24.6.05

Pôr do sol


... estranho como quase tudo em Dourados, Mato Grosso do Sul, onde a NHK fazia uma matéria sobre a morte de índios por inanição.

7.3.05

Entre quilombos e foguetes



Alcântara, no Maranhão, ficou pequena demais para os descendentes de escravos e o Programa Nacional de Atividades Espaciais

(Uma versão editada dessa reportagem foi publicada no JB)

Raimundo Vieira não é quilombola apenas por herança e sangue, mas também por escolha. Cinco anos atrás, juntou uns poucos pertences numa sacola, deixou o Maranhão em direção ao Rio de Janeiro. Trabalhou por algum tempo – um ano, dois anos, não tem conta certa – fazendo bicos, a maioria como ajudante de pedreiro. Morava na Vila do João. Ouviu funk, pegou algumas gírias locais, mas não agüentou: voltou para Samucangáua, um dos quilombos vizinhos do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), a poucas dezenas de quilômetros da capital do Maranhão, São Luis.

“Não dá pra ficar vivendo sem controle da vida. Isso não faço. Na Vila do João você obedece a quem manda ou se manda, como eu fiz”, explica, sorrindo da frase bem talhada. Mas o que Raimundo não sabia é que, ao voltar para a terra onde seus antepassados fundaram um quilombo há mais de um século e meio, estaria encontrando outra confusão.

Alcântara parece pequena demais para abrigar o centro de lançamento e as terras de quilombo. De acordo com o Programa Nacional de Atividades Espaciais do governo, até o fim de 2007 deve ser completada mais uma expansão do CLA para receber novas instalações e começar a fazer lançamentos comerciais. E essa expansão pressupõe a retirada de quase 400 famílias de seus territórios originais, que hoje já se encontram dentro da área da base. Mas grande parte do problema não é a simples disputa por terra – é principalmente a luta por permanecer perto do mar.

“O que a gente tem medo é que eles nos mandem para um lugar que a gente não conhece. A gente está acostumado, é nascido e criado aqui, já temos o jeito. Não estamos acostumados no mato, a viver só de roçar, e talvez eles ponham a gente longe da maré”, conta ele, comendo ostras cruas enquanto sua canoa aderna na vazante do mangue. Seu tio, que todos chamam de Zé Preto e tira peixes da rede atravessada num dos canais, completa o coro: “Se eu for pra longe do mar? Aí eu já não vou fazer nada. Vou passar fome. No dia que não tiver não como e no dia que tiver é uma mãozadinha só”.

Os temores dos que estão lotados para a possível remoção – a Agência Espacial Brasileira não dá datas nem certeza de que isso vai acontecer, embora seu presidente, Eduardo Gaudenzi, diga que ninguém sai na marra – não rodam no vazio.



Quando a base foi criada, nos anos 80, mais de 300 famílias foram retiradas sem muita conversa, indenizadas, pagas por benfeitorias e assentadas nas chamadas agrovilas. Nessas vilas encontra-se muito do que falta nos quilombos: poço artesiano, casa de alvenaria, luz, orelhão – e reclamações. Apesar do relativo conforto desses vilarejos, poucos quilombolas gostam de morar aí.

“Me lembro eu pequeno, os pescadores no igarapé e a gente em casa, eles gritavam de lá mesmo pra atiçar o fogo, os peixinhos chegavam pulando”, diz João da Silva, que vive em Espera, uma agrovila. “E hoje não, não tem mais dessa, não. A mordomia acabou. O peixe chega já podre, moído que a gente chama. Tem vez que dá pra a gente aproveitar. Tem vez que vai pro porco”, explica.

Hoje João e os quilombolas desse não-quilombo têm de se programar para passar três dias fora quando vão para o mar, senão a jornada não compensa. “É isso ou comprar do cara do gelo”, conta ele, se referindo aos homens que passam em caminhonetes vendendo peixe aos pescadores.

A indefinição causada pelo impacto da base acabou embaralhando as coisas aqui. Antigamente, receber gente para pescar na “sua praia” era uma honra. Os hóspedes sempre deixavam algum peixe para a vila ou trocavam por farinha de mandioca feita ali mesmo. Agora o dinheiro faz cada vez mais parte da equação e, com a perspectiva de mais gente sobrevivendo dos mesmos mangues e praias, um senso de posse sobre o que antes era comunal começa a se formar.

No forno de farinha instalado à esquerda da casa de Manoel de Jesus Amorim, os moradores de Itapuáua discutem o futuro enquanto alguém bate no rodo a pasta de mandioca espalhada para secar sobre um grande tacho. O tema da base assusta, embora todos estejam relativamente longe dela e a salvo de qualquer relocação. “Não é que a gente não queira que ninguém venha aqui para buscar comida. Mas eu fico preocupado quando olho pra esse mar aí em frente e penso se ele dá conta de dar peixe pra todo mundo. Eu não sei se dá, não”, diz ele.

É essa incerteza que tem caracterizado as coisas em Alcântara. Quilombolas que não moram mais em quilombos. Pescadores comprando peixe. Gente ameaçada de despejo que não sabe quando e se isso acontece. E, primeira e última das dúvidas, para quê, afinal, se manda foguetes lá pro alto de vez em quando.

“Pra trazer peixe aqui pra baixo é que não é”, diz Raimundo, rindo com seus companheiros de pesca, sem saber direito do quê.



GOVERNO TEM POUCAS RESPOSAS E MUITAS PROMESSAS

Mais um episódio da polêmica entre quilombolas e a base de Alcântara vai acontecer nos próximos dias 11 e 12, quando uma comissão inter-ministerial chega à cidade apresentar a lideranças locais os planos de desenvolvimento do centro e da região.

Desde o fim do governo Fernando Henrique Cardoso a ameaça de remoção paira sobre as cabeças de todos aqui, embora nunca tenha se definido oficialmente quando e se ela realmente vai acontecer. De acordo com o Plano Nacional de Atividades Espaciais (Pnae), documento elaborado pela Agência Espacial Nacional, uma nova leva de expansão do centro deve acontecer até 2007 e essa expansão pressupõe a remoção de povoados. Mas a agência afirma que não vai tirar ninguém de sua terra antes de conversar.

"Existindo a necessidade aqui e ali de alguma remoção, ela só será feita com conversa, com um acordo, enfim, junto à comunidade", afirma Sergio Gaudenzi, presidente da AEB. "Não posso dizer quando. Em princípio, vai haver. Depende muito das distâncias que nós vamos precisar para alguns lançamentos. Mas, se precisar, será combinada".

Em 2001, líderes comunitários se uniram e protocolaram uma denúncia contra o governo brasileiro junto à Organização dos Estados Americanos. O planalto respondeu criando – ano passado – um grupo de trabalho interministerial coordenado pela Casa Civil, incluindo pela primeira vez Secretaria Nacional de Direitos Humanos no debate.

O primeiro filhote do grupo está começando a ser propagandeado agora: a construção, do lado do terreno da base de lançamentos, também em território quilombola, de outro centro, um complexo com campus universitário, escritórios do governo, vila habitacional, hotéis, restaurantes, escolas, centro de tratamento de resíduos sólidos, sistema de água, esgoto, energia, hospital, locais para instalação de usinas de biomassa, biodiesel e, segundo se anuncia, muito mais.

O princípio agora, segundo o secretário nacional de direitos humanos, Nilmário Miranda, é trabalhar com o conceito de projetos, e não reparação econômica – tira-se uma casa, dá-se uma casa, como foi feito nas agrovilas. "Se houver um novo deslocamento, tem que ser feito em bases totalmente distintas das de antes", afirma.

O projeto já foi apresentado em Brasília ao governador do estado, José Reinaldo Tavares, e essa semana Gaudenzi parte para o Maranhão para um encontro com deputados, vereadores, comunidade científica, empresários locais e lideranças de Alcântara.

Ele crê que tal projeto será aceito de bom grado pelas comunidades. "Eu não vejo essa hipótese das pessoas dizerem 'nós não queremos nada aqui, queremos que fique como está, nós não vamos fazer coisa alguma'. Acho que dificilmente alguém pensará assim".



MOVIMENTOS COMEÇAM A ARTICULAR RESPOSTA

Ainda não se sabe os detalhes do projeto do governo, mas as principais reivindicações dos líderes do movimento quilombola passam longe de projetos faraônicos. A maioria tem a ver com educação e saúde.

Embora haja escolas mais para o interior, as aulas estão suspensas há tempos e não há transporte para as crianças.

Na questão da saúde o problema é mais grave. Verminoses são tão freqüentes quanto a gravidez precoce e a distância impede que um simples corte seja tratado adequadamente. Quase toda casa de pescador tem uma bola de sebo que, espetada num graveto e aquecida numa vela, cuida de cauterizar na marra feridas mais graves em anzóis, facas e pregos.

Os principais ativistas da região preferem não ser muito enfáticos em entrevistas. Todos optam pelo anonimato, principalmente depois do que aconteceu com a freira americana Dorothy Stang, no vizinho Pará, mês passado. E concordam que uma nova remoção é inaceitável.

"O centro de lançamento quer 62 mil hectares de terra. Isso é muito mais do que o necessário para implantar um centro de lançamento em qualquer lugar do mundo, que é cinco mil hectares", diz um ativista. "Não somos contra a tecnologia nem nada disso, mas as comunidades querem saúde, educação, moradia e não têm. Brasília fica assinando acordos com os EUA, com a Ucrânia e a gente aqui, largado".

27.2.05

A menina de ouro da Maré



(uma versão dessa matéria foi publicada em NoMínimol)

Ganchos
Ela pula seguindo um ritmo que não se ouve. Quando sua mão encontra o saco pesado, o couro que envolve os cerca de 40 quilos de areia vibram como a pele de um bumbo. O saco oscila, ela gira em torno dele, quase se chocando com o menino de braço forte que faz o mesmo ao seu lado, apertados no pequeno ginásio. Não se ouve muita coisa. Só o xiq-xiq das luvas raspando no saco, as correntes que o prendem chacoalhando, e o uf-uf dos diafragmas quando um soco parte do ombro e bate seco no oponente que rebola ágil no ar. De longe, o treinador olha, braços cruzados, ombros pra trás, a testa baixa.

Não, aqui não é o Hit Pit do filme Menina de Ouro, com que Clint Eastwood pretende ganhar uma segunda estatueta de melhor diretor no ringue do Kodak Theatre. Estamos na favela de Nova Holanda, no Complexo da Maré, na academia do projeto Luta pela Paz, da ONG Viva Rio. Morgan Freeman não está aqui para, na pele de Scrap, narrador do filme, repetir à lutadora que “boxe tem a ver com respeito”. Mas não soa necessário. Todos parecem ter vindo para cá sabendo disso.

Ela, no caso, é Manuela Lopes da Silva, 18 anos, vice-campeã brasileira na classe dos 60 quilos. Uma menina de braços fortes e ombro estreito. Ela e mais cerca de vinte meninas, e mais uns 80 rapazes, vêm a esse ginásio três vezes por semana aprender a esquivar, respirar e dar socos. Entre outras coisas.

O projeto foi concebido por Luke Dowdney, que na sua Inglaterra natal foi boxeador e que, voluntariando no Brasil anos atrás, decidiu estudar e ajudar os jovens vivendo em favelas. Depois disso, Luke já foi condecorado por sua rainha e continua tocando outros projetos aqui. O Luta pela Paz já caminha pelas próprias pernas.

Entrando pela Avenida Brasil, passarela nove, é difícil achar a porta do Luta pela Paz. Fica entre uma mercearia e uma loja para animais. A porta, pequena, fica meio escondida por gaiolas à venda. Depois da porta, uma escada estreita e íngreme, coberta de azulejo, sobe até o ginásio propriamente dito. O ringue de treino domina o espaço pequeno e quente. De um lado há três sacos de pancada e alguns aparelhos de musculação, do outro um espaço livre com um espelho na parede. Pouco, além das poças de suor seco e pisoteado no chão, diferencia o espaço de uma academia comum. Na verdade, o espaço também é uma academia comum, atendendo à população das imediações que vem cuidar do corpo. Mas a janela de fora a fora, mostrando uma complicação de tijolos aparentes, antenas de tv e roupas penduradas, não deixa esquecer onde se está e porque.

Jabs
Sentada numa cadeira, muito antes da hora de seu treino, Manuela é uma adolescente tímida bastante comum. Sua história, na área, é realmente comum. Fez várias tatuagens no corpo, engravidou aos 14, e era, como ela mesma fala, “uma encrenqueira”. Uma vez brigou com uma menina da área que estava com medo de perder seu namorado. Tipo de confusão que os donos da área não gostam: atrai polícia e afugenta cliente. No dia seguinte, Manuela não tinha mais onde passar o gel wet look que costuma usar no cabelo. Sua cabeça brilhava no sol, raspada, “para aprender”.

“Olha, não vou mentir pra você. Quando eu entrei aqui, eu queria aprender a brigar mesmo. Aprender a dar socão. Mas demora muito, a gente acaba desistindo disso. Boxe é muito complicado, quem quer aprender a brigar vai pra rua e briga”. Hoje, segundo ela explica, luta cada vez mais e briga cada vez menos. Outra diferença da época em que só queria saber de baile e de zoar – “mas eu ainda gosto de baile, tá? Só não vou sempre” – é que agora ela voltou a estudar, como a maioria aqui.

A lógica do projeto – para a maioria das pessoas, boxe é coisa de gente violenta – parece funcionar. Todos que chegam para o treino, meninos e meninas entre 15 e 25 anos, parecem incrivelmente corteses. Cumprimentam a todos pessoalmente falando seus nomes a quem ao conhecem, contam piadas e riem baixo. Claro, há os que imitam Mike Tyson, mas a maioria apenas olha, quieta. E não há brigas na rua. Quem é pego boxeando fora da academia é expulso. Sem argumentação.

Claro que nada é perfeito. Pouca coisa aqui é, aliás. Leriana Figueiredo, coordenadora do projeto, conta que já houve os que deixaram o “movimento” pra boxear e hoje trabalham. Os que ficaram um pouco, ganharam experiência e disciplina e foram trabalhar. E os que largaram o tráfico, boxearam um pouco, e voltaram pro tráfico. “Nada é perfeito”, diz ela.

Cruzados
Do meio do burburinho de quem deixa o cinema, há casais chorosos com o final triste do filme de Eastwood, estudantes comentando as cenas de luta, Manuela e Leriana. Ela conta que chorou, mas não exatamente pela razão da maioria. “Quando vi aquela cena em que ela entra com o roupão verde pela primeira vez, aquela luta que ela vai pra fora, e o povo fazendo ‘huh-huh-huh!’, lembrei muito da minha primeira luta. Aí eu chorei...”

Ao som de Eye of the Tiger, tema do filme Rocky (segundo Manuela, música do baiano Acelino Popó de Freitas), Manuela entrou nervosa em sua primeira luta pra valer, num ringue em Belford Roxo. Tão nervosa que sua mão direita pifou. “Eu só conseguia manter a guarda. Fiz a luta toda só com a esquerda”.

Parece ser uma esquerda forte, porque Manuela ganhou todos os sets. “Eu quebrei a cara da menina! Ela ficou transfigurada mesmo”, diz ela, meio culpada, meio orgulhosa. “O problema dela é que ela não tinha nenhuma base, ficava com os braços baixos. Aí eu só entrava, só socão direto, no meio da cara”. Contam que a torcida da outra menina ficou com muita raiva, disseram que a luta foi armada, que Manuela só podia ser lutadora experiente. Enquanto ouve os outros completarem sua história, Manuela, ri escondendo o rosto incrivelmente liso para uma vice-campeã.

“Uma coisa que eu tenho boa é a defesa, a guarda. Nunca quebrei nem desloquei o nariz. Mas já sangrou sim. Quando a gente luta aqui, o melado desce!”, diz ela, rindo. “Uma parada que eu faço bem é assim: faço que vou com o ombro esquerdo e tum!, meto um cruzado com a direita. Não falha. Entra sempre”.

Manuela, contudo, prefere discordar de mais paralelos entre ela e a lutadora do filme. “Nossas famílias são diferentes, né? Não tenho aquela mãe horrível. Fui criada pelas minhas avós e uma tia. Meu pai morreu quando eu ainda tinha alguns meses, minha mãe, eu tinha quatro”. Hoje, ela é a do meio de três irmãs – seu irmão mais velho também foi morto, como a mãe. “O cara que matou a minha mãe, ex-marido dela, ainda está por aí. Fizeram nada”.

Diretos
Hoje, contudo, ela não pensa para trás. “Eu olho é pra frente”. E pra frente há Vítor Júnior, Vitinho para todos na academia, que o conheceram desde o começo dos treinos de Manuela, quando ele tinha quase um ano. Hoje, ele tem três anos, um par de ombros sólidos e soca o ar com as luvas da mãe. O quadro é comum a muitas das meninas que vêm aqui, apesar da doutrinação constante nas rodas de conversa que são parte obrigatória do projeto. Há uma boa lutadora que ainda está se recuperando do parto, querendo voltar, e outra, Juliana, a blusa amarela esticada pela barriga de sete meses e o decote estourando de leite. Depois, já virou rotina aqui, as crianças ficam no carrinho enquanto as mães treinam. Há vários protetores peitorais no vestiário.

Vítor pai é um dos monitores do projeto, boxeador também, e já foi vítima dos diretos do filho. “Ele já tirou sangue do nariz do Vitor”, diz Manuela, rindo. “Duas vezes!”. A relação de Manuela com Vitor começou antes do boxe, já com a gravidez de Vitinho, e passa por altos e baixos. Moram juntos mas, como diz Manuela, “vão e vêm”. Leriana, a coordenadora do projeto, diz que, na verdade, “esses dois se amam”.

O papel dos coordenadores do projeto é fundamental. Leriana e Mirian falam com um e outro, dão conselhos, broncas. Vão muito além da gerência de uma academia de boxe, das vagas pra arrumar em escolas próximas e das colocações em empresas que colaboram – não muitas, diga-se a verdade. Segundo elas, é esse trabalho miúdo, quase invisível, que determina se o projeto funciona ou não. “Não dá pra gente pensar só como um ginásio de boxe. Nossa prioridade aqui é que eles estudem. Mas é difícil manter o cartel. Muitos saem porque precisam estudar ou trabalhar. E, há pouco tempo, dois lutadores morreram”, explica Leriana, pra acrescentar, técnica: “projétil de arma de fogo”.

Num canto, Manuela “faz sombra” no espelho, dando pulinhos e socando o ar. A guarda parece estar alta.

18.11.04

O começo de las negras




No descanso de uma filmagem para a NHK em São Luis e Alcântara, gente dançando o tambor de crioula.

2.11.04

Jovens iranianos caem na gandaia

(publicado em NoMínimo)

“Lendo Lolita em Teerã” começa de forma prosaica. Azar Nafisi, sua autora e personagem principal, busca livros para a aula de literatura inglesa. Gatsby? Não. Lolita? Semana que vem talvez tenha uma cópia. Talvez. São todos autores proibidos, mas ela só pensa em conseguir os livros que, em breve, serão discutidos com uma pequena classe de alunas, em sua casa, algo clandestinamente.

É exatamente nesse trânsito entre prosaico e político – a política vivida mais rente ao chão, longe de idealismos e clichês – que “Lendo Lolita...” interessa. Por isso e porque concilia o dito “rente ao chão” com uma nada rasteira reflexão sobre o papel da arte na vida das pessoas: a metáfora de Lolita como sendo, essencialmente, qualquer ser humano vivendo sob o autoritarismo. O destino parece ter empurrado Azar Nafisi para esse jogo entre o rasteiro e o mais alto.

De uma família de intelectuais, voltou para o Irã logo depois da revolução. Saiu de lá nos anos 90, quando um cheiro de reforma parecia se apresentar - contramão que uma simples explicação não resolve, mas algo de que o livro dá conta com graça. De seu exílio voluntário em Washington, a escritora conta, por telefone, seu périplo através de uma revolução, um exílio e 50 semanas na lista dos mais vendidos de “The New York Times”, e garante que as festas da juventude iraniana hoje fazem tanto parte do jogo político quanto os protestos de sempre: “Esse é o campo de batalha”.

Não há uma certa ironia no fato de “Lendo Lolita em Teerã”, que começa mostrando sua busca frustrada por livros, poder ser achado, ser quase um best-seller, em toda parte?
Mesmo em Teerã cópias xerox são passadas de mão em mão! Que posso dizer? É a grande ironia da coisa. Mas veja, de certa forma, isso prova um ponto fundamental de “Lendo Lolita…”: as narrativas têm muito poder, muito mais poder do que a realidade. O que não consegui no Irã, consegui falando do Irã. A ficção é incontrolável, imperiosa. A ficção suplanta a urdidura da realidade porque só opera dentro da lógica que ela mesma estabelece. Ela rói o real.

Como a senhora descreveria a situação atual? Segundo a imprensa, o governo está duro como sempre. No entanto, quando se conversa com iranianos – principalmente os jovens –, ouve-se que o regime anda mais calmo no último ano e meio. Contam até que a polícia de costumes está aceitando subornos para deixar festas mistas correrem soltas.
A situação é arbitrária, não há dúvida. Como eu digo no livro, tudo são momentos de estiagem no meio do temporal. É verdade, as pessoas sentem menos medo agora, ainda que haja repressão. Um dos meus estudantes aqui de Washington voltou do Irã agora e disse que o regime está endurecendo de novo. O melhor é que os jovens de agora têm menos capacidade de sentir medo, esse medo que nos faria obedecer e nos esconder num mundo privado, interno. Esses jovens, que o regime chama de filhos da revolução, eles vão para a cadeia desde muito cedo – e por uma mecha de cabelo que sai do xale, por usar batom, por ouvir música americana. Eles perderam o medo.

Quais as conseqüências dessa falta de base popular do regime?
São duas: a principal é que agora há constantes divisões dentro do governo, gente que acaba se juntando aos setores independentes e assume uma posição crítica poder constituído. O segundo efeito, todavia, é que os setores duros do regime, bem, eles estão mais duros e fortes, tentam se agarrar ao poder. Fazendo um balanço, eu diria que o Irã é muito avançado em matéria de instituições culturais e sociais. São muito sólidas e resistiram a 25 anos de revolução. Dito isso, e lamento completar com o que vou dizer agora, acho que alguma dose de violência será inevitável. O regime achou que moldaria os filhos da revolução e uma forma que sabia que não conseguiria conosco – sempre fomos considerados casos perdidos (risos). Mas esses garotos não se moldaram aos “pais”, ou seja, ao regime. Eles estão se rebelando.

Mas que rebelião é essa que não se vê tanto nas ruas?
Não é nem algo institucionalmente político, como era com a minha geração, embora o seja de uma outra forma. Esses meninos não tiveram direitos individuais. É isso que eles querem, esse é seu campo de batalha. Claro! Liberdades individuais são impossíveis nesse regime.

Como se dá essa luta?
Veja as festas. Festas mistas, com álcool e sabe-se lá mais o quê (risos). São coisas que fico sabendo através de meus alunos e ex-alunos… Dávamos festas nos anos setenta, havia esse espírito, mas as festas de hoje são coisas que nunca imaginei (risos)!

Mas não há um perigo em reagir assim, uma certa inconseqüência?
O pior perigo é entrar nessa espiral de simples reação. Querer tudo que eles não te dão. Temos de ser mais críticos, ver coisas boas e ruins. Me lembro de quando deixei o país, uns sete anos atrás: eles não eram tão críticos como a minha geração foi. Víamos os EUA, por exemplo, de uma forma muito mais questionadora, a religião de uma forma mais branda. Hoje eles acham tudo que é americano maravilhoso e têm horror a religião, a coisa acabou trabalhando no sentido contrário ao desejado pelo regime. E nem acho que seja necessário, embora ache horrível quando a religião vira ideologia, como é nosso caso. O que quero dizer é que a pura reação é muito perigosa. Veja o que aconteceu com o fim da União Soviética!

Como vão suas alunas do grupo de estudo retratado em Lolita?
Duas delas estão aqui nos EUA e é bom vê-las dando conta de si mesmas. Uma coisa que acho muito curiosa é que esses meninos, quando vêm para cá, entendem melhor ainda esse ideário americano de cultivo da liberdade e busca da felicidade. Como o batom, o namorado, tudo leva à cadeia lá no Irã, eles parecem muito mais preparados a ver esses ideais por inteiro, valorizá-los quando estão aqui. Elas sabem o que é – adoro essa expressão e a usávamos muito em Teerã – a busca pela felicidade. Não se pode encarar essa tarefa de forma superficial, rasa, como vejo muitos jovens americanos fazerem. Há pessoas que morrem por isso em alguns lugares do mundo. A felicidade não é assistir a reality shows e Britney Spears.

Para quem saiu de um regime em que a dimensão pessoal é tão reprimida, a onda dos realities não chega a ser um choque bem-vindo, uma exposição do pessoal que é impossível lá?
Olhe, gosto das sitcoms porque posso ver a imaginação de alguém ali. Há alguém por trás daquilo, e isso é inegável. Mas, nos realities, me incomoda essa dimensão voyeur, abelhuda, que é praticada. E todo mundo está nisso: Donald Trump, Paris Hilton…

Muitos traçam um paralelo entre essa exposição do pessoal nos realities e a que acontecem nos blogs de Internet. Seria a manifestação de um interesse contemporâneo pelo comum, pelo cotidiano.
Mas acho que há uma enorme diferença! Nos blogs, você não vê a pessoa, não há essa dimensão corpórea. Também há uma interface ali que não é só gráfica, é criativa, constrói-se algo ali. Presto cada vez mais atenção nisso. É uma ferramenta genial, que pode ser usada ou abusada, como todas, mas me encanta o uso que ela pode ter para se discutir e debater coisas. Os iranianos estão ocupando esse espaço, usando a Internet como fórum para discutir o privado. É fundamental discutir o privado com os outros. Assim como a democracia, os direitos humanos. Isso tem de passar também à esfera pública, principalmente no Irã.

Mas os blogs são o bastante?
Não, você também precisa da presença física. Precisa-se estar lá. É diferente. Mas é uma saída intermediária. Os blogs são muito úteis, são um lugar onde o regime não entra. O ruim é que em algum momento você precisa passar da discussão para a prática. Aí é que acontece a frustração, porque você acaba vivendo numa terra de sonhos. As aulas retratadas no livro eram assim também. Mostrávamos nossas roupas umas para as outras, discutíamos amores, debatíamos política. O mundo fora do quarto passava a ser quase irreal, etéreo para nós. E o baque, quando “voltávamos”, era sempre enorme.

De volta ao mundo real, novas eleições presidenciais acontecerão no Irã em breve. Em 2001, você disse que seria bom que os iranianos, mesmo os jovens, votassem em Mohamed Khatami para verem que ele não mudaria nada. Que o voto, em última instância, não mudaria nada.
As pessoas já mostraram esse desencanto com os reformistas nas últimas eleições parlamentares. A fé no voto está indo embora, se desmanchando. Espero que a fé numa saída pacífica, gradual, em direção à democracia não desapareça junto. Khatami me desapontou muito: falsificou uma suposta reforma desenhada para não mudar nada. Há outros fatores: a juventude quer festa, alguns se preocupam em ganhar dinheiro, não é “política” per se. Tem, claro, um fundo político, mas o voto não é mais tão importante na atual conjuntura.

O que se fez das meninas dentro do grupo de estudos?
A maioria está no exterior. Uma chegou aqui aos EUA mês passado. Uma está na Califórnia, outra no Canadá… uma virou editora. Editora em Teerã. Mas essa eu nunca achei que sairia do país. É Mashid.

Editar livros em Teerã não parece combinar com uma menina que era descrita pelas outras do grupo como feita de porcelana.
Estou muito orgulhosa por ela. É maravilhoso como ela agüentou toda a pressão vinda de cima, de seu chefe, da empresa, daquele entorno todo. Está publicando livros!

Seu trabalho é muito ligado ao de Marjane Satrapi, autora de “Persépolis”. A senhora vê esses paralelos?
Ambas narramos. Narramos a distância, em mais de um sentido. Eu, por exemplo, não queria que “Lendo Lolita...” fosse tanto uma memória minha quanto acabou sendo. Já Marjane impõe essa certa distância de um jeito fabuloso, com aquele humor ácido. E de forma altamente inesperada, tanto no Irã, onde sequer se considera fazer quadrinhos com aquela profundidade, como aqui no Ocidente. Há um problema com a maioria dos livros sobre o Irã. É que eles são – todos – muito sérios e sisudos. E Marjane escolhe justo os comics para retratar aquelas situações aterradoras. É sensacional.

O uso do humor torna a situação mais real?
Sim, claro. Ocorre um fenômeno curioso: as pessoas que me entrevistam geralmente têm muita dificuldade em lidar com isso, com o humor e com situações intermediárias. Eles querem juízos. Me perguntam: “Mas a situação no Irã vai melhorar ou piorar?”, “O regime é bom ou mau?”. E a coisa, definitivamente, é muito mais complicada.

Como assim?
Houve um caso espetacular, o da comédia “O lagarto”, um filme sobre umladrão que se faz passar por um clérigo. As autoridades do país deixaram o filme ser feito, mesmo sabendo do que se tratava. Então, quando a comédia estreou, com aquele conteúdo explosivo, abriu-se uma polêmica enorme. Proibiram o filme. Mas aí é que ele fez ainda mais sucesso! Todos queriam
saber que comédia era essa.

18.5.04

Jihad

(uma versão dessa matéria foi publicada no Idéias)

Jihad
De Gilles Kepel
Bibliex
576 pgs

Onde quer que se esconda no momento, Osama bin Laden deve estar satisfeito. Vendo os noticiários internacionais, provavelmente sorri ao assistir a Casa Branca correndo atrás das redes de televisão árabes para lamentar ou pedir desculpas pelos abusos cometidos por soldados americanos na prisão iraquiana de Abu Ghraib.

Contente, sim. Mas surpreso, a se crer no profético Jihad, do francês Gilles Kepel, não.

Uma das principais teses defendidas por Kepel em seu livro é que toda a atual estratégia do saudita desde os ataques de 11 de setembro se baseia no trinômio provocação-repressão-solidariedade. De forma mais alongada, o autor classifica os ataques a Nova York e Washington como uma grande provocação, feita sobre medida para gerar uma reação repressiva por parte dos Estados Unidos. E os chamados “danos colateriais” – os civis agredidos, as crianças aleijadas por bombardeios, os presos em Abu Ghraib – se incumbem de granjear a solidariedade de boa parte do mundo. Como se vê, já estava tudo escrito no livro de Kepel, lançado originalmente na França em 2000, antes dos ataques, portanto.

A tese, que é tão questionada quanto atentamente ouvida por quem estuda o Oriente Médio, demonstraria que o homem que passou mais da metade de sua vida em barracas de campanha é dotado de um sofisticado pensamento estratégico. É como se, sentado em alguma localidade poeirenta do Afeganistão, quatro anos atrás, Bin Laden tivesse em suas mãos calhamaços de pesquisas de opinião onde o antiamericanismo batia índices altíssimos e crescentes. Como se houvesse lido cada relatório reservado da diplomacia européia e mundial falando da petulância e unilateralismo do então novo presidente americano, George Bush. Como, também, Bin Laden dominasse tranquilamente toda a teoria de mídia produzida pelos pensantes ocidentais no século passado – de Goebbels a Chomsky, de Adorno a Guy Debord, passando por Stalin, Mandela e Gandhi – para calcular suas ações, buscando o maior impacto possível. Pode-se chegar a dizer que Bin Laden escolheu a mídia como campo de batalha preferencial ao planejar seu ataque ao “império”.

As razões fazem parte de uma outra história, essa ainda mais polêmica: Kepel interpreta os ataques aos Estados Unidos como um desesperado gesto para unir o mundo muçulmano, hoje uma legião heterogênea de um bilhão de fiéis, maior que a do cristianismo, em torno de um ideal.

Que ideal seria esse? A resposta de Kepel é que Bin Laden quer chegar ao poder ou, ao menos, ver elementos alinhados à sua filosofia chegarem ao poder. Na prática, isso não parece sequer próximo de acontecer. No chamado “mundo muçulmano”, há apenas três situações em que parece haver mudanças políticas no núcleo do poder a vista: duas delas, Afeganistão e Iraque, por obra e graça da invasão americana; na terceira, no Irã, há sinais continuados de que, se a mudança acontecer, os vitoriosos serão os moderados e os seculares, não os radicais.

Olhando pelos prismas oferecidos por Kepel, não é difícil ver porquê o espatifar gigantesco dos aviões contra as Torres Gêmeas não se traduziu até agora na tomada do poder. Embora angarie toneladas de solidariedade mesmo dos não-muçulmanos, o saudita se afastou perigosamente das bases do movimento islâmico. Ao contrário do que aconteceu no Irã pré-revolução islâmica, Bin Laden nunca conseguiu construir uma base ativista ampla. Quer por seu radicalismo, quer pela oferta/ameaça do martírio, a Al Qaeda tem poder reduzido para atrair a juventude pobre e sem perspectivas das cidades, os comerciantes pios dispostos a financiar a causa ou mesmo a classe média de convicções quase seculares, setores que garantiram, por exemplo, a subida do aiatolá Khomeini ao poder.

A revolução iraniana, aliás, é o único caso de sucesso dos movimentos radicais islâmicos lembrado por Kepel. Os fracassos, por outro lado, são muitos. No Egito, a Irmandade Muçulmana, que no início dos anos 80 parecia destinada a dar as cartas no Norte da África, errou ao radicalizar seu discurso e ações, isolando elementos mais moderados que poderiam ao menos ser úteis. No Paquistão, os radicais se incrustaram nos altos escalões do governo. Foram os principais incentivadores dos talibãs afegãos, assim como os EUA, em certa época. Mas bastou serem forçados a uma decisão – logo após os ataques de 2001, quando Bush declarou que quem não estava com a América estava contra – para o moderado general-presidente-primeiro-ministro Pervez Musharraf ganhar a disputa.

É um giro de argumentação ambicioso, o que Kepel propõe. Professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris, parece ter as credenciais para ter essa audácia. Desde seu primeiro trabalho, Les Prophetes et Pharaon, sobre os extremistas egípcios, o islamismo é seu foco. Graças a sua fluência em árabe – algo menos costumeiro entre os que estudam a região do que se pode supor – pode contar com a colaboração de mais de uma dezena de centros de estudos políticos no Oriente e citar centenas de periódicos árabes obscuros em seus trabalhos.

Jihad, além de uma ampla, bem escrita e fartamente documentada história do extremismo islâmico nas últimas três décadas, relê o homem mais temido do mundo hoje como o representante de uma corrente política no fim de suas forças, disposto a gestos desesperados para relançar sua causa. Adicionalmente, retrata o mundo muçulmano atual não como um emaranhado pétreo de ditaduras, mas uma peneira cada vez menos eficiente em tampar o sol de mudanças democráticas ainda a germinar, mas já plantadas. São visões inusitadas sobre a região que monopoliza as atenções do mundo há três anos, que Kepel esgrima com segurança e serenidade incomuns.

14.2.04

Sherazades tiram véu de silêncio


Marjane Satrapi, em autoretrato

(Publicada originalmente no Idéias, do JB)

Reading Lolita in Tehran
Azar Nafisi
Random House, 238 páginas
US$ 13,95

Persepolis
Marjane Satrapi
Pantheon, 160 páginas
US$ 12,57

O primeiro é um ensaio sereno e sofisticado, crivado de referências literárias. O segundo, uma ácida história em quadrinhos feita a partir da ótica de uma criança. Contudo, a distância entre Lendo Lolita em Teerã, de Azar Nafisi, e Persepolis, de Marjane Satrapi, não poderia ser menor. Tão diferentes quanto complementares, as duas memórias (que serão publicadas este ano no Brasil) abordam a vida de suas autoras durante a Revolução islâmica do Irã, que completa 25 anos este fevereiro, numa fase de instabilidade com poucos precedentes.

Persepolis retrata em forma de quadrinhos a infância e adolescência de Marjane no Irã, entre o fim da década de 70 e o início da década de 80. A autora diz que o livro registra as histórias que, por anos, fascinaram amigos e colegas: as polícias de costumes, os mísseis iraquianos, os jasmins que sua avó guardava dentro do sutiã para ficar cheirosa. Depois do sucesso – 150 mil cópias na França, 40 mil nos EUA e uma sucessão de prêmios – já estão sendo finalizados mais dois volumes, que retomam a história do abrupto ponto onde parou. Já Lendo Lolita… mistura análise literária sobre Nabokov, James, Austen e outros com as memórias do período em que Azar, uma professora de literatura inglesa, mantinha classes clandestinas em casa com um seleto grupo de ex-alunas.

O véu, por coincidência, é o ponto de partida das duas histórias. Para Azar, ele funcionou como uma senha. A exigência, por parte de seus superiores na Universidade Allameh Tabatabai, de que usasse o hejab durante as aulas foi o sinal de que os tempos haviam mudado demais. Desligou-se da universidade e passou a reunir em sua casa um grupo tão interessado quanto heterogêneo de alunas para discutir grandes obras da literatura ocidental. Já em Persepolis, é o véu que torna palpável para Marji toda a reviravolta cultural imposta pelos ciosos mulás: sem saber exatamente por que cobrir os cabelos com aquele pano espesso e negro, Marjane e suas colegas do liberal (e agora extinto) Liceu Francês transformavam o hejab em corda de pular, fantasia de monstro – ou simplesmente jogavam-no no chão.

E é exatamente essa sanha infantil de reinventar elementos da realidade circundante (ou mesmo de abandoná-los, suprimi-los) que os quadrinhos de Marjane flagram com boa mira. Num momento, ela festeja a derrubada do xá entronado pelo Ocidente; noutro, odeia o regime por não permitir turmas de meninos e meninas; num terceiro, quer alistar-se, aos 11 anos, para lutar por seu país na guerra com o Iraque. Da mesma forma, diz ser o novo Messias e recebe Alá para conversas ao pé da cama – apenas para venerar Che Guevara e ler avidamente uma versão em quadrinhos do Materialismo dialético no instante seguinte. A grande diferença entre Karl Marx e o Altíssimo, conclui ela num certo ponto, é que o cabelo do primeiro é mais encaracolado.

Mas é um engano confundir a inocência da personagem com a da autora. Um humor por vezes ácido permeia todo o roteiro que, se à primeira vista parece linear em excesso, tem pontos de tensão, drama e comédia magistrais. Nesse sentido, os desenhos de Marjane – radicalmente monocromáticos, lembrando muito as xilogravuras do nosso cordel – servem como metáfora perfeita do que parece ser seu método. O preto-e-branco, assim como o ponto de vista pretensamente infantil, serve para descarnar e expor os cinzas de uma realidade complexa, não distorcê-la ou mascará-la. Diz muito, por exemplo, o fato de ela não citar sequer uma vez o nome do aiatolá Ali Ruhollah Khomeini. Lendo Lolita… mergulha num mundo de cores mais vivas. A atenção da autora flutua sobre vários períodos, abandonando-se em digressões povoadas ora de anedotas, de memórias, de livros, ora de suas alunas. O colorido é também imposto às obras que são discutidas no grupo, talvez um dos itens mais interessantes do livro. É esclarecedor que ao fim da introdução Azar afirme que “não há como escrever sobre esse romance sem também escrever sobre Teerã. Essa, então, é a história de Lolita em Teerã, como Lolita deu uma cor diferente a Teerã e como Teerã ajudou a definir o romance de Nabokov, transformando-o nesse Lolita, nosso Lolita”.

Esse Lolita ao gosto das freguesas, aliás, está bem distante do clichê com que nos costumamos deparar em análises da obra: avaliações morais sobre o caráter tanto de Lolita quanto de seu algoz, Humbert, e a habilidade desse último em seduzir também o leitor. O que interessa nessa Lolita teeraniana é a forma deliberada e lógica com que Humbert molda e conta a história de “sua” pequena Dolores. É a dinâmica de uma vivência seqüestrada que Nabokov, através de Humbert, dá em conta-gotas ao leitor. O mesmo se repete quando Azar e suas pupilas analisam brevemente as Mil e uma noites. Se tanto a rainha quanto as virgens mortas pelo rei noite após noite não têm como reagir ao monopólio da violência detido pelo monarca, Sherazade e sua irmã se safam porque se posicionam de outra forma dentro das mesmas circunstâncias. Substituem a violência, plano em que o rei tem o domínio, por uma relação em que conta mais a criatividade que a força.

O mesmo sucede com as autoras de Lendo Lolita… e Persepolis, que tomam suas histórias nas mãos e provam que ler e lembrar podem ser gestos da contestação mais dura. Tem um sabor amargo, contudo, a constatação de que ambas só podem fazê-lo a partir do exílio, Marjane em Paris, Azar em Washington.

7.8.03

Introducing Mr. Ravenscroft



Esta figura aí mingling with the natives do Morro do Cantagalo é Nick Ravenscroft, que aportou no Brasil para fazer uma série de matérias para o programa World Tonight, da BBC. Fui seu produtor na empreitada. Aqui você ouvir os áudios dos quatro programas. São curtos, por volta de cinco minutos cada. São uma aula de jornalismo conciso e bom, também.

• Em Guns in the slums, Ravenscroft narra nossa ida a um baile funk no Complexo do Alemão. Inicialmente, a idéia era apenas acompanhar o DJ Marlboro em seu dia-a-dia. Mal sabíamos que não estávamos sendo esperados e portanto os donos do morro estavam presentes e armados.
• Em Lifestyles, a comparação de dois cariocas morando a dois quilômetros um do outro fala de forma simples sobre a desigualdade no país. Um personagem mora em Ipanema. Outro, no Morro do Cantagalo.
Punch its weight fala de como o país está se tornando um ator de peso no mundo. Entram desde a nova diplomacia até as empresas brasileiras que conquistam o mercado mundial.
• Finalmente Zero Hunger fala da grande vitrine do governo, o Programa Fome Zero, suas conquistas e seus problemas, direto do Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais,
um dos lugares mais pobres do país.

11.9.02

EUA afiam suas armas

Silenciosamente, forças e bases americanas se preparam para derrubar Saddam

(Publicada originalmente no JB)

Na sexta-feira, tentando acalmar os ânimos da imprensa americana, que há duas semanas pressiona a Casa Branca a respeito da guerra contra o Iraque, um assessor do presidente George Bush afirmou que uma decisão definitiva poderia vir apenas em 2003. Na verdade, um significativo movimento de tropas e suprimentos, além da reforma de bases cruciais para a ofensiva, já está acontecendo enquanto imprensa e analistas internacionais debatem os prós e contras de se derrubar Saddam Hussein.

O quartel-general da 3ª Divisão de Infantaria Mecanizada foi transferido de Forte McPherson, na Geórgia, para o Kuwait. Esperando por ela, batalhões de soldados especializados em planejar a logística necessária para receber um contingente numeroso. Além disso, a 101ª Divisão Aerotransportada, a primeira a entrar na guerra em quase todas as situações, voltou - inteira - do Afeganistão. Seus homens podem estar em qualquer ponto do globo prontos para lutar em 36 horas.
Na base de Al Udeid, no Catar, os sinais também são claros: uma cidade de tendas brotou do chão desértico. Hangares foram reforçados e, em alguns casos, blindados. Cercas para proteger as tropas foram instaladas. Tudo foi documentado e fotografado por satélites comerciais e as imagens estão na internet.

Há um novo pensamento por trás da movimentação de tropas. Uma senha para entendê-lo é fornecida por John Pike, analista militar independente do centro de estudos GlobalSecurity: ''Os planos anteriores, como os da Guerra do Golfo, em 1991, visavam a derrota do Exército iraquiano, não uma mudança no regime'', diz Pike. A nova articulação foi confirmada por um oficial do Pentágono, que, mantendo-se anônimo, garantiu que o centro de gravidade da nova guerra não são soldados, mas o próprio Saddam.

A mudança ocorreu, segundo extensos rumores na imprensa americana, na semana passada: na quarta-feira, o chefe do Comando Central, general Tommy Franks, propôs algo próximo da Operação Tempestade no Deserto, que em 1991 expulsou as forças iraquianas do Kuwait: 250 mil homens e 15 esquadrilhas de ataque. Criticado pelos civis da administração Bush por sua ortodoxia, Franks ofereceu um segundo plano, apelidado de ''Guerra do Golfo Light'': não mais que 50 mil homens, extenso apoio de forças especiais e menos aviões.

Há um consenso a respeito do momento da invasão, fim de novembro para uns, janeiro e no máximo fevereiro para outros. O motivo é simples: os soldados dos EUA só suportariam as fardas herméticas que protegem contra ataques de armas químicas durante o inverno. Uma variável que certamente Saddam tem em conta.

17.8.02

Memórias de um guerreiro islâmico (e americano)



My Jihad
De Aukai Collins
Lyons Press
256 Páginas
Sem lançamento previsto no Brasil

(publicado originalmente no JB)

Pele muito branca, cabeça raspada, estranhos olhos azuis e uma longa barbicha ruiva que desce até a altura do peito, a figura de Aukai Collins tem mais de metaleiro que de mujahedin. Mas é exatamente isso que este americano de ascendência irlandesa é: um guerreiro santo - e americano - do Islã, que conhece os dois lados da guerra ao terror. Quantos já treinaram em campos financiados por Osama Bin Laden e colaboraram com a CIA e o FBI?

As cicatrizes de batalha estão em todo lugar: cauterizações, pontos e cortes distribuídos pelo corpo maciço, uma prótese mecânica que substitui o pé direito, perdido na explosão de uma mina terrestre na Chechênia, e, principalmente, um estilo de pensar e escrever que tornam as pouco mais de 200 páginas de My jihad - ''Minha jihad'' - uma leitura perturbadora.

Aukai, nascido no Havaí, criado na Califórnia, convertido num reformatório, e batizado em fogo na Caxemira, Afeganistão e Chechênia, narra no livro seu périplo de campo de batalha em campo de batalha, a camaradagem com os guerreiros do Islã, a decepção com o mundo dos fundamentalistas e também com os serviços de segurança americanos.

''A virada aconteceu depois que saí do reformatório e comecei a freqüentar uma mesquita, mais ou menos em 1992'', contou por telefone ao Jornal do Brasil. ''Uns cristãos trouxeram um bósnio para o nosso templo, mas para todos na mesquita ele era um mau muçulmano. Os sérvios tinham torturado o cara e os muçulmanos de lá lhe negaram ajuda. Foram os cristãos que o trouxeram para os Estados Unidos e para a mesquita. Disse a meus colegas que eles estavam loucos: 'Nós desapontamos esse cara, e não o contrário'. Foi então que decidi que precisava fazer alguma coisa.''

A ''coisa'' era a jihad, luta na qual o Alcorão ordena a todos os fiéis fisicamente capazes que se envolvam, se houver muçulmanos ameaçados em qualquer parte do mundo. Meses depois, Collins estava em Zagreb, tentando – em vão – partir para Sarajevo. ''Eu queria lutar'', diz.

Collins sobreviveu para contar

O americano terminou aceitando o convite de um amigo e rumou para Karachi, no Paquistão, tendo o território disputado da Caxemira como destino. Depois de algumas patrulhas, rumou, junto a um grupo de árabes e paquistaneses, para o Afeganistão.

Lá, conheceu Omar Said Sheikh, um dos assassinos do repórter do Wall Street Journal, Daniel Pearl. Sheikh, hoje preso, já pensava em ir para a Caxemira e fazer reféns, afirma Collins. ''É nesse ponto que eu paro. Vou para a linha de frente, para a luta aberta, mas não faço isso. O Islã proíbe o ataque a civis'', diz.

Nessa época, Collins treina num campo financiado por Bin Laden, mas seu projeto, defender os muçulmanos contra os comunistas no Tajiquistão, falha. Volta, então, para os EUA e, em 1995, vai para a Chechênia. Luta, mata, casa-se, tem um filho – Saifudeen – e perde a perna.

Tantas experiências bizarras dão à voz de Collins uma serenidade e placidez estranhas. Não combinam em nada com o corpo largo de jogador de futebol americano. O tom se mantém no texto, numa maneira quase insensível e seca de narrar episódios hediondos. Collins não poupa o leitor dos detalhes de batalhas, do tédio das viagens, das mortes – de quase nada. É um texto que deve ser encarado não como vindo da caneta de um autor típico, mas de um Jack London ou outro escritor de aventuras. Tanta aridez por vezes realça trechos de ironia mórbida.

Tome-se o exemplo da passagem em que Collins conta seus primeiros dias num campo de treinamento na fronteira paquistanesa da Caxemira: ''Um dia estava sentado numa borda da clareira do campo quando um de meus colegas me chamou. Explicou que o comandante Khalid queria me ver. Deve ser algo importante, pensei. Quando entrei em sua tenda, ele estava sentado em almofadas, ao lado de um assistente. 'Sente-se', falou ele, sério, em inglês. Pensei que estava com problemas. 'Sim', disse. Sim o quê? Decidi rir. Então ele levantou sua perna amputada. Tinha posto no coto uma meia preta com dois olhos brancos desenhados. Parecia a cabeça de uma ovelha. Então, seu assistente começou a cantar. 'Ba, ba, ovelha preta, você tem alguma lã?', cantava ele com um forte sotaque urdu. Khalid mexia a perna como se fosse a ovelha que cantasse. 'Sim senhor, três sacos grandes!'. Fiquei olhando aqueles dois homens estranhos. Os olhos do assistente brilhavam. No fim da música, os dois urravam de tanto gargalhar.''

Collins acerta na organização do livro. A primeira parte contém suas idas e vindas no mundo da jihad internacional, partindo de um reformatório em San Diego para o encontro dos homens de Bin Laden, nome a que os americanos se habituaram depois de 11 de setembro. A terceira fala de seu período na Chechênia, concentra o grosso da ação. É na segunda que o brutamontes revela sensibilidade, ao contar, em magras páginas, sua infância e juventude. As frases se alongam, um adjetivo surge aqui e ali, e Collins se permite refletir enquanto escreve. Os parágrafos que narram o assassinato de sua mãe – que terminou boiando num pântano próximo de casa, ''suas mãos longilíneas comidas pelos pequenos caranguejos que eu pescava com um puçá'' – têm uma cor dolorida e intensa.

O estranho Collins agora espera o dinheiro dos direitos autorais do livro num pequeno apartamento em Baltimore. ''Minha vida anda uma m... total'', diz. Mas voltaria para a Chechênia, por exemplo? ''Claro, assim que conseguir o dinheiro'', afirma rápido. ''A Chechênia é um lugar tão legal!''

24.7.02

''Sei que vou ser criticado''

Sérgio Vieira de Mello fala dos desafios que o esperam como alto comissário para Direitos Humanos

(Publicada originalmente no JB)

Confirmado ontem pela Assembléia Geral da ONU como o novo Alto Comissário para Direitos Humanos da organização, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello ainda aborda com cautela a missão que tem à frente. Sabe, contudo, que o cargo que ocupará a partir de setembro é um dos mais espinhosos das Nações Unidas. Vieira de Mello, que dirigiu a missão da ONU no Timor Leste, conversou por telefone com o Jornal do Brasil, de sua casa, em Nova York.
- Qual a sensação de ser incumbido de uma tarefa como essa?
- É semelhante ao que senti quando cheguei a Timor Leste. Agora começo a me dar conta da extensão, do desafio e da responsabilidade que levarei nos ombros a partir do dia 12 de setembro. Tenho plena noção da dificuldade inerente a meu posto e da multidão de problemas concretos, teóricos e práticos, com os quais vou me defrontar. As próximas semanas serão, sem dúvida, de aprendizado.
- Quais são as maiores questões relativas aos direitos humanos hoje?
- É difícil ser específico agora. Direitos humanos é quase tudo. Respirar é um direito humano, direito à vida. Mas há o perigo da diluição, da dispersão. Uma das minhas principais tarefas será priorizar. Identificar as áreas que devem ser abordadas primeiro. Não se deve dar atenção apenas à promoção da teoria dos direitos humanos, mas também às situações em que os direitos se encontram ameaçados ou cerceados. Se for me pautar pelas emergências políticas ou humanitárias, posso estar negligenciando outros aspectos. Não quero fazer isso antes de pedir conselhos a minha colega Mary Robinson.
- Robinson deixa o cargo com boa reputação entre defensores dos direitos humanos, mas criticada por vários governos. O que o senhor acha que mudará com sua entrada?
- O que muda são as personalidades. Cada um tem seu estilo, seu enfoque. O meu não será idêntico ao dela, mas certamente vou me beneficiar de tudo que ela realizou. Mas meu cargo tem muito daquilo que os ingleses chamam de no win situation. Não se pode agradar a todos. O que vou tentar fazer, e não digo que vou ter mais êxito que Robinson, é complementar o trabalho do secretário-geral Kofi Annan. Quero evitar também a hiperpolitização de alguns temas de direitos humanos e encontrar áreas de consenso. Sei que vou ser criticado por uma ou outra parte. Isso é parte do meu cargo por definição.
- O senhor tem idéia de quais seriam os pontos de tensão?
- Seria precipitado mencioná-los agora. Minhas prioridades serão conhecidas na prática, não necessariamente em declarações públicas.
- Há alguma mudança no contexto de sua atividade após os atentados de 11 de setembro?
- Os atentados são um divisor de águas. Os métodos usados pelos terroristas ultrapassaram tudo o que podíamos imaginar. Mas também o combate a estas novas formas de terrorismo cria um desafio para a promoção dos direitos humanos. É preciso criar salvaguardas. A promoção desses direitos deve ser feita de forma a tornar impossível o recurso a atos insensatos como aqueles.
- O senhor acredita que, com sua nomeação, haverá mais dedicação do Brasil à proteção dos direitos humanos?
- O Brasil desenvolveu na última década uma nova consciência, importantíssima, sobre o assunto. Sabemos, contudo, da dificuldade de transformar a teoria em prática num país tão grande e jovem como o nosso. Como alto comissário, não posso tratar de um país em particular, muito menos o meu. Mas é óbvio que, por ser brasileiro, desenvolveremos um diálogo com Brasília. Espero que me apóiem com idéias e sugestões. E também que me ouçam quando for preciso expressar algum ponto de vista ou alguma preocupação. Sei que o Itamaraty estará aberto a isso.
- Finalmente, qual seu balanço da transição para a independência que o senhor comandou em Timor Leste?
- Foram dois anos e meio excepcionais no sentido original da palavra: fora do comum. Timor foi diferente de tudo que a ONU já fez. Encontramos um país em ruínas e o deixamos com novas instituições. Instituições ainda frágeis, mas o país é seguro, estável e, principalmente, tem consciência de sua própria responsabilidade de levar adiante e consolidar o que se construiu até aqui. Entregando as chaves de meu gabinete ao presidente Xanana Gusmão, não houve um corte, mas continuidade. Tudo que conseguimos foi fruto do trabalho conjunto com os timorenses, seguindo sempre o que eles quiseram, o que é mais importante.

22.4.02

Morte e vida palestina

(publicada no JB)

Moradores de Ramala aprendem a conviver com tanques, medo e tédio

Ovos. A maior preocupação do senhor Jumah naquela tarde era a dúzia de ovos que ele levava com cuidado entre os escombros de prédios que agora complicam o trajeto da casa de sua mãe à sua própria. De repente, o senhor de 50 anos estanca, de frente para dois tanques igualmente imóveis. É de novo uma criança com medo e uma dúzia de frágeis ovos, um tesouro nas atuais circunstâncias, nas mãos: ''eles me mandaram voltar. Voltar pra onde?'', exclama, afinando a voz.

Jumah, que mora em Betúnia, uma das localidades que compõem a Grande Ramala, não dá o primeiro nome. Assim como ele, uma multidão anônima, em torno de 150 mil pessoas, vive há mais de três semanas sob bloqueio militar israelense, entre cinzeiros cheios, o aparelho de TV, os cantos das janelas, livros lidos sem muito interesse e uma mistura desagradável de medo e tédio.

''É quase a mesma coisa que uma prisão, só que na sua casa. Você perde o senso de tempo, esquece em que dia está e só olha para o relógio quando sabe que está chegando a hora de suspenderem o toque de recolher'', conta o estudante de engenharia Badawi Qawasmi. ''Nos primeiros dias, ficávamos assistindo os tanques, vendo se os soldados iam parar na frente de casa para nos pegar. Além disso, víamos muita TV e ouvíamos rádio - se bem que depois de uns dias as estações foram saindo do ar. Quando acabava a luz, jogávamos cartas. Depois de dez dias já não agüentava mais nada disso''.

Foi aí que Badawi e os irmãos começaram a tirar os livros da prateleira. Primeiro, para adiantarem as leituras da faculdade ou os deveres do colégio. Depois, para se desligarem da realidade. ''Peguei meus livros do curso de francês e estou pelejando para ler. Chateaubriand, Baudelaire, o que tiver''.

Um dos poucos acontecimentos a quebrar a modorra é quando os soldados anunciam através de megafones o levantamento do bloqueio, geralmente entre uma e quatro da tarde. É hora de correr para comprar farinha, água, legumes, remédios. O pão sai só às vezes, mas sempre fresco, porque o padeiro é liberado antes de todos para esquentar o forno, abrir a massa e preparar as bandejas.

Uns aproveitam para alimentar o espírito. ''Sexta-feira consegui ir à mesquita'', conta o senhor Jumah. ''A daqui é uma das poucas onde ainda há xeques para dar sermões. Muitos foram mortos ou presos – a maioria é do Hamas. Estão tendo cuidado com os discursos. Os soldados podem estar ouvindo''. Outros são mais mundanos. Hasan, filho de Jumah, por exemplo, foi para um ciber-café próximo ler os jornais e mandar e-mails para os amigos e para a namorada que ele tem visto pouco, por razões óbvias.

Depois de 21 dias, o dinheiro para pagar tudo virou problema. Quem tem salário mensal ajuda os diaristas e os que vivem de semanada. Os que têm poupança já se preocupam e os que não têm apelam para as agências humanitárias que circulam pela cidade levando cestas básicas com farinha, leite em pó e frangos. Segundo Jumah, quem tem dinheiro divide, quem paga aluguel está perdoado e quem precisa de remédio pede.

As poucas horas na rua não chegam a ser calmas. Os soldados estão em todo lugar e os tanques já tem uma linguagem própria. A torre vai da esquerda para a direita. É um ''não''; o canhão para cima e para baixo é um ''sim''. Na dúvida, uma mão sai de dentro da escotilha e acena um gesto meio ininteligível. No último estágio, os soldados dentro da máquina falam pelo alto-falante algo em árabe ou hebraico.

A tensão chega ao pico no início e no fim do período de liberdade. Diversas pessoas já foram baleadas por ainda estarem na rua durante o toque de recolher. Ontem um adolescente de 15 anos foi morto por pôr os pés na rua três minutos antes do permitido, segundo Badawi. A confusão é maior porque os horários são estabelecidos pelo fuso israelense, uma hora mais tarde que o da Autoridade Palestina. No fim da tarde, as pessoas voltam para casa carregando sacolas e contando as novas. Então segue-se mais horas de tédio, ar contaminado e falta de sono.

''Pode me ligar mais tarde'', diz Badawi, pouco antes de se despedir, depois de quase uma hora de entrevista e alguns minutos antes da meia-noite palestina. ''A gente dorme a qualquer hora, pode me acordar''.

7.2.02

Blair e Bush entre o Nobel e o belicismo

Venda de armas à África arranha indicação para Academia

(Publicada originalmente no JB)

Comandantes de um tempo de guerra, o americano George Bush e o britânico Tony Blair foram indicados para o prêmio Nobel da paz. A indicação veio de um membro da ultra-direita do governo norueguês, Harald Tom Nesvik. O parlamentar do Partido do Progresso afirma que os dois atendem perfeitamente o critério criado por Alfred Nobel, determinando que o vencedor deve ter feito ''o melhor trabalho pela fraternidade das nações, pela abolição ou redução dos Exércitos e pela promoção da paz''. Segundo Nesvik, ''às vezes você tem de usar de força para garantir a paz'', numa referência à chuva de bombas contra os terroristas nas montanhas do Afeganistão.

O anúncio soa ainda mais estranho nessa semana, quando Bush propôs o maior orçamento militar desde a Guerra Fria e Blair, a caminho da África num safári político, é alvejado em casa e no exterior pela postura dúbia de seu governo quando desenvolvimento e armas se misturam.

Afinal, como explicar que um pacifista tenha autorizado apenas nos últimos três anos um aumento de 400% nas vendas de armamentos para governos africanos, continente onde há mais guerras civis que se possa contar, ditaduras a granel e miséria sobrando? Embora as vendas não pertençam ao governo inglês, mas a empresas particulares, Downing Street tem de dar seu visto em cada uma delas.

Retórica - O problema seria menor se Blair evitasse declarações como as feitas na última convenção do Partido Trabalhista - quando prometeu ''socorrer os famintos, os miseráveis, os ignorantes, os que passam necessidade e vivem na imundície'' - e admitisse abertamente que seu país vende cada vez mais armas para o continente africano, que ele mesmo define como ''uma cicatriz na consciência do mundo''. Estaria apenas tomando a atitude típica de liberal, longe de ser o pior pecado no país.

Em 1999, as vendas passaram US$ 70 milhões, em 2000 saltaram para US$ 176 milhões e no ano passado chegaram a US$ 280 milhões, segundo o Campaign Against Arms Trade, que luta para impedir a venda de armas. Boa parte desse bolo é referente à venda de caças leves de ataque Hawk para a África do Sul, mas o acordo que está levantando mais polêmica - não só entre ONGs que discordam da política do governo, mas entre os lordes e o público - é mesmo o caso da Tanzânia.

Um contrato no valor de US$ 40 milhões foi fechado entre o governo do país africano e a BAE Systems para a construção de um sofisticado sistema de radares militares. Apesar da pobreza do país, da desaprovação explícita do Banco Mundial e de regras da União Européia que, se adotadas, poderiam minar o negócio, Blair aprovou a venda. ''A coisa toda fede'', disse um funcionário do governo ao diário The Guardian.

Em tempo: a Tanzânia têm oito aviões militares e uma renda per capita de US$ 500.

9.10.01

''Forças especiais estão no Afeganistão''

Entrevista DAOUD MIR

(Publicada originalmente no JB)

Daoud Mir é um dos representantes da Aliança do Norte (também chamada de Frente Unida) que tenta costurar em Washington um acordo definitivo com a Casa Branca para depor os talibãs. Segundo contou ao Jornal do Brasil por telefone de Washington, a colaboração já começou: forças especiais estariam estudando o território afegão com a ajuda da Aliança, preparando-se para uma ofensiva terrestre.

-Qual a posição da Aliança do Norte sobre os ataques anglo-americanos ao Afeganistão?
-Nós saudamos esta ação contra os campos terroristas no Afeganistão porque os afegãos são vítimas e reféns desses terroristas. A coalizão internacional começou hoje uma segunda onda de ataques precisos contra instalações militares dos talibãs e de Bin Laden. Estamos prontos para iniciar nossa cooperação em terra também. Nos próximos dias, iniciaremos nossas próprias ofensivas.
-Qual é a situação atual da Aliança? O que falta para o começo de uma ofensiva?
-Estamos prontos para lançar uma ofensiva contra os talibãs e Bin Laden nos próximos dias. É claro que não posso mencionar datas precisas, mas gostaríamos de continuar nossa colaboração em terra com as outras forças.
-O senhor fala em continuar. Isso quer dizer que já existe uma cooperação em terra acontecendo?
-Sim, é claro. A comunidade internacional entendeu que, sem a ajuda da Frente Unida, não conseguirá muita coisa. Os afegãos estão prontos para lutar contra o terrorismo no país porque eles são as primeiras vítimas.
-Russos e americanos prometeram vários graus de apoio. A Aliança já recebeu algo concreto desses dois aliados, seja em armas ou dinheiro?
-Ainda não. Tivemos várias promessas, mas até agora não recebemos nada concreto da Rússia ou de qualquer outro país. Estamos abertos para receber suprimentos militares e lutar.
-Mas, concretamente, o que eles prometeram? Dinheiro, armas...
-Pedimos dinheiro, armas e auxílio tático, mas tudo que conseguimos até agora foi que eles jogassem suprimentos humanitários para o povo do Afeganistão. Eles agora sabem que o povo afegão é contra o terrorismo. Esperamos impacientemente por armas e dinheiro porque poderíamos acabar com isso rapidamente se trabalhássemos juntos.
-Concretamente, há alguma coisa?
-Do ponto de vista prático, nós temos alguns contatos em terra. Forças especiais estão no Afeganistão. Sei disso porque nós, da Aliança, construímos alguns abrigos para eles dentro da área sob nosso controle.
-Forças especiais americanas?
-Sim, americanas e de outro membro da coalizão. A presença ainda é pequena. Mas esperamos que o apoio militar e financeiro chegue logo.
-O senhor estaria autorizado a revelar onde essas forças estão?
-É claro que não posso revelar a localização exata das forças especiais, mas posso dizer que elas estão num lugar seguro sob nosso controle. Controlamos mais de 30% do Afeganistão e construímos um abrigo sólido e seguro para elas poderem estudar conosco o planos para as futuras operações terrestres no país.
-Quais são as articulações para o próximo governo? A Aliança do Norte vai participar da grande assembléia afegã, a Loya Jirga?

-Sim. Este é o ponto mais importante. Nosso povo sempre resolveu seus problemas de maneira extremamente democrática, através desta instância. Assim, convidamos o antigo rei afegão, Zahir Shah, não como um monarca, mas como uma personalidade importante no país, que pode ajudar a elaborar um esquema político justo que incluiria todos os grupos da sociedade afegã.

30.9.01

Futuro incerto do Afeganistão pós-talibã

Operação dos EUA contra o terrorismo pode mais uma vez deixar o país sem governo e com poucas alternativas

(Publicada originalmente no JB)

A planejada ofensiva americana contra o Afeganistão tem como alvo o milionário saudita Osama Bin Laden, mas certamente acabará ferindo de morte outro inimigo americano: o regime extremista dos talibãs, que controlam o país e protegem o homem acusado pelos atentados do último dia 11 nos Estados Unidos. E esta perspectiva, por incrível que possa parecer, é assustadora na complicada geopolítica da região. No Afeganistão, como em poucos lugares no mundo, os períodos de vazio de poder fazem tanta ou mais diferença no futuro do país quanto os períodos com governo. Hoje já se pergunta: quem, afinal herdará esse país miserável?

Os americanos sabem que não podem fazer como em 1994, quando, para tentar tranqüilizar a situação, aceitaram que o Paquistão implantasse um regime com o qual tinha afinidades étnicas e religiosas, integrado por estudantes de teologia das madrassas, escolas corânicas paquistanesas. Na época, ao contrário de hoje, poucos sabiam o que significava quem eram os talibãs.

Cautela - Washington parece ter aprendido com os erros do passado. Dá um passo de cada vez, trocando informações. Suas movimentações em direção dos dois sucessores mais evidentes agora - a Aliança do Norte e o antigo rei Zahir Shah- têm sido marcadas pela cautela.

É precisamente essa cautela que tem refreado o impulso americano de dar dinheiro e armas para a Aliança do Norte, de longe a maior oposição organizada ao regime, e sair conquistando posições no país. A Aliança teria a capacidade de tomar Cabul em breve mas Washington sabe que ela nunca seria capaz de governar o Afeganistão. A razão é simples e está no sangue: muitas etnias dividem o país. A Aliança Norte agrupa diversas minorias, enquanto os talibãs são a parte mais articulada da maior etnia afegã, a dos pashtos.

''De uma coisa eu tenho certeza: não há como governar o Afeganistão sem ter os pashtos do seu lado'', afirma Teresita C. Schaffer, do Centro de Estudos Estratégicos Internacionais (CISS), de Washington. A Aliança está ciente desse fato. Tanto que, nos últimos dias, tem se apresentado com o nome de Frente Unida.

''A Aliança está soando muito mais pró-Ocidente agora. Está determinada a derrubar o regime talibã'', diz Keneth Weisbrode, analista internacional com passagem pelo Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS). ''Acredito que o papel dos americanos agora seria tirar vantagem disso para capturar Bin Laden e destruir sua rede'', diz ele.

Problemas étnicos - Será difícil para a Aliança conseguir o consenso, contudo. ''Muitos dos comandantes da Aliança, como Israel Khan, de Herat, e Abdul Dostan, de Fary, têm péssima reputação devido à sua brutalidade''. Um governo da Aliança também desagradaria o Paquistão, que é um importante aliado dos EUA na ofensiva antiterror.

A ONU vem advogando há anos um governo de coalizão. Para a sorte de quase todos envolvidos, existe uma versão afegã milenar para esta prática comum na doutrina da resolução de conflitos: a joya jirga.

''É um antigo costume afegão. Trata-se de um encontro de todos os líderes tribais para resolver um problema. Nesse caso, estabelecer um governo legítimo'', explica Weisbrode. É nesse esquema que entra o rei Zahir Shah, deposto nos anos 70. Ele é o maior articulador da nova joya jirga e conta com os o apoio americano.

A coalizão tribal deve contar, inclusive, com membros moderados do talibã - seja lá o que isso signifique. ''Se for para acabar com os campos de treinamento terrorista, acho que os EUA estão prontos até para aceitar algumas pessoas do regime talibã nesse novo governo'', conclui Teresita.


ERROS DO PASSADO

''Se você me pedir para resumir todos os problemas da política americana para o Afeganistão, eu diria que o problema é que até bem pouco tempo não havia qualquer política para o país'', explica ao Jornal do Brasil o analista independente Keneth Weisbrode. ''Eles simplesmente deram as costas para o país em 1989 e deixaram-no descer ao caos''.

A debandada diplomática americana aconteceu poucos meses depois da debandada soviética. Para os americanos, a missão estava cumprida: eles já haviam dado aos mujahideen (guerreiros santos), dinheiro e armas para mandar o perigo vermelho para casa e o império soviético terminou se esfacelando.

O Afeganistão desceu ao caos, como diz Weisbrode, e as diversas guerrilhas que lutaram unidas para expulsar os russos passaram a guerrear entre si para chegar ao poder, acabando com a pouca infraestrutura que restava. Foi nesse cenário que os talibãs, com o apoio de seus ''irmãos'' paquistaneses - e a aquiescência dos americanos - subiram ao poder, derrubando o presidente Burhanuddin Rabbani, que havia sido empossado em 1992.

Esquisitos - ''As opiniões do governo americano sobre o talibã estavam muito divididas desde o início. Alguns otimistas viam neles forças da estabilidade - afinal, os paquistaneses montaram o regime pra isso - mas cinco minutos de conversa com qualquer autoridade do regime era o bastante para mostrar que eles eram um tanto esquisitos e nada parecido com um aliado confiável'', conta o analista. A despeito de tudo isso, a Casa Branca preferiu manter distância.

Tudo isso mudou depois dos atentados às embaixadas americanas na África, em 1998. Era a prova de que o Afeganistão, abandonado, havia se tornado um celeiro de terroristas. Mas a resposta talvez tenha piorado ainda mais as coisas: o presidente Bill Clinton lançou cerca de 65 mísseis contra o território do país. Entre as baixas só havia civis inocentes e suas cabras. Bin Laden, como se sabe, sobreviveu e os ataques terminaram por ajudar a ele e aos talibãs a recrutar mais homens dispostos a tudo. Uma lição que, aparentemente, os americanos não estão mais dispostos a esquecer.

28.8.01

''Não existem ódios no Timor''

Entrevista SÉRGIO VIEIRA DE MELLO

(Publicada originalmente no JB)

Depois de amanhã, os timorenses vão comemorar um agridoce aniversário. Há dois anos, o Timor Leste escolheu a independência da Indonésia, que invadira a ex-colônia portuguesa em 1975. A celebração nas ruas foi interrompida por uma represália de milícias pró-integração, responsáveis por um banho de sangue.

Este ano, Timor finca o pé na democracia: irão às urnas na quinta-feira para escolher os 88 representantes que redigirão a Constituição do país, pavimentando a estrada para as primeiras eleições presidenciais do Estado recém-nascido. Supervisionando tudo está o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, de 53 anos, 32 deles na ONU.

Antes de ir para o Timor - na primeira vez que a ONU toma para si a ambiciosa tarefa de criar um país - o diplomata, que já passou por lugares como Sudão, Moçambique e Bósnia, foi o primeiro administrador de Kosovo, depois que as forças iugoslavas deixaram a província. De Díli, Vieira de Mello falou por telefone ao Jornal do Brasil sobre o orgulho de entregar o Timor Leste à democracia e sobre sua proximidade com um dos maiores líderes do país, Xanana Gusmão, que anunciou no sábado estar disposto a concorrer à presidência.

- O pessimismo é um resquício do massacre de dois anos atrás?
- É, e do Timor de 1974 e 1975, porque para os timorenses política sempre foi sinônimo de violência. O que nós tentamos nessa primeira fase da transição e principalmente desde o inicio de 2001, com a campanha de educação cívica e as comissões constitucionais que criamos em diversos distritos, foi justamente mudar essa mentalidade, essa percepção da vida política como sendo necessária e inevitavelmente violenta. A população reagiu muito bem. Tanto que, em julho, quando viajei pelos distritos do país antes da reunião do Conselho de Segurança da ONU em Nova Iorque, levei representantes dos partidos políticos comigo. A população, incluindo as pessoas mais humildes, nas partes mais remotas do país, exigiram que os partidos políticos respeitassem o pacto de unidade nacional e, principalmente, que jamais usassem métodos violentos para conseguir objetivos políticos.
- Como o senhor se sente entregando o Timor pela primeira vez à democracia?
- Eu me sinto orgulhoso da minha organização, que geralmente é criticada em suas operações de paz. Acho que desta vez o Conselho de Segurança nos deu um mandato viável, realista, e também os recursos necessários para implementar esse mandato, talvez o mais ambicioso na história das Nações Unidas. Afinal, estamos aqui com plenos poderes executivos e legislativos e inclusive com controle sobre a administração da Justiça. Nunca antes uma operação da ONU tinha recebido um mandato dessa natureza. Não posso me queixar porque os meios foram proporcionais à missão.
- Como o senhor avalia o processo de transição para a democracia, iniciado em 1999?
- Acho que a paz, a estabilidade e a tolerância que prevalecem neste fim de campanha eleitoral são a melhor resposta à pergunta. Todos duvidavam, até os próprios timorenses, da sua capacidade de gerenciar um novo processo político, uma campanha eleitoral, o registro civil e eleitoral, a formação de novos partidos políticos, sem que isso descambasse para violência, mais sangue e mais sofrimento para a população. É quase incrível, portanto, o que estamos vendo nestas últimas semanas. Isso demonstra que, se os timorenses não sabiam o que era exatamente democracia, certamente estavam fartos de saber o que não era democracia. Apesar de nunca terem tido uma experiência direta de vida democrática durante o período colonial ou nos últimos 24 anos de ocupação indonésia, eles sabiam o que era o contrário da democracia e isso os preparou. Foi talvez a melhor educação cívica que eles poderiam ter tido.
- Quais são os principais desafios do país?
- Além de um processo democrático sustentável e das instituições democráticas que estamos criando no Timor Leste, o primeiro grande desafio é econômico e social. O Timor já era, em 1999, uma das províncias mais pobres e atrasadas da Indonésia, e ainda foi devastado e arrasado em setembro daquele ano. Obviamente o país ainda não chegou a um estágio de desenvolvimento econômico que nos permita resolver o problema do desemprego, que ainda é muito sério em centros urbanos como Díli, onde a população dobrou desde agosto de 1999. Estamos com mais de 130 mil habitantes aqui. Em agosto de 1999, havia 68 mil.
- A que se deve esse crescimento?
- A dois fenômenos. Um deles, bem conhecido dos brasileiros, é a migração de zonas rurais para os centros urbanos. Além disso, as pessoas deslocadas em 1999, seja dentro do Timor Leste, seja na parte ocidental da ilha, ao regressarem, em vez de voltarem para seus distritos de origem, ficaram em Díli, pensando que seria mais fácil encontrar emprego. O desafio econômico será o maior e mais prioritário para o segundo governo de transição que, vou nomear em setembro. Mas, a médio prazo, as perspectivas são boas. O Timor Leste pode se tornar, em dois ou três anos, auto-suficiente em produção agrícola. Poucos países podem aspirar a esse luxo. E o Timor até hoje não explorou a indústria da pesca, apesar de estar cercado pelo mar. A produção de café também pode ser dobrada ou triplicada, de acordo com peritos brasileiros que estiveram aqui semanas atrás. Além disso, o Timor dispõe de recursos naturais, principalmente o gás natural e o petróleo do Mar de Timor. A médio prazo, este país poderia se tornar uma sociedade próspera. É essa esperança que vai animar os timorenses a suportar essa fase intermediária, que vai ser muito muito difícil.
- Há outros desafios?
- O segundo desafio será a consolidação da nova administração pública. Nesse setor também partimos do nada, da tábula rasa que encontramos em novembro de 1999, com uma administração pública em colapso total, colapso de recursos humanos e colapso físico. Desde o início do ano passado já conseguimos recrutar mais de dez mil funcionários públicos. Todos os quadros médios ou superiores da administração indonésia eram indonésios ou timorenses que se refugiaram na parte ocidental da ilha. Nossa administração ainda é rudimentar em certas áreas, ainda é muito vulnerável. O terceiro desafio é o da reconciliação. Mas eu acho que esse desafio será mais fácil superar no Timor do que, por exemplo, nos Bálcãs, na Bósnia, na Croácia e em Kosovo, porque não existe ódio aqui. Nunca houve uma guerra civil no Timor Leste. O que houve foram excessos cometidos por milicianos treinados, doutrinados, armados, organizados e comandados por não-timorenses. Nosso processo de reconciliação, de mãos dadas com Xanana Gusmão, vai no sentido de incentivar até os chefes de milícias que se encontram na parte ocidental da ilha a regressarem e dialogarem com a população que eles vitimaram, a aceitarem um processo judicial justo, que respeite os direitos humanos. Para aqueles que não cometeram crimes graves ou crimes de sangue, as comissões de verdade e reconciliação permitirão que sejam reintegrados nas sociedades locais. Alguns crimes que certamente seriam punidos com 10 ou 15 anos de prisão poderiam, no caso do Timor, levar a uma punição correspondente a seis, nove ou 12 meses de serviço comunitário. Esse processo está bem encaminhado. Eu tenho certeza que os timorenses mais uma vez demonstrarão maturidade. Muitos já regressaram e não foram castigados. Pelo contrário: foram muito bem recebidos e agora levam uma vida perfeitamente normal.
- No sábado, Xanana Gusmão anunciou que disputará a presidência. O que o senhor espera caso o país seja governado por ele?
- A decisão de Xanana é bem-vinda, foi muito oportuna. Concorrer é a decisão certa. Ainda havia muita incerteza na mente e nos ânimos dos timorenses, que vêem em Xanana um líder carismático, um líder da unidade nacional, um líder que seus próprios inimigos, aqueles que lutaram, votaram e até mataram pela integração com a Indonésia, respeitam. Essa é a peça que faltava no esquema que vou tentar montar depois das eleições, que inclui não só uma assembléia constituinte, mas também um segundo governo transitório, que será, na medida do possível, um espelho fiel do resultado das eleições. Um gabinete inclusivo, e não exclusivo, no qual eu também gostaria que Xanana tivesse papel ativo. Seria uma capacitação para quando ele assumir as funções de presidente caso seja eleito pelo povo. Algo sobre o que, a meu ver, não resta dúvida.
- Uma declaração de independência em 28 de novembro, como anunciam líderes da Fretilin, poderia criar problemas?
- Não. A posição da Fretilin sobre a data da independência é de princípio. A república de Timor Leste foi declarada unilateralmente em 28 de novembro de 1975. É uma data histórica, tem grande importância emocional, mais que política, para os timorenses. Nada impede que a Fretilin proponha o dia 28 como data nacional na Assembléia Constituinte. Mas isso não quer dizer que o país iria se tornar independente no dia 28 de novembro de 2001. Qualquer líder da Fretilin sabe que isso não seria desejável, que seria prematuro. O processo político de transição não estará concluído, a Constituição possivelmente não estará redigida em novembro. E se a Constituinte optar por um sistema presidencial ou semi-presidencial, vamos ainda ter que organizar eleições presidenciais. Os timorenses acreditam, e têm toda a razão, que o primeiro presidente do país deve ser eleito pelo povo, diretamente. Tudo isso nos leva a, no mínimo, março ou abril do ano que vem.
- O senhor já serviu em Bangladesh, Sudão, Chipre, Moçambique, Peru, Líbano, Camboja e Bósnia, além de ter sido o primeiro administrador de Kosovo designado pela ONU, em 1999. O senhor é o homem que as Nações Unidas chamam para resolver os grandes problemas?
- Não, eu não sou um caso único nem excepcional. Existe uma pequena equipe de pessoas como eu nas Nações Unidas que o secretário-geral [Kofi Annan]emprega em missões desse tipo. Somos o que ele chama de trouble shooters [solucionadores de problemas]. Não sou o único, e tenho muito orgulho de que ele pense em mim de vez em quando como um colaborador capaz de tentar implementar mandatos desse tipo em situações de conflito ou pós-conflito. Mas, repito, não sou o único, nem o melhor.
- O senhor também é conhecido por suas posições independentes. Esse temperamento foi o que o levou tão longe dentro da organização ou chegou a criar problemas?
- Nem um nem outro. Não acelerou a minha carreira, nem me causou prejuízos. Tudo depende de como você diz a verdade. Se for contundente demais, isso obviamente acarreta prejuízo, mas se souber ser moderado e equilibrado, os governos e os membros do Conselho de Segurança sabem aceitar críticas construtivas. Sabem que, quando nós, funcionários de carreira, formulamos essas críticas, não é para enfraquecer a autoridade do Conselho. Pelo contrário, isso fortalece a organização como um todo e também o Conselho.
- O que fica em sua memória depois desses dois anos à frente do Timor Leste?
- O que fica, vai ficar sempre, é a grande dignidade do povo timorense, que sofreu o diabo, mas continua caminhando de cabeça erguida para a independência. Isso é uma fonte de inspiração, de coragem e determinação para todos nós. Tem sido uma experiência extremamente enriquecedora e gratificante, talvez a mais gratificante que as Nações Unidas tenham me oferecido nesses 32 anos de carreira.
- E qual foi o pior momento desse período?
- Os piores momentos foram os meses de julho, agosto e setembro do ano passado, quando as milícias se infiltraram em grande número vindas da parte oeste, penetrando em profundidade no nosso território. Tive receio, naquela época, exatamente um ano atrás, de que assistíssemos a um fenômeno de conflito de baixa intensidade que pudesse acabar com o processo de transição. Mas nossa reação foi firme. Infelizmente tivemos que matar vários milicianos, todos bem armados, com armas de guerra. Outros se renderam e os restantes voltaram para o Timor Oeste. Acho que eles aprenderam uma lição. Eles sabem que se nos testarem de novo vão se arrepender e é talvez por isso que nessa estação não tenham tentado nenhuma infiltração. A fronteira tem permanecido tranqüila e pacífica. Espero que continue assim, porque se eles tentarem entrar, vão se arrepender. Mas aquele foi o momento mais difícil.

29.4.01

O caubói muda o tom em Washington

Bush tropeça no inglês, faz graça com as próprias fraquezas e não quer ser notícia. É o anti-Bill Clinton

(Publicada originalmente no JB)

Desde o início da corrida eleitoral americana, há mais de dois anos, uma das tônicas da campanha de George W. Bush era de que ele queria ''mudar o tom'' da Casa Branca e de Washington. Apesar de a frase se referir mais ao retorno de valores conservadores e morais tão ausentes durante os oito anos de Bill Clinton, Bush sem dúvida inovou em matéria de comportamento presidencial. O novo presidente dos Estados Unidos trabalha menos horas que seu antecessor, fala pouco, quando fala erra na gramática e afirma sem pudores que não é manchetemaníaco. Nada mais diferente que Clinton, que muitas vezes ganhou a pecha de ''presidente superstar'' e parecia estar em todo lugar para falar - discursar? - sobre tudo.

''Queremos ser desinteressantes'', explicou um assessor da Casa Branca, tentando justificar com ironia o afastamento midiático da Casa Branca. Bush tem ficado longe das luzes em momentos cruciais na vida do país. Depois de ter conduzido a crise do avião-espião na China de forma admirável - elogiada pela bancada democrata e criticada apenas pelos republicanos mais linha-dura -, Bush preferiu ficar em seu rancho texano bem longe dos 24 tripulantes do vôo que chegavam a Washington na Páscoa. Uma nota à imprensa foi tudo que se ouviu do presidente. O mesmo ocorreu quando uma revolta racial irrompeu em Cincinnati ou quando o Meio-Oeste do país foi inundado por uma enchente. Com Clinton, todas estas ocasiões certamente serviriam de pretexto para pêsames, discursos de improviso e seu tradicional torcer de lábios.

Oportunismo - O que não quer dizer que Bush não saiba usar a imprensa quando lhe convém. Depois de semanas sendo duramente criticado por suas atitudes antiecológicas, seus assessores montaram uma coletiva nos jardins da Casa Branca para Bush anunciar que assinaria uma medida banindo o uso de alguns produtos químicos tóxicos. Foi o início de uma tentativa de reabilitação ambientalista de sua imagem. O mesmo vale para a data que comemora seus 100 dias no cargo. Em um único dia, Bush concedeu 12 entrevistas exclusivas.

A relação com a mídia vai além disso, contudo. Bush conta com algum charme, e mostrou enorme talento para capitalizar seus próprios defeitos. O mais conhecido deles - seus tropeços gramáticos, conhecidos como bushismos - foi brilhantemente explorado na última semana, num evento destinado a arrecadar fundos para a campanha de alfabetização do instituto dirigido por sua mãe, Barbara. ''Alguns pensam que minha mãe abraçou a causa do analfabetismo por alguma dose de culpa diante da minha educação'', disse o presidente para a platéia de 2.000 pessoas. ''Na verdade, expandi o significado das palavras. Usei vulcanizar quando queria dizer polarizar, grecianos em vez de gregos. Inebriante, quando queria dizer hilariante.''

Outra acusação freqüente é de que Bush não decide muita coisa na Casa Branca e lê apenas os resumos dos documentos de Estado, deixando o trabalho duro para os assessores e para o vice Dick Cheney. Com verve de comediante, Bush declara: ''Para quem diz isso eu respondo... Dick, o que eu respondo?''. Na verdade, a idéia de que o presidente pode não ser um líder forte nem ter intimidade com a gramática e a diplomacia é relativizada por sua postura pessoal sóbria.

Personalismo? - Até por ter-se acostumado durante oito anos a falar sobre um personalista como Clinton, a imprensa continua tentando adivinhar nos traços da personalidade do texano as qualidades e defeitos do presidente. O episódio em que Bush afirmou que os Estados Unidos ''defenderiam Taiwan'' - os diplomatas do país torcem a gramática há pelo menos duas décadas para não serem claros a respeito - é creditado por muitos à sua impulsividade. Mas é difícil chegar a um resultado bem definido quando se põe Bush no divã.

''Mesmo tendo crescido no Texas e tendo esse jeito de compadre meio bobo, ele foi criado por pessoas que tinham um perfil bem elitista, a elite educada que veio da Inglaterra conquistar a América'', explica ao JB o professor John Orman, cientista político especializado em personalidade dos presidentes americanos, com três livros sobre o assunto. ''Do Texas vem a amabilidade, a extroversão. Desta elite - chamamos este tipo de New England gentleman (cavalheiro da Nova Inglaterra) - ele herdou um certo censo de civilidade e consciência política''. De certa forma, a impulsividade do caubói não combina com a seriedade e inteligência política dos fidalgos da elite texana. Mas Bush se agarra à sela e segue seu caminho.