3.8.08

Il Che

O único país que rivaliza com Cuba em idolatria a Che é a Itália. Por isso, nada mais natural que nosso primeiro festival europeu seja o SalinaDocFest, dedicado exclusivamente a documentários narrativos e que acontece no final de setembro na ilhota de Salina, no sul do país. O festival não poderia ter mais pedigree: é dirigido por Giovanna Taviani, filha de Vittorio e sobrinha de Paolo, e acontece no arquipélago das Eólias. Um pouquinho mais ao norte, cercada de mar, está a principal personagem da obra-prima rosselliniana, Stromboli.



Para deixar tudo melhor, lá me encontro com Beth Formaggini, diretora do premiado Memória para uso diário, que fará parte do júri. Tudo dentro da chamada Finestra sul Brasile, uma colaboração do festival com a Mostra de São Paulo, de León Cakoff.

16.7.08

Hecho en Mexico

La treintañera más formosa e bem informada desse lado do Rio Grande começa a blogar a partir de hoje num sítio de nombre por demás esquisito (con trocadillo): Farofa de Nopal. Em breve, desde México.

Auguri!

Na dúvida



O blog e seu autor estão encafifados. Será verdade, no fim das contas?

11.7.08

O Che de Teerã



Difícil não notar a semelhança entre o cara na foto acima e nosso amigo argentino. Vai além da imagem, diga-se: depois de aparecer nessa capa da Economist nove anos atrás como um símbolo de uma nova revolução liberalizante no Irã (que não aconteceu), Ahmad Batebi passou o pão que o aiatolá amassou nas prisões do país. Tentaram desfazer o ícone na porrada. Pois bem: Batebi está livre. Não se sabe como, conseguiu fugir do país e foi pra Washington. Diz que em breve revela todos os detalhes de sua saga, fotografada com o celular que o acompanhou na cadeia, em seu site.

A ver se não se decepciona com a nova casa.

Estréias revolucionárias


Na fila do Cine Yara, 2006

Do Granma, jornal oficial cubano:

"Desde ayer y hasta el 16 de julio en los cines de estreno de la capital el Instituto Cubano de Cine e Industria Cinematográficos (ICAIC) presenta una variada programación. En las salas Yara y Acapulco se exhibe Personal belongings (Cuba-Bolivia, director Alejandro Brugués); en el Payret El cantante (The singer, EE.UU., director Leon Ichaso) y El ojo (The eye, EE.UU., directores David Moreau y Xavier Palud); en los cines Alameda y Ambassador El señor Magorium y su tienda mágica (Mr. Magorium’s Wonder Emporium, EE.UU., dirigida por Zach Helm)."
Enquanto isso, Alfredo Guevara, diretor do Festival de Havana, diz que o Che de Soderbergh só passa se não tiver ataque a Fidel. Ele ainda não viu o filme.

10.7.08

Sobre os diários de Che



Correu pela imprensa a notícia de que diários da campanha de Che na Bolívia foram divulgados e que serão em breve publicados por uma editora local. Rumora-se que Fidel Castro vá fazer um prólogo. Tudo balela. Não há página do diário de Che que não seja de conhecimento público. E Castro já escreveu seu prólogo 40 anos atrás.

Logo depois da execução de Che, em outubro de 1967, todos os pertences sem importância foram divididos entre os soldados bolivianos. Um gordinho em Santa Cruz de la Sierra chegou a me oferecer uma agulha de costurar couro que, diz ele, teria sido de Che. Os que valiam alguma coisa, claro, ficaram nas mãos do governo.

No começo de 1968, Fidel Castro escreveu o prólogo daquela que seria a primeira edição dos diários de Che. Foi um estouro de vendas. Ainda hoje é possível encontrar a edição original em sebos cubanos, talvez um dos livros mais populares na ilha junto com a Bíblia, Diário de um Mago e Fidel e a religião. Inicialmente, o governo boliviano disse que se tratava de uma fraude, o que logo foi desmentido por diversos jornalistas que tiveram acesso às cópias fotostáticas de algumas páginas fornecidas por Havana e La Paz. Ensandecidos – já haviam acertado um acordo milionário com uma editora americana para publicar o livro – os bolivianos se perguntavam quem havia dados os originais a Castro.

Um deles próprios: Antonio Arguedas, ministro do Interior. Cansado de ver a ingerência da CIA nos corredores palacianos, decidiu se bandear para o lado dos cubanos. Ao que consta, fez as cópias microfilmadas chegarem a Havana escondidas na capa de um LP de Mel Tormé. Meses depois, incumbiu dois amigos de levarem um pote de formol com as mãos de Che para a ilha. Coisa de Graham Greene.

Arruinado o acordo – na época o interesse sobre o conteúdo dos escritos não incluía o fetichismo de ver com que garrancho Che os escreveu – os diários foram para o Ministério da Defesa para juntar poeira. Nos anos 80, sumiram, quase foram a leilão na Sotheby's, mas o governo conseguiu impedir a venda. Desde então, um sem número de historiadores e biógrafos puderam folhear os diários. Chega a ser engraçado que o envelope que os continha tenha um "SECRETOS DE ESTADO" escrito de fora a fora. Há pelo menos dez anos, o boliviano Carlos Soria Galvarro edita anualmente uma coleção de seis fascículos em que não só exibe diversas páginas manuscritas como as contextualiza, citando diários de companheiros de guerrilha, do Exército e outros. Todos os anos, em outubro, sai junto com o jornal La Razón.

Resumo: ainda que a editora boliviana queira fazer você acreditar que está comprando algo novo, não seja bobo. O bom e velho (e melancólico) diário de Che na Bolívia já está à venda nas melhores casas do ramo. Você também pode folheá-lo online, ainda que a viúva, Aleida March, tenha tentado retirar do ar as versões digitais graças a um bom acordo com uma editora australiana.

7.7.08

Crimes e castigos

O propósito da fé de leões e pretos velhos




(Publicado originalmente na Piauí 22)


Quando Afonso Henrique Alves Lobato abriu a porta daquele sobrado no Catete, no Rio, e subiu correndo a escada até o 2º andar, esperava encontrar nada menos que um demônio - ou vários -, mas o que encontrou foram apenas imagens de devoção. No centro de um altar estava Jesus Cristo, rodeado por Santa Bárbara, Nossa Senhora da Conceição, São Jorge, São Sebastião e Santo Antônio; no chão, uma grande estátua de São Lázaro. Ou, dependendo da orientação do devoto, Oxalá, Iansã, Oxum, Ogum, Oxóssi, Exu e, no chão, Omulu. Isso e mais diversas imagens menores de Iemanjá (ou Nossa Senhora da Glória), do cacique Cobra Coral (sem correlato na hagiografia cristã) e de pretos e pretas velhas (idem), algumas com quase oitenta anos de vela e reza nas costas.

Afonso Lobato começou a atirar as imagens no chão. Dominique Pereira, sua amiga de fé, completava o serviço, esmigalhando os cacos com os pés. Raimundo Pessoa e Alessandro dos Santos, que demoraram mais para subir a escada, não tiveram tempo de ajudar os companheiros a levar a cabo a obra de Deus. Os santos já eram pó.

A confusão se instalara minutos antes, quando os quatro, freqüentadores da casa evangélica Geração Jesus Cristo, começaram a fazer proselitismo na fila de aflitos que esperava diante do Centro Cruz de Oxalá. Lobato, segundo relatou, disse aos umbando-kardecistas que, ao invocar santos, eles estavam na verdade chamando o demônio. "Maria Mulambo nunca fez nada por eles, o Tranca-Rua não morreu por eles. Jesus morreu na cruz. Falei que eles ainda tinham chance de se salvar, mesmo sendo espíritas. Tudo sem impor nada, sem gritar nada", diria mais tarde.

A destemperança foi deflagrada quando um dos não-salvos inverteu o jogo. Declarou que levaria o nome dos crentes para o terreiro, presumivelmente para que fossem objetos de um trabalho. Lobato não estava para ecumenismos. Com idéias nada cristãs na cabeça, tocou a campainha e, inadvertidamente, alguém lá dentro puxou a cordinha que abre o trinco. Em questão de segundos o andar de cima estava forrado de cabeças de santo e de pretos velhos decapitados. Meia dúzia de senhoras seguravam o espanto entre as mãos.

Depois de bater boca com um senhor que, "além de pai-de-santo, ainda era homossexual", como lembrou Lobato, o grupo quis ganhar a rua. Os quatro desceram a escada estreita, mas a tranca emperrou. Encurralado ao pé da escada, o quarteto só viu a calçada quando a porta foi aberta por fora. Lá estavam vinte umbando-kardecistas furiosos, além de quatro policiais e duas viaturas.

Na delegacia, os jovens não pareciam arrependidos e reagiram estoicamente ao serem enquadrados nos artigos 147 (ameaça), 163 (danos ao patrimônio) e 208 (ultraje a culto) do Código Penal. Enquanto o grupo depunha - "O diabo estava naquela casa!", disseram -, o pastor da congregação, Tupirani Lores, tentou em vão conter a curiosidade dos jornalistas. "Eles não iam fazer isso do nada, são pessoas pacatas e tranqüilas, exemplos na nossa igreja. Fiquei muito surpreso. Não incentivamos esse tipo de atitude. Só vou saber exatamente o que aconteceu no culto de amanhã."

A repercussão foi grande. Jornais populares puseram o caso na manchete principal da primeira página. Apresentadores de televisão franziram o cenho ao abrir telejornais com o assunto. Na Assembléia Legislativa, houve pendenga entre os deputados Átila Nunes, umbandista militante - "Queria ver fazer isso em Bagdá!" -, e Édino Fonseca, pastor da Assembléia de Deus, que contra-atacou em estilo vale-tudo: "Extremos existem também entre os umbandistas, como quando eles fazem sacrifício de crianças."

A comoção e o interesse duraram menos de 24 horas. Já naquela noite, quando o pastor Tupirani assumiu o púlpito da Geração Jesus Cristo, numa rua escura do bairro de Santo Cristo, atrás da Central do Brasil, o caso caminhava rapidamente para longe da pauta jornalística. Ninguém estava lá para ouvir o que ele tinha a dizer sobre o caso.

O pastor é um homem de bom porte, sem um único fio de cabelo fora do lugar. Sua presença cala imediatamente os fiéis. Embalado por um violão elétrico, ele canta a plenos pulmões o hino Nosso General, cujo refrão admoesta com vigor bélico: "O nosso general é Cristo/ Seguimos os seus passos/ Nenhum inimigo nos resistirá!"

Enquanto a música soava, ouviu-se o barulho de um objeto pesado que se chocava contra o telhado. É rotina, ninguém estranha. Tupirani trovejou: "O palhaço já está atirando pedras de novo! Mas atira escondido, porque é covarde. Nós já sabemos que ele é ligado à boca de fumo aí em cima. Se ele nos atira pedras, irmãos, nem faz idéia do tamanho da pedra que o Nosso Senhor Jesus Cristo vai atirar na cabeça dele. Amém?" (O pastor tem o cacoete de usar o amém - "assim seja", em hebraico - na forma interrogativa, como se dissesse: "Certo?")

Depois de imprecar contra o vizinho palhaço, Tupirani passou às leituras bíblicas. Dado o ocorrido, os incautos esperariam um bom Sermão da Montanha ou, quem sabe, a passagem em que se fala sobre oferecer a outra face. Não. O trecho escolhido trouxe o profeta Eliseu na guerra contra os sírios.

Todos os sermões de Tupirani podem ser comprados em CDs, a 1,50 real cada. Um de seus maiores sucessos é Guerra 1 e 2, obra em que pega fogo: "Jesus Cristo não veio a este mundo com bandeira da paz, amém? (Amém!) Jesus Cristo veio a este mundo com sangue. Sangue da guerra! Sim ou não? (Aleluia!) Jesus Cristo não veio a este mundo como pacificador. Não, não. Não veio. Quem é teu Cristo? É um Cristo de paz ou da guerra? Para mim, Jesus Cristo é homem de guerra!" O tom não varia muito ao longo de quase setenta minutos. Lembra um pouco Dick Cheney imprecando contra Sad-dam Hussein.

O pastor já foi da Igreja Universal. Foi também umbandista, espírita, batista e pentecostal. Resolveu abrir sua própria casa em 1999, quando saía do templo onde pregava e, segundo consta, se deparou com um anjo de aspecto abatido que o espreitava com um papel amarelado na mão. Era um mensageiro divino. Tupirani desdobrou o papel e leu nele a palavra "Restauração". Decidiu na hora que fora escolhido para trazer o cristianismo de volta aos trilhos.

Passado o furor iconoclasta contra o Centro Cruz de Oxalá, tanto o pastor como seu discípulo Lobato se mostram serenos. O protagonista do quebra-quebra diz que se arrepende do que fez, embora pouco se importe com a decisão do tribunal dos homens. (Será em agosto a primeira audiência do processo.) Tupirani, por sua vez, reafirma o que disse à imprensa no dia da confusão: não é um agente da intolerância, não instruiu nem incitou Lobato e colegas a fazer o que fizeram. O que não o impediu de proclamar, do alto do púlpito, poucos dias depois do ocorrido: "Como pastor, acredito que esse ministério não forma cordeiros. Esse ministério é para formar leões!" Não propriamente a mais dócil das criaturas, como se sabe.

4.7.08

Lustrando o ego

Não cabe negar que se faz cinema, também, para tratar bem do próprio ego. É por isso que uma crítica como a de Amir Labaki, diretor do É tudo verdade, publicada hoje no jornal Valor, economiza algumas sessões de análise:

"Não se trata de outro documentário biográfico sobre Guevara, mas sim de uma anatomia de seu mito póstumo, numa operação de desmontagem de mitologias contemporâneas. (...) Personal Che se destaca entre as estréias recentes de documentaristas brasileiros e sul-americanos por sua rara ousadia de transcender as fronteiras nacionais. O paroquialismo é um dos grandes grilhões da nossa não-ficção, sob a justificativa, não de todo enganosa, dos evidentes limites orçamentários à produção documental. Eis aqui uma prova de que, na era digital, é possível ousar mais."
Sobre esse último ponto: nosso acordo com os produtores não permite revelar o valor de produção do filme, algo que não me incomodaria em absoluto, mas apelando para o inuendo: Personal Che foi filmado em quatro continentes, blablabla, e custou menos de dois DocTVs.

Não somos os únicos a filmar assim, claro. O português Pedro Costa reza na mesma cartilha, o japonês Masahiro Kobayashi também e, em território nacional, há o projeto valente da Pax Filmes de fazer quatro longas por R$ 80 mil. Não há nada a unificar as propostas estéticas além do "vamos fazer". Basta custar pouco? Não. O primeiro pax-filme foi selecionado para Gramado, se isso diz alguma coisa.

Glória ao cinema barato!

Hitch(cock) & Tru(ffaut)



Lembram daquele livro maravilhoso contendo entrevistas de François Truffaut com Alfred Hitchcock que saiu por aqui em edição chique e caríssima? Pois agora você pode montar seu próprio Personal Hitch & Tru a partir das gravações originais, disponíveis aqui.

Adelante

Já terminou a festa pela libertação de Ingrid Betancourt? Pois bem, vamos varrer o merecidíssimo confete do chão e pensar para frente.

• Não há dúvidas de que a operação foi um sucesso. Mas de seus procedimentos surgem implicações: o governo disfarçou agentes como enviados de paz europeus, a ponto de treiná-los para falar espanhol com sotaque francês e suíço. Também divulgou nos jornais que esses enviados estariam no país. Como ocorrerá a mediação européia de novas libertações depois de França e Suíça terem colaborado silenciosamente com um golpe tão forte contra as Farc?

• É impressionante correr a imprensa colombiana e não encontrar quem questione o momento que Uribe escolheu para levar à frente a operação: em torno da visita ao país dos dois candidatos à Casa Branca. Não é demais lembrar que, além de Ingrid, havia três contratistas militares americanos nas mãos dos guerrilheiros. Todos – inclusive no Brasil – que são tão rápidos em criticar Hugo Chávez e até Lula por jogar para a platéia deveriam berrar agora também. Não é feito em palanque, não é berro em comício, mas se há um nome para o que Uribe fez essa semana com um assunto importantíssimo da segurança nacional de seu país, o nome é esse: populismo. Ainda que de forma sutil, presidente colombiano e o ministro da Defesa – ambos de olho nas próximas eleições presidenciais – jogaram com as vidas de 15 pessoas para ganho político. Mais: podem ter dado uma cartada definitiva (e fatal) no destino de quase três mil pessoas nas mãos das Farc. Não à toa, escolheram os reféns mais importantes. Custa acreditar que a elegância da Operação Jaque seja reeditada.

• Quem acha que os questionamentos não serão enterrados nas próximas semanas deve ter cuidado. Quando falam de política, os colombianos são os reis do desconversa. Não à toa uma pesquisa internacional chegou à conclusão que são um dos três povos mais felizes do mundo.

Comemoremos. Mas e se tivesse dado errado?

2.7.08

Zum! Paf! Bou! Zililit!

Quem conhece o programa Recorte Cultural, sabe que é uma judiação sacar uma pequena parte do todo e estragar a edição enlouquecida e divertidíssima que o programa liquidifica todo santo dia na TV Brasil (a isso se refere o título do post). Personal Che teve direito a suas duas moléculas de fama, mas mesmo assim decidi deixar algo do que veio a seguir: um pouco de Moacir Luz e um rabinho de um filme que... acabo de me esquecer como se chama. Amanhã completo o post com informações e, se possível, melhoro a qualidade (sofrível) do vídeo.


Recorte from Douglas Duarte on Vimeo.

En Mexico



Personal Che acaba de ser selecionado para a competição latino-americana do DocsDF, o principal festival de documentários do México. A mostra está em sua terceira edição e nas duas anteriores exibiu mais de 350 filmes de todo o mundo.

Outros dois filmes brasileiros serão exibidos: O último kuarup branco, de Bhig Villas-Boas, e Dreznica, de Anna Azevedo. Não vi o primeiro, mas vem com a chancela do É tudo verdade. O de Anna estreou em Berlim, passou no HotDocs... que mais dizer além de que gostei muito e de que você deve ver o trailer abaixo?



Saludos, congratulaciones a todos y ¡hasta Mexico!

Cinética

"Previsível, mas nunca desinteressante (...) compõe um painel rico (...) há abuso de poder".

Júlio Bezerra, um dos jovens turcos da crítica brasileira, analisa Personal Che.

Já era hora. :-)

A política, os líderes e a imprensa

Não é nenhum fenômeno sumamente novo, mas é interessante ver como a imprensa dos dois lados de um bate-boca vê de forma absolutamente diferente esse mesmo bate-boca. Aí vão as chamadas de hoje dos principais jornais de Peru e Bolívia, todos falando sobre a crise entre os dois países por conta da instalação de uma base americana em território peruano.

• Bolívia:
Los Tiempos: El canciller peruano amenazó con revisar su política de cooperación con Bolivia
La Prensa: Se agrava la crisis con el Perú porque García mandó a callar a Evo
La Razón: Alan García y Evo libran una guerra verbal subida de tono
El Diario: Perú revisará política de cooperación con Bolivia

• Peru
El Comercio: El Perú y Bolivia afrontan tensión por declaraciones del presidente Evo Morales
La República: Jefe del Estado exhorta a Morales a no intervenir en política interna del Perú
Correo: El Perú le frunce el ceño a Bolivia

30.6.08

Mulheres de atos

Às vésperas de completar mil anos com uma população estritamente masculina, quatro moças chegam ilegalmente à península de Santo Atanásio



(Publicada orginalmente na Piauí 22. A versão orgininal, mais extensa e apimentada, pode ser lida aqui)

Pouco depois da separação formal entre a Igreja Católica Romana e a Cristã Ortodoxa, o governo bizantino em Constantinopla determinou, em 1060, que a península - salpicada por diversos mosteiros cristãos - onde se levanta o Monte Atos, na Grécia, fosse livrada de todas as fêmeas, a começar pelas da espécie humana.

A partir daquele ano, os mais de 30 mil hectares daquela terra verdejante foram consagrados à louvação da Virgem Maria. Nenhuma fêmea deveria competir com a mãe de Deus, segundo o decreto do imperador Constantino Monomachos.

Fosse lavadeira ou esposa de pescador, fosse égua, vaca, cadela ou cabra, foram expulsas da península. Como o decreto ainda vige, de feminino, lá, resta apenas a suposta mão direita de Maria Madalena, algumas gatas para conter a população de ratos (de ambos os sexos), passarinhas (por desobedientes) e galinhas (porque a gema de seus ovos é necessária na pintura de ícones - ou seria difícil demais identificar o sexo de cada pinto?).

Foi nesse cenário varonil que desembarcaram, no último sábado de maio, cinco imigrantes ilegais da Moldávia. Eram um homem de 41 anos e quatro mulheres na faixa dos 20. Como a península fica na União Européia, buscavam oportunidades, emprego, direitos.

Em três dias, haviam percorrido 900 quilômetros.

Primeiro, foram por terra até a Ucrânia. Depois, pagaram quatro mil euros a atravessadores que, pelo estreito de Bósforo, os levaram do mar Negro ao de Mármara. Ali, cruzaram o mar Egeu nos Dardanelos e, finalmente, chegaram à península do Atos.

Foram encontrados nos arredores do atracadouro do mosteiro Megisti Laura, o mais antigo e maior dos vinte da península, construído a partir do ano de 958 por Santo Atanásio, o atônita, que morreu octogenário quando um tijolo lhe caiu na cabeça. Eles se esconderam numa praia pedregosa para evitarem denúncias e deixaram para o dia seguinte a decisão do que fazer. Num outro lugar, não seria complicado se misturar à multidão. Não é o caso do Estado Monástico da Montanha Sagrada, designação oficial da península, que é habitada por pouco mais de dois mil monges de longas barbas e batas negras. No dia seguinte, duas das moças foram avistadas por monges, que avisaram o inspetor de polícia da cidade vizinha de Tessalônica, Stergios Apostolidis.

Não era a primeira vez que mulheres entravam no bastião ortodoxo. A península recebeu centenas de refugiados gregos de ambos os sexos quando de uma revolta, em 1770, e novamente meio século depois, durante a guerra de independência. Todas foram expulsas assim que o perigo passou. No século passado, suas praias também foram visitadas por Aliki Diplarakou. Metida num hábito de monge, a Miss Europa 1930 (perdeu nas finais do Miss Universo, realizadas no Rio de Janeiro) passeou discretamente pelos mosteiros sem que ninguém percebesse sua beleza de 18 anos.

Submetidos apenas ao ministério das Relações Exteriores grego, o estado monástico é extremamente cioso de seus costumes e domínios. Monges e governo, em toda a Grécia, vivem às turras, já que a Igreja Ortodoxa é a maior proprietária de terras do país. Os moradores de Skyros, por exemplo, estão em pé de guerra com a congregação do Megisti Laura por conta de um projeto milionário que prevê a implantação de mais de cem ruidosas turbinas de energia eólica na pequena e preservada ilha. Na própria península de Atos, houve escaramuças no início do ano, quando 500 moradores do balneário de Halkidiki, seis deles mulheres, entraram em atrito com a polícia. Numa manifestação, eles alegavam que os monges estariam a empurrar a fronteira da península para dentro de suas terras.

Assim como as guerras, os costumes e o ambientalismo, também a questão migratória chegou para perturbar a rotina de reza e expiação do enclave.

Todos os dias, cerca de 1 400 imigrantes entram ilegalmente na União Européia. Países do Mediterrâneo - Espanha, França, Itália e Grécia, principalmente - são os mais visados. Na outra ponta da equação há nações africanas, asiáticas e do Oriente Médio. Mas também vizinhos europeus com a economia em frangalhos.

Nos anos soviéticos, a Moldávia se tornou uma economia de médio porte, com uma boa produção de alimentos e um razoável distrito industrial, o de Transnistria. O regime sovié-tico começou a ser desmantelado em 1989, e dois anos depois o governo moldávio em Chisinau proclamou independência em relação a Moscou.

Em alguns dias, Transnistria deu vazão a aspirações nacionalistas e se separou da Moldávia, levando com ele todas as indústrias (boa parte produzia rifles Kalashnikov) e suas receitas. Orgulhosamente independente, sem saída para o mar e incapaz sequer de produzir parafusos e dobradiças, a Moldávia se tornou um dos países mais pobres da Europa.

Hoje, seu maior produto de exportação é gente. Homens fortes para consertar banheiros na França e lavrar campos na Bélgica, mulheres bonitas para atender pedidos em bares da Itália, dançar nuas na Espanha e se prostituir na Rússia, Kosovo, China e nos Emirados Árabes.

O grupo que chegou à ilha dos monges está longe de ser uma exceção. Um quarto da população economicamente ativa não mora na Moldávia. A maioria dos que saem é de mulheres - e pelo menos 25% delas deixaram filho para trás. Não é improvável, portanto, que o destino das quatro jovens encontradas em Atos fosse, ainda que não soubessem, um prostíbulo.

Elas estão na "idade de corte", no linguajar das máfias que fazem tráfico de prostitutas. Fazem parte de uma população de aproximadamente 150 mil jovens que organizações humanitárias acompanham, para evitar a prostituição forçada e os abusos físicos e psicológicos.

A Constituição grega traz duas provisões para as mulheres de Atos. A primeira determina que imigrantes ilegais devem ser detidos por quarenta dias, e em seguida deportados para seus países de origem. A segunda diz que mulheres que violarem a segregação do Estado Monástico da Montanha Sagrada serão punidas com até dois anos de detenção. Mas pelo menos desse último pecado, os monges que as encontraram decidiram perdoá-las.

28.6.08

"Pecado", "manipulação"

Essas foram duas das palavras usadas pelo crítico da Folha Ricardo Feltrin para falar de Personal Che em seu videocast semanal sobre cinema. Segue o texto completo:

"Esse filme [Personal Che] faz uma interpretação do chamado arquétipo Che Guevara em várias regiões do mundo. O único pecado desse documentário, se é que podemos chamá-lo assim, é um breve trecho dele que tem um viés muito manipulativo. Esse trecho leva o espectador a uma comparação inexistente sobre as bases de luta do guerrilheiro argentino e a aberração chamada Adolf Hitler".
O videocast, se alguém quiser ver, é o que segue abaixo.



Não estou de acordo em absoluto com a caracterização. Na verdade, acho-a ingênua, ainda mais levando em conta que Che também é comparado a Cristo, a califas árabes e a Robin Hood ao longo do filme. Mas que isenção tenho? Deixo, portanto, o julgamento para o leitor: abaixo está a parte a que o crítico se refere.


Nazis from Douglas Duarte on Vimeo.

Quem quiser se manifestar tem nesse blog um foro aberto. Isso inclui a Feltrin, que está convidado a embasar suas tão peremptórias 60 palavras com quantas outras quiser.

Viva o debate!

26.6.08

Adelante, compañero Darwin!



De uma marca de camisas. É.

23.6.08

Disseram por aí

Uma rápida repassada no que se disse sobre Personal Che nas últimas semanas:

• Na Folha (para assinantes), Pedro Butcher faz o devido paralelo entre a idéia do filme e as idéias do francês Roland Barthes:

"Se Roland Barthes (1915-1980) estivesse vivo e escrevesse uma atualização para seu indispensável "Mitologias", publicado pela primeira vez em 1957, certamente incluiria um capítulo sobre Che Guevara. O documentário "Personal Che" pode não citar Barthes diretamente, mas é uma minuciosa análise da construção de um mito contemporâneo à moda do semiólogo francês. De forma complexa e multifacetada, o filme do brasileiro Douglas Duarte e da colombiana Adriana Mariño percorre o mundo para investigar as várias 'releituras' sofridas pela figura do revolucionário argentino."
• O crítico Ricardo Calil arremata dois bons textos curtos sobre o documentário. No Guia da Folha, ressalta o "ângulo inusitado" escolhido pelo filme. No seu blog, expande o conceito:
"Com [seus] personagens, “Personal Che” poderia ser apenas uma reportagem jornalística competente e curiosa. Mas ele torna-se um belo documentário nos momentos em que os diretores desconstroem a visão dos entrevistados sobre Che. Como na cena em que eles dizem à camponesa boliviana que Guevara era ateu e materialista, o que provoca um silêncio interminável. Ou quando mostra fotos de Che morto ao taxista cubano que só conhecia sua imagem de guerrilheiro destemido. Nesses momentos, “Personal Che” alcança o que poucos documentários conseguem: dar a seus personagens uma nova compreensão da realidade e registrar o exato instante em que isso ocorre."
• No Estadão, Luiz Carlos Merten escreve:
"No filme, Che é ídolo tanto de camponeses bolivianos e de jovens que ainda sonham com a revolução quanto de skinheads que o comparam a Adolf Hitler. Mais do que revelar a verdade por trás do mito, Douglas e Adriana seguem o caminho inverso e exploram o mito por trás da verdade.
• No Globo, o bonequinho de Carlos Alberto Mattos, mestre do obrigatório DocBlog, aplaude de pé e afirma:
"Muitos filmes já foram feitos sobre o mito Che Guevara, e isso faz arte do mito. Mas poucos têm a originalidade e o frescor desta atração."
• Nelson Gobbi, do JB, deu matéria e resenha sobre o filme. Nessa última, diz:
"O grande mérito de Personal Che é deter-se na imagem [de Che] e suas incontáveis variações, passando ao largo da história do guerrilheiro. Dessa forma, a dupla mostra como ela é apropriada em várias partes do mundo. (...) Evitando manipulações, o documentário registra a história sendo reescrita diariamente.
• Já para Alysson Oliveira, da Reuters, o mérito do filme é "levantar o debate e não se preocupar em desvendar Che Guevara":
"O que o filme nunca se propõe é desmistificar a figura de Che. Pelo contrário, os diretores trabalham questionando as imagens conhecidas e introduzindo algumas novas -- como um musical libanês que conta a vida do guerrilheiro, ou um político de Hong Kong que só usa camiseta com a foto de Korda, entre outros, ampliando o leque da discussão."
• Em outros lugares, Geo Euzebio, do CinePlayers, se pergunta "Como pensar sobre um símbolo que deixou de ser homem?" e me questiona a respeito da já famosa "pergunta do ateu"; Olívia Mendonça, d'O Dia, detalha os bastidores do filme; a Zé Pereira e a RollingStone comemoram a (breve, é verdade) carreira que Che deu nos blockbusters hollywodianos; Amanda Lourenço, da Revista de Cinema, diz que o doc "prova que Che Guevara ainda vive nos dias de hoje"; e finalmente o bizarricérrimo site da Agência FM Network - Notícias do Mundo crítica o filme por "manter a homossexualidade do médico-terrorista intocada".

O que dizer? Se soubéssemos que ela existia podíamos até tentar tocá-la!

Adendo posterior: Inadvertidamente não incluí a crítica de Luiz Zanin Oricchio que acompanhou a matéria do Merten, no Estadão. Um pedaço:
"A dupla não teme confrontar a beata que acende uma vela para o Che com a revelação de que o revolucionário era marxista e ateu. Ao skinhead neofascista, revelam, como se isso fosse necessário, que o Che era o modelo acabado de homem de esquerda. Dessas dissonâncias entre o que era o homem e no que se torna a lenda, nasce a riqueza contrastada do filme."

16.6.08

O herdeiro



Faz mais de um ano que encontramos (eu e Adriana Mariño) Jon Lee Anderson, biógrafo de Che Guevara e repórter da New Yorker. Pois bem: naquela época, tomando um café atrás do outro pra espantar o sono e o frio bogotanos, ele já nos contava da reportagem que preparava sobre Hugo Chávez havia alguns meses. Saiu só agora.

O perfil que havia feito anos antes daria motivo suficiente para o venezuelano querer seu fígado. Quando nos encontramos pela última vez, a reportagem ainda tinha foco incerto. Poderia ser sobre sua influência sobre a esquerda do continente. Ou sobre como seu estilo barulhento estava incomodando os vizinhos (falo de Lula aqui, mas não só dele). Ou apenas sobre como Chávez tenta se tornar um estadista fora das fronteiras venezuelanas. Parece que foi esse o trilho da matéria que acaba de sair. Já tenho o que ler hoje.

Pós post: Anderson fala de Chávez e América Latina num video do Frontline Club.

Assassinas!

A Floresta da Tijuca caiu nas mãos de alienígenas



(Publicada originalmente na Piauí 21)

"Olha que tristeza!", diz o ecólogo Rodolfo Cesar Real de Abreu, apontando uma árvore que, para os desavisados, não passaria de uma jaqueira. Por sinal, uma bela, frondosa e inofensiva jaqueira que até daria para chamar de alegre, caso existisse uma classificação botânica para o estado de alma das plantas.

Mas Abreu não deixa por menos. Dá umas pancadinhas no tronco, avalia as frutas, examina a folhagem e, com um travo de melancolia, volta ao ataque: "Eu fico triste de ver isso. Acho que é a mesma sensação de quando o médico descobre um câncer no corpo do paciente." Para ele, não há tanta diferença assim entre um pé de Artocarpus heterophyllus e um daqueles tumores igualmente impronunciáveis que crescem na sombra, ocultam por muito tempo os seus sintomas e só dizem a que vieram depois de atingir proporções letais.

A jaqueira, em seus primeiros tempos, também foi assintomática. É uma imigrante. Veio da Índia com os colonizadores portugueses, que antes de aportar no Brasil se aclimataram aos trópicos na África e na Ásia. Em menos de 200 anos, a árvore indiana estava solidamente enraizada aqui, parecendo brasileira da gema, nascida e criada no clima quente e úmido do litoral baiano. Acabou desembarcando oficialmente no Rio de Janeiro cinco anos antes da família real.

É invasora por natureza. Mas só na virada do milênio virou inimiga, depois que um censo vegetal do Parque Nacional da Tijuca revelou a presença de jaqueirais quase homogêneos na floresta urbana que os cariocas, com certa complacência, chamam de "mata atlântica". Há pontos onde se contam 200 jaqueiras por hectare. É jaqueira à beça, mesmo para os padrões de uma reserva florestal ameaçada de invasão por treze favelas.

Dois engenheiros florestais - Luiz Fernando Lopes e Henrique Guerreiro - deram aos administradores do parque a receita para botar a jaqueira no devido lugar, ou seja: sob a hegemonia das árvores nativas. O remédio que recomendaram parecia simples e discreto. Cortava-se, com um facão, um anel de 15 centímetros de largura ao redor do tronco, secionando os vasos por onde corria a seiva entre as raízes e as folhas; a árvore morreria aos poucos, de inanição, e viraria um toco inerte da maneira mais natural possível, sem a estridência das motosserras. Tudo no melhor figurino do manejo florestal.

Assim foi. Mas, há dois anos, quando o programa já havia anelado mais de 2 mil árvores ainda jovens e extirpado cerca de 42 mil mudas, entraram na briga os defensores das indefesas jaqueiras, denunciando o extermínio como crime ambiental. Não adiantou alegar que a Artocarpus heterophyllus não é nativa. Ela se adaptou tão bem por aqui que, no século XVIII, um botânico a classificou como Artocarpus brasiliensis. "O fato de se encontrar também na Índia não significa que ela não seja brasileira", argumentou Flávia Tavares, artista plástica e defensora intransigente do vegetal imigrante. Na condição de vizinha das jaqueiras na Floresta da Tijuca, Flávia levou o caso a um blog na internet, como tema de debate, e ao Ministério Público, como ação civil pública.

De lá para cá, a febre da indignação popular amainou. O domínio das jaqueiras prossegue, devagar e sempre, e este ano, em seu louvor, já foram arrancadas 4 mil mudas. Mas a refrega de 2006 deixou em Rodolfo de Abreu o ressentimento contra elas, como se um pé de jaca, além de invasor, fosse capaz de fazer intriga contra a boa-fé dos ecologistas. Ele caminha por alguns minutos pela borda do Parque Nacional, no Horto. De repente, pára e comanda: "Agora que você já sabe identificar uma jaqueira, olhe em volta."

Olha-se em volta. Há plantas rasteiras e musgo no chão. Algum lixo também, mas felizmente pouco. O que há ali para achar estranho?

As jaqueiras. Só dá jaqueira. "Se a gente não fizer alguma coisa com essa peste, ela não deixa mais nada nascer", diz Abreu. Não é difícil suspeitar de onde vem tanta jaca. Cada fruta que se esparrama no chão explode em no mínimo 200 caroços. Em média, mais de 70% das sementes germinam, adubadas pela própria fruta em decomposição. A jaqueira é uma eficientíssima máquina de reprodução. Abreu suspeita que as mudas tenham propriedades alelopáticas, ou seja: impedem qualquer outra coisa de vingar.

"Estamos começando a testar a hipótese", comenta o ecólogo Daniel Raíces, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. "O mais provável é que se trate de uma guerra química. Algum componente nas folhas e nas raízes da árvore inibe o crescimento de outras espécies. Já medimos a quantidade de luz solar na base dos troncos de jaqueira e constatamos que ela faz mais sombra que a média das árvores de mesmo porte existentes na mata atlântica." Em suma: "É provável que seja uma combinação de tudo isso."

A jaqueira conta ainda com poderosos aliados na fauna. Não alimenta os pássaros, mas oferece banquetes para vários bichos, inclusive o Callithrix jacchus, um sagüi que veio do Nordeste para conquistar os morros do Rio de Janeiro. Trata-se do popular mico. De bigodes brancos e rabo listrado, parece feito sob encomenda para a vitrine de uma loja de brinquedos. Nem por isso convence a bióloga Helena Bargallo. "Ai, olha aqui essa foto: um mico agarrado numa jaca", diz ela. "Que horror! Esse bicho transmite raiva, toxoplasmose, febre amarela! Está dizimando os ninhos de aves ameaçadas dentro do Parque Nacional!"

Estragos semelhantes podem ser imputados aos macacos-pregos e aos quatis, que proliferam na Floresta da Tijuca como os micos nordestinos. Mas os macacos-pregos e os quatis são nativos. E para Helena Bargallo isso faz toda a diferença. O problema é explicar à opinião pública a conveniência de manejar o sagüi tal como se deve fazer com a jaqueira: matando quantos forem necessários para controlar sua população. "Mas ele é fofinho, peludo, tem um rosto como o nosso e vem pegar comida no batente da janela com o filhotinho agarrado nas costas", ela lamenta.

Ao expor suas idéias, gente como Helena Bargallo e Rodolfo de Abreu enfrenta a desaprovação até de colegas. Sentem-se vítimas de um paradoxo ambiental: para preservar a natureza, advogam a derrubada de jaqueiras e o abate de miquinhos. Não é à toa que, descendo do Horto para a cidade, Abreu não deixa passar em branco o toco na calçada onde alguém pregou um letreiro em favor da salvação do planeta: "Colabore! Deixe nossas árvores viverem!" No resto de madeira, ele reconhece os despojos de uma castanheira-do-maranhão, outra espécie exótica. E fecha questão: "Está vendo só? É duro, cara, é duro."