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17.11.05

A um metro de Evo Morales



(uma versão dessa matéria foi publicada em NoMínimo)

Evo Morales está de tênis, jaqueta pesada de couro e o topo de sua cabeça é um formidável capacete de cabelo índio muito negro. Parece um pouco tenso. Fala baixo ao celular meio remendado olhando pela janela da sacada os muitos repórteres que o esperam no saguão do hotel e, por cima do próprio ombro, uns poucos que estão mais perto, apenas alguns degraus abaixo.

A dois quarteirões dali, na larga Avenida Mariscal Santa Cruz, garis ainda limpam o lixo de folhetos e bandeirolas de uma barulhenta e compacta manifestação comemorando os dois anos da queda de Gonzalo Sánchez de Lozada e protestando contra o racionamento do gás em botijão. Sánchez, que mal conseguia disfarçar seu sotaque americano nos pronunciamentos oficiais, foi tocado do palácio em outubro de 2003 depois de semanas de protestos contra a privatização do gás e do petróleo do país.

As lições de dois anos atrás parecem mais vivas que nunca. A "guerra do gás", como o episódio é chamado, ecoa como um sino de morte na campanha desse 2005. Morales está sempre vestido informalmente, deixando as gravatas para o vice Alvaro García Linera, impecavelmente metido em ternos retos que combinam com sua cara de menino grisalho. Gosta de discursar primeiro em aimara e quéchua, idiomas índios locais, e só então em espanhol. Parece a antítese perfeita para toda a classe de políticos profissionais que a Bolívia viu prometer e fazer muito pior na última década e meia. Não à toa, está com 33% das intenções de voto, sete pontos à frente do segundo lugar, Jorge Quiroga, um juiz gordinho e escanhoado que presidiu o país por alguns meses entre uma queda de mandatário e outra.

Mas mais que indumentária, as lições de 2003 estão escancaradas nos programas de governo: mesmo os partidos de direita, autores do que Morales chama de "saque", propõem taxação pesada sobre o produto, fazendo petroleiras de todos os hemisférios – inclusive a Petrobras, responsável por 15% do PIB do país – roerem as unhas.

Morales, ninguém parece ter esquecido, já fala do gás desde 1997, quando concorreu à presidência pela primeira vez. Logo, ele pode esse ano tomar um passo adiante dos outros candidatos: propor não só que se taxe fartamente o produto, mas renacionalizá-lo, re-comprando a infra-estrutura necessária para sua industrialização e transformando a YPFB numa estatal de petróleo "potente como a PDVSA e a Petrobras".

Não é preciso mais que esse pequeno passo para fazer qualquer dos milhares de executivos estrangeiros no país suar. E para, muitos crêem, ganhar a eleição.

A conjuntura tem ajudado. As comemorações dos dois anos da saída de Sánchez de Lozada foram muito engordadas pelos protestos contra a falta de gás. Filas e mais filas por botijões contados, brigas de tapa ao lado dos caminhões que distribuem o produto, gente mais pobre cozinhando com lenha. Tudo isso tem funcionado como um incômodo lembrete do despautério que é faltar gás no país que tem a segunda maior reserva do combustível na América Latina. E beneficiado Morales.

A coisa parece tão certa que mesmo os que quase nunca se metem de verdade em campanhas já apareceram: um grupo de artistas montou uma coletiva de imprensa para entregar a Morales um manifesto do que a classe espera desse governo "progressista e democrático". Ele desce da tal sacada, distribui sorrisos e segue para a pequena tribuna no saguão que segundos antes olhava desconfiado. Ouve as reclamações, pede desculpas sem muito pudor por não ter dado tanta atenção quanto devia à questão e satisfaz os presentes com suas promessas. A coisa toda termina com uma cantora subindo ao minúsculo palco para interpretar uma ranchera. Um outro artista de bigode daliniano aparece com três taças que enche de vinho de garrafão. Os outros ficam com copinhos plásticos para café. Ergue-se um brinde e Morales já está agarrado ao celular de um repórter de rádio, criticando Sánchez de Lozada e dizendo que "essa lição aprendemos". Todo mundo fica com o copo em suspenso por dois minutos até que a coisa acabe, fios de vinho descendo pelos braços de alguns. O repórter comenta, termina, vai embora, alguns colegas o maldizem entre os dentes, Morales derruba meia taça no chão como oferenda à Pachamama, a mãe-terra dos bolivianos, bebe o resto rápido e sai de fininho. Encurta rapidamente a pé os cerca de duzentos metros que separam o hotel do congresso nacional com uma entourage mínima e quase ninguém o reconhece. É um índio a mais nessa cidade grande.

Pinota para dentro do Congresso e some no escritório da segunda liderança. A secretária diz que "Dom Evo" me espera. Me surpreendo ao encontrar uma pequena turba de jornalistas estrangeiros e dois documentaristas bolivianos. Os que ficam mais para trás na rodinha que se forma parecem amarrotados e cansados. Um deles diz que o maior legado boliviano é sua úlcera, fruto de um ano e meio nas notícias do país. Morales começa a falar e todos ouvem, gravam, anotam e filmam atentamente cada palavra dita de forma precisa, carismática e baixa.

Três anos atrás, falar com ele era fácil. Qualquer tique no sismógrafo político da Bolívia era acompanhado por um comentário seu. O número de seu celular - de seus dois celulares, melhor dizendo - era o segredo mais mal guardado da Bolívia e ele sempre estava disponível a comentar sobre qualquer coisa com uma frase de efeito boa para abrir matérias. Hoje é quase impossível encontrá-lo sem se acotovelar com colegas, sem pôr o gravador ao lado de outro, sem uma breve diplomacia para ver quem fala com ele em exclusivo primeiro.

Não que ele tenha perdido o apetite pelas manchetes. O que lhe falta é tempo, agora que parece prestes a virar presidente. Mas sempre que há uma boa oportunidade, está lá. Como não ir à Cúpula dos Povos, à margem da Cúpula das Américas, em Mar del Plata, para xingar George W. Bush ao lado de Hugo Chávez e Maradona, como fez semana passada?

Depois de alguns minutos, a turba sai e Morales está sozinho na sala comigo, uma jornalista francesa, dois retratos a óleo dele mesmo e um retrato de um general antigo. Vou para o fundo da sala e a repórter acerta com ele detalhes de uma "grande matéria" que sairá pouco antes das eleições num veículo que não consigo ouvir (nota em 2007: era Alma Guillermoprieto, que fez um perfil fantástico para o New York Review of Books). Morales a convence a acompanhá-lo ao Chapare - sua área de maior influência - e, depois de perguntado, diz que não gosta de falar de assuntos pessoais. A jornalista sai e ele discretamente pede à secretária que dê a ela alguns telefones, entre eles o de uma tia em Beni que "o conhece bem".

- E agora, companheiro, em que posso lhe ajudar? - pergunta ele, me chamando com a mão.

Sentamos em lados opostos debruçados sobre a mesa estreita. O rosto de Morales está a um metro, não mais. Lhe pergunto sobre os últimos dias, os protestos, toda a discussão sobre o adiamento das eleições. Ele, sem mover um músculo nem alterar a voz, liga a máquina de retórica.

- Há uma aberta conspiração. Da direita fascista, racista, neoliberal, junto a agentes externos como a embaixada dos EUA. Conspiram e provocam o MAS, o Evo Morales e os movimentos sociais, - diz ele, tratando a si mesmo na terceira pessoa. - Estão preocupados porque hoje temos a grande oportunidade de ganhar com 50% dos votos mais um.

- As pesquisas lhe dão 33%, a melhor delas - retruco.

- Esqueça isso. São pesquisas - diz ele, dando exemplos de eleições passadas onde o MAS, em média, triplicou as estimativas de intenção de voto. - Dizem que estamos com uns 30%. Não quero triplicar de novo. Me basta ter 60%.

Enquanto falava, Morales mal sabia que dali a duas semanas as eleições seriam suspensas e remarcadas para o dia 18 de dezembro uma semana depois, pondo fim a um impasse de meses que pôs em lados opostos o Oriente, região mais plana e à direta politicamente, e o Ocidente montanhoso, onde a retórica "andina" de Morales faz sucesso. Os primeiros, representados por Santa Cruz, pediam há vários meses mais quatro assentos no Congresso, alegando que têm cada vez mais peso econômico e demográfico no país. As cadeiras sairiam de três cidades do Ocidente que, claro, se opuseram. A situação foi finalmente resolvida com a transferência de três vagas do Ocidente para o Oriente, uma a menos que o pedido. Já se discutia essa solução quando ocorreu a entrevista, e Morales parecia mais preocupado com a possibilidade de não haver eleições que com detalhes de assentos e distritos.Crê que vence de qualquer jeito. A menos que aconteça um golpe de estado arquitetado com a ajuda - claro - dos americanos.

- Anteontem estive em Santa Cruz, montamos um pequeno comício com apenas cinco dias de antecedência. Eu não queria. Disse: "vamos fracassar". Chego lá e mais de 15 mil pessoas me esperam. É por isso que estamos seguros. Mas quando um índio tem a possibilidade de ganhar, surge esse tipo de obstáculo. O tema das cadeiras é isso. Querem mais cadeiras para Santa Cruz e menos cadeiras para La Paz, Oruro, Potosí. O que é que muda? Nada muda. Isso é pretexto para postergar a eleição, desagregar os movimentos sociais e unir a direita. É parte de uma jogada da embaixada dos EUA.

Morales está à vontade declamando suas melhores frases de esquerda. Não há freio para atacar os EUA e isso sequer é novidade. Mas a coisa muda quando se pergunta das reservas que se começa a ter no Brasil de um governo "moraleista". Do temor de que também no vizinho comece a faltar gás. Morales é todo cautela.

- Não há razão para medo. A Petrobras é uma empresa do estado. Temos que fazer um consórcio dessas empresas de estado. Ela e a nossa YPFB têm que fazer uma aliança estratégica, de médio e longo prazo, pra resolver nossos problemas nacionais e, em seguida, o tema regional.

- Mas o senhor acha que a Petrobras e o Ministério de Minas e Energia podem gostar da idéia de serem taxados em 50% e terem seus ativos recomprados à força na nacionalização que o MAS propõe? –, pergunto. – Nenhuma empresa gostaria disso, não?

- Conversei a respeito disso e eles estão dispostos a aceitar as novas regras. Quando assinaram os contratos? Quando o barril de petróleo custava US$ 18, US$ 19 (está em US$ 60 hoje). Eu compreendo a posição deles perfeitamente. Mas vamos negociar as plantas de Cochabamba, e devolvê-las ao Estado boliviano. Esse tema é incontornável. Não estamos falando de confiscar, de expropriar. Renegociaremos e o Estado recomprará tudo por preços realistas.

No primeiro semestre, contudo, houve tensão na Bolívia quando a empresa brasileira anunciou que estava reconsiderando seus investimentos no país. Dois ministros bolivianos chegaram a correr para Brasília levando panos quentes. Morales passa por cima disso e afirma que o Brasil precisa do gás boliviano da mesma forma que a Bolívia precisa da tecnologia brasileira. "Será gás por tecnologia", vaticina. Não só tecnologia de exploração e produção de gás e petróleo, mas também para outros campos como a agricultura, que Morales quer mecanizar. "Vamos mecanizar e subvencionar, principalmente os pequenos e médios", diz ele, mais para o gravador que para mim.

Morales parece cheio de grandes visões. De que o gás vai financiar o salto boliviano. De que os índios do país ainda precisam se libertar. De que o país tem adversários poderosos que tramam um golpe diuturnamente. Talvez seja isso que mais o aproxime de Hugo Chávez, Fidel Castro, até Bolívar: a noção de que seu país é uma potência que só não desabrocha por que inimigos que temem seu verdadeiro valor não deixam.

Difícil evitar os paralelos com o Lula de três anos atrás. Morales é um líder popular, um símbolo antes de qualquer coisa, o índio que chega ao poder no país dos colonizadores à maneira do operário que chegou ao poder aqui, no paraíso dos patrões. Se Morales não vestiu um terno azul marinho, foi apenas porque isso provavelmente seria a senha de sua derrota. A Bolívia, em 2005, é o país da autenticidade milimetricamente controlada. Que sabe quando xingar e quando soar razoável.

– Olha, eu em uma época da minha vida política generalizava os oligarcas. Eram todos maus para mim. Hoje já não acho isso. Nem todos são maus. Há empresários produtivos, apolíticos, empresários democráticos e não facistas. E com esses eu converso. Semana passada me deram uma linda festa em Santa Cruz, um banquete. Rainhas da beleza de lá, e até ex-rainhas, tiraram fotos comigo. E sabe por que? Todos estavam mobilizados pelo tema da pobreza. De que eu venho dos pobres e trago o tema da pobreza. Me deram todo o apoio para o que quero fazer.

Não por acaso, Morales disse meses atrás que considerava Lula "um irmão mais velho". Falo do sentimento geral de decepção no Brasil e da acusação de que o PT chegou ao poder sem projeto ou quadros suficientes para executá-lo. É algo que dizem a respeito do próprio MAS aqui, e menciono isso. Morales parece um pouco ofendido com a insinuação. Sua expressão é a de quem tem azia. Desgosto e asco controlados. Parece francamente decepcionado.

- De cabeça quente eu pensaria que você é um agente de inteligência da direita dos Estados Unidos, - retruca ele, num sorriso atravessado.

Subitamente, fica monossilábico, se desinteressa da entrevista. Mais dois minutos e diz que temos que terminar. Deixa a mesa onde estávamos, senta-se numa poltrona do outro lado da sala e começa a abrir um jornal sobre a mesa de centro. Depois de checar o gravador, caminho até a porta próxima a ele e me despeço.

- Adiós, - diz, sem tirar os olhos das manchetes.

27.2.05

A menina de ouro da Maré



(uma versão dessa matéria foi publicada em NoMínimol)

Ganchos
Ela pula seguindo um ritmo que não se ouve. Quando sua mão encontra o saco pesado, o couro que envolve os cerca de 40 quilos de areia vibram como a pele de um bumbo. O saco oscila, ela gira em torno dele, quase se chocando com o menino de braço forte que faz o mesmo ao seu lado, apertados no pequeno ginásio. Não se ouve muita coisa. Só o xiq-xiq das luvas raspando no saco, as correntes que o prendem chacoalhando, e o uf-uf dos diafragmas quando um soco parte do ombro e bate seco no oponente que rebola ágil no ar. De longe, o treinador olha, braços cruzados, ombros pra trás, a testa baixa.

Não, aqui não é o Hit Pit do filme Menina de Ouro, com que Clint Eastwood pretende ganhar uma segunda estatueta de melhor diretor no ringue do Kodak Theatre. Estamos na favela de Nova Holanda, no Complexo da Maré, na academia do projeto Luta pela Paz, da ONG Viva Rio. Morgan Freeman não está aqui para, na pele de Scrap, narrador do filme, repetir à lutadora que “boxe tem a ver com respeito”. Mas não soa necessário. Todos parecem ter vindo para cá sabendo disso.

Ela, no caso, é Manuela Lopes da Silva, 18 anos, vice-campeã brasileira na classe dos 60 quilos. Uma menina de braços fortes e ombro estreito. Ela e mais cerca de vinte meninas, e mais uns 80 rapazes, vêm a esse ginásio três vezes por semana aprender a esquivar, respirar e dar socos. Entre outras coisas.

O projeto foi concebido por Luke Dowdney, que na sua Inglaterra natal foi boxeador e que, voluntariando no Brasil anos atrás, decidiu estudar e ajudar os jovens vivendo em favelas. Depois disso, Luke já foi condecorado por sua rainha e continua tocando outros projetos aqui. O Luta pela Paz já caminha pelas próprias pernas.

Entrando pela Avenida Brasil, passarela nove, é difícil achar a porta do Luta pela Paz. Fica entre uma mercearia e uma loja para animais. A porta, pequena, fica meio escondida por gaiolas à venda. Depois da porta, uma escada estreita e íngreme, coberta de azulejo, sobe até o ginásio propriamente dito. O ringue de treino domina o espaço pequeno e quente. De um lado há três sacos de pancada e alguns aparelhos de musculação, do outro um espaço livre com um espelho na parede. Pouco, além das poças de suor seco e pisoteado no chão, diferencia o espaço de uma academia comum. Na verdade, o espaço também é uma academia comum, atendendo à população das imediações que vem cuidar do corpo. Mas a janela de fora a fora, mostrando uma complicação de tijolos aparentes, antenas de tv e roupas penduradas, não deixa esquecer onde se está e porque.

Jabs
Sentada numa cadeira, muito antes da hora de seu treino, Manuela é uma adolescente tímida bastante comum. Sua história, na área, é realmente comum. Fez várias tatuagens no corpo, engravidou aos 14, e era, como ela mesma fala, “uma encrenqueira”. Uma vez brigou com uma menina da área que estava com medo de perder seu namorado. Tipo de confusão que os donos da área não gostam: atrai polícia e afugenta cliente. No dia seguinte, Manuela não tinha mais onde passar o gel wet look que costuma usar no cabelo. Sua cabeça brilhava no sol, raspada, “para aprender”.

“Olha, não vou mentir pra você. Quando eu entrei aqui, eu queria aprender a brigar mesmo. Aprender a dar socão. Mas demora muito, a gente acaba desistindo disso. Boxe é muito complicado, quem quer aprender a brigar vai pra rua e briga”. Hoje, segundo ela explica, luta cada vez mais e briga cada vez menos. Outra diferença da época em que só queria saber de baile e de zoar – “mas eu ainda gosto de baile, tá? Só não vou sempre” – é que agora ela voltou a estudar, como a maioria aqui.

A lógica do projeto – para a maioria das pessoas, boxe é coisa de gente violenta – parece funcionar. Todos que chegam para o treino, meninos e meninas entre 15 e 25 anos, parecem incrivelmente corteses. Cumprimentam a todos pessoalmente falando seus nomes a quem ao conhecem, contam piadas e riem baixo. Claro, há os que imitam Mike Tyson, mas a maioria apenas olha, quieta. E não há brigas na rua. Quem é pego boxeando fora da academia é expulso. Sem argumentação.

Claro que nada é perfeito. Pouca coisa aqui é, aliás. Leriana Figueiredo, coordenadora do projeto, conta que já houve os que deixaram o “movimento” pra boxear e hoje trabalham. Os que ficaram um pouco, ganharam experiência e disciplina e foram trabalhar. E os que largaram o tráfico, boxearam um pouco, e voltaram pro tráfico. “Nada é perfeito”, diz ela.

Cruzados
Do meio do burburinho de quem deixa o cinema, há casais chorosos com o final triste do filme de Eastwood, estudantes comentando as cenas de luta, Manuela e Leriana. Ela conta que chorou, mas não exatamente pela razão da maioria. “Quando vi aquela cena em que ela entra com o roupão verde pela primeira vez, aquela luta que ela vai pra fora, e o povo fazendo ‘huh-huh-huh!’, lembrei muito da minha primeira luta. Aí eu chorei...”

Ao som de Eye of the Tiger, tema do filme Rocky (segundo Manuela, música do baiano Acelino Popó de Freitas), Manuela entrou nervosa em sua primeira luta pra valer, num ringue em Belford Roxo. Tão nervosa que sua mão direita pifou. “Eu só conseguia manter a guarda. Fiz a luta toda só com a esquerda”.

Parece ser uma esquerda forte, porque Manuela ganhou todos os sets. “Eu quebrei a cara da menina! Ela ficou transfigurada mesmo”, diz ela, meio culpada, meio orgulhosa. “O problema dela é que ela não tinha nenhuma base, ficava com os braços baixos. Aí eu só entrava, só socão direto, no meio da cara”. Contam que a torcida da outra menina ficou com muita raiva, disseram que a luta foi armada, que Manuela só podia ser lutadora experiente. Enquanto ouve os outros completarem sua história, Manuela, ri escondendo o rosto incrivelmente liso para uma vice-campeã.

“Uma coisa que eu tenho boa é a defesa, a guarda. Nunca quebrei nem desloquei o nariz. Mas já sangrou sim. Quando a gente luta aqui, o melado desce!”, diz ela, rindo. “Uma parada que eu faço bem é assim: faço que vou com o ombro esquerdo e tum!, meto um cruzado com a direita. Não falha. Entra sempre”.

Manuela, contudo, prefere discordar de mais paralelos entre ela e a lutadora do filme. “Nossas famílias são diferentes, né? Não tenho aquela mãe horrível. Fui criada pelas minhas avós e uma tia. Meu pai morreu quando eu ainda tinha alguns meses, minha mãe, eu tinha quatro”. Hoje, ela é a do meio de três irmãs – seu irmão mais velho também foi morto, como a mãe. “O cara que matou a minha mãe, ex-marido dela, ainda está por aí. Fizeram nada”.

Diretos
Hoje, contudo, ela não pensa para trás. “Eu olho é pra frente”. E pra frente há Vítor Júnior, Vitinho para todos na academia, que o conheceram desde o começo dos treinos de Manuela, quando ele tinha quase um ano. Hoje, ele tem três anos, um par de ombros sólidos e soca o ar com as luvas da mãe. O quadro é comum a muitas das meninas que vêm aqui, apesar da doutrinação constante nas rodas de conversa que são parte obrigatória do projeto. Há uma boa lutadora que ainda está se recuperando do parto, querendo voltar, e outra, Juliana, a blusa amarela esticada pela barriga de sete meses e o decote estourando de leite. Depois, já virou rotina aqui, as crianças ficam no carrinho enquanto as mães treinam. Há vários protetores peitorais no vestiário.

Vítor pai é um dos monitores do projeto, boxeador também, e já foi vítima dos diretos do filho. “Ele já tirou sangue do nariz do Vitor”, diz Manuela, rindo. “Duas vezes!”. A relação de Manuela com Vitor começou antes do boxe, já com a gravidez de Vitinho, e passa por altos e baixos. Moram juntos mas, como diz Manuela, “vão e vêm”. Leriana, a coordenadora do projeto, diz que, na verdade, “esses dois se amam”.

O papel dos coordenadores do projeto é fundamental. Leriana e Mirian falam com um e outro, dão conselhos, broncas. Vão muito além da gerência de uma academia de boxe, das vagas pra arrumar em escolas próximas e das colocações em empresas que colaboram – não muitas, diga-se a verdade. Segundo elas, é esse trabalho miúdo, quase invisível, que determina se o projeto funciona ou não. “Não dá pra gente pensar só como um ginásio de boxe. Nossa prioridade aqui é que eles estudem. Mas é difícil manter o cartel. Muitos saem porque precisam estudar ou trabalhar. E, há pouco tempo, dois lutadores morreram”, explica Leriana, pra acrescentar, técnica: “projétil de arma de fogo”.

Num canto, Manuela “faz sombra” no espelho, dando pulinhos e socando o ar. A guarda parece estar alta.

2.11.04

Jovens iranianos caem na gandaia

(publicado em NoMínimo)

“Lendo Lolita em Teerã” começa de forma prosaica. Azar Nafisi, sua autora e personagem principal, busca livros para a aula de literatura inglesa. Gatsby? Não. Lolita? Semana que vem talvez tenha uma cópia. Talvez. São todos autores proibidos, mas ela só pensa em conseguir os livros que, em breve, serão discutidos com uma pequena classe de alunas, em sua casa, algo clandestinamente.

É exatamente nesse trânsito entre prosaico e político – a política vivida mais rente ao chão, longe de idealismos e clichês – que “Lendo Lolita...” interessa. Por isso e porque concilia o dito “rente ao chão” com uma nada rasteira reflexão sobre o papel da arte na vida das pessoas: a metáfora de Lolita como sendo, essencialmente, qualquer ser humano vivendo sob o autoritarismo. O destino parece ter empurrado Azar Nafisi para esse jogo entre o rasteiro e o mais alto.

De uma família de intelectuais, voltou para o Irã logo depois da revolução. Saiu de lá nos anos 90, quando um cheiro de reforma parecia se apresentar - contramão que uma simples explicação não resolve, mas algo de que o livro dá conta com graça. De seu exílio voluntário em Washington, a escritora conta, por telefone, seu périplo através de uma revolução, um exílio e 50 semanas na lista dos mais vendidos de “The New York Times”, e garante que as festas da juventude iraniana hoje fazem tanto parte do jogo político quanto os protestos de sempre: “Esse é o campo de batalha”.

Não há uma certa ironia no fato de “Lendo Lolita em Teerã”, que começa mostrando sua busca frustrada por livros, poder ser achado, ser quase um best-seller, em toda parte?
Mesmo em Teerã cópias xerox são passadas de mão em mão! Que posso dizer? É a grande ironia da coisa. Mas veja, de certa forma, isso prova um ponto fundamental de “Lendo Lolita…”: as narrativas têm muito poder, muito mais poder do que a realidade. O que não consegui no Irã, consegui falando do Irã. A ficção é incontrolável, imperiosa. A ficção suplanta a urdidura da realidade porque só opera dentro da lógica que ela mesma estabelece. Ela rói o real.

Como a senhora descreveria a situação atual? Segundo a imprensa, o governo está duro como sempre. No entanto, quando se conversa com iranianos – principalmente os jovens –, ouve-se que o regime anda mais calmo no último ano e meio. Contam até que a polícia de costumes está aceitando subornos para deixar festas mistas correrem soltas.
A situação é arbitrária, não há dúvida. Como eu digo no livro, tudo são momentos de estiagem no meio do temporal. É verdade, as pessoas sentem menos medo agora, ainda que haja repressão. Um dos meus estudantes aqui de Washington voltou do Irã agora e disse que o regime está endurecendo de novo. O melhor é que os jovens de agora têm menos capacidade de sentir medo, esse medo que nos faria obedecer e nos esconder num mundo privado, interno. Esses jovens, que o regime chama de filhos da revolução, eles vão para a cadeia desde muito cedo – e por uma mecha de cabelo que sai do xale, por usar batom, por ouvir música americana. Eles perderam o medo.

Quais as conseqüências dessa falta de base popular do regime?
São duas: a principal é que agora há constantes divisões dentro do governo, gente que acaba se juntando aos setores independentes e assume uma posição crítica poder constituído. O segundo efeito, todavia, é que os setores duros do regime, bem, eles estão mais duros e fortes, tentam se agarrar ao poder. Fazendo um balanço, eu diria que o Irã é muito avançado em matéria de instituições culturais e sociais. São muito sólidas e resistiram a 25 anos de revolução. Dito isso, e lamento completar com o que vou dizer agora, acho que alguma dose de violência será inevitável. O regime achou que moldaria os filhos da revolução e uma forma que sabia que não conseguiria conosco – sempre fomos considerados casos perdidos (risos). Mas esses garotos não se moldaram aos “pais”, ou seja, ao regime. Eles estão se rebelando.

Mas que rebelião é essa que não se vê tanto nas ruas?
Não é nem algo institucionalmente político, como era com a minha geração, embora o seja de uma outra forma. Esses meninos não tiveram direitos individuais. É isso que eles querem, esse é seu campo de batalha. Claro! Liberdades individuais são impossíveis nesse regime.

Como se dá essa luta?
Veja as festas. Festas mistas, com álcool e sabe-se lá mais o quê (risos). São coisas que fico sabendo através de meus alunos e ex-alunos… Dávamos festas nos anos setenta, havia esse espírito, mas as festas de hoje são coisas que nunca imaginei (risos)!

Mas não há um perigo em reagir assim, uma certa inconseqüência?
O pior perigo é entrar nessa espiral de simples reação. Querer tudo que eles não te dão. Temos de ser mais críticos, ver coisas boas e ruins. Me lembro de quando deixei o país, uns sete anos atrás: eles não eram tão críticos como a minha geração foi. Víamos os EUA, por exemplo, de uma forma muito mais questionadora, a religião de uma forma mais branda. Hoje eles acham tudo que é americano maravilhoso e têm horror a religião, a coisa acabou trabalhando no sentido contrário ao desejado pelo regime. E nem acho que seja necessário, embora ache horrível quando a religião vira ideologia, como é nosso caso. O que quero dizer é que a pura reação é muito perigosa. Veja o que aconteceu com o fim da União Soviética!

Como vão suas alunas do grupo de estudo retratado em Lolita?
Duas delas estão aqui nos EUA e é bom vê-las dando conta de si mesmas. Uma coisa que acho muito curiosa é que esses meninos, quando vêm para cá, entendem melhor ainda esse ideário americano de cultivo da liberdade e busca da felicidade. Como o batom, o namorado, tudo leva à cadeia lá no Irã, eles parecem muito mais preparados a ver esses ideais por inteiro, valorizá-los quando estão aqui. Elas sabem o que é – adoro essa expressão e a usávamos muito em Teerã – a busca pela felicidade. Não se pode encarar essa tarefa de forma superficial, rasa, como vejo muitos jovens americanos fazerem. Há pessoas que morrem por isso em alguns lugares do mundo. A felicidade não é assistir a reality shows e Britney Spears.

Para quem saiu de um regime em que a dimensão pessoal é tão reprimida, a onda dos realities não chega a ser um choque bem-vindo, uma exposição do pessoal que é impossível lá?
Olhe, gosto das sitcoms porque posso ver a imaginação de alguém ali. Há alguém por trás daquilo, e isso é inegável. Mas, nos realities, me incomoda essa dimensão voyeur, abelhuda, que é praticada. E todo mundo está nisso: Donald Trump, Paris Hilton…

Muitos traçam um paralelo entre essa exposição do pessoal nos realities e a que acontecem nos blogs de Internet. Seria a manifestação de um interesse contemporâneo pelo comum, pelo cotidiano.
Mas acho que há uma enorme diferença! Nos blogs, você não vê a pessoa, não há essa dimensão corpórea. Também há uma interface ali que não é só gráfica, é criativa, constrói-se algo ali. Presto cada vez mais atenção nisso. É uma ferramenta genial, que pode ser usada ou abusada, como todas, mas me encanta o uso que ela pode ter para se discutir e debater coisas. Os iranianos estão ocupando esse espaço, usando a Internet como fórum para discutir o privado. É fundamental discutir o privado com os outros. Assim como a democracia, os direitos humanos. Isso tem de passar também à esfera pública, principalmente no Irã.

Mas os blogs são o bastante?
Não, você também precisa da presença física. Precisa-se estar lá. É diferente. Mas é uma saída intermediária. Os blogs são muito úteis, são um lugar onde o regime não entra. O ruim é que em algum momento você precisa passar da discussão para a prática. Aí é que acontece a frustração, porque você acaba vivendo numa terra de sonhos. As aulas retratadas no livro eram assim também. Mostrávamos nossas roupas umas para as outras, discutíamos amores, debatíamos política. O mundo fora do quarto passava a ser quase irreal, etéreo para nós. E o baque, quando “voltávamos”, era sempre enorme.

De volta ao mundo real, novas eleições presidenciais acontecerão no Irã em breve. Em 2001, você disse que seria bom que os iranianos, mesmo os jovens, votassem em Mohamed Khatami para verem que ele não mudaria nada. Que o voto, em última instância, não mudaria nada.
As pessoas já mostraram esse desencanto com os reformistas nas últimas eleições parlamentares. A fé no voto está indo embora, se desmanchando. Espero que a fé numa saída pacífica, gradual, em direção à democracia não desapareça junto. Khatami me desapontou muito: falsificou uma suposta reforma desenhada para não mudar nada. Há outros fatores: a juventude quer festa, alguns se preocupam em ganhar dinheiro, não é “política” per se. Tem, claro, um fundo político, mas o voto não é mais tão importante na atual conjuntura.

O que se fez das meninas dentro do grupo de estudos?
A maioria está no exterior. Uma chegou aqui aos EUA mês passado. Uma está na Califórnia, outra no Canadá… uma virou editora. Editora em Teerã. Mas essa eu nunca achei que sairia do país. É Mashid.

Editar livros em Teerã não parece combinar com uma menina que era descrita pelas outras do grupo como feita de porcelana.
Estou muito orgulhosa por ela. É maravilhoso como ela agüentou toda a pressão vinda de cima, de seu chefe, da empresa, daquele entorno todo. Está publicando livros!

Seu trabalho é muito ligado ao de Marjane Satrapi, autora de “Persépolis”. A senhora vê esses paralelos?
Ambas narramos. Narramos a distância, em mais de um sentido. Eu, por exemplo, não queria que “Lendo Lolita...” fosse tanto uma memória minha quanto acabou sendo. Já Marjane impõe essa certa distância de um jeito fabuloso, com aquele humor ácido. E de forma altamente inesperada, tanto no Irã, onde sequer se considera fazer quadrinhos com aquela profundidade, como aqui no Ocidente. Há um problema com a maioria dos livros sobre o Irã. É que eles são – todos – muito sérios e sisudos. E Marjane escolhe justo os comics para retratar aquelas situações aterradoras. É sensacional.

O uso do humor torna a situação mais real?
Sim, claro. Ocorre um fenômeno curioso: as pessoas que me entrevistam geralmente têm muita dificuldade em lidar com isso, com o humor e com situações intermediárias. Eles querem juízos. Me perguntam: “Mas a situação no Irã vai melhorar ou piorar?”, “O regime é bom ou mau?”. E a coisa, definitivamente, é muito mais complicada.

Como assim?
Houve um caso espetacular, o da comédia “O lagarto”, um filme sobre umladrão que se faz passar por um clérigo. As autoridades do país deixaram o filme ser feito, mesmo sabendo do que se tratava. Então, quando a comédia estreou, com aquele conteúdo explosivo, abriu-se uma polêmica enorme. Proibiram o filme. Mas aí é que ele fez ainda mais sucesso! Todos queriam
saber que comédia era essa.