sua população. "Mas ele é fofinho, peludo, tem um rosto como o nosso e vem pegar comida no batente da janela com o filhotinho agarrado nas costas", ela lamenta.

Ao expor suas idéias, gente como Helena Bargallo e Rodolfo de Abreu enfrenta a desaprovação até de colegas. Sentem-se vítimas de um paradoxo ambiental: para preservar a natureza, advogam a derrubada de jaqueiras e o abate de miquinhos. Não é à toa que, descendo do Horto para a cidade, Abreu não deixa passar em branco o toco na calçada onde alguém pregou um letreiro em favor da salvação do planeta: "Colabore! Deixe nossas árvores viverem!" No resto de madeira, ele reconhece os despojos de uma castanheira-do-maranhão, outra espécie exótica. E fecha questão: "Está vendo só? É duro, cara, é duro."

18.9.07

No ar

Está online a matéria que escrevi para a Piauí sobre os homens que mataram Che Guevara. No site, ela vem com fotos e, para quem tiver preguiça de ler o calhamaço ou morar num engarrafamento em São Paulo, uma versão em áudio.

31.8.07

O morto e o vivo

"Sim, filho, efetivamente sou eu. Eu matei Che Guevara"



(Publicada originalmente na Piauí 12. Aqui e aqui você pode ouvir a matéria)

Che Guevara olhou para cima enquanto um oficial boliviano, agachado a pouco mais de 1 metro, fez aquela que seria sua última foto vivo. Estava sentado no chão de terra, as costas apoiadas na parede de barro da pequena escola de La Higuera, onde era mantido preso desde o dia anterior. O oficial saiu e um sargento, Mario Terán Salazar, entrou. Tinha na mão um fuzil de repetição M-2. Che se pôs de pé. Os dois se olharam e o boliviano hesitou em disparar enquanto ouvia, vindo da saleta ao lado, os tiros que terminaram com a carreira de outro guerrilheiro, Simón Cuba. Terán engatilhou então a arma e disparou uma rajada curta. Oito tiros. Pelo menos três cruzaram os pulmões de Guevara, enchendo-os de sangue, e se alojaram na parede, abrindo nela rombos do tamanho de punhos. O corpo do guerrilheiro bateu na parede e desabou no chão. Fim de uma história.

***

No mesmo instante, a vida do sargento Terán, um cruceño baixinho e arredio, começava a ser marcada pela mesma história.

***

Enquanto espasmos ainda sacudiam o corpo de Guevara, o mesmo oficial das primeiras fotos voltou à escola para mais algumas chapas. Numa, o guerrilheiro aparece com os olhos revirados. Noutra, está estendido de costas no chão e o sangue lhe escorre da boca. Minutos depois, outros soldados aparecem para também tirar fotos. Queriam lembranças. Enquanto isso, Felix Rodríguez, um cubano contratado pela CIA meses antes, transmitia mensagens em código pelo rádio e fotografava, primeiro com uma câmera de microfilme e depois com uma máquina comum, todas as páginas do hoje famoso Diário do Che. Ouviu os disparos e anotou a hora e o local da morte: 1 e 20 da tarde, La Higuera, Bolívia.

Os soldados receberam a ordem de colocar o cadáver sobre uma maca de campanha e amarrá-lo ao esqui do trem de pouso do helicóptero que o levaria a Vallegrande, maior cidade do vale que liga Santa Cruz de la Sierra ao resto da Bolívia. Gary Prado, comandante da operação e responsável pela captura, notou que Che estava com a boca escancarada. Tirou o lenço que levava ao pescoço e amarrou firmemente o queixo do cadáver junto ao crânio.

Naquele momento, Che ainda tinha os olhos fechados. Durante os vinte minutos de vôo, porém, o vento se encarregou de abri-los e, quando o helicóptero tocou a pista de pouso de Vallegrande, os olhos do morto estavam maiores do que em vida.

As notícias da captura daquele que os jornais chamavam de "terrorista argentino-cubano" já circulavam desde o dia anterior. O cadáver foi posto numa caminhonete e levado ao hospital Señor de Malta, a pouco mais de 2 quilômetros. Lá, os soldados passaram direto pelas enfermarias, ambulatórios e salas de operação e deixaram a maca em cima de dois tanques de cimento sombreados por um telhado simples, onde se lavava a roupa. Nos últimos dias, o diretor do Señor de Malta, Moisés Abraham Baptista, e o médico-chefe, José Martínez Casso, haviam recebido outros corpos de guerrilheiros. Sabiam que aquele era diferente, e que provavelmente seria um dos últimos. Martínez se aproximou do cadáver com um bisturi e abriu um pequeno talho no pescoço de Che, para chegar à carótida. Encaixou no furo uma mangueirinha, nela um funil, por onde derramou 2 litros de formol para conservar o cadáver. Um pouco de líquido extravasou. O buraco foi suturado com um par de pontos.
O diretor chamou então a enfermeira Susana Osinaga e dois outros colegas e os incumbiu de lavar o homem: os militares queriam que se reconhecesse no cadáver emaciado o revolucionário que pediu "dois, três, mil Vietnãs". Os três chegaram à lavanderia e se depararam com um estranho de olhos abertos e quase sorriso. Despiram-no do uniforme de campanha imundo, acharam graça das três meias que vestia em cada pé e amontoaram tudo num canto. Susana e seus colegas reviraram o cadáver nu de um lado e outro, tirando com sabão e uma mangueira quase toda a terra e o sangue seco acumulados no peito. Depois de limpo, Che teve as bochechas barbeadas, o cabelo penteado para trás e foi enfiado num pijama azul, novo, do hospital. Havia um contraste entre aquele homem limpo, metido num pijama e com cara de cochilo, e seus dois companheiros mortos na mesma operação. Eles estavam aos pés dos tanques, cobertos de sangue e tinham os ventres inchados de gás. Pareciam o que foram: guerrilheiros mortos em combate, com expressão de fera acuada.

O cadáver de Che passou a noite na lavanderia do hospital, recebendo a visita ocasional de alguns militares curiosos. Soldados bloqueavam a passagem do resto do público. O coronel Andrés Selich, de um regimento local, inspecionou o cenário. Considerou que a maior prova da vitória do exército da Bolívia não poderia aparecer de pijama na imprensa mundial. Por isso, o uniforme imundo, amontoado num canto, foi novamente colocado no cadáver. E para completar o quadro, um estafeta recebeu ordens de trazer uma jaqueta militar que não pertencia a Che. O único detalhe que perturbava a placidez do guerrilheiro morto eram as perfurações de bala no peito, à mostra propositadamente.Che estava pronto para o espetáculo. Que viessem os jornalistas.

A versão oficial, até então, era de que o argentino havia morrido num confronto armado. Dois dias depois, com os testemunhos de dezenas de camponeses de La Higuera que viram Che caminhando por alguns quilômetros até a pequena escola da vila, o governo decidiu anunciar que o argentino morreu devido a ferimentos de combate. A versão circulou por algumas horas, até que todos se deram conta de que ninguém marcha por 2 quilômetros com oito tiros no peito. Após algumas semanas de polêmica e denúncias pela imprensa, o presidente da Bolívia, general René Barrientos, confiante na popularidade da execução, assumiu inteira responsabilidade. A ordem fora sua.

Quando os militares deixaram que a população entrasse e visse o corpo, fotógrafos e cinegrafistas ainda trabalhavam Eles subiam no tanque para, de pé, tendo Che entre as pernas, tirar fotos frontais de seu rosto. Muitos faziam o sinal da cruz, abaixavam a cabeça e rezavam rápido, de forma respeitosa. Algumas mulheres, que eram maioria na fila, aproveitavam-se da distração dos soldados e cortavam tufos de cabelo ensangüentado que guardariam por muito tempo em pequenos envelopes de plástico. Os militares começaram a sentir que algo saiu de seu controle.

A certeza veio horas depois, quando uma comissão de mulheres que diziam representar mais de cem bateu à porta do centro de comando improvisado no cassino próximo à praça principal. Exigiam que o morto, ainda que comunista, recebesse os ritos cristãos e ganhasse cova no cemitério local. Os militares pareceram ceder e providenciaram um caixão que sabiam que não iam usar, além de lençol e flores. Garantiram, também, que Che Guevara seria enterrado no dia seguinte. A portas fechadas, porém, passaram a discutir as conseqüências de um funeral: se as boas mulheres de Vallegrande tratavam assim o ilustre cadáver, quantos comunistas não peregrinariam até sua tumba? A família evidentemente tinha direito ao corpo, mas naquele momento de confronto, negociar com Cuba o envio dos restos mortais parecia fora de propósito. Afinal, Fidel Castro era o principal suspeito de organizar a missão guerrilheira.

Enquanto deliberavam, os militares informaram Buenos Aires e Brasília de tudo o que havia ocorrido nas últimas horas. Os dois governos ofereceram a Barrientos toda a ajuda de que necessitasse, e o auxílio se materializou na forma de metralhadoras e munições, além de latas e mais latas de napalm e de rações brasileiras à base de feijoada que os bolivianos tiveram problemas para digerir. No Palácio da Alvorada, o alívio foi evidente. Semanas antes, os militares brasileiros tinha sido informados de que uma das possíveis missões na Bolívia do intelectual francês Régis Debray, naquele momento já preso e sendo julgado pela Justiça Militar, era servir como elo entre Havana, Che Guevara e o brasileiro Carlos Marighella, informação que chegou até a imprensa. Em Buenos Aires, o alívio foi seguido de ordens para que três peritos partissem para a Bolívia levando os registros da arcada dentária de Guevara, amostras de manuscritos seus e a folha de impressões digitais usada na emissão de seus documentos de alistamento militar, feito 20 anos antes.

A apreensão sobre o que fazer com o cadáver teve seu clímax perto das 10 da noite. "Queime-o", foi a ordem seca, dada pelo comandante das Forças Armadas, general Alfredo Ovando, depois de falar com o presidente Barrientos em La Paz. A decisão tinha uma implicação problemática: só se poderia confirmar que se tratava de Guevara quando chegassem os peritos argentinos - mas, era óbvio, eles precisariam do cadáver para seu trabalho. Um novo telegrama de consulta recebeu outra resposta curta de La Paz: "Guarde mãos e cabeça; queime o resto".

Deve-se à intervenção de um dos médicos responsáveis pela necropsia a mudança de curso das coisas: queimar um corpo exigiria uma fogueira enorme, acesa por toda a noite. Por conselho de um dos agentes da CIA, Barrientos desistiu também da idéia da decapitação. "Traga as mãos" foi a ordem final, de acordo com os relatos de vários oficiais presentes.

Os dois médicos do Señor de Malta assistiram ao encontro e acataram a ordem de fazer uma necropsia completa. Exigência adicional: a hora da morte deveria ser omitida a todo custo. O procedimento foi feito a 10 metros da lavanderia, numa mesa côncava de cimento, com um grande furo no meio para o escoamento do sangue. Os médicos identificaram uma ferida leve na batata da perna direita, oito tiros no tórax, hemorragia abundante, cabelos castanhos, encaracolados, sobrancelhas densas, nariz reto, marcas de nicotina nos dentes, uma cicatriz longa no dorso da mão esquerda, 1,73 metro de altura e "olhos levemente azuis". Foi Martínez Casso quem amputou cirurgicamente as duas mãos de Guevara. Os cotos foram costurados. O cadáver de Che só se reconciliaria com as mãos trinta anos depois.

No meio da noite, uma caminhonete deixou o Señor de Malta rumo à pista de pouso ao lado do cemitério local. Lá, numa cova coletiva onde vinham sendo empilhados vários guerrilheiros mortos nos dias anteriores, o corpo de Che foi jogado, ainda em sua maca. Pelos próximos trinta anos, adotou-se a versão oficial do governo boliviano: Guevara foi cremado num local sigiloso.

O capítulo seguinte ocorreu quatro dias mais tarde, tendo como cenário uma folha de jornal aberta em cima de uma mesa de escritório simples. A manchete, velha, informava que o exército teve um confronto com os guerrilheiros em Yamarito e Masicuri. Em cima dela havia um vidro de nanquim. Na página ímpar, no alto, em quatro colunas, uma foto de um líder sul-vietnamita encabeçava a matéria sobre as eleições ocorridas dias antes. Abaixo, no pé da página, estavam as palavras cruzadas, pequenas, completas. À direita delas, um anúncio de eletrodomésticos em duas colunas. O barulho intermitente de pingos diminuiu, substituído pelo ruído fofo de algodão sendo aberto. Entre o anúncio, as palavras cruzadas e o relato sobre o Vietnã, estavam as mãos amputadas de Che Guevara, colocadas sobre um pedaço de plástico transparente.

Um dos peritos bateu uma foto da cena enquanto os dois chumaços de algodão que tapavam o corte dos punhos se encharcavam vagarosamente de formol. Na outra ponta, os dedos estavam empapados em nanquim. Os mindinhos, enrolados, contrastavam com os dedos mais longos e estendidos.

Levou alguns minutos até que Nicolás Pellicari, Juan Carlos Delgado e Esteban Rolzhauzer superassem o asco inicial. Dois dias antes, às 3 da manhã, Pellicari recebera um telefonema com ordens do presidente argentino Juan Carlos Onganía de viajar a Santa Cruz de la Sierra para "identificar as impressões digitais do guerrilheiro cubano-argentino Ernesto Guevara de la Serna". Quando chegou à saleta em La Paz e se deparou apenas com uma lata de tinta cheia de formol onde os dois pedaços enrugados de carne boiavam, teve vontade de vomitar.

Ainda que os meses no meio do mato e a imersão em formol tenham deixado a polpa dos dedos de Guevara quase desfigurada, os olhos treinados dos peritos argentinos identificaram a semelhança entre seus documentos e as curvas centrais nos polegares. Ainda assim, era preciso fazer o registro de semelhança, redigir um laudo para o governo boliviano e um relatório para o general Onganía, que esperava notícias em Buenos Aires. Os três puseram luvas cirúrgicas e tiraram as mãos de dentro da lata. Como estavam enrugadas, uma película adesiva teve que ser colada com cuidado em cada dedo e depois pressionada contra a folha de digitais. Os peritos passaram oito horas manipulando as mãos de Che.

Para o sargento Mario Terán Salazar, o sentimento inicial de ter sido o herói que tirou a vida do grande guerrilheiro Ernesto Che Guevara em outubro de 1967 foi paulatinamente substituído pelo medo. Enquanto a fama de Terán permaneceu restrita à Bolívia, tudo estava bem. Como poucos bolivianos da época apoiavam os forasteiros que queriam mudar à bala o governo e instalar um regime socialista, Terán estava do lado dos mocinhos.

Os ventos começaram a mudar com o flerte entre uma jornalista francesa, Michelle Ray, e o pára-quedista Eduardo Torrico - um bem-apanhado cochabambino de 1,80 metro que trabalhava no palácio presidencial, em La Paz, com acesso direto ao presidente Barrientos e a informações confidenciais.
A jornalista francesa sabia que a revelação da identidade do homem que executou Guevara - até então desconhecida - seria um furo mundial. Segundo o pára-quedista, tirar uma foto que mostrasse claramente o rosto de Terán acabou sendo relativamente simples. Apresentando-se ao carrasco de Che como relações públicas do Exército, pôde fazer a sua foto sem sobressaltos. O problema era como agir depois disso. Ficar na Bolívia de Barrientos enquanto se revelavam ao mundo execução e executor não era uma opção. A francesa e o pára-quedista decidiram escapulir com o material fotográfico em mãos.

Em assentos separados, embarcaram num vôo comercial rumo a Lima, no Peru. Havia, porém, um obstáculo considerável: a repórter vinha mantendo um relacionamento íntimo com o próprio presidente Barrientos, que não tardou em perceber o sumiço da "rubia estupenda". O cochabambino relembra o susto pouco antes da partida do vôo, quando estafetas do governo descobriram a presença da jornalista e a retiraram de dentro do avião para uma revista completa. Os negativos, contudo, estavam com Torrico. O avião acabou decolando com ambos a bordo. Em Lima, o casal passeou à noite, comeu frango e começou a redigir o artigo que seria publicado nas semanas seguintes na revista Paris Match revelando quem era "o verdugo de Che Guevara".

***

A partir de então, Mario Terán passou a ser alvo do ódio coletivo e individual de milhares de militantes de esquerda mundo afora.

***

No início, ninguém deu importância para a bomba, caseira e fraca, detonada em frente à embaixada boliviana na Cidade do México, meros cinco dias após a execução de Che. Autoria assumida: estudantes do Movimento de Esquerda Revolucionária. Tampouco pareceu suspeito o acidente aéreo que matou o próprio presidente Barrientos, menos de dois anos depois: seu hábito de pilotar absolutamente bêbado era conhecido de todos. Além disso, mesmo para os adeptos da tese de sabotagem, era perfeitamente razoável que o acidente estivesse ligado a disputas internas de poder entre os militares bolivianos e não à morte de Che. Foi apenas em fins de 1969, quando o camponês Honorato Rojas, que guiou os militares ao último acampamento de Che, morreu com quase uma dezena de tiros na cabeça que as dúvidas foram caindo. Havia, de fato, quem quisesse se vingar dos matadores de Che Guevara.

Nos anos seguintes, alimentada por outras mortes, a desconfiança tomou corpo. Em 1970, um estranho acidente automobilístico decapitou Eduardo Huerta, um dos oficiais sob o comando de Gary Prado. Um ano depois, Roberto Quintanilla, chefe de inteligência do todo-poderoso Ministério do Interior em 1967, que presenciou a amputação das mãos de Guevara, foi assassinado em Hamburgo, onde trabalhava como cônsul, com três tiros no peito, disparados por uma militante do Exército de Libertação Nacional boliviano. Em 1972, o general Alfredo Ovando, comandante das forças armadas na época da morte de Che, escapou de um acidente de carro - seu filho, não. Passado mais um ano e Andrés Selich, responsável pelo enterro de vários guerrilheiros, inclusive Guevara, foi assassinado a pauladas. Em 1976, o esquerdista Juan José Torres, chefe do estado-maior à época de Barrientos, foi morto no exílio, em Buenos Aires. No mesmo ano, o comandante da 8a divisão do exército boliviano, Joaquín Zenteno Anaya, foi assassinado em Paris por um grupo autodenominado Comando Internacional Che Guevara, que nunca mais fez ou reivindicou qualquer ação.

Havia também as cartas. Quase todos os oficiais entrevistados para essa reportagem afirmam ter recebido não uma, porém muitas. Vinham datilografadas, manuscritas e também compostas em letras e palavras recortadas de revistas e jornais. Um deles, que viveu no Brasil até o início dos anos 80, foi avisado de que a mulher e os filhos também eram alvos.

Desde então, Terán vive recluso, se nega a falar com jornalistas, poucos sabem de seu paradeiro, e quem sabe é seleto com relação ao que diz. A partir da metade dos anos 80, as mortes pararam e Terán baixou um pouco a guarda. Em 1997, a "Chemania" alimentada pelo trigésimo aniversário da morte de Guevara, por uma penca de biografias e principalmente pela descoberta dos restos mortais na pista de pouso de Vallegrand, mostrou a Terán que, no fim das contas, o homem que ele matou em 1967 seguia vivo. E que ele tinha virado bandido. Sua situação ficou ainda mais tensa em 2006, quando Evo Morales se instalou no gabinete presidencial boliviano e pendurou numa das paredes presidenciais um retrato de Che feito de folhas de coca meticulosamente sobrepostas. Terán está do lado errado da história, e tenta ficar invisível.

As mortes têm uma explicação diferente para cada interlocutor. Uns afirmam que os mortos sofreram as conseqüências do pesado jogo de poder boliviano, cheio de traições e contragolpes. Há os que acusam o próprio regime de Cuba de promover os assassinatos. Para outros, é tudo muito simples: há uma "maldição do Che". A única coisa certa é que entre os "vingadores" havia militantes do ELN boliviano, facínoras da direitista AAA argentina, terroristas alemães e um agrônomo baiano.
O ano da radicalização no Brasil foi 1968. Tanto do governo, que começou a bater mais duro, quanto dos grupos subversivos, que passaram a adotar de maneira quase uniforme a política das armas: seqüestros, assaltos, atentados e justiçamentos. Um dia, no Rio, dois militantes de um pequeno grupo dissidente da Política Operária, o Colina (sigla para Comando de Libertação Nacional), discutiam a necessidade de ações que dessem visibilidade e prestígio à organização depauperada. Foi durante essa conversa que o ex-sargento da FAB João Lucas Alves confidenciou a seu amigo e colega de luta, o agrônomo baiano Amílcar Baiardi, o plano de matar Gary Prado, o homem que capturou Che Guevara.

Prado chegara ao Brasil satisfeito em passar alguns meses perto do mar enquanto freqüentava as aulas da Escola Superior do Estado-Maior, na Praia Vermelha. Ele gozava de prestígio nos círculos militares justamente por ter comandado a captura do homem, e a notícia de sua presença fora publicada na imprensa. Imediatamente, os militantes do Colina pediram que uma fonte infiltrada na escola militar, um recruta, os informasse sobre aparência, horários e hábitos do alvo.
O planejamento do atentado durou aproximadamente duas semanas, como conta Baiardi, hoje professor de filosofia e história da ciência na Universidade Federal da Bahia. No dia do atentado, 1o de julho de 1968, armados com duas pistolas e um revólver, carro de fuga pronto, os terroristas iniciam a operação. Baiardi, que havia sido levado vendado a um apartamento, aguardava o retorno dos colegas encarregados do justiçamento. Comprara folhas de papel sulfite, estava equipado com um sanduíche e tinha uma máquina de escrever para redigir um manifesto à nação. Os homens do Colina sabiam exatamente o que fazer quando o alvo saltasse no ponto de sempre: chamar seu nome, descarregar as armas no peito rapidamente e fugir. E o fizeram.

Enquanto o homem se esvaía em sangue na rua, os três brasileiros responsáveis por vingar Che Guevara chegaram ao apartamento onde Baiardi os esperava ansioso. Estavam tensos, mas controladamente felizes pelo cumprimento da missão. Abriram a pasta do homem morto em busca de seus documentos e das apostilas da Escola do Estado-Maior, que poderiam ter alguma informação importante. Veio a primeira surpresa: documentos em alemão. Em seguida, o passaporte confirmava: haviam matado Edward Ernest Tito Otto Maximilian Von Westernhagen, major do Exército alemão.
Homem errado.

No mesmo momento, Baiardi amassou o rascunho mental que havia feito em sua cabeça - "menos de um ano depois da morte de Che Guevara, a esquerda brasileira executa o assassino desse herói da América Latina." - e os quatro homens fizeram um voto de silêncio que durou até 1985. Nos dias seguintes, aproveitando a confusão nos jornais, que atribuíram o atentado à KGB ou ao Mossad, Baiardi voltou para a Bahia. Um mês mais tarde, José Roberto Monteiro, o motorista, foi capturado. Sobreviveu à prisão e morreu vinte anos mais tarde num acidente de carro. Pouco depois seria a vez de João Lucas Alves cair na mão da repressão. Morreu em decorrência da tortura sofrida no Dops de Minas Gerais. No fim de 68, caiu o segundo atirador, Severino Viana, que se suicidou na cela depois de meses sendo vítima de abuso. Baiardi, capturado em 1969, é o único que resta para contar a história. Nenhuma das prisões teve qualquer relação com o atentado a Prado.

Como quando Che estava vivo, suas mãos continuaram perambulando pelo mundo. Primeiro, ficaram guardadas no Ministério do Interior boliviano. Dois anos depois, foram contrabandeadas para a guarda de dois comunistas bolivianos da confiança de Antonio Arguedas, um ex-ministro do Interior e ameaçado de morte pelo governo de La Paz. Meses antes, Arguedas entregara a Cuba cópias microfilmadas do diário de campanha de Che, arruinando um acordo milionário que o governo Barrientos tentava fechar com editoras internacionais. Já havia sobrevivido a dois atentados.
Quando o pacote macabro chegou às mãos da dupla Jorge Sartori e Juan Coronell, não havia qualquer instrução de como fazê-lo chegar a Cuba. "Senti uma mistura de orgulho, medo e nojo", contou Coronell no ano passado, cercado pelos retratos da Rainha Elizabeth II que adornam as paredes da escola bilíngüe onde dá aulas em Santa Cruz de la Sierra. "Orgulho, porque era uma missão importante. Importantíssima. Medo, porque era também arriscada - naquela época se morria por nada. E nojo porque Olha, eu nem gostava de pensar que embaixo da cama onde eu dormia estavam boiando as mãos de Che Guevara." Apesar da repulsa, a situação se prolongou por cinco meses.
Segundo a versão de Coronell - há quem a desminta, mas a maioria dos historiadores a adota -, o vidro com as mãos e uma máscara mortuária de Che feita em gesso pelos militares bolivianos foram acomodados em sua bagagem de mão quando viajou de avião da Bolívia para Cuba. Não foi uma viagem simples. Houve a partida, no ar rarefeito de La Paz, a primeira escala, tensa, em Lima, o calor de Guayaquil, o alívio com a aragem fria de Bogotá, os mosquitos de Caracas, o longo trecho sobre o Atlântico até Madri. De lá até Paris e uma noite dormida com medo. O nervosismo final no embarque do vôo Paris-Moscou, talvez o mais infestado de espiões e agentes duplos daqueles tempos. O alívio ao aterrissar na capital do mundo então ainda comunista, onde discutir Marx não era apenas uma possibilidade, mas uma obrigação. E o fim da jornada, a chegada à embaixada cubana em Moscou, proclamado com uma frase bombástica: "Tenho as mãos de Che Guevara e quero entregá-las a Fidel Castro".

Jorge Castañeda, biógrafo mexicano de Guevara, garante que, na década de 90, Fidel Castro ainda mostrava a visitantes as mãos do amigo, já em novos potes. O americano Jon Lee Anderson, autor daquela que é considerada a versão definitiva da vida de Che, sustenta que em determinada época o governo cubano cogitou embalsamar as mãos e fazer um monumento em que elas complementassem um baixo relevo com a figura de Guevara segurando um rifle.

A idéia não foi adiante. Não se sabe ao certo onde elas estão. É possível que tenham se juntado ao cadáver de Che quando ele foi encontrado e repatriado para Cuba, em 1997.

***

Para chegar a Mario Terán Salazar, o homem de cuja carabina partiram os disparos que mataram Che, há de se vencerem boatos e pistas desencontradas e hostilidades abertas. Ora se ouve que ele está administrando terras em Oruro, mais de quinze horas de carro desde Santa Cruz. Ora que dá expediente no bar do Clube Militar. Que anda disfarçado com uma peruca. Que virou chofer de praça e pode ser o homem dirigindo o seu táxi.

Uma boato destinado a afastar forasteiros mais persistentes assegura que uma imaginária equipe de emissora européia lhe teria oferecido um cachê de pelo menos 20 mil dólares - e nem assim Terán aceitara falar. Há equipes européias de verdade que caem no embuste e tentam pechinchar ou até cobrir a oferta.

Minha busca termina com um papel enrugado no qual estava rabiscado um endereço.
A rua é calma, tem vigia. Casas melhores e piores. Na frente do número 2395 há um vira-lata aparentado de pastor alemão e um senhor que abre uma tangerina com as unhas. Ele tem o boné enterrado na cabeça grisalha, usa chinelos e bermudas. Uma farda grossa verde-oliva, puída e desabotoada, lhe cobre o peito. Olhos baços.

O homem que se apresenta como Pedro Salazar conversa através da grade antes de abrir a porta. Diz ser conhecido de Terán. Do exército? "Não, conheço ele de outros trabalhos." Mas ele já morou aqui? "Não, que eu saiba não, essa é a casa da minha família." A conversa dura pelo menos mais meia hora. Fala-se sobre amenidades, brinca-se com o cachorro. Com a noite já caindo, chega um homem corpulento à casa. Junta-se ao grupo no alpendre e acompanha o papo, calado, o filho do senhor do boné. Ao final, Pedro Salazar dá o número de um celular. Promete que vai tentar achar Terán.

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Felix Rodríguez é um cubano rechonchudo, com pesadas correntes de prata nos pulsos, radicalmente de direita. Como tantos de seus compatriotas, mora em Miami, na Flórida. Difícil ver nele um agente envolvido em várias operações clandestinas da CIA, aliciador de fontes, interrogador, possivelmente torturador, pivô do escândalo Irã-Contras, que mobilizou a Casa Branca nos anos 80, e um dos responsáveis pela morte de Che. Entrar na sala confortável de sua casa suburbana é ser inundado de provas de que ele esteve realmente naqueles lugares, viu ação, foi um soldado raso da Guerra Fria. Nas paredes há granadas, facas, rifles, pistolas, bandeiras americanas ensangüentadas, bandeiras rebeldes salvadorenhas (de cabeça para baixo), adesivos que dizem "Matem Fidel", agradecimentos pessoais assinados por George Bush pai (emoldurados), sutiãs de guerrilheiras, extintores de incêndio furados por balas, até o esqui destroçado de um helicóptero. Parece que a cada missão - Bolívia, Líbano, El Salvador, Nicarágua, Vietnã, fora todas as que não mencionou - Rodríguez juntou suvenires da "época de ouro" em que ajudava a Casa Branca a dar combate ao comunismo.

"Estávamos aqui na Flórida em 1967 quando gente do alto escalão da CIA em Washington nos contatou", relembra Rodríguez. "Precisavam de cubanos para assessorar um regimento boliviano que estava caçando Che Guevara." Ele chegou poucas semanas depois à Bolívia. E, por um desses acasos de que se desconfia, estava em La Higuera cara a cara com o guerrilheiro, poucas horas depois de sua captura, embora não fosse o oficial mais graduado da agência no país. Longe disso: era pouco mais que um operador de rádio. Ele conta a ordem que deu ao militar boliviano a postos em La Higuera:

"Sargento, há ordens do seu governo para executar o prisioneiro. Não atire do pescoço para cima, atire daqui para baixo porque deve parecer que ele morreu em combate. 'Sí mi capitán, sí mi capitán', respondeu o homem. Então saio. Vou fazer umas anotações em meu posto. É 1 da tarde, hora boliviana. À 1 e 10, 1 e 20, ouço os tiros e anoto no meu livro a hora da morte dele".

Rodríguez é um dos poucos que buscam aumentar seu papel na captura e na morte de Che Guevara. Dentro da fechada e militante comunidade exilada cubana da Flórida, o ex-agente é visto por muitos como o herói que matou o melhor guerreiro de Fidel Castro. Rodríguez sabe que isso, mais que qualquer missão secreta na Guatemala ou seu posto de Presidente da Associação de Veteranos da Baía dos Porcos, lhe confere status. Miami é uma cidade onde moleques com camisas de Che Guevara são mandados para casa com uns tapas enquanto a roupa queima no chão.

Gary Prado vive uma situação oposta em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia. Poderia ter tido o mesmo fim de outros militares envolvidos na captura e na morte do Che. O atentado frustrado no Rio de Janeiro, em 1968, e mesmo o tiro supostamente acidental que partiu sua espinha em 1982 são provas disso. Mas desde os anos 80, quando se tornou uma personalidade de médio porte na política nacional boliviana - foi embaixador em Londres e no México e, por pouco tempo, ministro do Planejamento - o fato de ter colaborado na captura do guerrilheiro tornou-se um mérito dúbio. Outorgava-lhe notoriedade na mesma medida em que o transformava numa vidraça, sobretudo a partir do final dos anos 90, quando o país começa a dobrar à esquerda.

Em 1987, Prado publicou La Guerrilla Inmolada, um relato sobre o combate à guerrilha de Guevara, considerado por muitos a versão mais completa da história. Ele diz hoje, com seu modo sereno de falar, que sentiu pena do guerrilheiro quando o encontrou: "Os jornalistas me perguntam o que senti, como se ele fosse uma figura mítica, um superman", diz ele, alargando seus longuíssimos braços para voar. "Ele parecia um mendigo. Um mendigo. Trazia uma panelinha com seis ovos." Sua tese é de que havia uma colossal pulsão de morte num Che confrontado com a desmobilização do camponês boliviano. "O que ele esperava? Ganhar, com 51 homens? Nosso problema tático não era vencer o bando, era encontrá-lo no meio das montanhas. Ele estava caminhando, inabalável, acho que sem se dar conta, para a imolação."

Prado se exime de qualquer responsabilidade pela execução. "Não tínhamos qualquer ordem de matá-lo durante a ação. Se nos houvessem dito 'sem prisioneiros', estaria dito e cada comandante de pelotão agiria como achasse cabível. Ninguém nos disse isso. Por isso cumpri minhas ordens: capturei-o e o entreguei a meus superiores, simplesmente. Nada tenho a ver com a morte de Che Guevara."

A versão dos fatos na narrativa de Prado é questionada frontal e abertamente por pelo menos uma pessoa: Maria del Carmen Arriet, chefe do Centro de Estudos Che Guevara, em Havana. Ela é taxativa ao afirmar que o livro foi escrito "a várias mãos", querendo dizer que o exército boliviano revisou originais, cortou e recortou como mais lhe convinha. Seria menos uma versão definitiva que uma versão oficial boliviana, politicamente dócil. Mas considerando-se que a pesquisadora é cabeça de um centro de estudos cubano dirigido pela viúva de Guevara, Aleida March, o descrédito é recíproco.
Em fevereiro de 2007, nova reviravolta. A revista mexicana Letras Libres publica um artigo em que dois jornalistas franceses, Maite Rico e Bernard de la Grange, afirmam que não é sequer de Che o corpo desenterrado em 1997 e repatriado para Cuba. Citando provas circunstanciais, garantem que tudo não passou de uma encenação de Fidel Castro que, com a operação, visava desviar a atenção da população das agruras do chamado Período Especial, quando a economia cubana quase foi a pique. O escritor Mário Vargas Llosa louvou o trabalho da dupla de jornalistas, autores no passado de libelos contra ícones da esquerda como o Subcomandante Marcos e a Nobel da Paz guatemalteca Rigoberta Menchú. Havana e os peritos envolvidos na busca da ossada continuam a sustentar a versão anterior, assim como o biógrafo Jon Lee Anderson, um dos responsáveis por descobrir a localização aproximada do cadáver mais tarde desenterrado por Cuba.

Em Miami, a reação dos exilados cubanos não tardou. Quem roubou as manchetes dessa vez foi Gustavo Villoldo, superior de Rodríguez na CIA na época da captura de Che, também exilado cubano. Nem Anderson nem os militares bolivianos dão muito crédito ao que quer que ele diga, mas no momento ele diz três coisas chocantes: que o corpo de Che continua na Bolívia, que sabe sua localização e, principalmente, que pode provar. Diante das câmeras, Villoldo sacou um tufo de cabelo castanho-claro que jura ter cortado da cabeça de Che. Afirma que, se a família Guevara se dispuser a buscar o cadáver seguindo suas indicações, o DNA dos ossos poderá ser comparado com o de sua amostra - um estranho caso de relíquia usada para desmentir o santo.

Vale registrar, contudo, que ainda hoje testes de identificação por DNA precisam de folículos frescos para serem conclusivos: os cabelos não podem ser cortados, mas arrancados. Um agente da CIA deveria saber disso.

***

De volta à rua de Terán dois dias depois da primeira investida, encontro a casa fechada. Faço uma ligação da cabine telefônica situada a 15 metros do número 2395. Adriana Mariño, uma documentarista colombiana que acompanhou algumas das entrevistas, avisa que Pedro Salazar acaba de chegar de carro com seu filho.

- Sabe, Pedro, tenho cada vez mais certeza de que você é Mario Terán - arrisco ao telefone.
- Meu filho, deixe de besteira. Estou aqui no Palácio da Justiça fazendo algumas coisas. Ligue depois e nos falamos.

E desliga.

Saio da cabine e caminhamos em sua direção. Quando Salazar já está com metade do corpo dentro do carro, peço que me dê dois minutos. Ele fecha a porta do carro. Está contrariado. Seu filho parece prestes a abrir a porta e nos dar uma surra. Salazar segura-lhe o braço e o acalma. Diz para entrarmos na caminhonete.

O carro de vidros fumê arranca e começa a dar voltas por ruelas ermas. Quebro o silêncio tenso forçando uma reapresentação.

- Vamos tentar de novo, Terán. Meu nome é...
- Sim, filho, efetivamente sou eu. Eu sou Mario Terán e eu matei Che Guevara.

Apesar de todas as desconfianças, a frase, formulada com tal clareza, nos paralisa por alguns instantes.

- Nem adianta me perguntar nada porque não posso nem quero falar.
- Não pode?
- Quero ficar em paz. Minha família não quer que eu fale. Não quero falar. Essa história tem que ser esquecida. Ele já está morto há quarenta anos e há quarenta anos eu tenho que viver com isso. Só eu sei como é viver com isso.
-Se quiser, falamos só dos dias posteriores à morte de Che. Você se arrepende? - nossas perguntas vêm em frases rápidas. O carro é uma balbúrdia cochichada e tensa.
- Não, filho, vai me desculpar, mas isso não vai acontecer.

Terán está profundamente aborrecido com nossa presença. Parece especialmente contrariado quando passamos por cima de suas negativas e perguntamos a respeito de detalhes como os rumores de sua bebedeira no dia da morte de Che e lhe dizemos que a imagem que as pessoas têm dele, a partir de alguns livros, é a de um bêbado que vaga pelas ruas de Santa Cruz com uma peruca ridícula.

- Eu não sou um vagabundo, você não viu meu carro e minha casa? Eu já até viajei para fora, para a Espanha e para Washington.
- Para Washington?
- É, para a Virginia, - diz ele. Pausa. Volta-se para trás e nos olha firme com o par de olhos cansados, de retinas comidas de branco nas bordas.
- É melhor vocês desistirem, eu não posso falar.

Embora não tenham sido exatamente amigáveis, nenhum dos dois encontros com Terán terminou em vassouradas. Desde então, ao longo dos meses, vários rumores foram se empilhando a seu respeito. Ele estaria temeroso pela vida com a chegada de Evo Morales à presidência. Um historiador boliviano contou que ex-agentes da CIA faziam festas a cada cinco anos para comemorar a morte de Che e outro me garantiu que Terán tinha lugar de destaque nelas, apesar de não gostar do papel. E havia a pista que ele próprio tinha deixado quando mencionou que viajara para a Espanha e para o estado da Virginia, vizinho da capital americana. É em Langley, nesse mesmo estado, que fica a sede da CIA.
Terán continuava nas sombras. A informação mais saborosa dava conta de que médicos do sistema de saúde cubano, trazidos pela Venezuela por meio de um programa de solidariedade a Evo Morales, haviam limpado a catarata dos olhos do homem que matou Che. História boa demais para ser verdadeira.

De seguro, apenas alguns poucos fatos. Depois da campanha contra Che, Terán desempenhou uma série de funções subalternas no exército. Pelo menos dois militares da reserva lembram que ele completava sua magra aposentadoria, nos anos 80, dirigindo um caminhão de entregas de uma empresa de doce de leite local. Sem dúvida, impressão confirmada por seu espanhol de concordâncias falhas, Terán não foi longe nos estudos e não pôde ocupar postos mais qualificados dentro da hierarquia militar.

"O exército ainda lhe presta assistência, talvez tendo os americanos por trás", sugere um dos militares. "Mas para tudo continuar como está, tudo tem que continuar como está. Ele não deve abrir a boca."
Passam-se sete meses e volto à casa número 2395. Bato palmas, um menino aparece, digo que quero falar com seu avô e ele traz a avó, a mulher de Terán. Digo que já o havia encontrado duas vezes e que, de passagem por Santa Cruz, decidi vir ver como estava. Sou convidado a entrar. Sento numa mesa interna enquanto outro neto vai buscar o homem que matou Che. Busco nas paredes qualquer pista de viagens. Nada, além de um enorme casco de tartaruga pintado com uma cena bucólica em que uma mata tropical quase engole uma casinha à beira de um rio, ladeada por um título a pincel que diz "Recuerdo de la Amazonia".

Enquanto abro uma tangerina, a esposa se senta me estudando, embora mantendo alguma cerimônia. Estamos os dois esperando Terán, que deve levá-la para comprar remédios fitoterápicos de diabetes em Montero, uma cidade próxima. Conversamos sobre Evo Morales, a autonomia de Santa Cruz (o assunto do momento para os cruceños), pergunto "como vai tudo?" três vezes. Lembro da catarata de Terán. Pergunto como foi a operação. "A recuperação foi complicada, mas agora já está melhor."

- Trabalharam bem, então?
- Sim, os cubanos trabalharam direitinho.

O neto de Terán volta, diz que não encontrou o avô. Com meia tangerina na mão, deixo a casa. Ando alguns metros e vejo Terán chegando por uma transversal. Tento caminhar sem pressa e falho. Eu me reapresento. Terán suspira enquanto varre todas as ruas à nossa volta com os olhos.

Volto a pedir uma entrevista. "Não, filho, vai me desculpar. Já te disse que não posso." Já é menos incisivo. Mantém-se em silêncio. Parece farto de ter a vida seqüestrada por Che.

Numa última tentativa, lhe pergunto o que foi fazer em Virginia.

"Jardinagem. Fui trabalhar um pouco como jardineiro", responde.

Olho para a frente da casa. Terán acompanha. Há uma única planta, uma avenca esturricada pelo sol num vaso de plástico branco sujo.