"Elefantes selvagens se comunicam por grandes distâncias usando infra-som. Para estimular esse comportamento no cativeiro, vamos estabelecer um link de áudio via internet com os elefantes de um zoológico na Alemanha. Assim, Bua e Saonoi vão ter a oportunidade de conversar com outros colegas. Espero que eles achem interessante e estimulante"
Miguel Caballero já deu mais de 200 tiros em clientes e colabo-radores, quase sempre aos sábados, para não incomodar a vizinhança de Polanco, bairro chique da Cidade do México. É algo que o colombiano atarracado de 40 anos faz com certa naturalidade. Pega o seu trezoitão, carrega-o, encosta o cano niquelado e frio à altura da barriga da vítima, avisa que vai disparar quando disser "três" e puxa o gatilho lá pelo dois e meio. Muitas vezes, registra a cena em vídeo - são os próprios baleados que pedem. Com anos de prática, ele diz haver uma beleza na expressão da vítima após o disparo: uma cara que mistura doses iguais de "Será que morri?" com "Isso é um milagre". Caballero é talvez o mais refinado - e confiável - alfaiate de roupas blindadas do México.
Há muitas fábricas de colete à prova de bala, mas poucas que conjuguem elegância com a capacidade de parar um tirambaço. Como a blindagem de aramida é flexível, Caballero faz questão de dar ao cliente uma prova de que a indumentária funciona. Uma prova de fogo. "Mas não basta chegar aqui, sacar um maço de 4 mil dólares e dizer: 'Quero levar esse casaco nível três.' Não é assim que trabalhamos", ensina o alfaiate. Cada cliente tem o passado checado numa lista de procurados do país de origem e em outra do FBI. Só aí pode tomar o tiro em paz. As roupas são vendidas em três tipos de blindagem, que pesam de 1 a 3 quilos. A mais leve evita tiros de 38 e 9 milímetros, pistolas usadas pela Polícia Militar do Rio de Janeiro. A proteção mediana é eficaz contra a Mini-Uzi, que caiu no gosto dos traficantes. E a roupa mais pesada resiste até a submetralhadora HK MP5, usada pelo Bope. Seria a indumentária ideal para o verão carioca?
"Dá uma sensação de poder, não dá?", pergunta ele enquanto o interlocutor se recupera do peteleco calibre 38 na barriga e do susto que imediatamente põe o corpo em estado de alerta. Não há um hematoma para contar a história, apenas uma sensação de calor, que logo se dissipa. "Isso que você está sentindo é apenas adrenalina", explica. Nossas primeiras jaquetas eram muito quentes, mas aprendemos a revesti-las com um forro que equilibra a temperatura. Não queremos que nossos clientes morram de tiro, e nem de calor."
Caballero ingressou na haute couture defensiva há dezesseis anos, época em que a taxa de seqüestro estava em alta na Colômbia. A idéia lhe surgira um pouco antes, quando era estudante de administração na Universidade dos Andes. Atento, reparara que seus colegas mais abastados preferiam ser escoltados a andar de colete, para evitar o desconforto (e a má aparência) em público. Teve um estalo: o que faltava não era blindagem. Era requinte.
Com a fábrica funcionando, o nome do alfaiate virou um must nas rodas sociais: uma jaqueta assinada por Caballero passou a ser peça obrigatória no guarda-roupa da elite antenada. E continuaria sendo caso Álvaro Uribe não tivesse sido eleito à presidência em 2002, impondo uma política linha-dura que acabou por diminuir a criminalidade. Com o nicho de mercado minguando, restou a opção de costurar para fora.
Da Colômbia, a Miguel Caballero Ltda., que se autodenomina especialista em "high security fashion", ganhou o mundo. Hoje, a grife tem filiais em sete países da América Latina. Do outro lado do oceano, África do Sul, Espanha, Itália, Áustria, Ucrânia e Reino Unido. Em Londres, o público-alvo (ou simplesmente "alvo") não é formado de ingleses, mas da nova safra de milionários russos e árabes, que marcam hora num discreto escritório da cadeia de lojas Harrods. No último ano, a empresa de Caballero faturou 9 milhões de dólares.
Como o alfaiate está onde o crime está, a atual menina dos seus olhos é mesmo a loja da Cidade do México, bem integrada a uma vizinhança de Diesel, Gucci, Prada, Hugo Boss e outras grifes do prêt-à-porter. Ainda que em números absolutos a criminalidade não tenha aumentado tanto para a população mais rica - gangues de traficantes têm mantido suas escaramuças nas periferias -, a percepção de insegurança vem batendo recordes a cada mês, e os seqüestros estão outra vez em alta. Caballero tem vendido roupa como pan caliente.
Por ora, ele investe nos desenhos tradicionais. A linha Black Collection traz camisas pólo, capas de chuva e jaquetas de couro com corte italiano. Já a linha Gold, menos sofisticada, reúne guayaberas, sobretudos e jaquetas de camurça. O plano para o futuro é abrir uma linha jovem, seguindo as últimas tendências da moda hip-hop. "Você tem idéia de quantos rappers comprariam?", pergunta. Hoje, a maior parte da clientela é formada por empresários e funcionários do governo. Há prefeitos, deputados, senadores, governadores e também presidentes na lista. Caballero se esquiva do assunto, comentando que certa vez "gente do palácio" veio reclamar que a informação vazou para a imprensa. Ainda assim, o recorte do jornal La Crónica de Hoy, criticando o presidente mexicano e seu ministério, continua orgulhosamente pendurado na parede: "Não nos protegem e ainda se blindam", diz a manchete.
Mais ao lado, estão as fotos dos poucos clientes oficiais: o presidente Álvaro Uribe, alguns prefeitos colombianos notórios no combate à violência, o príncipe Felipe, de Astúrias, o casal real da Jordânia e o ator anglo-esquimó Steven Segal. Na maioria das imagens, Caballero aparece ao lado deles. A lista, contudo, é maior, tirada a saca-rolhas do Armani da blindagem: o presidente -bonitão Rafael Correa, do Equador, tem um ou dois ternos; e sabe aquelas guayaberas vermelhas de manga comprida que o venezuelano Hugo Chávez usa de vez em quando? Pois é.
Num cabide próximo repousa outra guayabera, essa branca, muito similar à usada por Lula quando adota o estilo cucaracha. Corre o boato de que ela teria sido presenteada pelo hermano Chávez. O alfaiate desconversa, enrubesce, diz preferir tomar um tiro sem colete a confirmar a informação. Oferece um café, uma mudança de assunto e adianta que gostaria de abrir uma loja no Brasil, se não fosse pela burocracia excessiva do país.
Fiel à grife, Caballero não sai à rua sem sua jaqueta paramentada, capaz de parar sem problema um balaço de Colt 44. Medo de seqüestro, diz. Então ficou rico com os coletes à prova de balas? A seu lado, um assistente argentino ensaia um riso, e em seguida emudece, talvez lembrando que o homem à sua direita lhe deu um tiro quando decidiu contratá-lo.
Há quarenta e um anos, nesse mesmo dia, o cadáver de Che Guevara, morto na véspera, era mostrado para o mundo na lavanderia do Hospital Nuestro Senhor de Malta, na pequena cidade de Vallegrande, entre a planície e o altiplano boliviano. Hoje, como se vê acima, a lavanderia está coberta de rabiscos em homenagem ao homem mais famoso que já se deitou ali.
Há treze meses – antes, portanto, que todo mundo publicasse algo a respeito – a piauí publicou um texto meu sobre a morte de Che e os homens que a levaram a cabo. Um mês depois, já durante a febre, a revista Gatopardo, do México, publicou outra reportagem minha sobre o mesmo assunto.
São textos radicalmente diferentes entre si e também radicalmente diferentes das edições brutas que mandei a eles. Apenas para levar em conta o tamanho, o publicado pela Gatopardo é o menor de todos, seguido pelo publicado pela piauí; o bruto entregue à piauí é 50% maior que o publicado, e o bruto entregue à Gatopardo é de longe o maior: teve de ser cortado à metade para acolher as muitas fotos e caber na grade da revista.
O corte faz parte do jogo jornalístico e sem dúvida foram edições extremamente bem executadas pelos editores. Guardo com carinho até hoje todas as versões rabiscadas por Mario Sergio Conti e Dorrit Harazim, da piauí, atentos aos menores detalhes de todas as histórias tratadas no texto. As vinte e tantas páginas da minha versão definitiva da reportagem ocupariam, pelos meus cálculos, metade de uma piauí, o que é inteiramente ridículo. Isso sem mencionar que as pautas devem caber também na cabeça dos editores e eles, obviamente, não estão tão mobilizados pelo assunto quanto o repórter que, nesse caso, passou três anos e meio, ainda que sem saber, investigando a pauta. Quem era mesmo aquele mestre que dizia que o bom escritor escreve com a outra ponta do lápiz, a da borracha?
Quais são as maiores diferenças? Na piauí a matéria se move entre dois tempos: a época da morte e hoje. Meio de molecagem, deixei o que era mais antigo com verbos no presente e as coisas mais recentes no passado. A piauí foi mais responsável e me pediu que mudasse isso. O resultado é bom, mas para mim a conformação anterior é melhor – ainda que, no caminho, muitos erros, confusões e faltas de clareza tenham sido eliminados pela edição, melhorando bastante a reportagem. O ideal seria mesclar as duas edições.
No caso da Gatopardo, os cortes foram extensíssimos e algo da estrutura mudou com isso. Narro, por exemplo, o atentado perpetrado contra o homem que capturou Che, Gary Prado, em três partes. Entre elas, outros assuntos. Gera um certo suspense. Isso se perdeu na matéria final, embora ela tenha ficado muito – muito – mais ágil.
Uma coisa que as matérias da piauí quase não têm e as da Gatopardo têm é a discussão sobre quem mandou matar Che. É, como esse post, um jogo de versões. No bruto da Gatopardo há muito sobre isso e é quase definitivo sobre o provisório que se sabe hoje. Para quem tem interesse, é a fonte.
Por último, fotografar a matéria foi um desafio. Foi a primeira vez que realmente tive que pensar em como seriam as fotos de algo que ainda escreveria. Alguma coisa foi feita com material de arquivo (parte dele pesquisado por mim, inclusive), mas precisávamos de fotos atuais. Busquei refletir nelas um certo temor ou incômodo dos personagens em tratar do assunto. Abaixo seguem três delas. Na ordem, com patentes da época: Major Miguel Ayoroa, Comandante Gary Prado e um soldado raso que preferiu manter anonimato.
Comunico que a casa foi assaltada. Aliás, continua a ser assaltada. A situação só não é pior devido à burrice dos meliantes. Prova A:
As senhoritas na foto se recusaram a chegar perto da garrafa de mel por pelo menos um mês e meio. Estava em cima da mesa. Foi só mudar para outro lugar (na mesma mesa) e estava aberta a temporada de saque. Pus a dita garrafa no lugar antigo e, sem mais, as senhoritas desertaram do butim como se obedecessem a um aviso de "não estacione". Vai entender essas socialistas. Passemos ao segundo caso. Prova B, por favor:
O caso desses aí é outro: sujeitos desajeitados no trato com objetos maiores que uma noz ou uma avelã. Precisam de um intercâmbio urgente com micos (haverá micos no México?). Ao que parece, a espécie ainda está embasbacada com a laranjeira carregada no jardim e ainda não estabeleceu um método de coleta. Alguns agarram as laranjas e giram cuidadosamente em torno do caule até que o talo se solte. Outros agarram as mais maduras e as sacodem de um jeito quase obsceno. A taxa de sucesso é a mesma – mínima. Geralmente as laranjas escorregam pelas patas nervosas, caem no chão e os rapazes ficam olhando com sua perspicácia roedora. A turma do sacode às vezes cai junto com a fruta. Quase quebram as costas, mas ao menos tomam um pouco de suco.
Esse era o título que sugeri aos editores da Folha para a matéria sobre como a crise americana está afetando a economia do outro lado da fronteira, no México. Para fazer a reportagem, viajei a uma cidadezinha perdida na Sierra Madre chamada Bejucos. Poderia ser no Brasil: vida em torno da praça central, onde também fica a igreja e a delegacia. Praticamente só há mulheres, crianças e velhos na cidade. Os homens foram para cidades maiores, sejam elas no México ou nos EUA. Posto agora o primeiro parágrafo e depois os textos completos. Eles já estão disponíveis no site da Folha, só pra assinantes (clique em "próximo texto" para ler todos"):
"Griseldas Solís, 33, faz sua parte: penteia o cabelo para trás com esmero, aplica uma grossa camada de sombra cor-de-rosa nos olhos para combinar com a blusa e os brincos chamativos e se posta o dia inteiro à frente da Boutique MexUSA, numa das esquinas da praça central de Bejucos, cidadezinha de três mil habitantes na Sierra Madre mexicana. Não adianta: poucos aparecem para comprar as blusas decotadas e coloridas que acarpetam as paredes da loja. Não há dinheiro circulando na cidade. A culpada tem as mesmas cores das unhas azul-branco-escarlates de Griseldas: a crise econômica dos EUA, que está batendo duro nas remessas enviadas de volta para casa por imigrantes mexicanos legais e ilegais."
Na Folha, a foto que ilustra é a de Griseldas, mas aqui preferi pôr outra, de uma casa de câmbio onde se recebe dinheiro vindo dos EUA. No fundo, são fotos da mesma coisa: a espera. Mais fotos de Bejucos aqui.
Atualizando: a matéria como saiu na Folha está aqui.
Acabo de voltar da Itália, mais especificamente da ilha de Salina, na Sicília, ali perto de Stromboli e do Etna, onde aconteceu o SalinaDocFest, festival de documentário narrativo organizada por Giovanna Taviani (filha, adivinhou, de um dos Irmãos Taviani, Vittorio). O lugar é o sonho de qualquer festivaleiro, não apenas pela ilha ser uma delícia, mas porque o festival apresenta um ótimo panorama da produção documental italiana – que, infelizmente, não chega muito aqui na América Latina. Personal Che, junto com a produção francesa Barcelona ou morrer dirigida pelo senegalês Idrissa Guiro, eram os únicos filmes não-italianos da mostra.
Um tanto por conta das predileções de Giovanna, mas também pelo fato de a Itália estar ligada ao Terceiro Mundo pelo Mediterrâneo, uma das tônicas do festival são os filmes sobre migrações e êxodos. O resultado são diversos filmes extremamente políticos e de denúncia. O vencedor unânime do festival, Como um homem sobre a terra, de Dagmawi Yimer, fala das prisões líbias em que migrantes etíopes a caminho da Itália são detidos, torturados e às vezes mortos – tudo graças a um rentável acordo entre Silvio Berlusconi e o coronel Muamar Khadaffi. O filme aliás, ganhou o prêmio Finesta sul Brasile e passará na Mostra de São Paulo desse ano.
Apesar do tom político do festival como um todo, preciso confessar que a proposta que mais me agradou – tem também o melhor personagem – foi a do documentário Pinuccio Lovero, sonho de uma morte de verão, dirigido por Pipo Mezzapesa (acima na foto, comigo e a produtora brasileira Beth Formaggini – Pipo é o bonitão). É a prova de que documentário é uma forma de fazer filmes e não um gênero. O gênero dessa pérola, não há dúvida, é a comédia. O filme conta a história de Pinuccio, que aos trinta e tantos decide largar seu emprego para trabalhar como coveiro. Seu grande problema: ninguém morre. O filme registra exatamente sua angustiadamente divertida espera por um cadáver.
O tom, já se pode perceber no trailer, é farsesco, e em nenhum momento o filme se arroga uma autenticidade simulada em planos longos e tempos mortos – algo coerente com a carreira de Mezzapesa, que até esse filme fez apenas ficção. Há um subtexto político? Em se tratando do país com o maior índice de gente na terceira idade, sim, sem dúvida. Mas a questão é só o pano de fundo para um personagem que, antes de mais nada, está ali representando apenas a si mesmo. Enquanto não passa no Brasil (se é que passa), aí vai o trailer.
Este documentarista declara para todos os fins que depois de uma van (40 minutos), um barco (duas horas, três paradas), um ônibus (duas horas), um vôo Catania-Roma (uma hora), um vôo Roma-Madri (duas horas e meia) e um Madri-Cidade do México (10 horas e meia) está relativamente cansado e não se responsabiliza pelas besteiras que falar hoje na primeira projeção de Personal Che durante o festival de documentários mexicano DocsDF. Agradeço a paciência do público pela dose extra de bobagens que certamente serão ditas sobre Che Guevara, América Latina, carisma, política e o século 21.
Não sei se é a confirmação da velhice ou a influência de Guillermo Fadanelli, de quem acabo de ler um livro apropriadamente chamado Malacara, mas é a primeira vez que venho a Roma e, apenas três dias depois, já estou grato de ir embora. Por que? Simples: Roma se tornou uma cidade perfeita para ver... turistas.
Não há um único maldito lugar (estou exagerando; há, mas vamos adiante com esse argumento) em que se esteja a salvo deles. Eles, os turistas, como pulgas. Daí que observo o que há para se observar:
• Nossa economia vai realmente bem. Há brasileiros às pencas aqui. Quase todos de São Paulo ou do Sul. • É interessante notar a diferença entre mochileiros de países desenvolvidos e os turistas latino-americanos que se hospedam nos albergues baratinhos. Enquanto que os europeus vivem aqui do lado e não gastam muito para vir, para os brasileiros, qualquer viagem à Europa é uma jornada de tempo e dinheiro. A consequência disso é que os filhos dos países desenvolvidos têm a aparência de mendigos e os brasileiros, de semilordes. Têm jeito não de quem se lança no mundo atrás de alguma coisa, mas de gente disciplinada, CDF, que guardou dinheiro comportadamente até conseguir o suficiente. Nada surpreendente, mas melancólico que só. • A “gente di Roma” é um ton sur ton que vai do preto nigeriano até o amarelo chinês, passando pelo marrom paquistanês. Te servem café, sorvete, pizza, canolli e se servem, também fazem. Suponho que os romanos foram para a Grécia, como é desejo há muito tempo. (observo: nada contra nigerianos, pakis e chinas; apenas apontando o dado demográfico; na verdade é das poucas coisas que restam de interessante na cidade; são os únicos estrangeiros suportáveis) • Agora não são só os japoneses que vêem o mundo através de suas câmeras. Ninguém mais anda passeando. Todos, aplicados, com cara de dever de casa. Os adaptadores para tomadas daqui, diferentes, acabaram em todas as lojas da cidade (é mentira, mas também é verdade). Ninguém vê os lugares, apenas põe na frente da câmera digital. É incrível a insatisfação das pessoas quando entram na Capela Sistina e são informados de que não podem tirar fotos, mesmo sem flash. Se a eletricidade acabasse, acho que todos iam embora (anote essa, Berlusca). • Turista de pacote sempre foi assim: um ou uma coroa elegante na frente falando o que se está vendo e gente mais velha de calça curta e meia comprida (branca) seguindo. Agora há inovações: eles têm anteninhas com números de referência para evitar que um cordeiro se perca a outro rebanho. Além disso, os prisioneiros do número 2290, 4368 e 237 já dispõe de auriculares privados. O ou a coroa da frente vai cochichando em tom agradável o que está sendo visto. Acabou-se aquela diversão tão urbana de pegar carona na visita guiada do alheio. Isso contribui para a ignorância, aviso: consegui saber muito pouco sobre os Tintoretos na Pinacoteca do Vaticano.
Resumindo: os romanos não agüentam mais os turistas (essa novidade tem uns 300 anos) e eu tampouco. Minha proposta: mandem às favas os 10% do PIB que ganham com essa gente e fechem a cidade como Fernando de Noronha. Já tem um muro cercando o principal, é só pôr metralhadoras e gente com pouco critério e paciência nas portas. Levando em conta que vi em diversas lojinhas cuecas samba-canção estampadas com a cara do Mussolini, haverá muita gente disposta ao ofício. Entram 50 estrangeiros de cada vez. Dane-se o Tratado de Shengen. Com a cidade vazia, o silêncio volta, e a solenidade que é a pedra dos monumentos volta a existir. Do contrário, vote Nero para prefeito.
*PS: A primeira foto do post é da Fontana de Trevi. Só me ocorre dizer: “Anita, cadê você?”
Numa dessas supresas que animam a manhã de domingo, me chegou um email de Dimitri BR, vocalista da banda brasileira 3a1 (aqui o site e o myspace deles). Ele me conta de uma música deles, cujo nome dá título a esse post, e que fala exatamente das apropriações de Che. O refrão: El Comandante Che Guevara/vendido feito coca-cola/El Comandante Che Guevara/no shopping e na porta da escola/El Comandante Che Guevara/ay se ele se visse agora/El Comandante Che Guevara/no shopping e na porta da escola." Modéstia pela janela: Dimitri disse que adorou Personal Che.
Sobre a banda, mestre Arthur Dapieve escreveu, no finado NoMínimo: "Sua música tem a mesma malemolência do esporte inventado pelos ingleses e aprimorado pelos brasileiros: pop, rock e samba convivem nas levadas com sabor de Lapa."
Para quê falar mais? Vejam e ouçam com seus próprios olhos:
As apropriações de Che são tantas que podem resultar em versões radicalmente diferentes ainda que a música seja a mesma. Uma prova? Basta ver esse vídeo do cantor nueva trova cubano Sílvio Rodríguez:
Dos punks argentinos do Boikot (começa mesmo lá pelos dois minutos):
E, minha versão predileta, a da cantora Nathalie Chardone:
Se alguém quiser, há também uma versão playback em que ela saracoteia e até mostra as calçolas num programa de TV.
Casa de huespedes y restaurante sem nome, US$ 10 sem café da manhã, com insetos amistosos, ventilador emprestado e banheiro do outro lado do corredor. Bejucos, Sierra Madre, México.
Quatro explosões ontem deixaram até o momento um saldo de oito mortos em Morelia, capital do estado de Michoacán, a oeste da capital mexicana. Os petardos foram detonados no mesmo momento em que o governador do estado, Leonel Godoy, fazia soar o sino que tradicionalmente anuncia o início dos festejos da independência do país. Pelo menos 100 feridos deram entrada nos hospitais locais, cerca de 10 em estado grave, o que pode fazer com que o número de vítimas fatais aumente nas próximas horas.
Duas das detonações aconteceram a uma quadra do palácio de governo na capital michoacana e a terceira logo em frente ao palácio, na praça onde milhares de pessoas comemoravam os festejos do 198º aniversário da independência do país. A quarta aconteceu numa rodovia na saída da cidade.
Há apenas especulações sobre os possíveis autores do atentado, sem precedentes na história recente do México. Ontem o Exército Zapatista de Libertação Nacional, há muitos anos uma organização pacifista, emitiu um comunicado em que anunciava uma inocente conferência internacional para o fim desse ano na capital mexicana e em Chiapas. Os militantes do Exército Popular Revolucionário não divulgaram qualquer comunicado nas últimas horas, e suas ações geralmente se concentram contra instalações industriais, sempre buscando evitar mortes.
Local e data das detonações pode sugerir um contexto político: Morelia recebe esse nome graças a José Maria Morelos, um dos líderes da guerra de independência contra os espanhóis. Além disso, Michoacán é a terra do atual presidente do país, Felipe Calderón. É possível, contudo, que as explosões tenham motivações mais mundanas: o estado também é um dos maiores corredores de tráfico de drogas do país e tem sido palco de enfrentamentos sérios e constantes entre as narcogangues rivais e entre elas e as forças de segurança desde Calderón destacou uma força de 25 mil soldados para combater o crime e deu início a uma estratégia de enfrentamento.
Por seu lado, os traficantes vêm assumindo um perfil mais público: nas últimas semanas chegaram a divulgar enormes faixas de pano em rodovias de grande circulação afirmando que a suposta guerra mexicana aos cartéis de droga seria, na verdade, uma forma escamoteada de favorecer uma determinada gangue – a de "Chapo" Guzmán – em detrimento de outras. Poucos analistas dão crédito a tal afirmação, mas não seria a primeira vez que funcionários do governo colaborariam com os cartéis.
A vinculação das explosões ao tráfico é a principal linha de investigação no momento.
– Então queria, basicamente, saber da possibilidade de uma entrevista com o senhor. – Sí, claro, no hay problema. – A que horas pode ser? – Hm... como a las dos de la tarde está bien? Hay que ser hoy o mañana. Después vuelvo a Bogotá. – Então tudo bem. Às duas estou aí. – Perfecto. (Tapa o bocal do telefone e pergunta para uma pessoa a seu lado). ¿Está listo el revólver? Es que viene un reportero... ¿Sí? (De volta para mim) Bueno, okay, señor Douglas. A las dos le esperamos.
Ontem fez sete anos em que estava sentado tranqüilamente no chão da minha casa às dez e pouco da manhã, tomando café e lendo uma matéria no Caderno B, do Jornal do Brasil, sobre o novo disco de Jorge Ben(jor). Toca o telefone e o então sub-editor de Internacional do JB, Sérgio Benevides, me diz um tanto ofegante que houve um acidente em Nova York.
– Tem um acidente de avião em Nova York – Caramba! Grave? – É, na verdade, foram dois aviões. – Cacilda! Que coincidência! – É, e os dois bateram no World Trade Center. – Hã? – É, dois aviões grandes.
Sérgio nunca perdia sua fleuma, mas dava para sentir que havia medo no tom de sempre. Meu carro demorou a pegar, meu rádio demorou a sintonizar na CBN, mas quando consegui, um locutor dizia que havia pelo menos 19 aviões fora do alcance dos radares. Depois, que o Congresso americano estava em chamas. Depois, que a Casa Branca havia sido atacada. O celular começou a tocar e amigos com que há muito não falava, atônitos, vinham perguntar o que estava acontecendo, se aquilo era o começo da Terceira Guerra. Eu mesmo não sabia. Acho que ninguém sabia.
Houve muita confusão. E, depois, muitas críticas ao que se escreveu naqueles dias (das quais discordo com veemência). O fato é que um dos protagonistas está de saída (ainda bem, mas isso não vai mudar muita coisa) e o outro ainda não foi pego (o que é uma pena, mas também não mudaria muita coisa).
Ser social-democrata não significa a mesma coisa em todos os lugares. Do contrário, poderíamos ver o PSDB fazendo campanhas como essa aí em cima, uma das muitas criadas pelo PSD mexicano. Quem sabe a própria Marta Suplicy, sexóloga, aprovaria.
E já que estamos falando dos tucanos brasileiros, por que não mencionar também os tucanos mexicanos? Aqui, o pássaro bicudo é símbolo dos verdes.
Douglas Duarte nasceu no Rio de Janeiro em 1976 e é jornalista, roteirista e cineasta. Em 2008, lançouPersonal Che, seu primeiro documentário de longa metragem, que mostra como a figura do guerrilheiro Che Guevara foi reinventada por marxistas de Hong Kong, neonazistas alemães, bailarinos libaneses, devotos bolivianos, cubanos e americanos. No momento, Duarte escreve dois roteiros de ficção, o filme de ação Tomada hostil e a distopia A pílula. Este último foi selecionado em 2009 para o Script Station do Festival de Berlim e para o Laboratório Sesc de Roteiros. Também ativo em TV, Duarte já produziu, dirigiu e roteirizou programas para a NHK (Japão), UNTV (Nações Unidas) e BBC (Reino Unido). Já escreveu reportagens para Piauí, O Globo, Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil (†), Trip, NoMínimo (†) e Gatopardo, entre outros. Seu relato sobre os homens que mataram Che Guevara foi publicado no Brasil e saiu em livro no México, em Crónicas de otro planeta. Escreveu reportagens sobre os quilombolas de Alcântara, no Maranhão, e sua relação com a base espacial brasileira; sobre a luta dos índios do Xingú em busca de água limpa; sobre guerrilheiros muçulmanos lutando na Chechênia e no Oriente Médio; entrevistou presidentes latinoamericanos como Lula, Hugo Chávez e Evo Morales e escreveu perfis de mineiros bolivianos, hippies obrigados a usar uniforme, fotógrafos em extinção, especialistas em elefantes, mercenários africanos, pastores evangélicos, jacas assassinas, invasores de terras na Urca e sobre um impostor que se passava pela macaca Chita. Tomou ao menos um tiro.
Sobre as datas: esse blog começou a ser publicado em agosto de 2007. Posts anteriores a esse dia têm a data original em que a matéria foi publicada, a foto foi tirada, etc.