5.8.07

O primo de Sharon

Depois sou eu quem tem idéias exóticas a respeito de Che Guevara...


¿El Che Guevara, primo de Ariel Sharon?

Un importante diario israelí dio la versión. Pero un historiador lo desmiente.

TEL AVIV Y ROMA. ANSA
Un investigador israelí negó hoy que el revolucionario argentino Ernesto Che Guevara y el ex premier israelí Ariel Sharon (en coma desde hace 18 meses) eran primos y se encontraron en secreto.

El investigador Efraim Davidi, autor de una biografía del Che, declaró hoy a la agencia italiana de noticias ANSA que se trata de una noticia sin fundamento. El sorprendente texto fue publicado ayer por el diario Maariv, que lo desplegó en su primera página.

Allí sostuvo que la madre del guerrillero argentino, uno de los principales colaboradores de Fidel Castro en la toma de Cuba, Celia de la Serna, era "en realidad una judía rusa escapada de los pogroms. Se apellidaba Schinerman y era la hermana menor de Shmuel Schinerman, el padre de Sharon emigrado a Palestina a inicios del siglo XX para trabajar como agricultor". Maariv agregó que en 1965 Celia, a punto de morir, confió a a su hijo su parentesco con el general Sharon.


Mais no clarín: http://www.clarin.com/diario/2007/08/04/elmundo/i-04001.htm

2.8.07

Saiu o trailer

A tempo para o IFP Market, em Nova York, saiu o primeiro trailer sério de Personal Che – editado em regime de absoluto pânico e desorientação por yours truly. Por enquanto, só na versão em inglês.



Alguém muito curioso pode querer ver o trailer passado, que não embeddearei, aqui.

30.5.07

Escritórios provisórios


Varanda do Hostal Santa alguma coisa, Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, 50 pesos bolivianos o quarto duplo, sem café da manhã, com muitos israelenses e uma tucana ladra.

22.5.07

Escritórios (e casas) provisórios(as)



Casa del Telegrafista, La Higuera, Bolívia. 50 pesos bolivianos cada um dos (três) quartos, sem eletricidade (note a lâmpada solar), com banho quente (água mineral aquecida a gás), comida vegetariana. O uso da biblioteca especializada em Che Guevara e a simpatia de Juan, Oda y Ivana Pelito Azul estão incluídos. A serviço, apurando isso aqui.

8.4.07

Dama de ferro


No primeiro dia de volta ao Brasil, durante o live set de Ricardo Cutz.

22.2.07

Luta livre


No maravilhoso (e meio vazio) Coliseo de Bogotá, os super-heróis da lucha libre.

20.12.06

Ainda na Colômbia

O caderno Eskpe, do El Tiempo, inclui nosso doc na lista dos filmes prontos para estrear em 2007.

8.12.06

Na Colômbia

A revista Semana publica um artigo sobre Personal Che.

30.11.06

No Brasil

O Estadão publica notícula sobre Personal Che.

30.8.06

Dark was the night


...cold was the ground, em Vallegrande, Bolívia. Viagem do Che (claro).

18.8.06

Carro fantasma


No interior da Argentina, caçando o Che.

29.7.06

Gaivotas de Lima



Num porto pesqueiro qualquer com a barriga cheia (como as gaivotas) de peixe cru (mas o meu devidamente cevicheado). Em preto e branco pra homenagear Cartier-Bresson e seus momentos decisivos que tanto questiono (e admiro).

27.7.06

El popular



O Kublai Khan que abençoa as tortas do Café El Popular, em Mexico DF. De quadriculado, canto direito, Jerónimo, nosso diablo guardián (e diretor de fotografia imprevisto).

4.7.06

Malecón


Havana. Fotógrafo avariado por muito rum e charuto tragado.

5.2.06

Mulheres e meninas


Em Miami, na espera para assinar o contrato de Personal Che.

28.1.06

Esgrimistas da palavra

O livro "Duelos no serpentário" reúne 16 polêmicas deliciosas do passado. Mas onde elas andam, hoje?


(Publicada originalmente no Prosa & Verso, O Globo)

O querido leitor não terá se esquecido da última polêmica a aparecer nos jornais, opondo um renomado poeta e um funcionário do Ministério da Cultura. Ferreira Gullar criticou a atuação do governo na cultura, o jornalista Sérgio Sá Leitão (secretário de Políticas Culturais do MinC) o chamou indevidamente de stalinista e armou-se o circo. Entrou cantor, cineasta, o diabo. Mas, convenhamos — já que estamos a falar do mal-falar, espezinhemos também — é um circo pequenininho, de cidade de interior, de um leão só.

A grande polêmica, parruda e longa, com puxões de cabelo de sérias implicações e dedos-no-olho geniais, essa anda sumida. Existe, mas começa prometendo e murcha rápido, depois de uns tapinhas. Por isso é tão delicioso para os instintos azedos ler “Duelos no serpentário”, da G. Ermakoff, onde o editor George Ermakoff e o criador de poemas e de caso Alexei Bueno colecionam polêmicas intelectuais de 1850 a 1950.

A impressão que se tem é que se discutia à farta, semanas, meses, numa época em que tudo era à pena e à chumbo, e sobre qualquer coisa. No tijolo bom de ser arremessado há quase 800 páginas de parnasianos achincalhando simbolistas, senadores respondendo a poetas senis, modernistas devolvendo desaforos, escritores garimpando erros de português no opositor, muitas vezes sem qualquer correção política e sempre com verve.

— O que realmente é empolgante no debate desses caras é que eles tinham uma cultura enorme — conta Bueno. — Tanto que no livro há algumas polêmicas em que simplesmente ignoramos o outro lado, se não era literariamente interessante. Ademais, dá sempre para saber o que o outro disse pelas rebatidas.

O escritor Antônio Fernando Borges, que também entra em pelejas ocasionais (meio a contragosto, diz) concorda, e por razões quase antropológicas:

— O Agripino Grieco (parte de suas críticas a Machado de Assis estão no livro, aliás) é um prazer de ler, porque é culto e engraçadíssimo. Não concordo com 80% do que ele diz, mas é fantástico ver um homem inteligente pensando.

Tome-se como exemplo o boxe entre Carlos de Laet e Camilo Castelo Branco, português que nunca pisou no país no sentido literal, mas sempre fazia questão de fazê-lo no figurado. Em 1879, o último elaborou uma antologia “do contra” de poetas de então, apontando sem dó erros de português, métricas mancas e construções de catálogo. Laet se condoeu e vestiu-se em armas, catando na obra do próprio Castelo Branco uns quantos “houveram” e outras batatadas idênticas às que criticou. O português não se abalou. Escudando-se em gramáticos eméritos, questionou cada um de seus pretensos erros — inclusive os “houveram” — e espinafrou Laet. Para arrematar saiu-se com a seguinte:

“Os senhores escritores brasileiros, que me enviam preleções de linguagem portuguesa, se me quiserem obsequiar dum modo mais significativo e proveitoso, mandem-me um papagaio, uma cutia e alguns frascos de pitanga. Quanto à linguagem, muito obrigado, mas não se incomodem”.

Mas enquanto boa parte dos embates do livro gira, com graça, é certo, em torno de questões longe de prementes, Bueno, Borges e ainda o escritor Silviano Santiago garantem que a peleja é uma cutia em extinção — e que isso é ruim pra vida intelectual.

Idéias em choque, idéias em movimento

Alexei Bueno define o problema de forma simples:

— Falta incômodo, falta base e sobra covardia — define ele, investindo sem qualquer hesitação contra dois polemistas, um popular e outro já canonizado. — O Diogo Mainardi é despreparado, chamar isso que ele faz de polêmica não é sério. O modelo dele, assumidamente, é Paulo Francis, outro despreparado, tido como uma sumidade, quando era um cara com lacunas gritantes de cultura. O tipo de coisa que só cresce como cresceu num país de analfabetos. Tenho recortes guardados se você quiser ver: ele não sabia a diferença entre verso e estrofe! — diz o poeta, soltando adequados rolos de fumaça de cigarrilha pelas ventas.

Antonio Fernando Borges comenta com endereço pensado a existência da “profissão polemista”, gente que só faz isso.

— Polêmica é uma coisa circunstancial. Monteiro Lobato não era polemista, nem José de Alencar, Sílvio Romero, Rui Barbosa ou Mário de Andrade.

Entrando no debate só agora, pelo décimo oitavo parágrafo, o escritor Silviano Santiago comenta a polêmica e, impavidamente, cria uma:

— Nunca houve polêmica no Brasil.

Como?

— Não houve. O que vejo são pessoas arrancando o rabo um do outro. Isso não é polêmica, é mala leche, como dizem os espanhóis. Polêmica para mim são aqueles debates que tiveram Jean-Paul Sartre e Albert Camus. Aquilo teve repercussão no mundo todo. Do debate entre Roland Barthes e Raymond Picard, por exemplo, nasceu o estruturalismo! — se empolga. — Na polêmica tem que haver posições definidas. Na história das idéias no Brasil, as polêmicas têm um papel mínimo.

Seja arranca-rabo ou debate consequente, o fato é que se discutiu entre 1850 e 1950 muita coisa maior que tempos verbais e picuinhas políticas e várias estão em “Serpentário”.

Nas suas críticas pesadas ao poema épico “A confederação dos Tamoios”, de Gonçalves de Magalhães, José de Alencar delineava também para si o que seria o indianismo que praticaria em “Iracema”. Os modernistas se defenderam de Monteiro Lobato (que atacava Anita Malfatti) e, em outro momento, dos neoparnasianos, que não se conformavam com a dianteira clara de Cecília Meirelles num prêmio da Academia Brasileira de Letras, em 1939. Há também duas controvérsias envolvendo Machado de Assis (embora ele tenha se mantido de fora): uma com Sílvio Romero e outra com Agripino Grieco. Ambas moldaram a visão da crítica sobre o autor.

— O que faz o mundo das idéias se mover é o choque delas — garante Alexei.

MUITO BARULHO POR, GERALMENTE, NADA
Polêmicos e marqueteiros movimentos

Várias das polêmicas de “Duelos” opõem movimentos vanguardistas e conservadores. Isso não mudou: movimentos continuam sendo um artifício do polemismo. Pena que geralmente sejam mais propaganda que substância. Dois exemplos: o McOndo, do chileno Alberto Fuguet, e a LPB, Literatura Popular Brasileira, criada e tocada à frente pelo carioca Luis Eduardo Matta.

Em 1996, Fuguet deu à luz o McOndo através de dezenas de artigos pregando o abandono de uma América Latina rural e folclórica, território mágico-realista de García Márquez, Isabel Allende e outros. Em seu lugar, o retrato urgente de uma América Latina feita não da Macondo de García Márquez, mas de “McDonald’s, Macintoshes e condos” (camisinhas). Deu certo: o movimento foi exaustivamente debatido e livros foram exaustivamente vendidos.

A polêmica morreu quando os de fora do McOndo cansaram de repetir (com razão) que a literatura latina sempre foi muito mais que as cândidas erêndiras de García Márquez, os clichês de Vargas Llosa, os banquetes de Isabel Allende. Só se resumia a isso na lista de mais vendidos do “New York Times”, onde Cortázar, Octávio Paz, Borges e outros tinham pouco ibope. Era um problema de mercado, não literário.

A América Latina “realista”, “urgente” que Fuguet parecia querer patentear já estava aí, sem rótulo, sendo escrita, e passava bem. McOndo, a etiqueta, não mudou em nada a literatura. Os livros de Fuguet, Martin Rejtman, Sergio Gómez, Edmundo Paz Soldán, Roberto Bolaño e outros, sim.

Caso parecido — embora ainda sem qualquer livro para defender-se — com o da Literatura Popular Brasileira, criada a uma mão (e ainda em busca de sócios) por Matta. A LPB propõe livros acessíveis, feitos com esmero, destinados ao grande público, “nacionalizando” gêneros estrangeiros como o thriller.

Mas será que num país de Jorge Amado, Paulo Coelho, Rubem Fonseca e Luis Fernando Verissimo podemos dizer que não temos literatura acessível, mais ou menos bem acabada, com um público imenso?

A proposição de Matta se explica quando lemos seus livros: thrillers de espionagem, tramas Hollywood e um ou outro personagem brasileiro. A LPB cria uma lacuna perfeita para os livros de Matta. Marketing básico.

O rame-rame para vender livro seria absolutamente inofensivo se não construísse de forma sutil uma oposição entre intelectuais que lançam mão de “experimentalismos ilegíveis, floreios intelectuais, frases rebuscadas ou engajamento sócio-político”, e Matta, que busca “democratizar a leitura”, como diz um artigo dele próprio no site Digestivo Cultural. Escrever fácil vira, num passe de retórica, dever patriótico.

Na verdade, o grande defeito dessa modalidade de polêmica é que não há muito a dizer sobre elas além de nove parágrafos num suplemento literário. Meio decepcionados, voltamos à poltrona do noticiário de sempre.


A DIFERENÇA ENTRE FÓRMULA e QUÍMICA

‘Thriller’ verde-amarelo de Matta não consegue ser mais do que suas referências

120 horas, de Luis Eduardo
Matta. Editora Planeta, 437
páginas. R$ 37

A Síria tem um programa nuclear desenvolvido em segredo. Tudo corre bem até que um engenheiro decide chantagear o regime, pondo em risco a região. Tudo parece no lugar: aí estão os terroristas, o Oriente Médio, e em breve se acionará uma bomba de tempo para — claro — causar suspense. Para não ficar muito frio, há um drama familiar: um homem busca seu irmão desaparecido. E, já que é um livro brasileiro, esse drama será o de um brasileiro. Algumas reviravoltas e pronto: temos um thriller clássico. Mas algo não funciona.

Luis Eduardo Matta parece ter lido centenas de thrillers. Escreve todo o tempo em montagem paralela, truque clássico. Mas pouco acontece nessas histórias concorrentes até depois da metade do livro. A partir daí, as reviravoltas acontecem com tanta frequência que perdem o impacto. A maioria soa arbitrária, decidida pelo autor, não a consequência de uma lógica que é revelada e surpreende o leitor. Matta também faz descrições precisas de ambientes na Síria e Líbano, mas o leitor teria de ser maníaco por detalhes e ter visitado os lugares (dois defeitos do resenhista) para saber.

O maior problema é de tom: há um descompasso explícito entre a velocidade que os acontecimentos têm, sua narrativa e os diálogos que são travados, muitos em frases de meia página e infinitas orações subordinadas. Gera-se suspense a respeito de quando vem o ponto parágrafo.

Resenhas sobre o livro foram publicadas afirmando que a maior qualidade de “120 horas” é precisamente não ser diferente de similares estrangeiros. Inverdade. Falta o gênio de Forsyth, Le Carré. Sobram seus clichês.

É a diferença entre fórmula e química o que fica explícito no livro de Matta, seu terceiro. O autor capitaneia um movimento chamado Literatura Popular Brasileira. Num de seus manifestos, se pergunta porque não há ainda um thriller verde-amarelo, com autores e mercado nacionais.

Lendo "120 horas" dá para entender.

10.12.05

Outros versos satânicos


(arte de André Mello sobre foto da AP. © O Globo)

Bin Laden ganha a primeira edição de seus escritos. Em inglês e nos Estados Unidos

Messages to the world, de Osama bin Laden. Organização de Bruce Lawrence. Verso, 224 pags. US$ 16,95

America’s enemy in his own words, de Osama bin Laden. Organização de Randall Hamud. Nadeem, 428 pags. US$ 17,95

Douglas McMillan

(Publicada em O Globo)

Há razões para ouvir o que diz um homem como Osama bin Laden? Muitos dirão que não: ouvir um terrorista sanguinário é, na melhor das hipóteses, perda de tempo, já que são seus atos que importam; na pior, é perigoso. Pensamentos de um insano como ele devem ser mantidos longe de todos, em quarentena, para que não contaminem o debate.

O grande problema é que palavras como “insano” ou “louco” não descrevem o Bin Laden que emerge das páginas de “Messages to the world” e “America’s enemy in his own words”, dois livros lançados no último semestre nos EUA que reproduzem pela primeira vez na íntegra boa parte de seus comunicados, entrevistas e opiniões (fatwas , em árabe).

Aqui tudo é ordem e lógica, parece milimetricamente calculado e planejado buscando efeito. Num fenômeno parecido com o do holocausto nazista, Bin Laden prova que a barbárie pode ser conjurada com lógica, ordem, concatenação cuidadosa, alguma sabedoria — e talento poético, até.

Orador inspirado, de múltiplos talentos
O que se vê nos dois livros é um homem capaz de, como um político profissional, citar números e desenvolver um pensamento complexo a partir deles. De criar elegias à luta suicida como um poeta versado nas delicadezas das quadras de Ommar Kayyan. Além disso, um muçulmano com um conhecimento invejável não só do Alcorão e dos hadiths, a história da vida de Maomé, mas também dos principais teóricos, teólogos e juristas que reinterpretaram os textos sagrados. Tudo isso embalado numa retórica potente, de fazer inveja a Che Guevara, emitida num tom calmo, desafetado, em árabe antigo e preciso.

— É claro que não concordo com uma só linha do que ele diz — conta ao GLOBO o americano Bruce Lawrence, medievalista especializado em Islã que selecionou as declarações de Bin Laden em “Messages”. — Mas não dá para deixar de reconhecer seu talento com a palavra. Antes do livro, eu o considerava um radical apenas marginalmente interessante. Depois, percebi o poder da retórica.

A preparação de Bin Laden começou na adolescência, na virada dos anos 60 para os 70, na melhor escola secundarista da Arábia Saudita, a Al Thagher. O Rei Faiçal expandia a rede de ensino numa velocidade vertiginosa, e começou a trazer professores de outros países para ocupar as vagas que se abriam. Justamente nessa época, Síria, Egito e Jordânia purgavam militantes da Irmandade Islâmica, grupo radical oposto ao secularismo de Gamal Abdel Nasser, muitos deles professores.

Bin Laden foi um dos primeiros a entrar no grupo de estudo corânico semi-clandestino organizado pelo novo professor de educação física, um sírio. Primeiro, versos do Alcorão, depois futebol. Com o tempo — a bola deixada de lado — todos os hadiths, o Alcorão inteiro e as idéias de teóricos conservadores, que propunham a volta da sociedade aos valores professados por Maomé.

Com o tempo, Bin Laden se radicalizou, tornou-se um homem de ação, organizando a oposição aos soviéticos no Afeganistão nos anos 80, mas nunca abandonou os livros — outro ponto em comum com Guevara, ávido leitor, mesmo no campo de batalha. Mas não se pense aqui que o saudita é dono de uma interpretação original, majoritária ou mesmo coerente das escrituras.

Lawrence, em suas notas de introdução, é o primeiro a demolir essa idéia. O verdadeiro talento de Bin Laden reside em fazer o texto sagrado dizer o que ele quer, nada muito diferente do que um pregador da pior espécie faz com o Novo Testamento. A diferença é que Bin Laden faz isso com grande engenho.

Embora tenham a mesma matéria-prima, há grandes diferenças entre as duas edições. “In his own words” tem mais textos, sempre declarações e discursos, mas lhe falta a tradução rica de “Messages”, feita por James Howarth, que já havia vertido o próprio Alcorão para o inglês. O maior trunfo da última, contudo, é mesmo Lawrence, que preferiu transcrever não só declarações, mas também entrevistas onde Bin Laden se comunica sob a pressão de um interlocutor. Lawrence também serve notas extremamente informativas, apontando trechos do Alcorão que Bin Laden cita seletivamente e contextualizando determinados textos na história recente.

Duas antologias, não duas apologias
Os organizadores dos dois projetos dizem ter ficado impressionados com a dificuldade de reunir os textos, espalhados por sites mais ou menos clandestinos ou citados aos pedaços pela imprensa. Ambos afirmam ter aceitado o projeto para que mais gente, além de alguns poucos acadêmicos, possa ter uma imagem mais precisa de quem é Bin Laden.

— Há dois problemas em considerá-lo um desvairado. O primeiro é esquecer que ele encara sua luta como uma resposta a atos muito concretos do Ocidente em sua região. São coisas que realmente aconteceram e que são vergonhosas — diz Lawrence, medindo as palavras. — O segundo problema é óbvio: um inimigo inteligente é mais perigoso.

Os trabalhos já atraem detratores. Os tradutores de “In his own words”, todos árabes morando nos EUA, preferiram permanecer anônimos. Já Lawrence afirma que seus emails, correspondência e secretária eletrônica estão “entupidos” de ameaças de gente que considera seu trabalho uma apologia aos crimes de Bin Laden. Algo que não faz o menor sentido para ele.

— Tenho mais medo de Osama agora, depois do livro.

TRECHOS

“FUSTIGAREI MEU CAVALO,/ ME ATIRANDO COM ELE AO ALVO/ Deus, se meu fim estiver próximo,/ conceda-me uma tumba sem enfeite/ de mantos verdes/ Não, deixe que seja a barriga de uma águia/ empoleirada lá no alto, com sua cria/ Deixe me ser um mártir, então,/ vagando pelo alto das montanhas/ entre um bando de cavaleiros/ que, unidos na devoção a Deus,/ se precipitam sobre os exércitos./ Quando deixarem esse mundo,/ deixam para trás a peleja/ e encontram seu juízo final,/ está nas escrituras.”

“BUSH ALEGA QUE ODIAMOS A LIBERDADE. TALVEZ ELE POSSA nos dizer porque nós não atacamos a Suécia, por exemplo.”

“O 11 DE SETEMBRO FOI REALMENTE GRANDE. (...) FALEMOS DOS efeitos econômicos. Como os próprios americanos admitem, as perdas em Wall Street chegaram a 16%. Disseram que é um recorde, algo que nunca aconteceu desde a abertura do pregão, há mais de 230 anos. (...) O volume bruto negociado chega aos US$ 4 trilhões. Multiplicando esse valor por 16%, chegamos às perdas. US$ 640 milhões em perdas, com a graça de Deus, uma soma equivalente ao orçamento do Sudão por 640 anos. E o ataque durou apenas uma hora.”

26.11.05

O apocalipse interno de Michael Herr

(Publicado originalmente no Prosa & Verso, O Globo)

Chega ao Brasil um dos relatos formadores do que hoje chamamos de ‘guerra’ e ‘Vietnã’


Despachos do front, de Michael Herr. Tradução e apresentação de Ana Maria Bahiana. Editora Objetiva, 254 pgs. R$ 39,90

"Quando você sai à noite os paramédicos te dão pílulas, hálito de dexedrina como cobras mortas que ficaram tempo demais num vidro. Nunca senti necessidade delas, um pequeno contato ou até mesmo qualquer coisa que parecesse um contato me dava mais pique do que eu era capaz de suportar. Cada vez que eu ouvia alguma coisa além do limite do nosso pequeno círculo cerrado, eu praticamente pulava, esperando em Deus que não fosse o único que estivesse percebendo aquilo. Uns tiros na escuridão a 1 quilômetro de distância e o Elefante se instalava de joelhos no meu peito, me enterrando nas minhas botas sem conseguir respirar.”

É essa intensidade — a intensidade de coisas que não são explicadas, que se sente — o maior trunfo de “Despachos do Front”, de Michael Herr, mais um lançamento da coleção Jornalismo de Guerra que a Objetiva põe no mercado. Na verdade, o livro é tão intenso que explode essas categorias — “jornalismo” e “de guerra” — como fossem de papel. Primeiro porque o livro foi escrito depois de oito anos de metabolização dentro do autor, é um registro “a frio” que zomba do pretenso imediatismo jornalístico. E segundo porque o que está em destaque aqui não é a guerra, mas o humano, esse humano em carne viva que as guerras em qualquer latitude e época expõem.

Perversão geral, inclusive das vítimas
Foi outro autor da coleção, o americano Jon Lee Anderson (que contribuiu com o tenso “A queda de Bagdá”) quem deu, na última Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em julho, uma versão tão amarga quanto precisa do que é a guerra. “Em situações assim, mesmo os inocentes são maus. Não podemos nos enganar: o verdadeiro poder da guerra é o de transferir sua maldade para dentro de qualquer pessoa, mesmo as vítimas”.

Raras vezes em outro período da História tantos homens tiveram a vontade, o poder e a liberdade de, como o próprio Herr descreve, “serem Deus”. Não seria exatamente por isso que Francis Ford Coppola escolheu o Vietnã como cenário de sua versão de “Coração das trevas”, de Conrad, um “Apocalypse Now” que é essencialmente interno, demasiadamente humano?

Não à toa, Herr foi chamado a colaborar com o diretor logo no início do que viria a ser o roteiro do filme clássico. O Vietnã de Herr está lá, inteiro, nos vôos de helicóptero lisos e tensos, na umidade incômoda das plantações de arroz, no horror acontecendo sem muito aviso e tratado com algum descaso apenas porque se tornou banal. E nas pessoas bestializadas pelo ambiente, mas não só por ele.

Pode-se perguntar aqui a validade de considerar esse Vietnã como sendo apenas de Herr. Ele está presente, por exemplo, em “Platoon”, de Oliver Stone, feito muitos anos depois e refém do modelo criado por Coppola com sua ajuda. Mas também está, de forma muito similar, em “Corações e mentes”, brilhante documentário de Peter Davis, que precedeu todos, inclusive o livro de Herr, em alguns anos.

É precisamente aí que o relato de “Despachos”, mesmo tendo sido escrito muito depois dos acontecimentos, se reconcilia com o fio jornalístico. Herr desceu a guerra do Olimpo, despindo-a de cores vivas e heroísmos inventados. A única guerra verossímil naqueles — e nesses — tempos de inocências perdidas. Hoje sabemos que a guerra na TV é um engodo porque aprendemos — não só com Herr, mas muito por sua influência — que as guerras são sujas, enlameadas, tristes. Que não há heróis. De quebra, o americano retratou com pincel fino aqueles anos em que um país pobre do Oriente e os EUA se cruzaram para dar à luz a aberração geopolítica, estratégica, social e comportamental chamada Vietnã.

O engenho do autor está não só no que conta, mas principalmente na forma como conta. A linguagem do livro é também um resultado dessa cruza perversora. Uma mistura de jargão militar com gíria hippie, o choque da poesia beat do rock com o analfabetismo de recrutas com saudade e raiva de casa. Todos os que estiveram lá foram expostos a essa linguagem bastarda, mas poucos, além dos jornalistas, tinham proximidade bastante para ouvi-la e a sensibilidade necessária para admirá-la.

Caminho diferente do de José Hamilton
É especialmente interessante comparar a abordagem de Herr com a de José Hamilton Ribeiro, o decano dos repórteres brasileiros, que cobriu o Vietnã para a revista “Realidade” em 1968. Seu relato, “O gosto da guerra”, republicado na mesma coleção da Objetiva, é em quase tudo oposto ao de Herr, embora ambos sejam intensamente pessoais.

José Hamilton tinha seus trinta e tantos anos quando chegou a Saigon. Estava longe de ser um hippie, ou mesmo de viver a ressaca do movimento hippie . Para o brasileiro, era fácil dizer o que era o Vietnã. O Vietnã era tudo que não era José Hamilton. E é esse distanciamento que faz seu livro funcionar: quando ainda está em vigor, o jornalista reportando o que vê; mas especialmente quando é feito em cacos, pela mina que rouba a perna esquerda do repórter e transforma toda sua objetividade numa subjetividade forçada.

Herr vai em outra direção. Em muitos momentos é impossível dizer onde termina o Vietnã e onde começa o autor. Ele próprio não parece saber ou mesmo querer saber onde está esse limite.

A despeito de todas as comparações com a guerra no Iraque que serão levantadas, de tudo que o livro tem a ensinar a qualquer jornalista, não é isso que conta mais aqui. No dia em que a Guerra do Vietnã ganhar sua história definitiva, o livro não terá valor algum para saber datas, detalhes, nomes. Mas “Despachos” é fundamental para entender o amálgama de paranóia, depressão, bravura, culpa, tédio e burrice que se instala em qualquer pessoa num “teatro de operações”. Não há despachos do front nesse livro. Há despachos de Herr.

17.11.05

A um metro de Evo Morales



(uma versão dessa matéria foi publicada em NoMínimo)

Evo Morales está de tênis, jaqueta pesada de couro e o topo de sua cabeça é um formidável capacete de cabelo índio muito negro. Parece um pouco tenso. Fala baixo ao celular meio remendado olhando pela janela da sacada os muitos repórteres que o esperam no saguão do hotel e, por cima do próprio ombro, uns poucos que estão mais perto, apenas alguns degraus abaixo.

A dois quarteirões dali, na larga Avenida Mariscal Santa Cruz, garis ainda limpam o lixo de folhetos e bandeirolas de uma barulhenta e compacta manifestação comemorando os dois anos da queda de Gonzalo Sánchez de Lozada e protestando contra o racionamento do gás em botijão. Sánchez, que mal conseguia disfarçar seu sotaque americano nos pronunciamentos oficiais, foi tocado do palácio em outubro de 2003 depois de semanas de protestos contra a privatização do gás e do petróleo do país.

As lições de dois anos atrás parecem mais vivas que nunca. A "guerra do gás", como o episódio é chamado, ecoa como um sino de morte na campanha desse 2005. Morales está sempre vestido informalmente, deixando as gravatas para o vice Alvaro García Linera, impecavelmente metido em ternos retos que combinam com sua cara de menino grisalho. Gosta de discursar primeiro em aimara e quéchua, idiomas índios locais, e só então em espanhol. Parece a antítese perfeita para toda a classe de políticos profissionais que a Bolívia viu prometer e fazer muito pior na última década e meia. Não à toa, está com 33% das intenções de voto, sete pontos à frente do segundo lugar, Jorge Quiroga, um juiz gordinho e escanhoado que presidiu o país por alguns meses entre uma queda de mandatário e outra.

Mas mais que indumentária, as lições de 2003 estão escancaradas nos programas de governo: mesmo os partidos de direita, autores do que Morales chama de "saque", propõem taxação pesada sobre o produto, fazendo petroleiras de todos os hemisférios – inclusive a Petrobras, responsável por 15% do PIB do país – roerem as unhas.

Morales, ninguém parece ter esquecido, já fala do gás desde 1997, quando concorreu à presidência pela primeira vez. Logo, ele pode esse ano tomar um passo adiante dos outros candidatos: propor não só que se taxe fartamente o produto, mas renacionalizá-lo, re-comprando a infra-estrutura necessária para sua industrialização e transformando a YPFB numa estatal de petróleo "potente como a PDVSA e a Petrobras".

Não é preciso mais que esse pequeno passo para fazer qualquer dos milhares de executivos estrangeiros no país suar. E para, muitos crêem, ganhar a eleição.

A conjuntura tem ajudado. As comemorações dos dois anos da saída de Sánchez de Lozada foram muito engordadas pelos protestos contra a falta de gás. Filas e mais filas por botijões contados, brigas de tapa ao lado dos caminhões que distribuem o produto, gente mais pobre cozinhando com lenha. Tudo isso tem funcionado como um incômodo lembrete do despautério que é faltar gás no país que tem a segunda maior reserva do combustível na América Latina. E beneficiado Morales.

A coisa parece tão certa que mesmo os que quase nunca se metem de verdade em campanhas já apareceram: um grupo de artistas montou uma coletiva de imprensa para entregar a Morales um manifesto do que a classe espera desse governo "progressista e democrático". Ele desce da tal sacada, distribui sorrisos e segue para a pequena tribuna no saguão que segundos antes olhava desconfiado. Ouve as reclamações, pede desculpas sem muito pudor por não ter dado tanta atenção quanto devia à questão e satisfaz os presentes com suas promessas. A coisa toda termina com uma cantora subindo ao minúsculo palco para interpretar uma ranchera. Um outro artista de bigode daliniano aparece com três taças que enche de vinho de garrafão. Os outros ficam com copinhos plásticos para café. Ergue-se um brinde e Morales já está agarrado ao celular de um repórter de rádio, criticando Sánchez de Lozada e dizendo que "essa lição aprendemos". Todo mundo fica com o copo em suspenso por dois minutos até que a coisa acabe, fios de vinho descendo pelos braços de alguns. O repórter comenta, termina, vai embora, alguns colegas o maldizem entre os dentes, Morales derruba meia taça no chão como oferenda à Pachamama, a mãe-terra dos bolivianos, bebe o resto rápido e sai de fininho. Encurta rapidamente a pé os cerca de duzentos metros que separam o hotel do congresso nacional com uma entourage mínima e quase ninguém o reconhece. É um índio a mais nessa cidade grande.

Pinota para dentro do Congresso e some no escritório da segunda liderança. A secretária diz que "Dom Evo" me espera. Me surpreendo ao encontrar uma pequena turba de jornalistas estrangeiros e dois documentaristas bolivianos. Os que ficam mais para trás na rodinha que se forma parecem amarrotados e cansados. Um deles diz que o maior legado boliviano é sua úlcera, fruto de um ano e meio nas notícias do país. Morales começa a falar e todos ouvem, gravam, anotam e filmam atentamente cada palavra dita de forma precisa, carismática e baixa.

Três anos atrás, falar com ele era fácil. Qualquer tique no sismógrafo político da Bolívia era acompanhado por um comentário seu. O número de seu celular - de seus dois celulares, melhor dizendo - era o segredo mais mal guardado da Bolívia e ele sempre estava disponível a comentar sobre qualquer coisa com uma frase de efeito boa para abrir matérias. Hoje é quase impossível encontrá-lo sem se acotovelar com colegas, sem pôr o gravador ao lado de outro, sem uma breve diplomacia para ver quem fala com ele em exclusivo primeiro.

Não que ele tenha perdido o apetite pelas manchetes. O que lhe falta é tempo, agora que parece prestes a virar presidente. Mas sempre que há uma boa oportunidade, está lá. Como não ir à Cúpula dos Povos, à margem da Cúpula das Américas, em Mar del Plata, para xingar George W. Bush ao lado de Hugo Chávez e Maradona, como fez semana passada?

Depois de alguns minutos, a turba sai e Morales está sozinho na sala comigo, uma jornalista francesa, dois retratos a óleo dele mesmo e um retrato de um general antigo. Vou para o fundo da sala e a repórter acerta com ele detalhes de uma "grande matéria" que sairá pouco antes das eleições num veículo que não consigo ouvir (nota em 2007: era Alma Guillermoprieto, que fez um perfil fantástico para o New York Review of Books). Morales a convence a acompanhá-lo ao Chapare - sua área de maior influência - e, depois de perguntado, diz que não gosta de falar de assuntos pessoais. A jornalista sai e ele discretamente pede à secretária que dê a ela alguns telefones, entre eles o de uma tia em Beni que "o conhece bem".

- E agora, companheiro, em que posso lhe ajudar? - pergunta ele, me chamando com a mão.

Sentamos em lados opostos debruçados sobre a mesa estreita. O rosto de Morales está a um metro, não mais. Lhe pergunto sobre os últimos dias, os protestos, toda a discussão sobre o adiamento das eleições. Ele, sem mover um músculo nem alterar a voz, liga a máquina de retórica.

- Há uma aberta conspiração. Da direita fascista, racista, neoliberal, junto a agentes externos como a embaixada dos EUA. Conspiram e provocam o MAS, o Evo Morales e os movimentos sociais, - diz ele, tratando a si mesmo na terceira pessoa. - Estão preocupados porque hoje temos a grande oportunidade de ganhar com 50% dos votos mais um.

- As pesquisas lhe dão 33%, a melhor delas - retruco.

- Esqueça isso. São pesquisas - diz ele, dando exemplos de eleições passadas onde o MAS, em média, triplicou as estimativas de intenção de voto. - Dizem que estamos com uns 30%. Não quero triplicar de novo. Me basta ter 60%.

Enquanto falava, Morales mal sabia que dali a duas semanas as eleições seriam suspensas e remarcadas para o dia 18 de dezembro uma semana depois, pondo fim a um impasse de meses que pôs em lados opostos o Oriente, região mais plana e à direta politicamente, e o Ocidente montanhoso, onde a retórica "andina" de Morales faz sucesso. Os primeiros, representados por Santa Cruz, pediam há vários meses mais quatro assentos no Congresso, alegando que têm cada vez mais peso econômico e demográfico no país. As cadeiras sairiam de três cidades do Ocidente que, claro, se opuseram. A situação foi finalmente resolvida com a transferência de três vagas do Ocidente para o Oriente, uma a menos que o pedido. Já se discutia essa solução quando ocorreu a entrevista, e Morales parecia mais preocupado com a possibilidade de não haver eleições que com detalhes de assentos e distritos.Crê que vence de qualquer jeito. A menos que aconteça um golpe de estado arquitetado com a ajuda - claro - dos americanos.

- Anteontem estive em Santa Cruz, montamos um pequeno comício com apenas cinco dias de antecedência. Eu não queria. Disse: "vamos fracassar". Chego lá e mais de 15 mil pessoas me esperam. É por isso que estamos seguros. Mas quando um índio tem a possibilidade de ganhar, surge esse tipo de obstáculo. O tema das cadeiras é isso. Querem mais cadeiras para Santa Cruz e menos cadeiras para La Paz, Oruro, Potosí. O que é que muda? Nada muda. Isso é pretexto para postergar a eleição, desagregar os movimentos sociais e unir a direita. É parte de uma jogada da embaixada dos EUA.

Morales está à vontade declamando suas melhores frases de esquerda. Não há freio para atacar os EUA e isso sequer é novidade. Mas a coisa muda quando se pergunta das reservas que se começa a ter no Brasil de um governo "moraleista". Do temor de que também no vizinho comece a faltar gás. Morales é todo cautela.

- Não há razão para medo. A Petrobras é uma empresa do estado. Temos que fazer um consórcio dessas empresas de estado. Ela e a nossa YPFB têm que fazer uma aliança estratégica, de médio e longo prazo, pra resolver nossos problemas nacionais e, em seguida, o tema regional.

- Mas o senhor acha que a Petrobras e o Ministério de Minas e Energia podem gostar da idéia de serem taxados em 50% e terem seus ativos recomprados à força na nacionalização que o MAS propõe? –, pergunto. – Nenhuma empresa gostaria disso, não?

- Conversei a respeito disso e eles estão dispostos a aceitar as novas regras. Quando assinaram os contratos? Quando o barril de petróleo custava US$ 18, US$ 19 (está em US$ 60 hoje). Eu compreendo a posição deles perfeitamente. Mas vamos negociar as plantas de Cochabamba, e devolvê-las ao Estado boliviano. Esse tema é incontornável. Não estamos falando de confiscar, de expropriar. Renegociaremos e o Estado recomprará tudo por preços realistas.

No primeiro semestre, contudo, houve tensão na Bolívia quando a empresa brasileira anunciou que estava reconsiderando seus investimentos no país. Dois ministros bolivianos chegaram a correr para Brasília levando panos quentes. Morales passa por cima disso e afirma que o Brasil precisa do gás boliviano da mesma forma que a Bolívia precisa da tecnologia brasileira. "Será gás por tecnologia", vaticina. Não só tecnologia de exploração e produção de gás e petróleo, mas também para outros campos como a agricultura, que Morales quer mecanizar. "Vamos mecanizar e subvencionar, principalmente os pequenos e médios", diz ele, mais para o gravador que para mim.

Morales parece cheio de grandes visões. De que o gás vai financiar o salto boliviano. De que os índios do país ainda precisam se libertar. De que o país tem adversários poderosos que tramam um golpe diuturnamente. Talvez seja isso que mais o aproxime de Hugo Chávez, Fidel Castro, até Bolívar: a noção de que seu país é uma potência que só não desabrocha por que inimigos que temem seu verdadeiro valor não deixam.

Difícil evitar os paralelos com o Lula de três anos atrás. Morales é um líder popular, um símbolo antes de qualquer coisa, o índio que chega ao poder no país dos colonizadores à maneira do operário que chegou ao poder aqui, no paraíso dos patrões. Se Morales não vestiu um terno azul marinho, foi apenas porque isso provavelmente seria a senha de sua derrota. A Bolívia, em 2005, é o país da autenticidade milimetricamente controlada. Que sabe quando xingar e quando soar razoável.

– Olha, eu em uma época da minha vida política generalizava os oligarcas. Eram todos maus para mim. Hoje já não acho isso. Nem todos são maus. Há empresários produtivos, apolíticos, empresários democráticos e não facistas. E com esses eu converso. Semana passada me deram uma linda festa em Santa Cruz, um banquete. Rainhas da beleza de lá, e até ex-rainhas, tiraram fotos comigo. E sabe por que? Todos estavam mobilizados pelo tema da pobreza. De que eu venho dos pobres e trago o tema da pobreza. Me deram todo o apoio para o que quero fazer.

Não por acaso, Morales disse meses atrás que considerava Lula "um irmão mais velho". Falo do sentimento geral de decepção no Brasil e da acusação de que o PT chegou ao poder sem projeto ou quadros suficientes para executá-lo. É algo que dizem a respeito do próprio MAS aqui, e menciono isso. Morales parece um pouco ofendido com a insinuação. Sua expressão é a de quem tem azia. Desgosto e asco controlados. Parece francamente decepcionado.

- De cabeça quente eu pensaria que você é um agente de inteligência da direita dos Estados Unidos, - retruca ele, num sorriso atravessado.

Subitamente, fica monossilábico, se desinteressa da entrevista. Mais dois minutos e diz que temos que terminar. Deixa a mesa onde estávamos, senta-se numa poltrona do outro lado da sala e começa a abrir um jornal sobre a mesa de centro. Depois de checar o gravador, caminho até a porta próxima a ele e me despeço.

- Adiós, - diz, sem tirar os olhos das manchetes.

3.11.05

¡Se juega!



(Uma versão dessa matéria foi publicada na Trip)

Nunca saltei de bungee jump nem vi uma prancha de snowboard fora de uma vitrine de loja. Jamais consegui ficar em cima de um simples skate por mais 20 segundos e acho uma temeridade esse negócio de kite-surf – além de algo que mal consigo descrever. Sou, se um resumo fosse necessário a essa altura, um mané para qualquer coisa que se aproxime de um esporte radical. Mas todo sedentário tem seu momento de revolta. Chegando aos trinta anos, aos 93 gordos quilos e à calvície irremediável, decidi que era hora de tentar algo diferente. Viajei para a Bolívia – que é, afinal, aqui do lado – onde descobri que as pessoas descem de bicicleta aquela que é reputada como a estrada mais perigosa do mundo.

São 65 km de cascalho grosso descendo de La Cumbre, a 4.700 metros de altura, até Coroico, no começo da Amazônia boliviana, 3.600 metros abaixo. A descida dura cinco horas. A estrada é entalhada na pedra, tem em média três metros de largura e o abismo mora ao lado, sem qualquer proteção. Uma queda vertical de 400, 500, até mil metros. Todos os anos a La Cumbre-Coroico some com mais de trinta veículos, às vezes mais de 200 pessoas. O título sinistro não é marketing: foi conferido em 1995 num relatório do Banco Mundial.

O raciocínio que me levou a essa roubada foi simples e saudosista: ao longo de um ano, meu pai tentou me ensinar a andar de bicicleta com psicologia e rodinhas laterais. Não houve jeito. Até que um primo desvairado resolveu me pôr em sua bicicleta (muito maior, sem rodinhas) e me jogar do topo da ladeira onde morávamos. Funcionou, apesar de uns quantos tombos.

Entrei numa das dezenas de agências de turismo em La Paz que oferecem a descida, respirei fundo e disse que queria a La Cumbre-Coroico. Reconhecendo o tipo de longe, o agente sorriu e jogou a psicologia fora.

– Você terrr segurro de vida em seu país? – perguntou num sotaque carregado Jöeck, um alemão assustador que foi morar na Bolívia, onde mudou seu nome para um palatável Juan. – Não? Não se prreocupa, eles oferrecem segurro aqui. Dez dólarr.

Juan Jöeck me passa então um caderno onde posso ver minhas opções. Seguro para perda de um membro custava dez dólares. De vários, 25. Da vida, 30. Um pouco nauseado e já amaldiçoando a idéia da reportagem, devolvo a ele o folheto.

– Eles recomenda, mas não é que você prrecisa ter seguro. O que você faz com a dinheirro se morre, né? – diz ele, soltando uma gargalhada arrepiante.

Fico feliz em saber que Juan Jöeck é apenas um operador terceirizado que não vai estar no passeio.

No dia seguinte, entro no micro-ônibus e partimos para La Cumbre. Escolhi a operadora com a melhor reputação no país, a Gravity Tours. Eles têm bicicletas Kona (me dizem que isso é importante) com freios a disco (me dizem que isso é muito importante) e são dos poucos a fazer manutenção constante de seus equipamentos (eu sei que é muito importante). Enquanto passamos pelas favelas de La Paz a caminho de La Cumbre, o rádio toca Chili Peppers, hip-hop em espanhol e AC/DC. "Highway to hell". Eles têm que estar brincando.

Chegamos ao topo. Às oito horas da manhã faz um frio cão. Três graus. O ar mal entra nos pulmões e estou tiritando antes mesmo de sentir medo. Estamos, afinal, a mais de meio Everest de altura. Nos picos em volta há neve e lhamas pastam não muito longe de onde estamos. Guy, nosso guia para a descida, começa a explicação sem meias palavras.

– Porra-loucas voltam pro ônibus. Fechou alguém, volta pro ônibus. Foi lento demais, desculpe, mas vai pro ônibus. Se você começar a apostar corrida comigo ou com o Jubert (o outro guia) vai pro ônibus. Simples assim. Ser valente aqui significa voar. E isso é uma bicicleta – não foi feita para voar, para quem não sabe.

Guy, um mountain-biker belga que "encheu o saco da Europa", explica então que devemos frear com 70% da roda traseira e 30% da dianteira. Fico pensando em como medir isso quando ouço a revelação.

– Vocês vão descer a uns 60, 70 quilômetros por hora. E é nessa velocidade com que vão acertar o chão se voarem sobre o guidão. Dói bastante. Freiem mais sempre com a roda de trás.

Setenta por cento, trinta por cento, setenta por cento, trinta por cento, fico repetindo como um autista, enquanto tento memorizar qual freio é qual.

Pro santo

Já montados na bicicleta, bebemos álcool hidratado dando um golinho "pro santo" antes. A Pachamama, mãe-terra dos bolivianos, abençoa a viagem. A coisa desce queimando o estômago vazio. O grupo de nove pessoas – britânicos, irlandeses, um islandês, uma amiga colombiana e o alien brasileiro – começa a descer.

O início do caminho é mole. Quatro pistas em mão dupla de asfalto lisinho. Bom para acostumar com a velocidade. Dá até para olhar os paredões de rocha cobertos de neve, lindos, enquanto se ultrapassa um caminhão com facilidade. Guy nos conta depois que nesse trecho descemos sem sentir a uns 80 quilômetros por hora. Mesmo na marcha mais pesada, é impossível pedalar.

Já estou achando tudo lindo quando vejo nosso guia abanando o braço. Presto tanta atenção nele que nem noto o asfalto acabando. Atinjo o cascalho ainda a 70 km por hora. Minha mandíbula treme. O traseiro sente cada pedra. Me assusto. Freio forte. Onde ficam os 70% mesmo? Minha roda traseira levanta. Vejo o chão de frente, em tracinhos rápidos. Jogo o peso para trás e a bicicleta quica e volta a andar em duas rodas, bamboleando. Ancoro a bicha no chão. Tem horas em que estar fora de forma e pesado é uma bênção.

Tem horas que não. Num certo momento, a estrada pára de descer. Fica plana, e começa a subir. Eu me lembro de ouvir que havia "uma pequena subida", mas acho que ignorei enquanto me embasbacava com a paisagem. Não que seja íngreme, mas com a altitude, a falta de ar e de preparo físico, qualquer subida é um sacrifício. Meu pulmão arde depois de cinco minutos. Me afogo a seco. Vou sendo ultrapassado pelos outros. De repente, sinto o vento no rosto de novo. Estou me movendo sem esforço e sem mexer os pés. Olho para trás e vejo Jubert, franzino e boliviano, empurrando a minha bicicleta, pedalando por nós dois. Não satisfeito, ele ainda começa a conversar, e em frases longas. Eu mal consigo dizer "sim" e "não". Mesmo assim, por pena, depois de um quilômetro digo a ele que vou descer e andar até o último cume. Ele assente e fica pedalando do meu lado, muito devagar.

Finalmente acaba a ladeira e damos a primeira parada. Olhamos em volta, a estrada ainda não é muito estreita. Mais abaixo, no vale, vemos uma linhazinha fina serpenteando pela encosta. Enquanto Jubert saca fora minha pastilha de freio, incandescente e já pela metade, e põe uma nova em folha, rezo para não ouvir o que ouço: é, é por ali que vamos descer. Terminamos de comer o chocolate que nos dão e beber um pouco de água, montamos e nos encaminhamos, como diz um dos irlandeses, "para a morte".

É uma matemática desgraçada, e cujo resultado nunca bate. Quanto mais devagar você vai, mais sente cada pedregulho. Mais rápido, menos pedregulho. Se você cai, óbvio, sente cada pedra, e aí faz muita diferença em que velocidade você vai.

No chão
Fez toda diferença pro nosso companheiro da Islândia. Ele alugou o pacote completo: óculos, macacão, calça impermeável, bicicleta com suspensão traseira. Só esqueceu de uma coisa: 30% na dianteira, 70% na traseira. Voou.

Encontramos Albert amontoado no acostamento, a bicicleta no chão. Tinha uns cortes no lábio, a cara estava meio ralada, todos os dentes no lugar. O mesmo não dá para dizer da mão direita. Seu mindinho tinha ganhado uma articulação extra, para fora. Albert evitava falar.



Subitamente todos memorizam qual mão freia só 30%.

A estrada vai ficando mais estreita e mais íngreme. Somos instruídos a andar pelo lado de fora da pista, perto do abismo, longe dos carros e caminhões que sobem. Mal vemos a pista, porque pedalamos no meio das nuvens. Desmoronamentos comem pedaços da beirada grandes o bastante para caber uma bicicleta. Descubro depois que o projeto foi executado por prisioneiros paraguaios da Guerra do Chaco, nos anos 30. Isso explica alguma coisa. Sigo amaldiçoando ser ateu e não saber rezar.

O cascalho vai ficando mais grosso, a estrada continua estreita – e mais íngreme. Os dedos começam a ficar exaustos de frear no talo depois de duas horas. Parece suicida, mas você começa a se acostumar à velocidade e à tremedeira e deixa a bicicleta deslizar quase solta, freando só nas cruvas, que são muitas e fechadas. Passo por algumas das centenas de cruzes que pontuam o caminho. Freio um pouco. E depois esqueço. Desço, diminuindo um pouco quando passa algum caminhão.

Já é a quarta hora no caminho. Entramos agora na fase que Guy descreve como a mais perigosa. A estrada fica mais larga, os ciclistas mais acostumados com a velocidade – e aptos a voar. As curvas fechadas começam a me enjoar. Em algumas há parentes de vítimas sinalizando com bandeiras verdes ou vermelhas se vem alguém, esperando uma moeda.

Vou deslizando pela pista sem ouvir nada mais que o barulho do vento nas orelhas e o tec-tec de um motor distante. Viro à toda numa curva fechada e de repente estou a dois metros de um radiador enorme, com a palavra VOLVO pintada em letras garrafais. Bamboleio, me assusto, desvio, xingo e paro no acostamento. Estou a dez centímetros de um precipício simpático e convidativo. Os passageiros no ônibus me olham como se eu fosse um alien verde. Me sinto um alien verde.

Devagar, o clima vai esquentado, a estrada alarga mais e fica poeirenta e seca. As bananeiras anunciam que chegamos à Amazônia. Cruzamos um riacho e de repente estamos num pequeno povoado, nosso ponto final. A biboca onde tomamos a cerveja comemorativa parece uma sucursal do paraíso, apesar do traseiro ainda se lembrar bem do inferno. Cada um ganha uma camiseta atestando que sobreviveu e todos estão um pouco bobos com a própria façanha. Conquistamos o direito de contar vantagem e rimos à toa disso.

* * *

Enquanto terminamos a gelada, o motorista carrega o micro-ônibus encardido com as bicicletas, senta-se e nos espera ao volante.

– E então, prontos para subir a serra? Agora é fácil, vocês já conhecem o caminho.

De repente nada parece mais seguro que estar sobre duas rodas.