8.9.08

No divã

É uma boa hora para que a opinião pública e a imprensa sentem no divã e se observem com cuidado. Na sexta-feira, um pai e uma madrasta mataram os dois filhos do primeiro em Ribeirão Pires, São Paulo. Depois de asfixiados, foram cortados em pedaços com uma foice e postos em sacos de lixo em frente à casa. Os dois meninos viviam há algum tempo na rua e foram mandados de volta para casa depois de algumas semanas em um abrigo público. O pai era vigia. Eram gente pobre, para resumir.

Se não se observar a mesma quantidade de matérias de jornal, minutos nos telejornais, vídeos em homenagem no youtube, gente fazendo vigília que se viu no caso de Isabella Nardoni, vai haver uma penca de cínicos dizendo que o cidadão se cansou de tanto horror. A conclusão, claro, é outra. E óbvia.

7.9.08

Surpresos? De verdade?




Muita gente que acompanha de perto o cinema nacional se surpreendeu com o ótimo desempenho do filme espírita Bezerra de Menezes nos cinemas. Em seu primeiro fim de semana, o filme fez nada desprezíveis 1.059 espectadores por cópia. Coisa de blockbuster de Hollywood. Entretanto, muita gente boa – como o Luiz Carlos Merten, do Estadão, e o Ricardo Calil, em seu blog – manifestaram surpresa. Sinceramente, me espanto é com o espanto.

Desde que o cinema brasileiro leva a pior nas bilheterias – ou seja, desde quase sempre – ouve-se diretores de cinema e produtores repetindo à exaustão de que o filme nacional é um espelho, que o brasileiro só pode se ver na tela do seu próprio cinema. Mas o que acontece quando os próprios diretores e gente de cinema não sabem muito bem o que é esse espelho? Quando, em essência, não conhecem bem a cara que prometem refletir?

A impressão que se tem é que os diretores nunca tiveram uma avó que fosse ao centro espírita curar uma dor nas costas ou uma prima que fosse à mesa branca para afastar um espírito obsessor. Olhando para nossa produção cinematográfica, parece que o Brasil é um país estatístico – com milhões de cristãos – ou mítico – cheio de terreiros de candomblé tradicional. Mesmo o "sincretismo" segue essas bases e ignora as misturas muito mais ricas do "umbando-kardecismo" como me definiu, uma vez, um diretor de centro.

Não é questão de se o filme é bom ou não – e a crítica diz que não. Não vi, e não deve ser mesmo. O tema é bom. E é nosso. Será que todo mundo esqueceu que o maior sucesso de Bergman no Brasil foi Fanny e Alexander?

1.9.08

Tarefa

Uma das minhas tarefas já pregadas na cortiça mental é tentar entender a crueldade mexicana. Não estou falando de todos os mexicanos, claro. A maioria das pessoas que conheço ou com quem converso, ainda que para pedir um café, é de buarquianos hombres cordiales. Tanto mais estranho, então, ler sobre vítimas do narcotráfico decapitadas aos montes ou que seqüestradores exigiram que uma família pagasse o resgate durante a marcha de sábado contra a violência. Miséria ou injustiça social não explicam isso. A necessidade de mostrar aos inimigos o quanto se é mau, talvez?

De alguma forma, a vida nesse país gera pessoas aterradoramente más.

Claque! Ziruiiiiir!

Na Lapa, a lenta agonia da fotografia vapt-vupt tem data para terminar


Teste de cor da Polaroid, © Gliesh

(publicada na Piauí)


Com gestos mais elegantes que as circunstâncias lhe permitem, Sérgio Silveira dobra o corpo até nivelar a câmera com a freguesia, que se arruma à sua frente para caber no enquadramento. Por trás do visor, ele eriça a sobrancelha esquerda, aperta o botão do disparador e – claque! – desperdiça a primeira fotografia.

O “claque” comanda as próximas cenas. Sua máquina não faz “clique”. É uma Polaroid – grande, ruidosa, cada vez mais parecida com as câmeras de fole que andavam em voga em 1939, quando ela inaugurou a fotografia instantânea. Os fregueses conferem o resultado na hora, assim que a imagem se revela no retângulo de papel desbotado pelo excesso de luz. Como o flash os lavou, os fregueses parecem almas penadas, assombrando a noite carioca num restaurante da Lapa.

Silveira não espera que eles peçam. Oferece outra fotografia, de graça. Mexe nos controles da engenhoca e – claque! – a mágica, dessa vez, dá certo. “Ziruiiiiir”, diz a Polaroid, expelindo a foto. Os clientes examinam, aprovam, ele recebe os 15 reais pelo serviço, insere num envelope a segunda tentativa, dá baixa da primeira com uma anotação breve – “uma superexposição” – e sai pelo salão, em busca de outros interessados em experimentar a última palavra em obsolescência tecnológica.

Silveira, na Lapa, é o Gaúcho. Como a Polaroid, ele foi desenhado em outra época. Usa o cabelo grisalho para trás, com fixador, e bigode aparado com rigor geométrico. Veste calça bege, camisa branca, blazer preto e gravata borboleta. Não ficaria desambientado numa galeria de presidentes latino-americanos dos anos 30 ou 40 do século passado. Ele sabe disso. “Olhe para mim: com este terno, minha câmera e essa gravata, eu sou uma vitrine”, comenta.

Em seu estilo, tudo tem uma explicação: “Sem gravata, sou um qualquer, ninguém me deixaria entrar para vender minhas fotos. Com uma gravata comum, sou um cliente comum. Por isso, tem que ser a borboleta. E bordô, para não me confundirem com um garçom.” Correndo atrás de trabalho, desde que saiu do Rio Grande do Sul, Silveira já morou em Santos, São Paulo e Brasília. Tentou o interior do Paraná, antes de se fixar de vez no Rio de Janeiro. Fez um pouco de tudo. Vendeu contrabando, foi chefe de pessoal numa construtora, defendeu empresas em ações trabalhistas, vendeu clássicos da literatura de porta em porta.

Os clássicos da literatura lhe mudaram a vida. Sua mulher o traiu com um vendedor da equipe e ele a devolveu à mãe. Foi morar então atrás da Central do Brasil, “com um despertador”. Reaprumou-se ao ganhar de presente uma Yashica, cópia japonesa da Rolleiflex, e conhecer um espanhol capaz de consertar no laboratório qualquer erro que ele cometesse com a máquina.

Assim, virou fotógrafo. Ou “homem-vitrine”, de Yashica no pescoço, flash na mão, bateria a tiracolo e uma grande ampliação pendurada nas costas. Passou a eternizar os encontros efêmeros de casais nas mesas boêmias do velho centro carioca. Apesar da gravata bordô e dos olhos esbugalhados, ele é discreto, e passa entre as mesas sem dizer palavra. Limita-se a acenar com a câmera e esperar que um dedo se levante para chamá-lo. Com o tempo, trocou a Yashica pela Rolleiflex legítima, mas ela não o livrou da rotina de tirar a foto, receber um sinal, levar o filme para a revelação e voltar no dia seguinte para entregar a mercadoria e receber o pagamento.

A Polaroid foi uma revolução em sua carreira. Com ela, acabou o vai-e-vem, era claque! ziruiiiiir! Ou seja, vapt-vupt! Com o que ela lhe rendia, bancou os estudos do filho no Colégio Naval e se mudou para uma pensão mais decente. Até que as coisas deixaram de funcionar como antes. Em meados da década de 90, teve problemas de visão. Logo ele, um fotógrafo. Com descolamento de retina, perdeu 100% do olho direito e 40% do esquerdo. Mas aprendeu a fotografar, como ele diz, “de canhota”. Garante que, hoje, enxerga melhor através do visor do que sem ele.

Catástrofe mesmo, a seu ver, foi o advento das câmeras digitais. Pior que elas, só os telefones celulares com câmera, que induzem até os casais menos equipados a esticar o braço nas mesas da Lapa e se fotografar como se estivessem examinando os dentes num espelho de bolso. Supra-sumo da quinta-essência da tecnologia moderna, num vapt-vuptíssimo a Polaroid virou velharia. O que não é brincadeira, para quem andou por tantas décadas nas mãos de profissionais, testando a iluminação dos estúdios, gravando locações no cinema para garantir a continuidade das filmagens ou tornando ainda mais imediata a produção de artistas como Andy Warhol.

Para Silveira, foi um desastre. Ele teve que se especializar, nos últimos anos, em retratar saudosistas, desses que, mesmo em mesas de bares, têm ouvidos para ouvir e entender seu claque! ziruiiiiir! Depois de perder o mercado consumidor, os fornecedores o desertaram. Minada pela popularidade avassaladora das câmeras digitais, a Polaroid Corporation, de Massachussetts, jogou a toalha no ano passado. Silveira recebeu, meses atrás, uma carta avisando que a empresa garantiria o fornecimento de filmes para os donos de suas máquinas até dezembro de 2007 no máximo.

Os fãs da Polaroid tradicional se organizaram e, por meio do site savepolaroid.com, iniciaram uma campanha internacional reivindicando a sobrevivência da máquina. Em vão. As fábricas da Polaroid começaram a fechar nos Estados Unidos, no México e na Holanda. Em seguida, veio a PoGo, a nova impressora da empresa. Portátil, alimentada a bateria, menor que uma caixa de seus antigos filmes, a PoGo imprime em qualquer lugar fotografias tiradas por câmeras digitais e celulares alheios.

Com os pés no chão, Silveira estocou todos os filmes que conseguiu encomendar em São Paulo, no Peru e na Colômbia. Pelas suas contas, tem munição até o fim do ano. E, do próximo réveillon em diante, ainda não decidiu o que fará. A fotografia digital não lhe parece uma alternativa razoável: “Estou com 75 anos. Levei 40 para ser o melhor com uma Polaroid. Se mudar agora, vou levar outros 40. E a essa altura vou estar com 115. Ora, com 115 não vou querer pegar sereno na rua, entende?”

30.8.08

Em marcha



Saiu hoje minha primeira reportagem mexicana para a Folha de São Paulo (apenas para assinantes, aqui). Fala sobre a onda de violência que o país vive, razão de uma enorme marcha até a praça central da capital, o Zócalo. Um trecho:

"Ontem, o país acordou com a notícia de que o crime organizado havia decapitado 12 pessoas em Mérida, capital do Estado de Yucatán. Hoje, milhares de mexicanos em todo o país e em cerca de 30 cidades ao redor do mundo sairão às ruas de branco e velas na mão com o objetivo de pedir um basta na violência. Céticos apontam que mobilizações anteriores do tipo não tiveram resultado."
Como dá para perceber, a matéria foi escrita antes da marcha, avaliando suas razões e a (pouca, na minha opinião) chance de gesto desse tipo mudar alguma coisa. Não deu para incluir muita coisa interessante, como boa parte da análise do cientista político Guillermo Zepeda, que aponta que o pico de violência atual tem a ver com a transformação do narcotráfico do país. Antes o México era um corredor de transporte. Hoje, virou mercado consumidor. É interessante acompanhar como os mexicanos estão lidando com o problema do tráfico e da violência exatamente porque dá para fazer muitas pontes com o caso brasileiro. Outro dia escrevo um pouco mais sobre isso.

Agora basta dizer que uma ou outra pessoa que não pôde ir à marcha acendeu sua velinha a porta de casa, que o enorme Zócalo se encheu de gente bem intencionada – e que é pouco provável que isso comova governo ou bandidos.

24.8.08

D.F.



CIDADE do MÉXICO – México, berço da civilização maia, sua capital selvagem, seu trânsito caótico, sua poluição sufocante, sua rica tradição cultural...

Sinceramente: alguém ainda agüenta isso?

Nos próximos três meses e meio estarei (confortavelmente) instalado na capital do México com algumas missões: apresentar Personal Che num festival de documentários da capital, o DocsDF, escrever algumas reportagens para veículos brasileiros (se você for um editor, conte comigo), eventualmente colaborar com revistas locais e, finalmente, concluir um roteiro há muito interrompido. Entre coisa e outra, me divertir: ler os (muitos) novos autores, encontrar os (poucos, ainda) conhecidos, provar os (infinitos e estranhos) pratos locais, conhecer os (ótimos) cineclubes e visitar cidades e países próximos – ocasionalmente e sempre que possível na companhia de uma adorável sábia de 31 anos que devora esse país com uma fome de dar inveja. Idealmente, o trabalho vai caminhar junto da diversão. Não há porque ser distinto.

A mais complicada das tarefas por aqui, perpassando todas, sem dúvida será navegar ao largo de clichês e explicações de uma linha. Se for seu gosto, volte sempre. Sabe como é, mi casa es su casa.

O povo, unido...

A idéia de mobilizar pessoas pela internet para escolher livremente os filmes que verão nos cinemas já começa a dar frutos. Depois de sair de cartaz no Rio de Janeiro com apenas sete semanas de exibição, Personal Che volta aos cinemas da cidade por obra e graça de uns quantos cinéfilos (ou o que valha) que se juntaram no site MovieMobz para pedir uma sessão do filme. Vai ser na quarta-feira, dia 27 de agosto, às 19:50, na sala do Instituto Moreira Salles.

Mobilizações iguais podem ser feitas por todo o Brasil. Que venham muitas outras!

19.8.08

Assista a Personal Che hoje (ou depois de amanhã)

Che aportou em Fortaleza na semana passada e essa semana chega finalmente à capital mineira. E no Rio de Janeiro, onde o filme saiu de cartaz depois de sete semanas, há mais uma chance de assisti-lo hoje: de ultimíssima hora, o pessoal da Faculdade de Direito da UERJ me procurou para organizar uma sessão/debate.

Como alguns que acompanham o blog sabem, estou de saída: amanhã parto para uma temporada de três meses e meio no México, onde vou apresentar o filme em um festival, fazer algumas reportagens e (haverá tempo?) terminar um roteiro já há muito deixado de lado.

Logo, quem quiser debater o que significa Che Guevara hoje, discutir os caminhos da esquerda ou da América Latina no século 21, xingar um dos diretores do filme, registrar sua revolta com o preço dos ingressos ou qualquer outra coisa, anote o endereço: Rua Moncorvo Filho, 8, perto do Campo de Santana, Centro, Rio de Janeiro, Brasil, América do Sul, Hemisfério Ocidental, Terra, Via Láctea, Universo, canto esquerdo, abaixo.

Às sete horas, horário de Brasília. Entrada franca, doações aceitas.

15.8.08

Deslumbramento

Não é sempre que coisa tão comum e simples como uma visita ao oftamologista alegra o dia. Fazia uns quinze anos desde a última vez que visitei um. Descobri não só que não tenho qualquer problema nos olhos, mas também que eles vão se consertar ao longo dos anos.

Meu irrisório meio grau de miopia não atrapalha em nada minha visão (disse o médico) e ainda vai retardar – "em uns dez anos", ouvi – o surgimento da vista cansada que sempre aparece com a idade. Ou seja: posso voltar ao oftamologista, se sentir necessidade, daqui a uns vinte anos, quando estiver com cinqüenta e algo. É um bom prazo.

Quanto ao problema que me levou lá, o doutor foi didático: a luz inunda a retina e embaralha um pouco os traços, coisa de quem é muito branco, disse ele. Disse ainda o nome técnico do fenômeno.

Deslumbramento.

6.8.08

Bomba


Há 63 anos, os Estados Unidos destruíam a cidade japonesa de Hiroshima com o apertar de um botão. Na hora, morreram 140 mil pessoas e, depois, muitas mais. Um ano depois do ataque, a revista New Yorker, que já dava as cartas no jornalismo americano, publicou apenas uma matéria em sua edição do dia 31 de agosto. A capa ingênua não dava o tom do conteúdo. Por 15 centavos, comprava-se nas bancas uma longuíssima reportagem sobre os efeitos dramáticos da bomba nas vidas de algumas vítimas – além dos anúncios de sempre e da agenda da semana.

A edição completa está aqui. Hiroshima começa na pagina 15.

Complementando: Dias depois, a repercussão continuava aumentando. Nova dias depois da publicação, o almirante William Halsey, da 3ª Frota, declara à imprensa que os japoneses já estavam próximos da rendição – e que os americanos sabiam disso – antes da bomba ser lançada. A operação foi caracterizada por ele como um "experimento desnecessário".

Em fevereiro do ano seguinte, o ex-secretário para a Guerra, Henry Stimson, redigiu um contra-petardo entitulado "A decisão de usar a bomba atômica" na Harper's. Seus argumentos continuam a ser repetidos hoje por quem defende a decisão do governo americano.

Piada velha

Acadêmicos britânicos (são sempre eles!) acabam de concluir uma pesquisa sobre as mais antigas – preparem as garruchas, caçadores do útil – piadas do mundo. Até agora, a mais antiga data do ano 1900 antes de Cristo, vem da região do Iraque e não tem a ver com Saddam ou com os americanos, mas com gases. Não é boa, por isso não reproduzo.

É nesses momentos que se verifica a sabedoria grega em qualquer campo do pensamento e das artes. Diz o chiste datado de um ano antes do nascimento de Cristo que o imperador Augusto viajava pelo seu reino quando um dia encontrou um homem muito parecido com ele. Intrigado, perguntou: "sua mãe algum dia serviu no palácio?" Ao que o homem prontamente retrucou: "não alteza, mas meu pai sim."

Será que os gregos já usavam o "iaaaaaaaau!"?

5.8.08

¡Interactividad o muerte!



A democracia chegou às salas de cinema, caro leitor. O projeto MovieMobz está começando agora, mas promete. Funciona assim: você cria um perfil (apenas com perguntas ligadas aos cinemas que freqüenta e filmes que gostaria de ver) e começa a se juntar a outras pessoas que querem ver os mesmos filmes na sua cidade. Conseguindo o quórum, o filme passa! O catálogo é dos melhores – e o projeto ainda nem está a todo vapor.

Tenho recebido centenas de emails de gente que me pergunta quando Personal Che vai passar na sua cidade. Pois finalmente tenho uma boa resposta: entre no site, se cadastre e selecione Personal Che para começar uma mobilização. O link do filme no site é este.

Quem inaugurar o filme em alguma cidade através do MovieMobz ganha uma camiseta do Che autografada pelo próprio! (Brincadeirinha...)

Power to the people!

4.8.08

Serviço


Exibir mapa ampliado

Cidadania também é saber o nome do seu senhor feudal: o candidato a prefeito do Rio, Fernando Gabeira, organizou um mapa constantemente atualizado que mostra quais favelas são dominadas por milícias no Rio de Janeiro. E, em alguns casos, (é uma campanha eleitoral, no fim das contas) quem são os políticos ligados aos milicianos. Mesmo que não ganhe o cargo, o que é muito provável, já prestou um enorme serviço ao município.

Para quem não sabe, boa parte dos jornais do Rio e a TV Globo adotam uma regra interna que omite de seu noticiário os nomes das gangues que dominam determinadas favelas. O argumento é que não se faça "propaganda gratuita" de criminosos, mas o resultado final é que os moradores da cidade não conseguem acompanhar a geopolítica do conflito. Algo como noticiar a guerra no Iraque sem informar quem são sunitas, xiitas ou americanos. O trabalho fica completo com um segundo mapa, também constantemente atualizado, com as gangues que não são formadas majoritariamente por policiais, abaixo.


View Larger Map

Adendo posterior: Gabeira resolveu facilitar a vida e pôr tudo num mapa só. Tanto melhor.

Da New Yorker

3.8.08

Il Che

O único país que rivaliza com Cuba em idolatria a Che é a Itália. Por isso, nada mais natural que nosso primeiro festival europeu seja o SalinaDocFest, dedicado exclusivamente a documentários narrativos e que acontece no final de setembro na ilhota de Salina, no sul do país. O festival não poderia ter mais pedigree: é dirigido por Giovanna Taviani, filha de Vittorio e sobrinha de Paolo, e acontece no arquipélago das Eólias. Um pouquinho mais ao norte, cercada de mar, está a principal personagem da obra-prima rosselliniana, Stromboli.



Para deixar tudo melhor, lá me encontro com Beth Formaggini, diretora do premiado Memória para uso diário, que fará parte do júri. Tudo dentro da chamada Finestra sul Brasile, uma colaboração do festival com a Mostra de São Paulo, de León Cakoff.

16.7.08

Hecho en Mexico

La treintañera más formosa e bem informada desse lado do Rio Grande começa a blogar a partir de hoje num sítio de nombre por demás esquisito (con trocadillo): Farofa de Nopal. Em breve, desde México.

Auguri!

Na dúvida



O blog e seu autor estão encafifados. Será verdade, no fim das contas?

11.7.08

O Che de Teerã



Difícil não notar a semelhança entre o cara na foto acima e nosso amigo argentino. Vai além da imagem, diga-se: depois de aparecer nessa capa da Economist nove anos atrás como um símbolo de uma nova revolução liberalizante no Irã (que não aconteceu), Ahmad Batebi passou o pão que o aiatolá amassou nas prisões do país. Tentaram desfazer o ícone na porrada. Pois bem: Batebi está livre. Não se sabe como, conseguiu fugir do país e foi pra Washington. Diz que em breve revela todos os detalhes de sua saga, fotografada com o celular que o acompanhou na cadeia, em seu site.

A ver se não se decepciona com a nova casa.

Estréias revolucionárias


Na fila do Cine Yara, 2006

Do Granma, jornal oficial cubano:

"Desde ayer y hasta el 16 de julio en los cines de estreno de la capital el Instituto Cubano de Cine e Industria Cinematográficos (ICAIC) presenta una variada programación. En las salas Yara y Acapulco se exhibe Personal belongings (Cuba-Bolivia, director Alejandro Brugués); en el Payret El cantante (The singer, EE.UU., director Leon Ichaso) y El ojo (The eye, EE.UU., directores David Moreau y Xavier Palud); en los cines Alameda y Ambassador El señor Magorium y su tienda mágica (Mr. Magorium’s Wonder Emporium, EE.UU., dirigida por Zach Helm)."
Enquanto isso, Alfredo Guevara, diretor do Festival de Havana, diz que o Che de Soderbergh só passa se não tiver ataque a Fidel. Ele ainda não viu o filme.

10.7.08

Sobre os diários de Che



Correu pela imprensa a notícia de que diários da campanha de Che na Bolívia foram divulgados e que serão em breve publicados por uma editora local. Rumora-se que Fidel Castro vá fazer um prólogo. Tudo balela. Não há página do diário de Che que não seja de conhecimento público. E Castro já escreveu seu prólogo 40 anos atrás.

Logo depois da execução de Che, em outubro de 1967, todos os pertences sem importância foram divididos entre os soldados bolivianos. Um gordinho em Santa Cruz de la Sierra chegou a me oferecer uma agulha de costurar couro que, diz ele, teria sido de Che. Os que valiam alguma coisa, claro, ficaram nas mãos do governo.

No começo de 1968, Fidel Castro escreveu o prólogo daquela que seria a primeira edição dos diários de Che. Foi um estouro de vendas. Ainda hoje é possível encontrar a edição original em sebos cubanos, talvez um dos livros mais populares na ilha junto com a Bíblia, Diário de um Mago e Fidel e a religião. Inicialmente, o governo boliviano disse que se tratava de uma fraude, o que logo foi desmentido por diversos jornalistas que tiveram acesso às cópias fotostáticas de algumas páginas fornecidas por Havana e La Paz. Ensandecidos – já haviam acertado um acordo milionário com uma editora americana para publicar o livro – os bolivianos se perguntavam quem havia dados os originais a Castro.

Um deles próprios: Antonio Arguedas, ministro do Interior. Cansado de ver a ingerência da CIA nos corredores palacianos, decidiu se bandear para o lado dos cubanos. Ao que consta, fez as cópias microfilmadas chegarem a Havana escondidas na capa de um LP de Mel Tormé. Meses depois, incumbiu dois amigos de levarem um pote de formol com as mãos de Che para a ilha. Coisa de Graham Greene.

Arruinado o acordo – na época o interesse sobre o conteúdo dos escritos não incluía o fetichismo de ver com que garrancho Che os escreveu – os diários foram para o Ministério da Defesa para juntar poeira. Nos anos 80, sumiram, quase foram a leilão na Sotheby's, mas o governo conseguiu impedir a venda. Desde então, um sem número de historiadores e biógrafos puderam folhear os diários. Chega a ser engraçado que o envelope que os continha tenha um "SECRETOS DE ESTADO" escrito de fora a fora. Há pelo menos dez anos, o boliviano Carlos Soria Galvarro edita anualmente uma coleção de seis fascículos em que não só exibe diversas páginas manuscritas como as contextualiza, citando diários de companheiros de guerrilha, do Exército e outros. Todos os anos, em outubro, sai junto com o jornal La Razón.

Resumo: ainda que a editora boliviana queira fazer você acreditar que está comprando algo novo, não seja bobo. O bom e velho (e melancólico) diário de Che na Bolívia já está à venda nas melhores casas do ramo. Você também pode folheá-lo online, ainda que a viúva, Aleida March, tenha tentado retirar do ar as versões digitais graças a um bom acordo com uma editora australiana.