
My Jihad
De Aukai Collins
Lyons Press
256 Páginas
Sem lançamento previsto no Brasil
(publicado originalmente no JB)
Pele muito branca, cabeça raspada, estranhos olhos azuis e uma longa barbicha ruiva que desce até a altura do peito, a figura de Aukai Collins tem mais de metaleiro que de mujahedin. Mas é exatamente isso que este americano de ascendência irlandesa é: um guerreiro santo - e americano - do Islã, que conhece os dois lados da guerra ao terror. Quantos já treinaram em campos financiados por Osama Bin Laden e colaboraram com a CIA e o FBI?
As cicatrizes de batalha estão em todo lugar: cauterizações, pontos e cortes distribuídos pelo corpo maciço, uma prótese mecânica que substitui o pé direito, perdido na explosão de uma mina terrestre na Chechênia, e, principalmente, um estilo de pensar e escrever que tornam as pouco mais de 200 páginas de My jihad - ''Minha jihad'' - uma leitura perturbadora.
Aukai, nascido no Havaí, criado na Califórnia, convertido num reformatório, e batizado em fogo na Caxemira, Afeganistão e Chechênia, narra no livro seu périplo de campo de batalha em campo de batalha, a camaradagem com os guerreiros do Islã, a decepção com o mundo dos fundamentalistas e também com os serviços de segurança americanos.
''A virada aconteceu depois que saí do reformatório e comecei a freqüentar uma mesquita, mais ou menos em 1992'', contou por telefone ao Jornal do Brasil. ''Uns cristãos trouxeram um bósnio para o nosso templo, mas para todos na mesquita ele era um mau muçulmano. Os sérvios tinham torturado o cara e os muçulmanos de lá lhe negaram ajuda. Foram os cristãos que o trouxeram para os Estados Unidos e para a mesquita. Disse a meus colegas que eles estavam loucos: 'Nós desapontamos esse cara, e não o contrário'. Foi então que decidi que precisava fazer alguma coisa.''
A ''coisa'' era a jihad, luta na qual o Alcorão ordena a todos os fiéis fisicamente capazes que se envolvam, se houver muçulmanos ameaçados em qualquer parte do mundo. Meses depois, Collins estava em Zagreb, tentando – em vão – partir para Sarajevo. ''Eu queria lutar'', diz.
Collins sobreviveu para contar
O americano terminou aceitando o convite de um amigo e rumou para Karachi, no Paquistão, tendo o território disputado da Caxemira como destino. Depois de algumas patrulhas, rumou, junto a um grupo de árabes e paquistaneses, para o Afeganistão.
Lá, conheceu Omar Said Sheikh, um dos assassinos do repórter do Wall Street Journal, Daniel Pearl. Sheikh, hoje preso, já pensava em ir para a Caxemira e fazer reféns, afirma Collins. ''É nesse ponto que eu paro. Vou para a linha de frente, para a luta aberta, mas não faço isso. O Islã proíbe o ataque a civis'', diz.
Nessa época, Collins treina num campo financiado por Bin Laden, mas seu projeto, defender os muçulmanos contra os comunistas no Tajiquistão, falha. Volta, então, para os EUA e, em 1995, vai para a Chechênia. Luta, mata, casa-se, tem um filho – Saifudeen – e perde a perna.
Tantas experiências bizarras dão à voz de Collins uma serenidade e placidez estranhas. Não combinam em nada com o corpo largo de jogador de futebol americano. O tom se mantém no texto, numa maneira quase insensível e seca de narrar episódios hediondos. Collins não poupa o leitor dos detalhes de batalhas, do tédio das viagens, das mortes – de quase nada. É um texto que deve ser encarado não como vindo da caneta de um autor típico, mas de um Jack London ou outro escritor de aventuras. Tanta aridez por vezes realça trechos de ironia mórbida.
Tome-se o exemplo da passagem em que Collins conta seus primeiros dias num campo de treinamento na fronteira paquistanesa da Caxemira: ''Um dia estava sentado numa borda da clareira do campo quando um de meus colegas me chamou. Explicou que o comandante Khalid queria me ver. Deve ser algo importante, pensei. Quando entrei em sua tenda, ele estava sentado em almofadas, ao lado de um assistente. 'Sente-se', falou ele, sério, em inglês. Pensei que estava com problemas. 'Sim', disse. Sim o quê? Decidi rir. Então ele levantou sua perna amputada. Tinha posto no coto uma meia preta com dois olhos brancos desenhados. Parecia a cabeça de uma ovelha. Então, seu assistente começou a cantar. 'Ba, ba, ovelha preta, você tem alguma lã?', cantava ele com um forte sotaque urdu. Khalid mexia a perna como se fosse a ovelha que cantasse. 'Sim senhor, três sacos grandes!'. Fiquei olhando aqueles dois homens estranhos. Os olhos do assistente brilhavam. No fim da música, os dois urravam de tanto gargalhar.''
Collins acerta na organização do livro. A primeira parte contém suas idas e vindas no mundo da jihad internacional, partindo de um reformatório em San Diego para o encontro dos homens de Bin Laden, nome a que os americanos se habituaram depois de 11 de setembro. A terceira fala de seu período na Chechênia, concentra o grosso da ação. É na segunda que o brutamontes revela sensibilidade, ao contar, em magras páginas, sua infância e juventude. As frases se alongam, um adjetivo surge aqui e ali, e Collins se permite refletir enquanto escreve. Os parágrafos que narram o assassinato de sua mãe – que terminou boiando num pântano próximo de casa, ''suas mãos longilíneas comidas pelos pequenos caranguejos que eu pescava com um puçá'' – têm uma cor dolorida e intensa.
O estranho Collins agora espera o dinheiro dos direitos autorais do livro num pequeno apartamento em Baltimore. ''Minha vida anda uma m... total'', diz. Mas voltaria para a Chechênia, por exemplo? ''Claro, assim que conseguir o dinheiro'', afirma rápido. ''A Chechênia é um lugar tão legal!''
17.8.02
Memórias de um guerreiro islâmico (e americano)
24.7.02
''Sei que vou ser criticado''
Sérgio Vieira de Mello fala dos desafios que o esperam como alto comissário para Direitos Humanos
(Publicada originalmente no JB)
Confirmado ontem pela Assembléia Geral da ONU como o novo Alto Comissário para Direitos Humanos da organização, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello ainda aborda com cautela a missão que tem à frente. Sabe, contudo, que o cargo que ocupará a partir de setembro é um dos mais espinhosos das Nações Unidas. Vieira de Mello, que dirigiu a missão da ONU no Timor Leste, conversou por telefone com o Jornal do Brasil, de sua casa, em Nova York.
- Qual a sensação de ser incumbido de uma tarefa como essa?
- É semelhante ao que senti quando cheguei a Timor Leste. Agora começo a me dar conta da extensão, do desafio e da responsabilidade que levarei nos ombros a partir do dia 12 de setembro. Tenho plena noção da dificuldade inerente a meu posto e da multidão de problemas concretos, teóricos e práticos, com os quais vou me defrontar. As próximas semanas serão, sem dúvida, de aprendizado.
- Quais são as maiores questões relativas aos direitos humanos hoje?
- É difícil ser específico agora. Direitos humanos é quase tudo. Respirar é um direito humano, direito à vida. Mas há o perigo da diluição, da dispersão. Uma das minhas principais tarefas será priorizar. Identificar as áreas que devem ser abordadas primeiro. Não se deve dar atenção apenas à promoção da teoria dos direitos humanos, mas também às situações em que os direitos se encontram ameaçados ou cerceados. Se for me pautar pelas emergências políticas ou humanitárias, posso estar negligenciando outros aspectos. Não quero fazer isso antes de pedir conselhos a minha colega Mary Robinson.
- Robinson deixa o cargo com boa reputação entre defensores dos direitos humanos, mas criticada por vários governos. O que o senhor acha que mudará com sua entrada?
- O que muda são as personalidades. Cada um tem seu estilo, seu enfoque. O meu não será idêntico ao dela, mas certamente vou me beneficiar de tudo que ela realizou. Mas meu cargo tem muito daquilo que os ingleses chamam de no win situation. Não se pode agradar a todos. O que vou tentar fazer, e não digo que vou ter mais êxito que Robinson, é complementar o trabalho do secretário-geral Kofi Annan. Quero evitar também a hiperpolitização de alguns temas de direitos humanos e encontrar áreas de consenso. Sei que vou ser criticado por uma ou outra parte. Isso é parte do meu cargo por definição.
- O senhor tem idéia de quais seriam os pontos de tensão?
- Seria precipitado mencioná-los agora. Minhas prioridades serão conhecidas na prática, não necessariamente em declarações públicas.
- Há alguma mudança no contexto de sua atividade após os atentados de 11 de setembro?
- Os atentados são um divisor de águas. Os métodos usados pelos terroristas ultrapassaram tudo o que podíamos imaginar. Mas também o combate a estas novas formas de terrorismo cria um desafio para a promoção dos direitos humanos. É preciso criar salvaguardas. A promoção desses direitos deve ser feita de forma a tornar impossível o recurso a atos insensatos como aqueles.
- O senhor acredita que, com sua nomeação, haverá mais dedicação do Brasil à proteção dos direitos humanos?
- O Brasil desenvolveu na última década uma nova consciência, importantíssima, sobre o assunto. Sabemos, contudo, da dificuldade de transformar a teoria em prática num país tão grande e jovem como o nosso. Como alto comissário, não posso tratar de um país em particular, muito menos o meu. Mas é óbvio que, por ser brasileiro, desenvolveremos um diálogo com Brasília. Espero que me apóiem com idéias e sugestões. E também que me ouçam quando for preciso expressar algum ponto de vista ou alguma preocupação. Sei que o Itamaraty estará aberto a isso.
- Finalmente, qual seu balanço da transição para a independência que o senhor comandou em Timor Leste?
- Foram dois anos e meio excepcionais no sentido original da palavra: fora do comum. Timor foi diferente de tudo que a ONU já fez. Encontramos um país em ruínas e o deixamos com novas instituições. Instituições ainda frágeis, mas o país é seguro, estável e, principalmente, tem consciência de sua própria responsabilidade de levar adiante e consolidar o que se construiu até aqui. Entregando as chaves de meu gabinete ao presidente Xanana Gusmão, não houve um corte, mas continuidade. Tudo que conseguimos foi fruto do trabalho conjunto com os timorenses, seguindo sempre o que eles quiseram, o que é mais importante.
22.4.02
Morte e vida palestina
(publicada no JB)
Moradores de Ramala aprendem a conviver com tanques, medo e tédio
Ovos. A maior preocupação do senhor Jumah naquela tarde era a dúzia de ovos que ele levava com cuidado entre os escombros de prédios que agora complicam o trajeto da casa de sua mãe à sua própria. De repente, o senhor de 50 anos estanca, de frente para dois tanques igualmente imóveis. É de novo uma criança com medo e uma dúzia de frágeis ovos, um tesouro nas atuais circunstâncias, nas mãos: ''eles me mandaram voltar. Voltar pra onde?'', exclama, afinando a voz.
Jumah, que mora em Betúnia, uma das localidades que compõem a Grande Ramala, não dá o primeiro nome. Assim como ele, uma multidão anônima, em torno de 150 mil pessoas, vive há mais de três semanas sob bloqueio militar israelense, entre cinzeiros cheios, o aparelho de TV, os cantos das janelas, livros lidos sem muito interesse e uma mistura desagradável de medo e tédio.
''É quase a mesma coisa que uma prisão, só que na sua casa. Você perde o senso de tempo, esquece em que dia está e só olha para o relógio quando sabe que está chegando a hora de suspenderem o toque de recolher'', conta o estudante de engenharia Badawi Qawasmi. ''Nos primeiros dias, ficávamos assistindo os tanques, vendo se os soldados iam parar na frente de casa para nos pegar. Além disso, víamos muita TV e ouvíamos rádio - se bem que depois de uns dias as estações foram saindo do ar. Quando acabava a luz, jogávamos cartas. Depois de dez dias já não agüentava mais nada disso''.
Foi aí que Badawi e os irmãos começaram a tirar os livros da prateleira. Primeiro, para adiantarem as leituras da faculdade ou os deveres do colégio. Depois, para se desligarem da realidade. ''Peguei meus livros do curso de francês e estou pelejando para ler. Chateaubriand, Baudelaire, o que tiver''.
Um dos poucos acontecimentos a quebrar a modorra é quando os soldados anunciam através de megafones o levantamento do bloqueio, geralmente entre uma e quatro da tarde. É hora de correr para comprar farinha, água, legumes, remédios. O pão sai só às vezes, mas sempre fresco, porque o padeiro é liberado antes de todos para esquentar o forno, abrir a massa e preparar as bandejas.
Uns aproveitam para alimentar o espírito. ''Sexta-feira consegui ir à mesquita'', conta o senhor Jumah. ''A daqui é uma das poucas onde ainda há xeques para dar sermões. Muitos foram mortos ou presos – a maioria é do Hamas. Estão tendo cuidado com os discursos. Os soldados podem estar ouvindo''. Outros são mais mundanos. Hasan, filho de Jumah, por exemplo, foi para um ciber-café próximo ler os jornais e mandar e-mails para os amigos e para a namorada que ele tem visto pouco, por razões óbvias.
Depois de 21 dias, o dinheiro para pagar tudo virou problema. Quem tem salário mensal ajuda os diaristas e os que vivem de semanada. Os que têm poupança já se preocupam e os que não têm apelam para as agências humanitárias que circulam pela cidade levando cestas básicas com farinha, leite em pó e frangos. Segundo Jumah, quem tem dinheiro divide, quem paga aluguel está perdoado e quem precisa de remédio pede.
As poucas horas na rua não chegam a ser calmas. Os soldados estão em todo lugar e os tanques já tem uma linguagem própria. A torre vai da esquerda para a direita. É um ''não''; o canhão para cima e para baixo é um ''sim''. Na dúvida, uma mão sai de dentro da escotilha e acena um gesto meio ininteligível. No último estágio, os soldados dentro da máquina falam pelo alto-falante algo em árabe ou hebraico.
A tensão chega ao pico no início e no fim do período de liberdade. Diversas pessoas já foram baleadas por ainda estarem na rua durante o toque de recolher. Ontem um adolescente de 15 anos foi morto por pôr os pés na rua três minutos antes do permitido, segundo Badawi. A confusão é maior porque os horários são estabelecidos pelo fuso israelense, uma hora mais tarde que o da Autoridade Palestina. No fim da tarde, as pessoas voltam para casa carregando sacolas e contando as novas. Então segue-se mais horas de tédio, ar contaminado e falta de sono.
''Pode me ligar mais tarde'', diz Badawi, pouco antes de se despedir, depois de quase uma hora de entrevista e alguns minutos antes da meia-noite palestina. ''A gente dorme a qualquer hora, pode me acordar''.
7.2.02
Blair e Bush entre o Nobel e o belicismo
Venda de armas à África arranha indicação para Academia
(Publicada originalmente no JB)
Comandantes de um tempo de guerra, o americano George Bush e o britânico Tony Blair foram indicados para o prêmio Nobel da paz. A indicação veio de um membro da ultra-direita do governo norueguês, Harald Tom Nesvik. O parlamentar do Partido do Progresso afirma que os dois atendem perfeitamente o critério criado por Alfred Nobel, determinando que o vencedor deve ter feito ''o melhor trabalho pela fraternidade das nações, pela abolição ou redução dos Exércitos e pela promoção da paz''. Segundo Nesvik, ''às vezes você tem de usar de força para garantir a paz'', numa referência à chuva de bombas contra os terroristas nas montanhas do Afeganistão.
O anúncio soa ainda mais estranho nessa semana, quando Bush propôs o maior orçamento militar desde a Guerra Fria e Blair, a caminho da África num safári político, é alvejado em casa e no exterior pela postura dúbia de seu governo quando desenvolvimento e armas se misturam.
Afinal, como explicar que um pacifista tenha autorizado apenas nos últimos três anos um aumento de 400% nas vendas de armamentos para governos africanos, continente onde há mais guerras civis que se possa contar, ditaduras a granel e miséria sobrando? Embora as vendas não pertençam ao governo inglês, mas a empresas particulares, Downing Street tem de dar seu visto em cada uma delas.
Retórica - O problema seria menor se Blair evitasse declarações como as feitas na última convenção do Partido Trabalhista - quando prometeu ''socorrer os famintos, os miseráveis, os ignorantes, os que passam necessidade e vivem na imundície'' - e admitisse abertamente que seu país vende cada vez mais armas para o continente africano, que ele mesmo define como ''uma cicatriz na consciência do mundo''. Estaria apenas tomando a atitude típica de liberal, longe de ser o pior pecado no país.
Em 1999, as vendas passaram US$ 70 milhões, em 2000 saltaram para US$ 176 milhões e no ano passado chegaram a US$ 280 milhões, segundo o Campaign Against Arms Trade, que luta para impedir a venda de armas. Boa parte desse bolo é referente à venda de caças leves de ataque Hawk para a África do Sul, mas o acordo que está levantando mais polêmica - não só entre ONGs que discordam da política do governo, mas entre os lordes e o público - é mesmo o caso da Tanzânia.
Um contrato no valor de US$ 40 milhões foi fechado entre o governo do país africano e a BAE Systems para a construção de um sofisticado sistema de radares militares. Apesar da pobreza do país, da desaprovação explícita do Banco Mundial e de regras da União Européia que, se adotadas, poderiam minar o negócio, Blair aprovou a venda. ''A coisa toda fede'', disse um funcionário do governo ao diário The Guardian.
Em tempo: a Tanzânia têm oito aviões militares e uma renda per capita de US$ 500.
9.10.01
''Forças especiais estão no Afeganistão''
Entrevista DAOUD MIR
(Publicada originalmente no JB)
Daoud Mir é um dos representantes da Aliança do Norte (também chamada de Frente Unida) que tenta costurar em Washington um acordo definitivo com a Casa Branca para depor os talibãs. Segundo contou ao Jornal do Brasil por telefone de Washington, a colaboração já começou: forças especiais estariam estudando o território afegão com a ajuda da Aliança, preparando-se para uma ofensiva terrestre.
-Qual a posição da Aliança do Norte sobre os ataques anglo-americanos ao Afeganistão?
-Nós saudamos esta ação contra os campos terroristas no Afeganistão porque os afegãos são vítimas e reféns desses terroristas. A coalizão internacional começou hoje uma segunda onda de ataques precisos contra instalações militares dos talibãs e de Bin Laden. Estamos prontos para iniciar nossa cooperação em terra também. Nos próximos dias, iniciaremos nossas próprias ofensivas.
-Qual é a situação atual da Aliança? O que falta para o começo de uma ofensiva?
-Estamos prontos para lançar uma ofensiva contra os talibãs e Bin Laden nos próximos dias. É claro que não posso mencionar datas precisas, mas gostaríamos de continuar nossa colaboração em terra com as outras forças.
-O senhor fala em continuar. Isso quer dizer que já existe uma cooperação em terra acontecendo?
-Sim, é claro. A comunidade internacional entendeu que, sem a ajuda da Frente Unida, não conseguirá muita coisa. Os afegãos estão prontos para lutar contra o terrorismo no país porque eles são as primeiras vítimas.
-Russos e americanos prometeram vários graus de apoio. A Aliança já recebeu algo concreto desses dois aliados, seja em armas ou dinheiro?
-Ainda não. Tivemos várias promessas, mas até agora não recebemos nada concreto da Rússia ou de qualquer outro país. Estamos abertos para receber suprimentos militares e lutar.
-Mas, concretamente, o que eles prometeram? Dinheiro, armas...
-Pedimos dinheiro, armas e auxílio tático, mas tudo que conseguimos até agora foi que eles jogassem suprimentos humanitários para o povo do Afeganistão. Eles agora sabem que o povo afegão é contra o terrorismo. Esperamos impacientemente por armas e dinheiro porque poderíamos acabar com isso rapidamente se trabalhássemos juntos.
-Concretamente, há alguma coisa?
-Do ponto de vista prático, nós temos alguns contatos em terra. Forças especiais estão no Afeganistão. Sei disso porque nós, da Aliança, construímos alguns abrigos para eles dentro da área sob nosso controle.
-Forças especiais americanas?
-Sim, americanas e de outro membro da coalizão. A presença ainda é pequena. Mas esperamos que o apoio militar e financeiro chegue logo.
-O senhor estaria autorizado a revelar onde essas forças estão?
-É claro que não posso revelar a localização exata das forças especiais, mas posso dizer que elas estão num lugar seguro sob nosso controle. Controlamos mais de 30% do Afeganistão e construímos um abrigo sólido e seguro para elas poderem estudar conosco o planos para as futuras operações terrestres no país.
-Quais são as articulações para o próximo governo? A Aliança do Norte vai participar da grande assembléia afegã, a Loya Jirga?
-Sim. Este é o ponto mais importante. Nosso povo sempre resolveu seus problemas de maneira extremamente democrática, através desta instância. Assim, convidamos o antigo rei afegão, Zahir Shah, não como um monarca, mas como uma personalidade importante no país, que pode ajudar a elaborar um esquema político justo que incluiria todos os grupos da sociedade afegã.
30.9.01
Futuro incerto do Afeganistão pós-talibã
Operação dos EUA contra o terrorismo pode mais uma vez deixar o país sem governo e com poucas alternativas
(Publicada originalmente no JB)
A planejada ofensiva americana contra o Afeganistão tem como alvo o milionário saudita Osama Bin Laden, mas certamente acabará ferindo de morte outro inimigo americano: o regime extremista dos talibãs, que controlam o país e protegem o homem acusado pelos atentados do último dia 11 nos Estados Unidos. E esta perspectiva, por incrível que possa parecer, é assustadora na complicada geopolítica da região. No Afeganistão, como em poucos lugares no mundo, os períodos de vazio de poder fazem tanta ou mais diferença no futuro do país quanto os períodos com governo. Hoje já se pergunta: quem, afinal herdará esse país miserável?
Os americanos sabem que não podem fazer como em 1994, quando, para tentar tranqüilizar a situação, aceitaram que o Paquistão implantasse um regime com o qual tinha afinidades étnicas e religiosas, integrado por estudantes de teologia das madrassas, escolas corânicas paquistanesas. Na época, ao contrário de hoje, poucos sabiam o que significava quem eram os talibãs.
Cautela - Washington parece ter aprendido com os erros do passado. Dá um passo de cada vez, trocando informações. Suas movimentações em direção dos dois sucessores mais evidentes agora - a Aliança do Norte e o antigo rei Zahir Shah- têm sido marcadas pela cautela.
É precisamente essa cautela que tem refreado o impulso americano de dar dinheiro e armas para a Aliança do Norte, de longe a maior oposição organizada ao regime, e sair conquistando posições no país. A Aliança teria a capacidade de tomar Cabul em breve mas Washington sabe que ela nunca seria capaz de governar o Afeganistão. A razão é simples e está no sangue: muitas etnias dividem o país. A Aliança Norte agrupa diversas minorias, enquanto os talibãs são a parte mais articulada da maior etnia afegã, a dos pashtos.
''De uma coisa eu tenho certeza: não há como governar o Afeganistão sem ter os pashtos do seu lado'', afirma Teresita C. Schaffer, do Centro de Estudos Estratégicos Internacionais (CISS), de Washington. A Aliança está ciente desse fato. Tanto que, nos últimos dias, tem se apresentado com o nome de Frente Unida.
''A Aliança está soando muito mais pró-Ocidente agora. Está determinada a derrubar o regime talibã'', diz Keneth Weisbrode, analista internacional com passagem pelo Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS). ''Acredito que o papel dos americanos agora seria tirar vantagem disso para capturar Bin Laden e destruir sua rede'', diz ele.
Problemas étnicos - Será difícil para a Aliança conseguir o consenso, contudo. ''Muitos dos comandantes da Aliança, como Israel Khan, de Herat, e Abdul Dostan, de Fary, têm péssima reputação devido à sua brutalidade''. Um governo da Aliança também desagradaria o Paquistão, que é um importante aliado dos EUA na ofensiva antiterror.
A ONU vem advogando há anos um governo de coalizão. Para a sorte de quase todos envolvidos, existe uma versão afegã milenar para esta prática comum na doutrina da resolução de conflitos: a joya jirga.
''É um antigo costume afegão. Trata-se de um encontro de todos os líderes tribais para resolver um problema. Nesse caso, estabelecer um governo legítimo'', explica Weisbrode. É nesse esquema que entra o rei Zahir Shah, deposto nos anos 70. Ele é o maior articulador da nova joya jirga e conta com os o apoio americano.
A coalizão tribal deve contar, inclusive, com membros moderados do talibã - seja lá o que isso signifique. ''Se for para acabar com os campos de treinamento terrorista, acho que os EUA estão prontos até para aceitar algumas pessoas do regime talibã nesse novo governo'', conclui Teresita.
ERROS DO PASSADO
''Se você me pedir para resumir todos os problemas da política americana para o Afeganistão, eu diria que o problema é que até bem pouco tempo não havia qualquer política para o país'', explica ao Jornal do Brasil o analista independente Keneth Weisbrode. ''Eles simplesmente deram as costas para o país em 1989 e deixaram-no descer ao caos''.
A debandada diplomática americana aconteceu poucos meses depois da debandada soviética. Para os americanos, a missão estava cumprida: eles já haviam dado aos mujahideen (guerreiros santos), dinheiro e armas para mandar o perigo vermelho para casa e o império soviético terminou se esfacelando.
O Afeganistão desceu ao caos, como diz Weisbrode, e as diversas guerrilhas que lutaram unidas para expulsar os russos passaram a guerrear entre si para chegar ao poder, acabando com a pouca infraestrutura que restava. Foi nesse cenário que os talibãs, com o apoio de seus ''irmãos'' paquistaneses - e a aquiescência dos americanos - subiram ao poder, derrubando o presidente Burhanuddin Rabbani, que havia sido empossado em 1992.
Esquisitos - ''As opiniões do governo americano sobre o talibã estavam muito divididas desde o início. Alguns otimistas viam neles forças da estabilidade - afinal, os paquistaneses montaram o regime pra isso - mas cinco minutos de conversa com qualquer autoridade do regime era o bastante para mostrar que eles eram um tanto esquisitos e nada parecido com um aliado confiável'', conta o analista. A despeito de tudo isso, a Casa Branca preferiu manter distância.
Tudo isso mudou depois dos atentados às embaixadas americanas na África, em 1998. Era a prova de que o Afeganistão, abandonado, havia se tornado um celeiro de terroristas. Mas a resposta talvez tenha piorado ainda mais as coisas: o presidente Bill Clinton lançou cerca de 65 mísseis contra o território do país. Entre as baixas só havia civis inocentes e suas cabras. Bin Laden, como se sabe, sobreviveu e os ataques terminaram por ajudar a ele e aos talibãs a recrutar mais homens dispostos a tudo. Uma lição que, aparentemente, os americanos não estão mais dispostos a esquecer.
28.8.01
''Não existem ódios no Timor''
Entrevista SÉRGIO VIEIRA DE MELLO
(Publicada originalmente no JB)
Depois de amanhã, os timorenses vão comemorar um agridoce aniversário. Há dois anos, o Timor Leste escolheu a independência da Indonésia, que invadira a ex-colônia portuguesa em 1975. A celebração nas ruas foi interrompida por uma represália de milícias pró-integração, responsáveis por um banho de sangue.
Este ano, Timor finca o pé na democracia: irão às urnas na quinta-feira para escolher os 88 representantes que redigirão a Constituição do país, pavimentando a estrada para as primeiras eleições presidenciais do Estado recém-nascido. Supervisionando tudo está o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, de 53 anos, 32 deles na ONU.
Antes de ir para o Timor - na primeira vez que a ONU toma para si a ambiciosa tarefa de criar um país - o diplomata, que já passou por lugares como Sudão, Moçambique e Bósnia, foi o primeiro administrador de Kosovo, depois que as forças iugoslavas deixaram a província. De Díli, Vieira de Mello falou por telefone ao Jornal do Brasil sobre o orgulho de entregar o Timor Leste à democracia e sobre sua proximidade com um dos maiores líderes do país, Xanana Gusmão, que anunciou no sábado estar disposto a concorrer à presidência.
- O pessimismo é um resquício do massacre de dois anos atrás?
- É, e do Timor de 1974 e 1975, porque para os timorenses política sempre foi sinônimo de violência. O que nós tentamos nessa primeira fase da transição e principalmente desde o inicio de 2001, com a campanha de educação cívica e as comissões constitucionais que criamos em diversos distritos, foi justamente mudar essa mentalidade, essa percepção da vida política como sendo necessária e inevitavelmente violenta. A população reagiu muito bem. Tanto que, em julho, quando viajei pelos distritos do país antes da reunião do Conselho de Segurança da ONU em Nova Iorque, levei representantes dos partidos políticos comigo. A população, incluindo as pessoas mais humildes, nas partes mais remotas do país, exigiram que os partidos políticos respeitassem o pacto de unidade nacional e, principalmente, que jamais usassem métodos violentos para conseguir objetivos políticos.
- Como o senhor se sente entregando o Timor pela primeira vez à democracia?
- Eu me sinto orgulhoso da minha organização, que geralmente é criticada em suas operações de paz. Acho que desta vez o Conselho de Segurança nos deu um mandato viável, realista, e também os recursos necessários para implementar esse mandato, talvez o mais ambicioso na história das Nações Unidas. Afinal, estamos aqui com plenos poderes executivos e legislativos e inclusive com controle sobre a administração da Justiça. Nunca antes uma operação da ONU tinha recebido um mandato dessa natureza. Não posso me queixar porque os meios foram proporcionais à missão.
- Como o senhor avalia o processo de transição para a democracia, iniciado em 1999?
- Acho que a paz, a estabilidade e a tolerância que prevalecem neste fim de campanha eleitoral são a melhor resposta à pergunta. Todos duvidavam, até os próprios timorenses, da sua capacidade de gerenciar um novo processo político, uma campanha eleitoral, o registro civil e eleitoral, a formação de novos partidos políticos, sem que isso descambasse para violência, mais sangue e mais sofrimento para a população. É quase incrível, portanto, o que estamos vendo nestas últimas semanas. Isso demonstra que, se os timorenses não sabiam o que era exatamente democracia, certamente estavam fartos de saber o que não era democracia. Apesar de nunca terem tido uma experiência direta de vida democrática durante o período colonial ou nos últimos 24 anos de ocupação indonésia, eles sabiam o que era o contrário da democracia e isso os preparou. Foi talvez a melhor educação cívica que eles poderiam ter tido.
- Quais são os principais desafios do país?
- Além de um processo democrático sustentável e das instituições democráticas que estamos criando no Timor Leste, o primeiro grande desafio é econômico e social. O Timor já era, em 1999, uma das províncias mais pobres e atrasadas da Indonésia, e ainda foi devastado e arrasado em setembro daquele ano. Obviamente o país ainda não chegou a um estágio de desenvolvimento econômico que nos permita resolver o problema do desemprego, que ainda é muito sério em centros urbanos como Díli, onde a população dobrou desde agosto de 1999. Estamos com mais de 130 mil habitantes aqui. Em agosto de 1999, havia 68 mil.
- A que se deve esse crescimento?
- A dois fenômenos. Um deles, bem conhecido dos brasileiros, é a migração de zonas rurais para os centros urbanos. Além disso, as pessoas deslocadas em 1999, seja dentro do Timor Leste, seja na parte ocidental da ilha, ao regressarem, em vez de voltarem para seus distritos de origem, ficaram em Díli, pensando que seria mais fácil encontrar emprego. O desafio econômico será o maior e mais prioritário para o segundo governo de transição que, vou nomear em setembro. Mas, a médio prazo, as perspectivas são boas. O Timor Leste pode se tornar, em dois ou três anos, auto-suficiente em produção agrícola. Poucos países podem aspirar a esse luxo. E o Timor até hoje não explorou a indústria da pesca, apesar de estar cercado pelo mar. A produção de café também pode ser dobrada ou triplicada, de acordo com peritos brasileiros que estiveram aqui semanas atrás. Além disso, o Timor dispõe de recursos naturais, principalmente o gás natural e o petróleo do Mar de Timor. A médio prazo, este país poderia se tornar uma sociedade próspera. É essa esperança que vai animar os timorenses a suportar essa fase intermediária, que vai ser muito muito difícil.
- Há outros desafios?
- O segundo desafio será a consolidação da nova administração pública. Nesse setor também partimos do nada, da tábula rasa que encontramos em novembro de 1999, com uma administração pública em colapso total, colapso de recursos humanos e colapso físico. Desde o início do ano passado já conseguimos recrutar mais de dez mil funcionários públicos. Todos os quadros médios ou superiores da administração indonésia eram indonésios ou timorenses que se refugiaram na parte ocidental da ilha. Nossa administração ainda é rudimentar em certas áreas, ainda é muito vulnerável. O terceiro desafio é o da reconciliação. Mas eu acho que esse desafio será mais fácil superar no Timor do que, por exemplo, nos Bálcãs, na Bósnia, na Croácia e em Kosovo, porque não existe ódio aqui. Nunca houve uma guerra civil no Timor Leste. O que houve foram excessos cometidos por milicianos treinados, doutrinados, armados, organizados e comandados por não-timorenses. Nosso processo de reconciliação, de mãos dadas com Xanana Gusmão, vai no sentido de incentivar até os chefes de milícias que se encontram na parte ocidental da ilha a regressarem e dialogarem com a população que eles vitimaram, a aceitarem um processo judicial justo, que respeite os direitos humanos. Para aqueles que não cometeram crimes graves ou crimes de sangue, as comissões de verdade e reconciliação permitirão que sejam reintegrados nas sociedades locais. Alguns crimes que certamente seriam punidos com 10 ou 15 anos de prisão poderiam, no caso do Timor, levar a uma punição correspondente a seis, nove ou 12 meses de serviço comunitário. Esse processo está bem encaminhado. Eu tenho certeza que os timorenses mais uma vez demonstrarão maturidade. Muitos já regressaram e não foram castigados. Pelo contrário: foram muito bem recebidos e agora levam uma vida perfeitamente normal.
- No sábado, Xanana Gusmão anunciou que disputará a presidência. O que o senhor espera caso o país seja governado por ele?
- A decisão de Xanana é bem-vinda, foi muito oportuna. Concorrer é a decisão certa. Ainda havia muita incerteza na mente e nos ânimos dos timorenses, que vêem em Xanana um líder carismático, um líder da unidade nacional, um líder que seus próprios inimigos, aqueles que lutaram, votaram e até mataram pela integração com a Indonésia, respeitam. Essa é a peça que faltava no esquema que vou tentar montar depois das eleições, que inclui não só uma assembléia constituinte, mas também um segundo governo transitório, que será, na medida do possível, um espelho fiel do resultado das eleições. Um gabinete inclusivo, e não exclusivo, no qual eu também gostaria que Xanana tivesse papel ativo. Seria uma capacitação para quando ele assumir as funções de presidente caso seja eleito pelo povo. Algo sobre o que, a meu ver, não resta dúvida.
- Uma declaração de independência em 28 de novembro, como anunciam líderes da Fretilin, poderia criar problemas?
- Não. A posição da Fretilin sobre a data da independência é de princípio. A república de Timor Leste foi declarada unilateralmente em 28 de novembro de 1975. É uma data histórica, tem grande importância emocional, mais que política, para os timorenses. Nada impede que a Fretilin proponha o dia 28 como data nacional na Assembléia Constituinte. Mas isso não quer dizer que o país iria se tornar independente no dia 28 de novembro de 2001. Qualquer líder da Fretilin sabe que isso não seria desejável, que seria prematuro. O processo político de transição não estará concluído, a Constituição possivelmente não estará redigida em novembro. E se a Constituinte optar por um sistema presidencial ou semi-presidencial, vamos ainda ter que organizar eleições presidenciais. Os timorenses acreditam, e têm toda a razão, que o primeiro presidente do país deve ser eleito pelo povo, diretamente. Tudo isso nos leva a, no mínimo, março ou abril do ano que vem.
- O senhor já serviu em Bangladesh, Sudão, Chipre, Moçambique, Peru, Líbano, Camboja e Bósnia, além de ter sido o primeiro administrador de Kosovo designado pela ONU, em 1999. O senhor é o homem que as Nações Unidas chamam para resolver os grandes problemas?
- Não, eu não sou um caso único nem excepcional. Existe uma pequena equipe de pessoas como eu nas Nações Unidas que o secretário-geral [Kofi Annan]emprega em missões desse tipo. Somos o que ele chama de trouble shooters [solucionadores de problemas]. Não sou o único, e tenho muito orgulho de que ele pense em mim de vez em quando como um colaborador capaz de tentar implementar mandatos desse tipo em situações de conflito ou pós-conflito. Mas, repito, não sou o único, nem o melhor.
- O senhor também é conhecido por suas posições independentes. Esse temperamento foi o que o levou tão longe dentro da organização ou chegou a criar problemas?
- Nem um nem outro. Não acelerou a minha carreira, nem me causou prejuízos. Tudo depende de como você diz a verdade. Se for contundente demais, isso obviamente acarreta prejuízo, mas se souber ser moderado e equilibrado, os governos e os membros do Conselho de Segurança sabem aceitar críticas construtivas. Sabem que, quando nós, funcionários de carreira, formulamos essas críticas, não é para enfraquecer a autoridade do Conselho. Pelo contrário, isso fortalece a organização como um todo e também o Conselho.
- O que fica em sua memória depois desses dois anos à frente do Timor Leste?
- O que fica, vai ficar sempre, é a grande dignidade do povo timorense, que sofreu o diabo, mas continua caminhando de cabeça erguida para a independência. Isso é uma fonte de inspiração, de coragem e determinação para todos nós. Tem sido uma experiência extremamente enriquecedora e gratificante, talvez a mais gratificante que as Nações Unidas tenham me oferecido nesses 32 anos de carreira.
- E qual foi o pior momento desse período?
- Os piores momentos foram os meses de julho, agosto e setembro do ano passado, quando as milícias se infiltraram em grande número vindas da parte oeste, penetrando em profundidade no nosso território. Tive receio, naquela época, exatamente um ano atrás, de que assistíssemos a um fenômeno de conflito de baixa intensidade que pudesse acabar com o processo de transição. Mas nossa reação foi firme. Infelizmente tivemos que matar vários milicianos, todos bem armados, com armas de guerra. Outros se renderam e os restantes voltaram para o Timor Oeste. Acho que eles aprenderam uma lição. Eles sabem que se nos testarem de novo vão se arrepender e é talvez por isso que nessa estação não tenham tentado nenhuma infiltração. A fronteira tem permanecido tranqüila e pacífica. Espero que continue assim, porque se eles tentarem entrar, vão se arrepender. Mas aquele foi o momento mais difícil.
29.4.01
O caubói muda o tom em Washington
Bush tropeça no inglês, faz graça com as próprias fraquezas e não quer ser notícia. É o anti-Bill Clinton
(Publicada originalmente no JB)
Desde o início da corrida eleitoral americana, há mais de dois anos, uma das tônicas da campanha de George W. Bush era de que ele queria ''mudar o tom'' da Casa Branca e de Washington. Apesar de a frase se referir mais ao retorno de valores conservadores e morais tão ausentes durante os oito anos de Bill Clinton, Bush sem dúvida inovou em matéria de comportamento presidencial. O novo presidente dos Estados Unidos trabalha menos horas que seu antecessor, fala pouco, quando fala erra na gramática e afirma sem pudores que não é manchetemaníaco. Nada mais diferente que Clinton, que muitas vezes ganhou a pecha de ''presidente superstar'' e parecia estar em todo lugar para falar - discursar? - sobre tudo.
''Queremos ser desinteressantes'', explicou um assessor da Casa Branca, tentando justificar com ironia o afastamento midiático da Casa Branca. Bush tem ficado longe das luzes em momentos cruciais na vida do país. Depois de ter conduzido a crise do avião-espião na China de forma admirável - elogiada pela bancada democrata e criticada apenas pelos republicanos mais linha-dura -, Bush preferiu ficar em seu rancho texano bem longe dos 24 tripulantes do vôo que chegavam a Washington na Páscoa. Uma nota à imprensa foi tudo que se ouviu do presidente. O mesmo ocorreu quando uma revolta racial irrompeu em Cincinnati ou quando o Meio-Oeste do país foi inundado por uma enchente. Com Clinton, todas estas ocasiões certamente serviriam de pretexto para pêsames, discursos de improviso e seu tradicional torcer de lábios.
Oportunismo - O que não quer dizer que Bush não saiba usar a imprensa quando lhe convém. Depois de semanas sendo duramente criticado por suas atitudes antiecológicas, seus assessores montaram uma coletiva nos jardins da Casa Branca para Bush anunciar que assinaria uma medida banindo o uso de alguns produtos químicos tóxicos. Foi o início de uma tentativa de reabilitação ambientalista de sua imagem. O mesmo vale para a data que comemora seus 100 dias no cargo. Em um único dia, Bush concedeu 12 entrevistas exclusivas.
A relação com a mídia vai além disso, contudo. Bush conta com algum charme, e mostrou enorme talento para capitalizar seus próprios defeitos. O mais conhecido deles - seus tropeços gramáticos, conhecidos como bushismos - foi brilhantemente explorado na última semana, num evento destinado a arrecadar fundos para a campanha de alfabetização do instituto dirigido por sua mãe, Barbara. ''Alguns pensam que minha mãe abraçou a causa do analfabetismo por alguma dose de culpa diante da minha educação'', disse o presidente para a platéia de 2.000 pessoas. ''Na verdade, expandi o significado das palavras. Usei vulcanizar quando queria dizer polarizar, grecianos em vez de gregos. Inebriante, quando queria dizer hilariante.''
Outra acusação freqüente é de que Bush não decide muita coisa na Casa Branca e lê apenas os resumos dos documentos de Estado, deixando o trabalho duro para os assessores e para o vice Dick Cheney. Com verve de comediante, Bush declara: ''Para quem diz isso eu respondo... Dick, o que eu respondo?''. Na verdade, a idéia de que o presidente pode não ser um líder forte nem ter intimidade com a gramática e a diplomacia é relativizada por sua postura pessoal sóbria.
Personalismo? - Até por ter-se acostumado durante oito anos a falar sobre um personalista como Clinton, a imprensa continua tentando adivinhar nos traços da personalidade do texano as qualidades e defeitos do presidente. O episódio em que Bush afirmou que os Estados Unidos ''defenderiam Taiwan'' - os diplomatas do país torcem a gramática há pelo menos duas décadas para não serem claros a respeito - é creditado por muitos à sua impulsividade. Mas é difícil chegar a um resultado bem definido quando se põe Bush no divã.
''Mesmo tendo crescido no Texas e tendo esse jeito de compadre meio bobo, ele foi criado por pessoas que tinham um perfil bem elitista, a elite educada que veio da Inglaterra conquistar a América'', explica ao JB o professor John Orman, cientista político especializado em personalidade dos presidentes americanos, com três livros sobre o assunto. ''Do Texas vem a amabilidade, a extroversão. Desta elite - chamamos este tipo de New England gentleman (cavalheiro da Nova Inglaterra) - ele herdou um certo censo de civilidade e consciência política''. De certa forma, a impulsividade do caubói não combina com a seriedade e inteligência política dos fidalgos da elite texana. Mas Bush se agarra à sela e segue seu caminho.
22.4.01
EUA terceirizam risco na Colômbia
Para evitar desgaste político, governo americano substitui seus militares por firmas especializadas
(Publicada originalmente no JB)
No momento em que pousou seu helicóptero num campo de folhas de coca, depois de ser atingido em pleno vôo por um disparo das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), o capitão colombiano Giancarlo Cotrino não sabia o tamanho do precedente que a situação ia originar logo depois. Seu resgate envolveu dois helicópteros de guerra, que metralhavam intermitentemente as posições de onde cerca de 200 rebeldes atacavam a ele e seu co-piloto. O resgate foi feito por uma equipe de dois colombianos e quatro americanos. Pelo menos oficialmente, era a primeira vez que um cidadão dos Estados Unidos se envolvia diretamente no conflito colombiano.
A notícia reverberou com enorme impacto nos EUA quatro dias depois do episódio, numa reportagem do jornal Miami Herald publicada em 22 de fevereiro. A opinião pública simplesmente ignorava o fato de que civis americanos - a maioria deles militares da reserva - estivessem tão próximos da linha de fogo na Colômbia. Muitos passaram a se perguntar se o governo estaria financiando mercenários. ''O Pentágono está contratando alguém para fazer seu trabalho sujo'', acusa a deputada democrata Janice Schakowsky, que investiga os primeiros resultados do Plano Colômbia.
Tiros - Quando a campanha de fumigação aérea começou, em 12 dezembro passado, os pilotos encontraram pouca resistência por parte dos paramilitares de direita das Autodefesas de Colômbia, que dominam as plantações do departamento de Putumayo. O mesmo não se repetiu, contudo, quando a fumigação começou no departamento de Caquetá, controlado pelas Farc, o maior exército rebelde do país, com mais de 17 mil homens. Em 2 de fevereiro, no seu primeiro dia em Caquetá, o avião que despejava herbicida levou 11 tiros, mas conseguiu voltar à base. No domingo do acidente com Cotrino, um total de cinco aeronaves armadas escoltavam dois aviões de fumigação, prova de que os pilotos iam preparados para o pior.
Os americanos eram funcionários da Dyncorp, companhia privada americana que assinou em 1996 um contrato de US$ 600 milhões para realizar trabalhos de fumigação na Colômbia, Peru e Bolívia. Seu trabalho é cercado de mistério e seus pilotos são proibidos de comentar seu trabalho com jornalistas. O mesmo vale para a MPRI, firma americana de consultoria militar, que acabou de concluir um curso para o alto escalão do Exército colombiano.
Morte - O esquema é confortável para o governo dos EUA. Utilizando subcontratados, afasta-se o risco de ver um soldado americano sendo morto no exterior. Se o mesmo acontece a um empregado destas empresas, é sempre mais fácil justificar que o governo não tinha nenhuma responsabilidade sobre suas atividades ou o risco envolvido nelas. ''É sempre muito útil ter um grupo que não faça parte das Forças Armadas americanas, obviamente'', disse ao Miami Herald o ex-embaixador americano na Colômbia, Myles Frechette. ''Se alguém morre, você sempre pode dizer que ele não faz parte do seu Exército.''
AULA PERDIDA
''Não aprendemos nada desde El Salvador'', lamenta Robert E. White, diplomata americano que foi embaixador naquele país no início da década de 80. ''O que quero dizer é que há certos princípios de conduta em relação à América Latina e suas revoluções que devíamos ter aprendido desde então'', diz ele, por telefone, ao JB. White é diretor do Center for International Policy, instituto sediado em Washington que tem como maior objetivo estudar a política externa americana e buscar sua desmilitarização.
Ele usa sua experiência no pequeno país centro-americano como um trampolim para avaliar o que os EUA fazem hoje na Colômbia e propõem para o futuro da América Latina. Durante o fim dos anos 70 e início da década de 80, a América Central foi o palco de alguns dos últimos conflitos da Guerra Fria, com os EUA financiando os contras, que lutavam contra o governo sandinista na Nicarágua, e apoiando o governo de El Salvador na luta contra a guerrilha marxista.
Aliados - O ponto comum entre o que foi feito no passado em El Salvador e Nicarágua e o que se busca fazer hoje na América Latina é que os Estados Unidos continuam a fornecer ampla ajuda - em armas, assessoria militar, inteligência e propaganda - para apoiar seus aliados. É precisamente nesta estratégia que White vê o risco.
''Quando [o presidente colombiano Andrés]Pastrana apresentou a primeira forma do Plano Colômbia a Washington, não havia uma única linha defendendo uma intervenção militar. ''Não havia lugar para isto'', diz White. Segundo ele, Pastrana buscava saídas diferentes para os dois maiores problemas do país, o narcotráfico e as guerrilhas, ambos causados pela mesma desigualdade social. Em teoria, o desenvolvimento iria gradualmente tirar as vantagens da cultura de coca por camponeses pobres, isolando os traficantes. Quanto às guerrilhas, seriam vencidas na mesa de negociação.
Drogas - A nova versão do plano guardou poucas semelhanças com a original. ''Os EUA disseram, basicamente: Não temos dinheiro para financiar esse desenvolvimento, mas temos recursos quase infinitos para pagar a guerra às drogas. O que nós, americanos, fizemos foi militarizar um plano que originalmente se destinava a trazer a presença do governo para dentro dos territórios dominados pela guerrilha'', diz White.
A interpretação pode parecer colorida pela ideologia. Mas os opositores do Plano Colômbia e do que já se sabe da chamada Iniciativa Andina argumentam que a coisa sequer passa por um suspeito jogo de certo e errado. ''Simplesmente não funciona'', explica a deputada democrata Janice Schakowsky, entrevistada pelo JB. ''Ontem falei com uma cientista que faz trabalho de campo no Equador e ela me contou que o desmatamento para plantar coca já começou por lá. O mesmo pode acontecer no Peru'', conta a deputada, que visitou a Colômbia em fevereiro para reportar ao Congresso americano sobre os primeiros meses de implantação efetiva do Plano.
24.12.00
Uma nova face para os mercenários
Firmas privadas de serviço militar buscam serviço em regimes legítimos
(Publicada originalmente no JB)
A primeira coisa que se pensa quando se fala em um mercenário é um tipo sem escrúpulos, cheio de cicatrizes de guerra, armado até os dentes e disposto a matar em troca do melhor salário. A imagem tem fundamento: nos anos 60 e 70 verdadeiros genocídios foram cometidos pelos cães de guerra, principalmente na África. Os últimos anos assistiram uma queda aguda nesse mercado da morte e a ascensão de firmas particulares, as chamadas PMCs - sigla em inglês para Private Military Companies (companhias militares privadas).
Estas empresas oferecem serviços que vão desde a instrução de cadetes novatos na arte da guerra até o mais cruento combate. São empresas dispostas a alugar seus talentos militares não por uma causa, mas por dinheiro.
O negócio é obscuro e não se fala explicitamente em cifras, serviços e clientes. Muitas dessas companhias, contudo, podem ser encontradas em vistosos sites na internet. Desnecessário dizer, é rara a menção de termos como ''guerra'' e ''combate'', substituídos por expressões como ''transição para a democracia'' e outras similares. O sigilo é grande mesmo entre as empresas que admitem publicamente que fazem ''operações especiais'', como a inglesa Sandline.
Sigilo - Michael Grunberg, um dos diretores da empresa, se negou a informar ao JB os locais onde a empresa atua no momento. ''Nossos contratos são feitos em regime de sigilo com os governos que são nossos clientes. Tudo que posso dizer é que atualmente trabalhamos em dois continentes'', declarou por telefone o executivo, sem entrar em detalhes. Grunberg garante, contudo, que a seleção dos clientes é rigorosa. ''Trabalhamos somente para governos legítimos e eleitos democraticamente.'' Grunberg esclarece que sua empresa não trabalha contra os interesses do governo inglês ''e, em última instância, contra nenhum governo'', repetindo o coro de outras empresas contactadas. Uma advertência do governo inglês desencorajou que a firma prestasse ajuda a rebeldes de Kosovo.
A indústria estabelece suas próprias regras. ''As companhias maiores tendem a ser mais éticas, mas há outras - e muitos indivíduos - que desafiam a lei'', explica o cientista político Doug Brooks, do Instituto Sul-Africano de Assuntos Exteriores, um especialista nas PMCs. Essas firmas menores se ocupam de tarefas como limpeza de campos minados e segurança de instalações industriais, mas sua menor visibilidade as exime de compromissos humanitários que impediriam empresas maiores de aceitar certos trabalhos.
O efeito dessas companhias na paz, e não só na guerra, é objeto de apaixonado debate. A quem essas empresas prestariam conta? Enquanto a legitimidade de um exército regular é proporcional à de seu governo, as PMCs buscam exclusivamente o lucro.
A ONU é uma das primeiras a atacar essa atividade, embora a eficiência de suas próprias tropas de paz seja questionada no mundo todo. Uma convenção que está a uma assinatura de entrar em vigor põe a atividade das PCMs e dos mercenários fora da lei. Muitos argumentam, entretanto, que se a ONU cuidasse da política e deixasse a parte operacional nas mãos de PMCs, os conflitos em que há intervenção militar do organismo poderiam ser terminados em alguns meses.
Há casos para justificar tanto a defesa quanto o ataque. A firma sul-africana Executive Outcomes (EO) foi acusada de abusos graves em Angola. Na Colômbia, o problema nasce da promiscuidade entre Exército e forças paramilitares, envolvidas até o pescoço em abusos. Há pelo menos uma firma, a americana MPRI, prestando serviços de instrução para o Exército, e o intercâmbio deve aumentar com o início do Plano Colômbia, segundo Robin Kirk, relatora do Human Rights Watch no país. Outras sete firmas similares atuam na Colômbia.
Mas alguns exemplos mostram que as PMCs podem contribuir para a democracia. Um batalhão de 600 homens da EO praticamente terminou a guerra civil que sacudia Serra Leoa em 1997, possibilitando a realização de eleições e a entrada das tropas da ONU. Além disso, o conhecimento militar dessas empresas é útil para garantir a segurança de missões humanitárias e desmontar minas que continuam a aleijar e matar todos os dias na África.
MERCADO DE AÇÕES
As empresas privadas de serviços militares se valem do conhecimento de oficiais da reserva dos melhores Exércitos do mundo em suas atividades. Seus principais serviços são:
INSTRUÇÃO: As empresas empregam militares de primeira linha para ensinar a Exércitos de outros países técnicas especiais como contra-inteligência, táticas antiterrorismo e liderança. Há denúncias de que as técnicas obtidas estão sendo repassadas para milícias paramilitares responsáveis por graves violações de direitos humanos na Colômbia. Países da África e do Leste Europeu também mantêm programas similares, oferecidos geralmente por firmas americanas.
SEGURANÇA: Os clientes geralmente são multinacionais petrolíferas ou mineradoras que operam em locais de conflito. Em alguns casos, a própria presença dessas empresas em áreas consideradas sagradas por povos nativos deflagra o conflito. Já foram registrados incidentes dessa natureza com a Shell na Nigéria e com a British Petroleum na Colômbia.
COMBATE: É a modalidade mais radical de atividade dessas companhias. Utilizam a infraestrutura militar existente e atuam em pequenos grupos que aumentam o poder de fogo de exércitos locais. Atualmente, 12 funcionários de uma companhia trabalham a serviço do governo de Serra Leoa. Em Angola há notícia de graves abusos dos direitos humanos no curso de uma ação deste tipo.
MATANDO PELA PAZ A ÁFRICA
O caso de Serra Leoa mostra como os novos mercenários podem ser úteis para a paz. O país atravessava uma guerra sangrenta desde o início da década de 90. Em certo momento, considerou-se chamar a ONU para conter a onda de crimes bárbaros perpetrada pelos rebeldes da Frente Revolucionária Unida (FRU).
Em 1995, o governo contratou um batalhão de 300 homens da firma sul-africana Executive Outcomes para acabar com o conflito. Por cerca de US$ 2 milhões mensais e trabalhando com o Exército local, ela pacificou o país em pouco mais de um ano. Realizaram-se as primeiras eleições democráticas em décadas, enquanto os rebeldes ficaram acuados numa parte isolada do país. A semanas de uma provável vitória final, a Executive Outcomes foi convidada a deixar o país, em parte devido à pressão internacional. Três anos depois, dez mil pessoas já morreram.
Atualmente, a missão da ONU afirma que precisará de mais de 20 mil soldados para resolver o problema. A um custo de US$ 3 milhões mensais, segundo o professor Doug Brooks. Mais de uma dezena de capacetes azuis da ONU foi tomada como refém pela FRU. O resgate teve de ser feito pelo Exército inglês - e com a colaboração de mercenários.
O episódio mostra falhas no modelo das ações de paz da ONU. Não há uma força constantemente mobilizada e eficiente. Cada vez que uma tropa de paz é necessária, a corrente burocrática de pedidos entre o organismo e vários países do mundo retarda o desembarque, muitas vezes com conseqüências trágicas.
''As PMCs são mais baratas e eficientes. O simples fato de que elas conseguem cumprir as missões de paz já justifica seu uso'', garante Brooks. O especialista, contudo, defende que a a ONU mantenha seu ''papel político'' na resolução de confitos. Uma ação conjunta, afirma, poderia evitar novos genocídios como o de Ruanda, em 1994.
De acordo com dados apurados pelo JB, a Executive Outcomes chegou a ser sondada pela ONU para resolver o problema de Ruanda. Segundo uma análise da empresa, ela poderia armar uma operação em duas semanas e terminar o genocídio em seis. O massacre se estendeu por dois meses, deixando um saldo de um milhão de mortos e 2,3 milhões de refugiados.
3.12.00
Impasse nos EUA pode virar crise
Decisão da Suprema Corte esta semana não é garantia de fim para a maratona de contestações judiciais entre Bush e Gore
(Publicada originalmente no JB)
A indecisão americana acabou nos tribunais e o impasse será decidido com dezenas de recursos, ações judiciais e a lábia de dois times de advogados pagos a peso de ouro. Quem quer que seja o vencedor da disputa pela Casa Branca, será também herdeiro de uma possível crise constitucional e governará durante quatro anos num Congresso dividido ao meio.
''Há a possibilidade de crise se os deputados estaduais republicanos da Flórida optarem por desconsiderar a decisão da Corte e nomearem os delegados que representarão os 25 votos do estado no Colégio Eleitoral com base em seus poderes legislativos'', afirma Bruce Ackerman, professor de direito da Universidade de Yale. ''Se eles insistirem nisso, a crise pode ser realmente séria'', diz ele.
Para que a opção dos deputados republicanos ponha a Constituição em xeque, basta que outros dois fatores coincidam: uma decisão do Supremo da Flórida a favor da recontagem manual no estado e que a recontagem não termine até a data da escolha, 12 de dezembro. Estariam de um lado o poder legislativo (a Câmara) e do outro o judiciário (a Corte da Flórida), ambos amparados pela Constituição, explica John Norton, cientista político da Universidade de Lebanom Valley.
Tropeços - A decisão de aceitar os 25 votos republicanos pode acabar no Congresso, e mesmo lá não estará imune a problemas. Se apenas um membro do Congresso não concordar com a situação, haverá uma votação. Os republicanos têm maioria estreita, e uma decisão a favor de seu candidato arruinaria a representatividade de George Bush, que já não tem a maioria dos votos populares. Se em todo caso o Senado não chegar a uma maioria, caberia ao próprio Al Gore, como vice-presidente, desempatar a questão a seu favor ou de Bush. As implicações institucionais são óbvias. ''Fui chamado para opinar sobre o assunto na Câmara de Deputados da Flórida. Argumentei que seria um gesto altamente ilegal e perigoso. Este é o foco do problema'', garante Ackerman.
Os dois especialistas entrevistados pelo JB discordam, contudo, sobre a importância da decisão da Suprema Corte Federal. ''Se a Corte der ganho de causa a Bush, não haverá recontagem e Gore reconhecerá a derrota dias depois. Se decidir por Gore e houver mesmo uma recontagem onde ele vença, creio que Bush evitará a crise e reconhecerá a derrota'', afirma Ackerman. ''A palavra da Suprema Corte, na terça ou quarta, será o vai-ou-racha da eleição''. Já Norton aposta numa decisão mais modesta. ''Será realmente um veredicto técnico, sobre se a Corte da Flórida poderia ter ordenado a primeira recontagem. Teria influência política e na opinião pública, mas não acho que decida a eleição'', afirma.
Surpresas - De qualquer forma, há dezenas de outras ações, impetradas por eleitores, com uma variedade de alegações - fraude, contagens erradas, discriminação. Elas poderiam surpreender os republicanos a qualquer momento, garante Ackerman.
Nesse cenário de confusão judicial, legal, eleitoral, constitucional, entre outras, o caminho do presidente será provavelmente tão acidentado quanto a estrada que o leva à Casa Branca. Bush teria contra ele um Congresso em que os republicanos têm estreitíssima maioria - um deputado e um senador a mais que os democratas. Quase tudo que Bush fizer terá de ser com o endosso democrata, e não é difícil prever que o presidente republicano será lembrado quando necessário de que não foi eleito com a maioria do voto popular.
Os próximos quatro anos, pertençam a Bush ou Gore, serão marcados por um governo de centro, sem projetos grandiosos e ideológicos, prevê o cientista político Benjamin Barber, da Universidade de Rutgers. ''O recado das urnas é claro: o americano quer alguém que, em última instância, não governe muito.''
A INFLUÊNCIA DAS PEQUENAS CAUSAS
Além das brigas judiciais entre democratas e republicanos, há outros processos, alguns deles abertos por eleitores, que podem virar o jogo a favor do candidato democrata Al Gore.
''O caso de Seminole é sério'', garante o professor Bruce Ackerman. Ele se refere a uma ação impetrada pelos democratas que pretende invalidar 15 mil votos desse condado da Flórida. A alegação é de que os republicanos teriam manipulado vários formulários de voto via correio a seu favor. Se vencerem essa ação, os democratas dão a Al Gore uma vantagem de mais de quatro mil votos, mais do que suficiente para fazer desaparecer a dianteira republicana de apenas 537 votos. ''A questão'', diz Ackerman, ''é se a decisão sai a tempo de influenciar o resultado final.
Pode se juntar à ação de Seminole o recurso de um eleitor do condado de Martin que afirma que cerca de dez mil cédulas continham irregularidades. Os republicanos tentam a todo custo evitar a junção das duas causas, extremamente similares, pois poderia se levantar a suspeita de uma ação orquestrada. Para piorar as coisas, o irmão de Bush, Jeb, é governador do estado.
Mas vem da terra natal de Bush a maior surpresa. Um juiz local decidirá esta semana se retira os 32 votos eleitorais que Bush tem no Texas. A alegação: seu vice, Dick Cheney, viveria no mesmo estado, o que seria proibido pela Constituição.
Cheney, que desde adulto vive e trabalha no Texas, se mudou às pressas para o Wyoming, onde nasceu, para concorrer como vice na chapa de Bush. Se perderem esse processo, os republicanos perdem a eleição.
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Como jornalista
• Repórter internacional no Jornal do Brasil
• Repórter do suplemento literário "Prosa & Verso" em O Globo
• Produtor e co-diretor para a BBC
• Produtor, editor, roteirista e diretor para a rede japonesa NHK
• Colaborador das revistas NoMínimo, Trip, Gatopardo e Piauí e da Folha de São Paulo.
(Os links apontam para matérias, áudios e vídeos dentro do site)
Como cineasta
Dirigiu em parceria com a colombiana Adriana Mariño o longa-metragem Personal Che, um documentário que se afasta completamente da biografia do argentino Ernesto Che Guevara para se aproximar das diversas interpretações que convivem hoje sobre o mito do guerrilheiro. (Veja um trailer aqui).
Na Bolívia, Che merece rezas, é tratado como um santo. É um modelo para criar os filhos, em Cuba. Neonazistas o cultuam, na Alemanha. No Líbano, uma ópera de sucesso foi montada para divulgar sua vida e discutir os caminhos sangrentos do país. O ícone comunista se tornou a bandeira dos que lutam contra o comunismo, em Hong Kong. Finalmente, nos Estados Unidos, há chicanos que o adoram e exilados cubanos que o odeiam.
O filme conta ainda com entrevistas de Jon Lee Anderson, repórter da New Yorker e biógrafo de Guevara, do escritor Christopher Hitchens, do especialista em iconografia política David Kunzle, do gênio criativo italiano Oliviero Toscani, do escritor americano Paul Berman e do biógrafo mexicano e cientista político Jorge Castañeda.
Personal Che estréia em setembro na Premiere Latina do Festival do Rio e segue para circuito comercial no Brasil. Além disso, já foi selecionado para o IFP Market, um festival para compradores de conteúdo audiovisual independente realizado todos os anos em Nova York.
No momento Douglas trabalha em seu primeiro roteiro de ficção, o longa-metragem "Pílula", e inicia as filmagens de dois novos documentários.
Formado em Produção Executiva para Cinema e Televisão pela FGV, Douglas foi selecionado em 2007 para a oficina de roteiros montada todos os anos pelo diretor de audiovisual do Ministério da Cultura, Orlando Senna.
Curriculum Vitae | English
Douglas Duarte
Journalist and filmmaker
15.06.1976
Rio de Janeiro, Brazil
Summary
32 year-old journalist and filmmaker, born in Rio de Janeiro, Brazil. Worked as a reporter for two of his country’s national dailies, Jornal do Brasil and O Globo, and freelances to Folha de São Paulo newspaper and to magazines such as NoMínimo.com, Trip, Piauí and Gatopardo. Worked extensively as a producer, editor, writer and director for Japanese network NHK, the BBC and the United Nations TV. He is the director, together with Colombian filmmaker Adriana Mariño, of Personal Che, a documentary shot in ten countries about the myth of Che Guevara, commercially released in 2008. Journalism and filmmaking have taken him to more than 20 countries in the Americas, Europe, Africa, the Middle East and Asia.
Professional experience
The Pill | screenwriter, producer
Still in pre-production, the script for this science fiction project was one of 12 selected to the prestigious Script Station of the Berlin Film Festival.
Personal Che | director
Director, producer and screenwriter of the feature-length documentary about the many visions of Che Guevara's myth. Filmed in 10 countries in three continents, the film was selected to festivals in Brazil, Colombia, Mexico, US and Europe, and was commercially released in Brazil to critical acclain. (www.personalche.com)
Folha de São Paulo | freelancer
As a correspondent based in Mexico City (www.folha.com.br)
Piauí | freelancer
Fortnight collaborator of the biggest narrative journalism magazine in Brazil (www.revistapiaui.com.br).
Gatopardo | freelancer
Stories to the most awarded New Journalism magazine of the Spanish-speaking world (www.gatopardo.com).
O Globo | 2005-2006
Reporter and assistant editor of the weekly literary suplement Prosa e Verso (oglobo.globo.com/blogs/prosa), in charge of reports, reviews and articles about the Brazilian and international writing world. Fortnight stories for the International section. Reviews about authors as Sydney Sheldon, Patrick Wilken, Paulo Coelho, Michael Herr and Osama bin Laden.
Trip | freelancer
Freelance reporter for one of the most awarded magazines in Brazil for culture, style, adventure and traveling (www.revistatrip.com.br).
NoMínimo.com | freelancer
Fortnight reports for the website of journalism and comment. Interviewed and profiled Bolivian president Evo Morales, among other stories.
NHK | 2003-2005
Producer of around a hundred stories for the Latin American bureau of the Japanese TV network (www.nhk.or.jp/english). Produced and directed reports in Argentina, Paraguay, Bolivia, Brasil, Chile, Perú, Venezuela, México and Haití. Personal interviews with presidents Hugo Chávez, Ricardo Lagos and Luis Inácio “Lula” da Silva.
BBC | 2004
Producer of the special series Brazil Now with correspondent Nick Ravenscroft (news.bbc.co.uk). Stories ranged from the Zero Hunger social program to the steel market and issues like drug trafficking, violence and social inequality in the country.
Jornal do Brasil | 2000-2002
Reporter and assistant editor of the foreign desk (www.jb.com.br), specialized in strategy, Middle East and Latin america. Covered presidential elections in Germany and Poland, helped coordinate the coverage of the September 11th attacks and was sent to Jordan, Syria and Lebanon right before the invasion of Irak, 2002.
Academic experience
Screenwriting | 2009
Selected to the prestigious Script Station of the Berlin Film Festival's Talent Campus, with the first draft of the sci-fi script titled "The Pill".
Screenwriting | 2007
One of the selected for the Screenwriting workshop headed by Orlando Senna – teacher at the Escuela de Nuevo Cine Latinoamericano (Cuba), partner of Gabriel García Márquez in Oedipus Mayor and director of Brazilian classics such as Iracema, uma transa amazônica.
Executive production for TV and Film | 2004
MBA by Fundação Getúlio Vargas (www.fgv.br) in direction, production and legal framework for support of cinema in Brazil and Latin America.
Journalism | 1998
Graduated in 1998 at Faculdades Integradas Helio Alonso, Rio de Janeiro (www.facha.edu.br).
Trainee | 1996-1999
At Veredas, now defunct magazine for the Bank of Brazil Cultural Centre (www.bb.com.br/cultura), and at the international communication department of Brazilian state oil company Petrobras (www.petrobras.com).
Languages
Native Portuguese
Fluent English, Brazil-US Institute, Rio de Janeiro
Advanced Spanish, Cervantes Institute, Rio de Janeiro
Computers
Macintosh/Windows, Microsoft Office, Photoshop, Final Cut Pro.
www.douglasdm.com.br
douglasdm@gmail.com
douglas.duarte (skype)
55 21 2205 1795 (home)
55 21 8858 1795 (cell)
Curriculum Vitae | Español
Douglas Duarte
Periodista y documentalista
15.06.1976
Rio de Janeiro, Brasil
Resumen
Periodista y documentalista, tiene 32 años y nació en Rio de Janeiro, Brasil. Trabajó como reportero para los diarios nacionales Jornal do Brasil, O Globo y es colaborador de la Folha de São Paulo y de las revistas NoMínimo, Trip, Piauí y Gatopardo en las áreas de internacionales, política, literatura y viajes. Como productor, editor, guionista y director, trabajó extensivamente con la cadena japonesa NHK, la BBC y la Televisión de Naciones Unidas. Es director, junto a la directora colombiana Adriana Mariño, de Personal Che, un documental filmado en diez países acerca de la leyenda de Che Guevara, con estreno en 2007. El periodismo y los documentales ya lo llevaron a más de 20 países en las Américas, Europa, África, Medio Oriente y Asia.
Experiencia Profesional
La Píldora | guionista, director
El guión de ese proyecto, todavía en pre-producción, fue uno de los 12 selecionados para el prestigioso Script Station del Festival de Berlin.
Personal Che | director
Dirección, producción y guión del documental de largo metraje acerca de las varias visiones acerca del mito de Ernesto Che Guevara. La película, gramada en diez países, estuve en festivales en Brasil, Colombia, Mexico, EEUU y Europa, y estrenó comercialmente en los cines brasileños con exito de critica.
Folha de São Paulo | freelancer
Corresponsalía desde México para el periódico brasileño (www.folha.com.br)
Gatopardo | freelancer
Artículos para la principal revista (www.gatopardo.com) de crónicas de habla hispana.
Piauí | freelancer
Reportero de la mejor revista (www.revistapiaui.com.br) de periodismo narrativo de Brasil.
O Globo | 2005-2006
Reportero y editor adjunto del suplemento literario semanal Prosa e Verso (oglobo.globo.com/blogs/prosa) responsable por reportajes, reseñas de libros y comentarios acerca del mercado editorial brasileño y internacional. Colaboraciones esporádicas con la sesión de internacionales. Entre los autores, Sydney Sheldon, Patrick Wilken, Paulo Coelho, Michael Herr y Osama bin Laden.
Trip | freelancer
Colaborador de una de las más premiadas revistas (www.revistatrip.com.br) de cultura, aventura y viajes de Brasil en reportajes internacionales.
NoMínimo.com | freelancer
Colaborador en temas internacionales del sitio brasileño de análisis y periodismo. Entrevistó y perfiló el ya electo presidente de Bolivia, Evo Morales, entre otras misiones.
NHK | 2003-2005
Productor de casi un centenar de reportajes para la oficina latina de la cadena japonesa de televisión (www.nhk.or.jp/english). Producción y dirección de reportajes en Argentina, Paraguay, Bolivia, Brasil, Chile, Perú, Venezuela, México y Haití. Entrevistas personales con los presidentes Hugo Chávez, Ricardo Lagos y Luis Inácio “Lula” da Silva.
BBC | 2004
Productor de la serie de reportajes Brazil Now con el enviado especial Nick Ravenscroft (news.bbc.co.uk). Los temas incluyeran una evaluación del programa Hambre Cero, análisis acerca de la siderurgia nacional y temas sociales como el trafico de drogas, la violencia y las desigualdades sociales del país.
Jornal do Brasil | 2000-2002
Reportero y editor adjunto de la sesión de internacionales (www.jb.com.br) especializado en temas de estrategia, Medio Oriente y América Latina. Siguió elecciones presidenciales en Alemania y Polonia, fue uno de los jefes de la cobertura de los atentados de 11 de septiembre y enviado a Jordania, Siria y Líbano en los meses anteriores a la invasión de Irak.
Experiencia académica
Guión | 2009
Selecionado para el prestigioso Script Station del Talent Campus del Festival de Berlin con el primer tratamiento del guión de ciencia ficción "La píldora".
Guión | 2007
Fue uno de los seleccionados para el workshop de guión de Orlando Senna, profesor de la Escuela de Nuevo Cine Latinoamericano (Cuba), colaborador de Gabriel García Márquez y director de clásicos del cine brasileño como Iracema, uma transa amazônica.
Producción Ejecutiva en Cinema y Televisión | 2004
MBA por la Fundação Getúlio Vargas (www.fgv.br) en dirección, producción y marco legal de apoyo al cine en Brasil y América Latina.
Periodismo | 1998
Graduado en 1998 en las Faculdades Integradas Helio Alonso, Rio de Janeiro (www.facha.edu.br).
Trainee | 1996-1999
En Veredas, extinta revista del Centro Cultural Banco do Brasil (www.bb.com.br/cultura) y en la área de comunicación internacional de la estatal brasileña Petrobras (www.petrobras.com).
Idiomas
Portugués nativo
Ingles fluyente, Instituto Brasil-Estados Unidos, Rio de Janeiro
Español avanzado, Instituto Cervantes, Rio de Janeiro
Computación
Macintosh/Windows, Microsoft Office, Photoshop, Final Cut Pro
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douglasdm@gmail.com
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