O Youtube finalmente abriu sua seção de documentários. Provavelmente o movimento em direção de conteúdo profissional é um aceno para os anunciantes que realmente podem bancar os altos custos do site, mas fogem do último tombo do vizinho filmado no celular. Tem diversas coisas bacanas, especialmente do Herzog: Little Dieter needs to fly, Meu melhor inimigo, o impressionante Lessons of darkness, enquanto que de ficção há Kaspar Hauser, Aguirre, Fitzcarraldo e outras coisas muito finas. Mas não para por aí: fuçando encontrei coisas boas como A revolução dos bichos, do Orwell, Abre tus ojos, do Amenábar (infelizmente bloqueada para o Brasil) e um desconhecido Do you like Hitchcock, dirigida por ninguém menos que Dario Argento. O Youtube até pergunta se você tem certeza de quer ver.
Se tiver, é só dar play aí em cima.
21.4.09
Ache uma poltrona
17.4.09
No Rio e em Mineápolis

Boas notícias: Personal Che está de volta às telas do Rio depois de alguns vôos rasantes nas últimas semanas – uma sessão MovieMobz e a presença nas retrospectivas de melhores de 2008 da CPLP e, agora, do CineSesc. O filme vai ficar a partir de hoje até quinta que vem em um só horário no Cine Glória (que aliás tem uma ótima programação que você pode conferir aqui). É a chance para quem não viu.
Além de visitar as praças já conhecidas, o filme chega também a mais um festival nos Estados Unidos: o de Minneapolis-Saint Paul. O filme passa nos dias 23 e 27, para quem estiver de passagem, e os horários estão aqui.
16.4.09
Che bailante!
Isso eu não sei, mas sei que um musical sobre a vida do Che já foi encenado com orquestra, dezenas de bailarinos e explosões há três anos – e no Líbano!
Atualização: a BBC pôs em seu site um vídeo do musical.
12.4.09
Ebenezer Obey e seus amigos
Meu bom amigo DJ/sound designer/músico/produtor Ricardo Cutz tinha me passado o link para o Awesome Tapes from Africa há um bom tempo, mas nunca tinha mergulhado. O link ficou numa gaveta perdida. Ontem dei de cara com ele de novo numa matéria da Folha sobre música africana. Voltei e gamei: site pra baixar loucamente milhares de fitas K7 safadas da melhor qualidade, garimpadas por um americano malucão e apresentadas (às vezes) com comentários bastante elucidativos.
Quase nada de folclore aqui: hiphop de várias partes, juju music, high life, música gnawa do Marrocos (pra quem gosta de samba) e muito rock e blues do Mali – o país com a melhor produção dos dois gêneros, hoje, na minha modesta opinião. E você ainda leva de brinde capas com figuraças como Ebenezer Obey. Tem erro?
5.4.09
Che no Rio
Chegando tarde ao blog, mas já devidamente anunciado alhures: hoje, domingo, cinco de abril, tem sessão de Personal Che às 8:30 da noite no Cine Odeon BR, Cinelândia, Rio de Janeiro. A sessão foi mobilizada através do site MovieMobz.com. Achei tão legal que apareço lá pra conversar com quem quiser saber mais coisas do filme.
A foto vai em homenagem ao Long Hair, que acabou de fazer aniversário quase indo (de novo) em cana por conta dos seus protestos contra a China.
28.3.09
25.3.09
Fornicando
View Larger Map
Tirem as crianças da sala que o post é para maiores.
O que o digno leitor vê aí acima é nada mais, nada menos que um mapa de alguns bordéis em funcionamento no Rio de Janeiro... de uns cem anos atrás. Além disso, aparecem em azul algumas ruas particularmente suculentas, tais como registradas na crônica policial de então e compiladas atentamente pela pesquisadora Lena Medeiros de Menezes em seu Os estrangeiros e o comércio do prazer nas ruas do Rio (1890-1930). Não é nada científico – faltam diversos bordéis, por certo, a posição de sua numeração na rua pode ter mudado com os anos e sequer incluí ruas em que não consegui descobrir o nome novo.
Ainda assim, é um mapa onde ficamos sabendo que a Grampeadores e Grampos, na Luís de Camões 112, já fez coisa muito mais interessante e que a Termas Rio Antigo faz jus ao nome: há venda de pecado lá desde ao menos 1920 e poucos. A cidade subitamente ganha um ar mais licensioso.
Para quem estranhar as menções também a cemitérios, sinagogas e etc, vai a explicação: o mapa faz parte de uma pesquisa que faço para a documentarista argentina Gabriela Bohm, que vem ao Brasil em breve para as primeiras filmagens do seu Garotas da noite, filme sobre o aliciamento de judias do Leste Europeu por uma tentacular gangue de cafetões judeus a partir da virada para o século 20. Em certo momento, a Zvi Migdal chegou a administrar 3.000 bordéis no Rio, Buenos Aires, Nova York e outras capitais do mundo. As polacas criaram associações religiosas e funerárias próprias e deixaram rastros na criação de artistas tão díspares quanto Lasar Segall, Stefan Zweig e Moreira da Silva. Em breve mais.
13.3.09
Mais uma chance
Quem tiver perdido Personal Che nos cinemas tem mais uma chance de ver o filme na próxima semana em São Paulo. Ele integra a pequena Retrospectiva Doc 2008 que a CPFL organiza na capital paulista e também em Campinas. A curadoria de Amir Labaki garantiu ótima companhia: Pan Cinema Permanente, de Carlos Nader, O advogado do terror, de Barbet Schroeder, Joy Division, de Gant Gee, O tempo e o lugar, do mestre Eduardo Escorel, entre muitos e bons outros. Labaki fala um pouco da retrospectiva na sua coluna. Às datas:
• Quarta 18, no Reserva Cultural (Av. Paulista, 900)
• Sexta 20, no CPFL Cultura de Campinas (Rua Jorge Figueiredo Corrêa, 1932)
A mostra continua na semana seguinte, com filmes de ficção que ficaram pouco tempo em cartaz. Injustamente, diga-se: há pérolas como Encarnação do demônio, de José Mojica Marins, Falsa Loura, do Carlão Reichenbach, e o acachapante Serras da desordem, de Andrea Tonacci. A agenda completa está aqui.
Em breve, aqui no blog, notícias televisivas de Personal Che.
1.3.09
Ressuscitando

O blog volta das cinzas do olvido, tal como fênix, tal como Che Guevara, redivivo quando se precisa!
Sai hoje no O Povo, do Ceará, reportagem sobre Che por conta do lançamento próximo do filme duplo de Steven Sodererbergh sobre o guerrilheiro. Fui convocado pelo repórter Henrique Araújo a palpitar sobre o filme e quem é, afinal, esse argentino que Benício del Toro encarna.
O resultado está aqui.
27.1.09
Desencavando
O blog anda meio parado por conta da loucura de aprontar meu roteiro para o Festival de Berlim (mais detalhes em breve), então aproveito a aprovação da Constituição Moraleista na Bolívia esse domingo para desencavar uma conversa que tive com Morales dias antes da eleição que o consagrou como presidente.
É sempre bom lembrar que ele prometeu confusão desde o início. Cumpriu sua palavra.
"Evo Morales está de tênis, jaqueta pesada de couro e o topo de sua cabeça é um formidável capacete de cabelo índio muito negro. Parece um pouco tenso. Fala baixo ao celular meio remendado olhando pela janela da sacada os muitos repórteres que o esperam no saguão do hotel e, por cima do próprio ombro, uns poucos que estão mais perto, apenas alguns degraus abaixo."O resto – inclusive um entrevero com o entonces casi flamante líder boliviano – você lê aqui.
12.1.09
فلسطين
Já se vão sete anos da época em que trabalhava no JB e cobria, principalmente, Oriente Médio. Uma das matérias de que mais me orgulho saiu pequena, contava com poucas fontes, fontes de um lado só, e não falava de nada especialmente importante politicamente. Era sobre o cerco israelense a Ramala, cidade mais importante da Cisjordânia.
Apesar de achar o título melodramático (o meu era outro) ainda teria orgulho de escrever essa matéria hoje. O grande problema é que o mundo conseguiu torná-la obsoleta: morreu comparativamente pouca gente nessa ocasião. A matéria, salvo engano, não noticia mortes, mas uma agoniada espera.
Em 2002, fez-se um grande escândalo sobre um massacre ocorrido na cidade palestina de Jenin, na Cisjordânia. Em seguida, formou-se outro escândalo quando se descobriu que o massacre não tinha sido tão grande. O primeiro movimento foi dizer que o Exército israelense exagerou na resposta. O segundo, dizer que a imprensa exagerou na reação.
Pois bem: desde o início da ofensiva a Gaza já morreram, comprovadamente, mais do dobro de palestinos mortos nos rumores que davam conta de Jenin. A realidade suplantou um exagero espetacular.
É difícil pensar que não estamos nos acostumando a isso.
7.1.09
Ajude-me a matar (uma personagem)
Sim, é mórbido. Sim, é humor negro tão poucos dias depois do Ano Novo com todo mundo de branco. Que fazer? Meu protagonista precisa assassinar várias pessoas e minha cabeça está longe de ser criativa para tal tarefa. Portanto... alguém se habilita a fazer sugestões nos comentários desse post?
Serve qualquer morte, desde que seja criativa e não pareça natural: cordas, tiros, facas, etc são muito fáceis, mande apenas se achar a idéia MUITO boa. Para uma idéia, minhas últimas duas da lista são com um estouro de cavalos e pelo ataque de abutres.
Tente não plagiar mortes de personagens da ficção. Tente fazer mortes baratas. Mortes executáveis por um homem só. Mortes de época não valem. Mortes divertidas são benvindas.
As melhores sugestões vão para o roteiro. Se tudo der certo, esse roteiro vira um filme. E, nesse filme, garanto seu nome nos créditos.
2.1.09
Ideias em tiras
Pouca gente ainda tem dúvida de que histórias em quadrinhos podem ser arte. Estão aí Frank Miller e Will Eisner que não me deixam mentir (bom, Eisner já não está, infelizmente, mas você entende...) Mas para mim mesmo ainda não era claro o quanto os quadrinistas especializados em tirinhas andam ambiciosos. Quem sabe esqueci do Little Nemo, sei lá, mas era só falta de enunciar mesmo, porque na prática a sessão de tiras da Folha já é a que recebe minhas visitas com mais frequência. Hoje, por exemplo, achei os quatro quadradinhos do Caco Galhardo o que de mais apropriado se pode dizer desses dias:
Mas é o Angeli quem fez o mais bonito, o mais cabeça, o que merece mais tempo – embora não exija – para ser (ai, ai, ai) fruído.
O roteiro parece não ser nada demais. Mas o uso da cor lança o sentido para o alto, muito alto. "Roteiro"? "Uso da cor"? Sim, sim, é de arte que se fala.
PS: Esse post (acho), seguiu as normas do novo acordo ortográfico da língua portuguesa. Mas não se acostume :-)
19.12.08
Posso adiantar os foguetes?
Dia de festa por aqui, caríssimo leitor.
Personal Che foi selecionado pelos críticos de O Globo como um dos dez melhores filmes brasileiros do ano! Entrou num grupo fortíssimo de docs: os únicos dois outros não-ficcionais do ranking são Juízo, da multipremiada Maria Augista Ramos, e Serras da desordem, de Andrea Tonacci – que é simplesmente uma obra-prima. Os melhores do ano agora estão sendo votados pelo público nesse link. O que dizer? Gracias, gracias y más gracias.
Além dessa ótima notícia, soube hoje que o roteiro de meu próximo filme, A pílula, foi um dos selecionados entre 3800 projetos do mundo todo para o Talent Campus do Festival de Berlim. O projeto vai ter o prazer de apanhar muito na mão de diversos especialistas europeus. Em outros anos, o Campus teve como mestres gente como Stephen Frears, Walter Salles, Mike Leigh, Walter Murch, Christopher Doyle, Win Wenders, Amos Gitai, Michel Gondry, Fernando Eimbcke...
Em resumo, o Natal chegou antes. E olha que eu não gosto de Natal.
17.12.08
Personal Che em Londres
Estamos orgulhosíssimos: acabamos de saber que o filme fará parte da série "Cuba aos 50" do melhor clube de correspondentes do mundo, o Frontline Club, de Londres. Para quem estiver na terra da chuva, a sessão vai ser na sexta-feira, dia 9 de janeiro. Mais detalhes no site do Frontline. Infelizmente não vou poder comparecer de corpo presente, mas há o grande risco de me materializar via skype pra conversar com os presentes.
10.12.08
O renascentista de Miraflores
O nariz de Fidel é um problema
(Publicada originalmente na Piauí 27)
O venezuelano Armando Julio Reverón foi um dos principais pintores modernistas de sua época. Seu compatriota Jesús-Rafael Soto, falecido em 2005, ficou notório pelo legado de obras cinéticas. O caraquenho Carlos Cruz-Diez já teve suas peças expostas no MoMA, na Tate Modern e no Centre Georges Pompidou, três templos da arte contemporânea. É considerado hoje um dos maiores artistas plásticos vivos da América Latina.
Mas o quadro mais caro a ir a leilão na Venezuela não foi assinado por nenhum deles, e sim por um diletante, famoso por outras façanhas que não as pictóricas: Hugo Rafael Chávez Frias, apresentador televisivo de verve, cantor bissexto, militar condecorado e presidente em tempo integral da República Bolivariana.
La Luna de Yare foi vendida em setembro a três empresários venezuelanos. Os 550 mil bolívares fortes (cerca de 480 mil reais) desembolsados caíram direto nos cofres do Partido Socialista Unido da Venezuela, empenhado em mais uma campanha. As eleições regionais - que muitos encaram como um novo plebiscito sobre Chávez - ocorreram na segunda quinzena de novembro.
A tela, de 50 centímetros de base por 60 de altura, fez parte do jogo político desde sua criação: foi pintada em 1993, enquanto Chávez esteve preso na Penitenciária de Yare, após um fracassado golpe contra o presidente Carlos Andrés Pérez. Reproduzindo a paisagem gradeada vista de sua cela, o artista pintou um céu negro, uma lua alaranjada, uma guarita de vigilância e dois postes acesos, cada um com sua nuvem de cupins. Embaixo da janela, colocou uma frase do filósofo grego Sexto Empírico, não se sabe se rabiscada na parede original ou se acrescentada apenas na tela: "O moinho dos deuses... mói lento!" A frase está pela metade, parecendo manifestar pouco mais que tédio. O verdadeiro sentido vem à tona quando se conhece a outra parte: "Mas mói muito fino." É a perfeita expressão de um homem que sabia ter perdido a batalha, mas não a guerra.
Quando a notícia do leilão se espalhou, a intelligentsia local se retorceu em cólicas estéticas. "Não exibiria o quadro no meu museu porque só exponho obras criadas por artistas. E para a minha coleção pessoal não quero isso nem se me for dado", disse um iracundo Ali Cordero Casal, presidente do prestigioso Museo de Arte Acarigua-Araure. Noves fora as ressalvas às grades ("nota-se certo esforço", ajuizou mais de um), a maioria fez coro com o artista Ricardo Benaim, que cunhou o termo "cagante" especialmente para descrever a obra. "Chávez é nosso melhor artista conceitual. Se em vez da presidência se dedicasse a fazer performances do que é ser um chefe de Estado, seria convidado para todas as mostras." Pela pintura? "Pagaria trinta contos." Parecia não haver mais caldo a entornar quando o maior crítico de arte do país, Perán Erminy, levantou suspeitas sobre a autoria da obra. Por pior que fosse o quadro, disse, ainda era muito melhor que tudo já feito pelo suposto autor: "Não corresponde em nada à maneira dele pintar. As grades, por exemplo, estão bem feitas, em linha reta, espaçadas com regularidade. Tudo que Chávez desenha fica torto. É uma coisa quase patológica."
Erminy fala com propriedade. Foi o primeiro - e até onde se sabe, único - curador a montar uma exposição do Chávez pintor, no Museo Salvador Valero, quando ele ainda estava preso. "Eu preparava uma coletiva de artistas populares quando seu pai apareceu com três quadros. Pedi mais alguns para fazer uma individual - me pareceu curioso que um militar golpista tivesse pendores artísticos." Hoje, justifica sua escolha com o seguinte argumento estético: "A qualidade era muito baixa. Tão baixa que chegava a ser interessante."
Mas, se não foi Chávez, quem, então, cometeu La Luna de Yare?
O nome salta da língua de Erminy com a rapidez da certeza: Efraín "Chepín" Lopez, pintor militar de 72 anos especializado em cenas históricas. Segundo o crítico, quando Chávez foi eleito e mudou-se para o Palácio Miraflores, encontrou-o pintando telas oficiais num pequeno estúdio. Com o tempo, Chepín teria se tornado seu amigo e preceptor. "Ele se impacientava porque Chávez não seguia suas instruções, e acabava pedindo os quadros para terminá-los. Contente de ver suas obras aperfeiçoadas, Chávez contribuía com sua assinatura." Erminy diz que o guerrilheiro que expôs no começo dos anos 90 seria incapaz de manejar luz e profundidade da maneira que se vê na tela.
Chepín tem uma versão diferente. "Conheci Chávez há 33 anos, na Escola de Infantaria e Blindados, onde nasceu nossa grande amizade. Às vezes, fazíamos juntos murais em quartéis e coisas assim. Nessa época ele estava iniciando sua formação histórica, filosófica, moral e espiritual. É um ser especial, um coração bondoso." Sim, mas e o quadro? "Pois é, houve esse crítico que disse que La Luna de Yare seria minha. Não, nunca. Isso é sagrado. O que faço para o presidente é limpar seus pincéis, deixar tudo arrumado no estúdio e dar alguns conselhos." Ele cita um exemplo: "Outro dia, Chávez me acordou no meio da noite para pedir ajuda com um retrato que está pintando de Fidel. Está tendo problemas com o nariz." Chepín garante que, desde as primeiras aulas, o exguerrilheiro tem todas as ferramentas para fazer um quadro nos moldes de La Luna. "As linhas, os círculos, os triângulos, tudo, tudo, tudo."
Influências e estilo do mandatário são outro tema controverso. "É um pintor quase autodidata, popular. Muito espontâneo. Lê muito, muitos livros de pintura, de arte, mas faz sua própria pintura, uma pintura cheia de poesia. Ele é um poeta ingênuo, de muita pureza", afirma Chepín. O crítico de arte Erminy tem opinião mais cética: "Influências? Não sei se existe alguma", contesta. "Não é como se ele quisesse fazer algo expressionista ou distorcido. Sai assim involuntariamente. A única coisa que consigo imaginar como influência de Chávez são uns calendários com fotos de chalezinhos suíços muito populares nos vilarejos do interior. Os oito ou nove óleos da mostra que organizei mostravam esse tipo de paisagem."
Vitupérios ditos e desmentidos expostos, parecia que a polêmica seria tão renhida quanto curta. Foi quando se soube que o preço recorde sequer havia sido pago por um trabalho original: o que estava dentro da moldura vendida aos três empresários era uma cópia fotográfica. Segundo Erminy, "dessas feitas com máquina xérox colorida". E sequer era a primeira cópia, dada há um ano para o líder cubano Fidel Castro (é razoável supor que ainda adorne seus aposentos em Havana).
A tela original, feita por quem quer que seja, fora vendida dez anos antes ao petro-empresário venezuelano Rafael Tudela, pelo equivalente a 2 mil reais, num leilão para financiar a campanha da primeira eleição de Chávez. A se tomar pelo valor atingido uma década depois, o quadro valorizou 240 vezes, ou 12 000%. Em tempos de nova instabilidade petrolífera, a Venezuela já tem sua salvação.
8.12.08
O homem elefante
Elefante que se preza ouve Bob Dylan
(Publicada originalmente na Piauí 27)
À meia-noite de 23 de setembro, uma elefanta chamada Hildra fugiu do Gran Circo Unión, nos arredores da Cidade do México. Tudo aconteceu muito rápido: junto com dois outros paquidermes, ela havia sido liberada para tomar água; na volta, um gato preto passou-lhe entre as patas. Assustada, Hildra se descontrolou, arrebentou um portão de metal e ganhou a rodovia México-Pachuca. Correu por alguns quilômetros até alcançar a via expressa que levava a Teotihuacán. Ao atravessar na contramão a cancela número três do pedágio, viu crescerem os faróis do ônibus conduzido por Tomás López Durán. O veículo se chocou contra as 4 toneladas e meia do animal, encerrando ali a história de ambos.
Uma hora e meia depois, apitou um alerta no computador de Dan Koehl, em Estocolmo. Aos 49 anos, ele comanda de um laptop em sua cozinha o site www.elephant.se, maior base de dados sobre elefantes no mundo. Através de uma comunidade chamada Elephant Gossip [Fofoca de Elefante], Koehl recebe dicas de quase trinta informantes regulares - estudiosos e tratadores dos Estados Unidos, Sri Lanka, Tailândia e da Europa. Foi assim que, pouco tempo após a publicação do óbito por uma agência de notícias, Koehl já acrescera ao fato as informações de que Hildra nascera numa selva da Índia, 45 anos antes, e que, provavelmente, fora comprada de algum circo americano. br /> br /> O site, com poucas imagens, tem um design tão delicado quanto a pele de um paquiderme. Não rende um centavo, mas é atualizado cerca de vinte vezes por semana. É nele que Koehl monitora os mais de 4 mil elefantes de 98 países dos quais tem conhecimento, noticiando nascimentos (como o de Samudra, nos Estados Unidos), óbitos (Suwako, no Japão), transferências (Raisa, enviada do Rio de Janeiro para Sorocaba), tramitação de leis (nova reserva para os animais na Índia) e ameaças (60 elefantes selvagens mortos no Sri Lanka em 2008). Além disso, o site ainda conta com tratados históricos, estudos sobre o comportamento da manada e detalhadas instruções relativas à saúde do animal, com dicas que vão do pH ideal da água à forma correta de lhes cortar a unha. É uma Bíblia em tempo real para quem lida ou gosta dos bichos, algo entre o New York Times e a Wikipedia da elefantografia. O responsável pela obra assina seus e-mails como "Dan Koehl, enciclopédia de elefantes".
A paixão zoológica de Koehl surgiu aos 17 anos, quando, numa visita de quatro meses ao Sri Lanka, conheceu os mahouts, homens que dedicam suas vidas ao simpático animal. No retorno à casa, o encanto virou trabalho sério: hoje, além de prestar consultoria a instituições européias, parques zimbabuenses e orfanatos de animais na Tailândia, é ele quem trata a pão-de-ló os três elefantes do rei Carl Gustaf da Suécia. Nesses últimos trinta anos, Koehl passou mais tempo ao lado de elefantes que de homens. Conhece profundamente o comportamento do bicho, segundo ele, de inteligência comparável à de cetáceos (baleias, botos e golfinhos) e grandes primatas (chipanzés, bonobos, orangotangos, gorilas e humanos - mas não todos). "Na verdade, a variação dentro desses grupos é maior que a variação entre esses grupos, o que equivale a dizer que um elefante brilhante pode ser muito mais inteligente que uma pessoa burra", ensina. Uma prova rápida é dada quando Koehl pede a seus pupilos que trombeteiem. "Sawadee!", vocifera, a que Sao Noi (Menininha) e Kuo (Flor de lótus) prontamente respondem, soando como dez Miles Davis sem partitura. Saudar na língua-mãe - os dois foram um presente do governo tailandês, em cuja língua sawadee é algo como "e aí?" - é um sinal de deferência de Koehl, já que a maior parte da comunicação entre humanos e elefantes se dá num dialeto que mistura o cingalês, o alemão e o inglês, fruto do último século e meio de relações entre as duas espécies. O Ceilão, hoje Sri Lanka, foi um dos lugares onde o alemão Carl Hagenbeck, o maior mercador de animais selvagens do século XIX, capturou mais exemplares para seu plantel. O que o alemão foi para o tráfico, o americano P. T. Barnum foi para o circo, explicando a porção anglófona do léxico elefantino. Koehl diz, contudo, que o dialeto é flexível feito tromba. "Eles aprendem comandos e línguas rapidamente."
Avesso ao ambientalismo politicamente correto, o tratador desdenha do discurso anticirco de grupos de defesa dos animais, lamentando que alguns estados no Brasil tenham proibido os paquidermes em espetáculos. "As pessoas não sabem que, em certas partes da Ásia, elefantes são animais tão domésticos quanto cães e cavalos. Para mim, o ideal seria que espécimes fora da natureza dividissem seu tempo entre zoológicos e circos onde fossem bem tratados. Só zoológico os deixa deprimidos, reumáticos, flácidos. Já o circo é um bom workout, e incita o contato com humanos. Precisam das duas coisas."
Para ilustrar, ele cita o caso do terceiro elefante real - Saba, uma quarentona vinda do zoológico de Dompierre-sur-Besbre, na França. "Lá, ela vivia com outra elefanta em regime de separação absoluta dos humanos, sendo alimentada e lavada através de uma grade. Mas o caso é que Saba não tem a menor paciência para elefantes e adora gente. Resultado: estava entediadíssima quando chegou." Koehl diz que nos bosques de sua majestade, a amiga tem espaço para passear e interagir com animais de outras espécies. Garante, inclusive, que ela gosta de música, com especial predileção pelo pop americano dos anos 60. "Como eu sei? Bom, se um bicho de 4 toneladas sai de onde está e pára do meu lado balançando a tromba quando eu canto Wooden Heart, do Elvis, ou Tomorrow Is a Long Time, do Bob Dylan, acho que é porque está se divertindo. Herbívoros encaram o silêncio como sinal de que há predadores por perto, sabe?" Para que nenhum elefante em cativeiro tenha que lidar com o angustiante ruído da solidão, Koehl tem empenhado grande parte do seu tempo nos últimos meses em um projeto de âmbito global: uma rede telefônica sem fronteiras, conectando animais de diferentes zoológicos. Ele explica que elefantes usam infra-sons para se comunicarem a grandes distâncias na natureza. O ruído dá conta de quem está falando, inclusive. "Por isso pensei: e se instalarmos microfones e alto-falantes em dois lugares diferentes para que eles se comuniquem? Veja o caso da Saba: ela está muito bem aqui, mas soube que a elefanta que ficou para trás andava triste, pensativa. Imagine: você vive com alguém por anos e de repente essa pessoa desaparece. Não seria genial que elas pudessem se falar de novo, dizer 'está tudo em ordem, pode ficar tranqüila' e tocar a vida adiante?"
O projeto experimental começa este mês com os elefantes do Zoológico de Colônia, na Alemanha. Para evitar qualquer desentendimento na conversa - a despeito do poliglotismo dos bichos -, Koehl preferiu que todos os elefantes nessa fase inicial fossem de origem asiática.
6.12.08
3.12.08
Algumas coisas aprendidas ou não
Tiros podem não doer se você estiver bem vestido. Esquilos comem nozes, mas também laranjas. Os de pelo preto parecem urubus. Nenhum parece um rato. Todos os policiais mexicanos têm esplêndidos uniformes. Nenhum tem bom caimento, mas penso que é por conta de carnes sobrando. Metade não é confiável, segundo o presidente do país. Políticos pegam aviões para morrer no meio da cidade. Traficantes preferem tiros. Mas também cortam cabeças. Elefantes preferem a estrada e bater de frente com um ônibus. Suecos gostam de elefantes. Ao menos um sueco. Chávez gosta de pintar. E o faz mal. Se é que faz. México, cactos, desertos, sombreros para aguentar o calor. Faz um frio enorme no México. Neva, dizem, mas eu não vi. Em várias cidades só há mulheres, crianças e velhos. Não houve guerra, mas uma espécie de conquista. Por pior que o país vizinho vá, é melhor que aqui. "Longe de Deus, perto dos EUA", disse um. Mexicanos são ruins de teatro (os que eu conheço). O melhor que vi era dirigido por um americano filho de judeus russos que fala pouco espanhol. A música é bruta, esporrenta em todos os sentidos, ou seja: de mau gosto, alegre. Andam muito de carro, até para chegar até a quadra seguinte. As mulheres se maquiam. Muito, em qualquer lugar. Para esperar o metrô, que não demora, senta-se no chão. Há uma fábrica estatal especializada em mastros e bandeiras monumentais. Há muitas pela cidade. No dia da Independência é carnaval. Há muito lixo nas ruas e poucas lixeiras. Há muitas cabeças cortadas, mas quase todas são de traficantes, assim todos continuam continuando. Lê-se jornais: La Jornada para os de esquerda, La Prensa para os qualqueres, Universal pra quem sabe dar descontos, os outros pros que têm bom gosto e melhor bolso. Em Polanco não é México. Em Índios Verdes acaba a linha verde do metrô e realmente há índios verdes. Ao menos dois, dizem. Eu não sei, e não me pareceu importante, já que só são dois em vinte milhões. Sinaliza-se a ré para um amigo com pancadinhas contínuas. Pára-se quando se quer que pare-se o carro. Sorvetes são bons e todos de Michoacán. Grilos são de Oaxaca (diga Oahaca ou te corrigem). Dizem que são bons, mais limpos que camarão. Qual será a graça deles, então? Pimenta, sal, açúcar, chocolate, azeite, milho mofado e flor de abóbora e cogumelos combinam. Qualquer coisa combina com feijão. O ar na saída do metrô é milho frito. Dentro do metrô é quente e cheio de música. Os cegos cantam e usam uma calhazinha para deslizar suas bengalas até o milho frito. Cantam bem. Quase tão alto quanto as mochilas amplificadas cheias de MP3. Lucy in the sky with diamonds esperando o trem (quase não se espera o trem, já disse). Não vi ninguém de sombreiro. Vi muita gente do campo de chapéu – um deles tinha uma cascavel seca e um ralador. Levanta a libido e evita a queda também do cabelo. Cinco estantes de gel para cabelo. Emos mais japoneses que os japoneses. All star, all star, all star. Roupa de listras. Tribos. Todo mundo igual. Preguiça no transporte. Pressa ao acordar. Guey, guey, guey. Poucos gays. Só num bairro chamado Condesa ou na Plaza Insurgentes. Deve ser piada de alguém. Mais mulheres que homens. Cílios postiços. Documentários. Cineteca. Tequila no masculino. Pão ruim. Tortillas azuis. Cabelos azuis. Sombras azuis. Paredes azuis. Paredes laranja. Esquilos equilibrando laranjas. Paredes de todas as cores, de todas as cores das roupas coloridas da sua namorada. Manhã depois da hora da manhã. Entardecer na hora certa. Bueno como alô. Padre como legal. Jitomate como tomate. Tu é tu, usted é muito mais sério. Presupuesto. Por supuesto. Guión. Betabel. De hecho. Así es. A lo mejor. Calderón. Huipile. Que tanto. Órale. "¿?"
Sim, fundamentalmente "¿?", México.



