Segue uma breve entrevista que dei ao bacana programa Trans, sobre arte contemporânea (sim, me consideraram autor de tal coisa), quando estava na oficina de roteiro do Festival de Berlim. Começa lá pelo terceiro minuto.
Relevem a cara de sono e o tom lacônico. Nevava, era cedo, já estava no oitavo dia de festival e a cerveja alemã tende a ser boa. Talvez explique também o fato de que eu me esqueci completamente de ter dado essa entrevista.
Ah, os festivais...
6.6.09
Desde Berlim, hace tiempo
29.11.08
Fragmentos mexicanos

"Guey, tinha um lugar aqui perto onde a minha mãe falou que tinha José Cuervo barata..."
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"Tem a tristeza de não ter, mas tem a de ter, também".
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E um homem de chapéu marrom e camisa meio puída, que navegava, meio bêbado, as pedras do calçamento da praça aqui perto. Levava pendurado nas pontas dos dedos um LP fora da capa.
24.11.08
No teatro com Malkovich

Desde que chegamos fomos quatro vezes ao teatro. Primeira peça, udigrudi de um autor catalão, anárquica, mas chata. Segunda peça, de um estimado autor mexicano, para lá de pretenciosa. Terceira, um clássico popularesco com suas três mil e tantas apresentações, deu pra rir, mas era boçal quase sempre.
Não ajuda muito a reputação das artes dramáticas mexicanas o fato de que a melhor vista aqui é baseada num texto de autor americano, com o diretor aí de cima se comunicando com o elenco mexicano em inglês. É fantástica.
1.11.08
Diga "ômmmm"

Nada estranho que festivais de cinema tenham números músicais na festa de abertura. Nada mais apropriado, portanto, que o 1º Festival Internacional de Cinema Budista da Cidade do México tenha essa estranha bandinha de monges galupa tibetanos.
Espero que os filmes tenham mais suingue.
5.10.08
Mi crisis, su crisis
Centro de Comunicaciones Palmeras, Bejucos
Esse era o título que sugeri aos editores da Folha para a matéria sobre como a crise americana está afetando a economia do outro lado da fronteira, no México. Para fazer a reportagem, viajei a uma cidadezinha perdida na Sierra Madre chamada Bejucos. Poderia ser no Brasil: vida em torno da praça central, onde também fica a igreja e a delegacia. Praticamente só há mulheres, crianças e velhos na cidade. Os homens foram para cidades maiores, sejam elas no México ou nos EUA. Posto agora o primeiro parágrafo e depois os textos completos. Eles já estão disponíveis no site da Folha, só pra assinantes (clique em "próximo texto" para ler todos"):
"Griseldas Solís, 33, faz sua parte: penteia o cabelo para trás com esmero, aplica uma grossa camada de sombra cor-de-rosa nos olhos para combinar com a blusa e os brincos chamativos e se posta o dia inteiro à frente da Boutique MexUSA, numa das esquinas da praça central de Bejucos, cidadezinha de três mil habitantes na Sierra Madre mexicana. Não adianta: poucos aparecem para comprar as blusas decotadas e coloridas que acarpetam as paredes da loja. Não há dinheiro circulando na cidade. A culpada tem as mesmas cores das unhas azul-branco-escarlates de Griseldas: a crise econômica dos EUA, que está batendo duro nas remessas enviadas de volta para casa por imigrantes mexicanos legais e ilegais."Na Folha, a foto que ilustra é a de Griseldas, mas aqui preferi pôr outra, de uma casa de câmbio onde se recebe dinheiro vindo dos EUA. No fundo, são fotos da mesma coisa: a espera. Mais fotos de Bejucos aqui.
Atualizando: a matéria como saiu na Folha está aqui.
3.10.08
Tutti buona gente

"Um coveiro fracassado?"
Acabo de voltar da Itália, mais especificamente da ilha de Salina, na Sicília, ali perto de Stromboli e do Etna, onde aconteceu o SalinaDocFest, festival de documentário narrativo organizada por Giovanna Taviani (filha, adivinhou, de um dos Irmãos Taviani, Vittorio). O lugar é o sonho de qualquer festivaleiro, não apenas pela ilha ser uma delícia, mas porque o festival apresenta um ótimo panorama da produção documental italiana – que, infelizmente, não chega muito aqui na América Latina. Personal Che, junto com a produção francesa Barcelona ou morrer dirigida pelo senegalês Idrissa Guiro, eram os únicos filmes não-italianos da mostra.
Um tanto por conta das predileções de Giovanna, mas também pelo fato de a Itália estar ligada ao Terceiro Mundo pelo Mediterrâneo, uma das tônicas do festival são os filmes sobre migrações e êxodos. O resultado são diversos filmes extremamente políticos e de denúncia. O vencedor unânime do festival, Como um homem sobre a terra, de Dagmawi Yimer, fala das prisões líbias em que migrantes etíopes a caminho da Itália são detidos, torturados e às vezes mortos – tudo graças a um rentável acordo entre Silvio Berlusconi e o coronel Muamar Khadaffi. O filme aliás, ganhou o prêmio Finesta sul Brasile e passará na Mostra de São Paulo desse ano.
Apesar do tom político do festival como um todo, preciso confessar que a proposta que mais me agradou – tem também o melhor personagem – foi a do documentário Pinuccio Lovero, sonho de uma morte de verão, dirigido por Pipo Mezzapesa (acima na foto, comigo e a produtora brasileira Beth Formaggini – Pipo é o bonitão). É a prova de que documentário é uma forma de fazer filmes e não um gênero. O gênero dessa pérola, não há dúvida, é a comédia. O filme conta a história de Pinuccio, que aos trinta e tantos decide largar seu emprego para trabalhar como coveiro. Seu grande problema: ninguém morre. O filme registra exatamente sua angustiadamente divertida espera por um cadáver.
O tom, já se pode perceber no trailer, é farsesco, e em nenhum momento o filme se arroga uma autenticidade simulada em planos longos e tempos mortos – algo coerente com a carreira de Mezzapesa, que até esse filme fez apenas ficção. Há um subtexto político? Em se tratando do país com o maior índice de gente na terceira idade, sim, sem dúvida. Mas a questão é só o pano de fundo para um personagem que, antes de mais nada, está ali representando apenas a si mesmo. Enquanto não passa no Brasil (se é que passa), aí vai o trailer.
1.10.08
Chegando cansado

Madri (eu acho)
Este documentarista declara para todos os fins que depois de uma van (40 minutos), um barco (duas horas, três paradas), um ônibus (duas horas), um vôo Catania-Roma (uma hora), um vôo Roma-Madri (duas horas e meia) e um Madri-Cidade do México (10 horas e meia) está relativamente cansado e não se responsabiliza pelas besteiras que falar hoje na primeira projeção de Personal Che durante o festival de documentários mexicano DocsDF. Agradeço a paciência do público pela dose extra de bobagens que certamente serão ditas sobre Che Guevara, América Latina, carisma, política e o século 21.
25.9.08
Metaturismo

Não sei se é a confirmação da velhice ou a influência de Guillermo Fadanelli, de quem acabo de ler um livro apropriadamente chamado Malacara, mas é a primeira vez que venho a Roma e, apenas três dias depois, já estou grato de ir embora. Por que? Simples: Roma se tornou uma cidade perfeita para ver... turistas.
Não há um único maldito lugar (estou exagerando; há, mas vamos adiante com esse argumento) em que se esteja a salvo deles. Eles, os turistas, como pulgas. Daí que observo o que há para se observar:
• Nossa economia vai realmente bem. Há brasileiros às pencas aqui. Quase todos de São Paulo ou do Sul.
• É interessante notar a diferença entre mochileiros de países desenvolvidos e os turistas latino-americanos que se hospedam nos albergues baratinhos. Enquanto que os europeus vivem aqui do lado e não gastam muito para vir, para os brasileiros, qualquer viagem à Europa é uma jornada de tempo e dinheiro. A consequência disso é que os filhos dos países desenvolvidos têm a aparência de mendigos e os brasileiros, de semilordes. Têm jeito não de quem se lança no mundo atrás de alguma coisa, mas de gente disciplinada, CDF, que guardou dinheiro comportadamente até conseguir o suficiente. Nada surpreendente, mas melancólico que só.
• A “gente di Roma” é um ton sur ton que vai do preto nigeriano até o amarelo chinês, passando pelo marrom paquistanês. Te servem café, sorvete, pizza, canolli e se servem, também fazem. Suponho que os romanos foram para a Grécia, como é desejo há muito tempo. (observo: nada contra nigerianos, pakis e chinas; apenas apontando o dado demográfico; na verdade é das poucas coisas que restam de interessante na cidade; são os únicos estrangeiros suportáveis)
• Agora não são só os japoneses que vêem o mundo através de suas câmeras. Ninguém mais anda passeando. Todos, aplicados, com cara de dever de casa. Os adaptadores para tomadas daqui, diferentes, acabaram em todas as lojas da cidade (é mentira, mas também é verdade). Ninguém vê os lugares, apenas põe na frente da câmera digital. É incrível a insatisfação das pessoas quando entram na Capela Sistina e são informados de que não podem tirar fotos, mesmo sem flash. Se a eletricidade acabasse, acho que todos iam embora (anote essa, Berlusca).
• Turista de pacote sempre foi assim: um ou uma coroa elegante na frente falando o que se está vendo e gente mais velha de calça curta e meia comprida (branca) seguindo. Agora há inovações: eles têm anteninhas com números de referência para evitar que um cordeiro se perca a outro rebanho. Além disso, os prisioneiros do número 2290, 4368 e 237 já dispõe de auriculares privados. O ou a coroa da frente vai cochichando em tom agradável o que está sendo visto. Acabou-se aquela diversão tão urbana de pegar carona na visita guiada do alheio. Isso contribui para a ignorância, aviso: consegui saber muito pouco sobre os Tintoretos na Pinacoteca do Vaticano.
Resumindo: os romanos não agüentam mais os turistas (essa novidade tem uns 300 anos) e eu tampouco. Minha proposta: mandem às favas os 10% do PIB que ganham com essa gente e fechem a cidade como Fernando de Noronha. Já tem um muro cercando o principal, é só pôr metralhadoras e gente com pouco critério e paciência nas portas. Levando em conta que vi em diversas lojinhas cuecas samba-canção estampadas com a cara do Mussolini, haverá muita gente disposta ao ofício. Entram 50 estrangeiros de cada vez. Dane-se o Tratado de Shengen. Com a cidade vazia, o silêncio volta, e a solenidade que é a pedra dos monumentos volta a existir. Do contrário, vote Nero para prefeito.
*PS: A primeira foto do post é da Fontana de Trevi. Só me ocorre dizer: “Anita, cadê você?”
19.9.08
Casas provisórias por aí
30.8.08
Em marcha

Saiu hoje minha primeira reportagem mexicana para a Folha de São Paulo (apenas para assinantes, aqui). Fala sobre a onda de violência que o país vive, razão de uma enorme marcha até a praça central da capital, o Zócalo. Um trecho:
"Ontem, o país acordou com a notícia de que o crime organizado havia decapitado 12 pessoas em Mérida, capital do Estado de Yucatán. Hoje, milhares de mexicanos em todo o país e em cerca de 30 cidades ao redor do mundo sairão às ruas de branco e velas na mão com o objetivo de pedir um basta na violência. Céticos apontam que mobilizações anteriores do tipo não tiveram resultado."Como dá para perceber, a matéria foi escrita antes da marcha, avaliando suas razões e a (pouca, na minha opinião) chance de gesto desse tipo mudar alguma coisa. Não deu para incluir muita coisa interessante, como boa parte da análise do cientista político Guillermo Zepeda, que aponta que o pico de violência atual tem a ver com a transformação do narcotráfico do país. Antes o México era um corredor de transporte. Hoje, virou mercado consumidor. É interessante acompanhar como os mexicanos estão lidando com o problema do tráfico e da violência exatamente porque dá para fazer muitas pontes com o caso brasileiro. Outro dia escrevo um pouco mais sobre isso.
Agora basta dizer que uma ou outra pessoa que não pôde ir à marcha acendeu sua velinha a porta de casa, que o enorme Zócalo se encheu de gente bem intencionada – e que é pouco provável que isso comova governo ou bandidos.
24.8.08
D.F.

CIDADE do MÉXICO – México, berço da civilização maia, sua capital selvagem, seu trânsito caótico, sua poluição sufocante, sua rica tradição cultural...
Sinceramente: alguém ainda agüenta isso?
Nos próximos três meses e meio estarei (confortavelmente) instalado na capital do México com algumas missões: apresentar Personal Che num festival de documentários da capital, o DocsDF, escrever algumas reportagens para veículos brasileiros (se você for um editor, conte comigo), eventualmente colaborar com revistas locais e, finalmente, concluir um roteiro há muito interrompido. Entre coisa e outra, me divertir: ler os (muitos) novos autores, encontrar os (poucos, ainda) conhecidos, provar os (infinitos e estranhos) pratos locais, conhecer os (ótimos) cineclubes e visitar cidades e países próximos – ocasionalmente e sempre que possível na companhia de uma adorável sábia de 31 anos que devora esse país com uma fome de dar inveja. Idealmente, o trabalho vai caminhar junto da diversão. Não há porque ser distinto.
A mais complicada das tarefas por aqui, perpassando todas, sem dúvida será navegar ao largo de clichês e explicações de uma linha. Se for seu gosto, volte sempre. Sabe como é, mi casa es su casa.
11.7.08
Estréias revolucionárias
Na fila do Cine Yara, 2006
Do Granma, jornal oficial cubano:
"Desde ayer y hasta el 16 de julio en los cines de estreno de la capital el Instituto Cubano de Cine e Industria Cinematográficos (ICAIC) presenta una variada programación. En las salas Yara y Acapulco se exhibe Personal belongings (Cuba-Bolivia, director Alejandro Brugués); en el Payret El cantante (The singer, EE.UU., director Leon Ichaso) y El ojo (The eye, EE.UU., directores David Moreau y Xavier Palud); en los cines Alameda y Ambassador El señor Magorium y su tienda mágica (Mr. Magorium’s Wonder Emporium, EE.UU., dirigida por Zach Helm)."Enquanto isso, Alfredo Guevara, diretor do Festival de Havana, diz que o Che de Soderbergh só passa se não tiver ataque a Fidel. Ele ainda não viu o filme.
7.4.08
De volta a essa terra
De escassa importância para quem quer que seja, mas hoje faz um ano que deixei Bogotá para voltar ao Rio. A tudo e a todos que aconteceram lá, uma música e essa foto.
30.5.07
Escritórios provisórios
22.5.07
Escritórios (e casas) provisórios(as)

Casa del Telegrafista, La Higuera, Bolívia. 50 pesos bolivianos cada um dos (três) quartos, sem eletricidade (note a lâmpada solar), com banho quente (água mineral aquecida a gás), comida vegetariana. O uso da biblioteca especializada em Che Guevara e a simpatia de Juan, Oda y Ivana Pelito Azul estão incluídos. A serviço, apurando isso aqui.


