27.1.09

Desencavando

O blog anda meio parado por conta da loucura de aprontar meu roteiro para o Festival de Berlim (mais detalhes em breve), então aproveito a aprovação da Constituição Moraleista na Bolívia esse domingo para desencavar uma conversa que tive com Morales dias antes da eleição que o consagrou como presidente.

É sempre bom lembrar que ele prometeu confusão desde o início. Cumpriu sua palavra.

"Evo Morales está de tênis, jaqueta pesada de couro e o topo de sua cabeça é um formidável capacete de cabelo índio muito negro. Parece um pouco tenso. Fala baixo ao celular meio remendado olhando pela janela da sacada os muitos repórteres que o esperam no saguão do hotel e, por cima do próprio ombro, uns poucos que estão mais perto, apenas alguns degraus abaixo."
O resto – inclusive um entrevero com o entonces casi flamante líder boliviano – você lê aqui.

12.1.09

فلسطين

Já se vão sete anos da época em que trabalhava no JB e cobria, principalmente, Oriente Médio. Uma das matérias de que mais me orgulho saiu pequena, contava com poucas fontes, fontes de um lado só, e não falava de nada especialmente importante politicamente. Era sobre o cerco israelense a Ramala, cidade mais importante da Cisjordânia.

Apesar de achar o título melodramático (o meu era outro) ainda teria orgulho de escrever essa matéria hoje. O grande problema é que o mundo conseguiu torná-la obsoleta: morreu comparativamente pouca gente nessa ocasião. A matéria, salvo engano, não noticia mortes, mas uma agoniada espera.

Em 2002, fez-se um grande escândalo sobre um massacre ocorrido na cidade palestina de Jenin, na Cisjordânia. Em seguida, formou-se outro escândalo quando se descobriu que o massacre não tinha sido tão grande. O primeiro movimento foi dizer que o Exército israelense exagerou na resposta. O segundo, dizer que a imprensa exagerou na reação.

Pois bem: desde o início da ofensiva a Gaza já morreram, comprovadamente, mais do dobro de palestinos mortos nos rumores que davam conta de Jenin. A realidade suplantou um exagero espetacular.

É difícil pensar que não estamos nos acostumando a isso.

7.1.09

Ajude-me a matar (uma personagem)

Sim, é mórbido. Sim, é humor negro tão poucos dias depois do Ano Novo com todo mundo de branco. Que fazer? Meu protagonista precisa assassinar várias pessoas e minha cabeça está longe de ser criativa para tal tarefa. Portanto... alguém se habilita a fazer sugestões nos comentários desse post?

Serve qualquer morte, desde que seja criativa e não pareça natural: cordas, tiros, facas, etc são muito fáceis, mande apenas se achar a idéia MUITO boa. Para uma idéia, minhas últimas duas da lista são com um estouro de cavalos e pelo ataque de abutres.

Tente não plagiar mortes de personagens da ficção. Tente fazer mortes baratas. Mortes executáveis por um homem só. Mortes de época não valem. Mortes divertidas são benvindas.

As melhores sugestões vão para o roteiro. Se tudo der certo, esse roteiro vira um filme. E, nesse filme, garanto seu nome nos créditos.

2.1.09

Ideias em tiras

Pouca gente ainda tem dúvida de que histórias em quadrinhos podem ser arte. Estão aí Frank Miller e Will Eisner que não me deixam mentir (bom, Eisner já não está, infelizmente, mas você entende...) Mas para mim mesmo ainda não era claro o quanto os quadrinistas especializados em tirinhas andam ambiciosos. Quem sabe esqueci do Little Nemo, sei lá, mas era só falta de enunciar mesmo, porque na prática a sessão de tiras da Folha já é a que recebe minhas visitas com mais frequência. Hoje, por exemplo, achei os quatro quadradinhos do Caco Galhardo o que de mais apropriado se pode dizer desses dias:




Mas é o Angeli quem fez o mais bonito, o mais cabeça, o que merece mais tempo – embora não exija – para ser (ai, ai, ai) fruído.



O roteiro parece não ser nada demais. Mas o uso da cor lança o sentido para o alto, muito alto. "Roteiro"? "Uso da cor"? Sim, sim, é de arte que se fala.

PS: Esse post (acho), seguiu as normas do novo acordo ortográfico da língua portuguesa. Mas não se acostume :-)

19.12.08

Posso adiantar os foguetes?

Dia de festa por aqui, caríssimo leitor.

Personal Che foi selecionado pelos críticos de O Globo como um dos dez melhores filmes brasileiros do ano! Entrou num grupo fortíssimo de docs: os únicos dois outros não-ficcionais do ranking são Juízo, da multipremiada Maria Augista Ramos, e Serras da desordem, de Andrea Tonacci – que é simplesmente uma obra-prima. Os melhores do ano agora estão sendo votados pelo público nesse link. O que dizer? Gracias, gracias y más gracias.

Além dessa ótima notícia, soube hoje que o roteiro de meu próximo filme, A pílula, foi um dos selecionados entre 3800 projetos do mundo todo para o Talent Campus do Festival de Berlim. O projeto vai ter o prazer de apanhar muito na mão de diversos especialistas europeus. Em outros anos, o Campus teve como mestres gente como Stephen Frears, Walter Salles, Mike Leigh, Walter Murch, Christopher Doyle, Win Wenders, Amos Gitai, Michel Gondry, Fernando Eimbcke...

Em resumo, o Natal chegou antes. E olha que eu não gosto de Natal.

17.12.08

Personal Che em Londres


Estamos orgulhosíssimos: acabamos de saber que o filme fará parte da série "Cuba aos 50" do melhor clube de correspondentes do mundo, o Frontline Club, de Londres. Para quem estiver na terra da chuva, a sessão vai ser na sexta-feira, dia 9 de janeiro. Mais detalhes no site do Frontline. Infelizmente não vou poder comparecer de corpo presente, mas há o grande risco de me materializar via skype pra conversar com os presentes.

10.12.08

O renascentista de Miraflores

O nariz de Fidel é um problema



(Publicada originalmente na Piauí 27)

O venezuelano Armando Julio Reverón foi um dos principais pintores modernistas de sua época. Seu compatriota Jesús-Rafael Soto, falecido em 2005, ficou notório pelo legado de obras cinéticas. O caraquenho Carlos Cruz-Diez já teve suas peças expostas no MoMA, na Tate Modern e no Centre Georges Pompidou, três templos da arte contemporânea. É considerado hoje um dos maiores artistas plásticos vivos da América Latina.

Mas o quadro mais caro a ir a leilão na Venezuela não foi assinado por nenhum deles, e sim por um diletante, famoso por outras façanhas que não as pictóricas: Hugo Rafael Chávez Frias, apresentador televisivo de verve, cantor bissexto, militar condecorado e presidente em tempo integral da República Bolivariana.

La Luna de Yare foi vendida em setembro a três empresários venezuelanos. Os 550 mil bolívares fortes (cerca de 480 mil reais) desembolsados caíram direto nos cofres do Partido Socialista Unido da Venezuela, empenhado em mais uma campanha. As eleições regionais - que muitos encaram como um novo plebiscito sobre Chávez - ocorreram na segunda quinzena de novembro.

A tela, de 50 centímetros de base por 60 de altura, fez parte do jogo político desde sua criação: foi pintada em 1993, enquanto Chávez esteve preso na Penitenciária de Yare, após um fracassado golpe contra o presidente Carlos Andrés Pérez. Reproduzindo a paisagem gradeada vista de sua cela, o artista pintou um céu negro, uma lua alaranjada, uma guarita de vigilância e dois postes acesos, cada um com sua nuvem de cupins. Embaixo da janela, colocou uma frase do filósofo grego Sexto Empírico, não se sabe se rabiscada na parede original ou se acrescentada apenas na tela: "O moinho dos deuses... mói lento!" A frase está pela metade, parecendo manifestar pouco mais que tédio. O verdadeiro sentido vem à tona quando se conhece a outra parte: "Mas mói muito fino." É a perfeita expressão de um homem que sabia ter perdido a batalha, mas não a guerra.

Quando a notícia do leilão se espalhou, a intelligentsia local se retorceu em cólicas estéticas. "Não exibiria o quadro no meu museu porque só exponho obras criadas por artistas. E para a minha coleção pessoal não quero isso nem se me for dado", disse um iracundo Ali Cordero Casal, presidente do prestigioso Museo de Arte Acarigua-Araure. Noves fora as ressalvas às grades ("nota-se certo esforço", ajuizou mais de um), a maioria fez coro com o artista Ricardo Benaim, que cunhou o termo "cagante" especialmente para descrever a obra. "Chávez é nosso melhor artista conceitual. Se em vez da presidência se dedicasse a fazer performances do que é ser um chefe de Estado, seria convidado para todas as mostras." Pela pintura? "Pagaria trinta contos." Parecia não haver mais caldo a entornar quando o maior crítico de arte do país, Perán Erminy, levantou suspeitas sobre a autoria da obra. Por pior que fosse o quadro, disse, ainda era muito melhor que tudo já feito pelo suposto autor: "Não corresponde em nada à maneira dele pintar. As grades, por exemplo, estão bem feitas, em linha reta, espaçadas com regularidade. Tudo que Chávez desenha fica torto. É uma coisa quase patológica."

Erminy fala com propriedade. Foi o primeiro - e até onde se sabe, único - curador a montar uma exposição do Chávez pintor, no Museo Salvador Valero, quando ele ainda estava preso. "Eu preparava uma coletiva de artistas populares quando seu pai apareceu com três quadros. Pedi mais alguns para fazer uma individual - me pareceu curioso que um militar golpista tivesse pendores artísticos." Hoje, justifica sua escolha com o seguinte argumento estético: "A qualidade era muito baixa. Tão baixa que chegava a ser interessante."

Mas, se não foi Chávez, quem, então, cometeu La Luna de Yare?

O nome salta da língua de Erminy com a rapidez da certeza: Efraín "Chepín" Lopez, pintor militar de 72 anos especializado em cenas históricas. Segundo o crítico, quando Chávez foi eleito e mudou-se para o Palácio Miraflores, encontrou-o pintando telas oficiais num pequeno estúdio. Com o tempo, Chepín teria se tornado seu amigo e preceptor. "Ele se impacientava porque Chávez não seguia suas instruções, e acabava pedindo os quadros para terminá-los. Contente de ver suas obras aperfeiçoadas, Chávez contribuía com sua assinatura." Erminy diz que o guerrilheiro que expôs no começo dos anos 90 seria incapaz de manejar luz e profundidade da maneira que se vê na tela.

Chepín tem uma versão diferente. "Conheci Chávez há 33 anos, na Escola de Infantaria e Blindados, onde nasceu nossa grande amizade. Às vezes, fazíamos juntos murais em quartéis e coisas assim. Nessa época ele estava iniciando sua formação histórica, filosófica, moral e espiritual. É um ser especial, um coração bondoso." Sim, mas e o quadro? "Pois é, houve esse crítico que disse que La Luna de Yare seria minha. Não, nunca. Isso é sagrado. O que faço para o presidente é limpar seus pincéis, deixar tudo arrumado no estúdio e dar alguns conselhos." Ele cita um exemplo: "Outro dia, Chávez me acordou no meio da noite para pedir ajuda com um retrato que está pintando de Fidel. Está tendo problemas com o nariz." Chepín garante que, desde as primeiras aulas, o exguerrilheiro tem todas as ferramentas para fazer um quadro nos moldes de La Luna. "As linhas, os círculos, os triângulos, tudo, tudo, tudo."

Influências e estilo do mandatário são outro tema controverso. "É um pintor quase autodidata, popular. Muito espontâneo. Lê muito, muitos livros de pintura, de arte, mas faz sua própria pintura, uma pintura cheia de poesia. Ele é um poeta ingênuo, de muita pureza", afirma Chepín. O crítico de arte Erminy tem opinião mais cética: "Influências? Não sei se existe alguma", contesta. "Não é como se ele quisesse fazer algo expressionista ou distorcido. Sai assim involuntariamente. A única coisa que consigo imaginar como influência de Chávez são uns calendários com fotos de chalezinhos suíços muito populares nos vilarejos do interior. Os oito ou nove óleos da mostra que organizei mostravam esse tipo de paisagem."

Vitupérios ditos e desmentidos expostos, parecia que a polêmica seria tão renhida quanto curta. Foi quando se soube que o preço recorde sequer havia sido pago por um trabalho original: o que estava dentro da moldura vendida aos três empresários era uma cópia fotográfica. Segundo Erminy, "dessas feitas com máquina xérox colorida". E sequer era a primeira cópia, dada há um ano para o líder cubano Fidel Castro (é razoável supor que ainda adorne seus aposentos em Havana).

A tela original, feita por quem quer que seja, fora vendida dez anos antes ao petro-empresário venezuelano Rafael Tudela, pelo equivalente a 2 mil reais, num leilão para financiar a campanha da primeira eleição de Chávez. A se tomar pelo valor atingido uma década depois, o quadro valorizou 240 vezes, ou 12 000%. Em tempos de nova instabilidade petrolífera, a Venezuela já tem sua salvação.

8.12.08

O homem elefante

Elefante que se preza ouve Bob Dylan



(Publicada originalmente na Piauí 27)

À meia-noite de 23 de setembro, uma elefanta chamada Hildra fugiu do Gran Circo Unión, nos arredores da Cidade do México. Tudo aconteceu muito rápido: junto com dois outros paquidermes, ela havia sido liberada para tomar água; na volta, um gato preto passou-lhe entre as patas. Assustada, Hildra se descontrolou, arrebentou um portão de metal e ganhou a rodovia México-Pachuca. Correu por alguns quilômetros até alcançar a via expressa que levava a Teotihuacán. Ao atravessar na contramão a cancela número três do pedágio, viu crescerem os faróis do ônibus conduzido por Tomás López Durán. O veículo se chocou contra as 4 toneladas e meia do animal, encerrando ali a história de ambos.

Uma hora e meia depois, apitou um alerta no computador de Dan Koehl, em Estocolmo. Aos 49 anos, ele comanda de um laptop em sua cozinha o site www.elephant.se, maior base de dados sobre elefantes no mundo. Através de uma comunidade chamada Elephant Gossip [Fofoca de Elefante], Koehl recebe dicas de quase trinta informantes regulares - estudiosos e tratadores dos Estados Unidos, Sri Lanka, Tailândia e da Europa. Foi assim que, pouco tempo após a publicação do óbito por uma agência de notícias, Koehl já acrescera ao fato as informações de que Hildra nascera numa selva da Índia, 45 anos antes, e que, provavelmente, fora comprada de algum circo americano. br /> br /> O site, com poucas imagens, tem um design tão delicado quanto a pele de um paquiderme. Não rende um centavo, mas é atualizado cerca de vinte vezes por semana. É nele que Koehl monitora os mais de 4 mil elefantes de 98 países dos quais tem conhecimento, noticiando nascimentos (como o de Samudra, nos Estados Unidos), óbitos (Suwako, no Japão), transferências (Raisa, enviada do Rio de Janeiro para Sorocaba), tramitação de leis (nova reserva para os animais na Índia) e ameaças (60 elefantes selvagens mortos no Sri Lanka em 2008). Além disso, o site ainda conta com tratados históricos, estudos sobre o comportamento da manada e detalhadas instruções relativas à saúde do animal, com dicas que vão do pH ideal da água à forma correta de lhes cortar a unha. É uma Bíblia em tempo real para quem lida ou gosta dos bichos, algo entre o New York Times e a Wikipedia da elefantografia. O responsável pela obra assina seus e-mails como "Dan Koehl, enciclopédia de elefantes".

A paixão zoológica de Koehl surgiu aos 17 anos, quando, numa visita de quatro meses ao Sri Lanka, conheceu os mahouts, homens que dedicam suas vidas ao simpático animal. No retorno à casa, o encanto virou trabalho sério: hoje, além de prestar consultoria a instituições européias, parques zimbabuenses e orfanatos de animais na Tailândia, é ele quem trata a pão-de-ló os três elefantes do rei Carl Gustaf da Suécia. Nesses últimos trinta anos, Koehl passou mais tempo ao lado de elefantes que de homens. Conhece profundamente o comportamento do bicho, segundo ele, de inteligência comparável à de cetáceos (baleias, botos e golfinhos) e grandes primatas (chipanzés, bonobos, orangotangos, gorilas e humanos - mas não todos). "Na verdade, a variação dentro desses grupos é maior que a variação entre esses grupos, o que equivale a dizer que um elefante brilhante pode ser muito mais inteligente que uma pessoa burra", ensina. Uma prova rápida é dada quando Koehl pede a seus pupilos que trombeteiem. "Sawadee!", vocifera, a que Sao Noi (Menininha) e Kuo (Flor de lótus) prontamente respondem, soando como dez Miles Davis sem partitura. Saudar na língua-mãe - os dois foram um presente do governo tailandês, em cuja língua sawadee é algo como "e aí?" - é um sinal de deferência de Koehl, já que a maior parte da comunicação entre humanos e elefantes se dá num dialeto que mistura o cingalês, o alemão e o inglês, fruto do último século e meio de relações entre as duas espécies. O Ceilão, hoje Sri Lanka, foi um dos lugares onde o alemão Carl Hagenbeck, o maior mercador de animais selvagens do século XIX, capturou mais exemplares para seu plantel. O que o alemão foi para o tráfico, o americano P. T. Barnum foi para o circo, explicando a porção anglófona do léxico elefantino. Koehl diz, contudo, que o dialeto é flexível feito tromba. "Eles aprendem comandos e línguas rapidamente."

Avesso ao ambientalismo politicamente correto, o tratador desdenha do discurso anticirco de grupos de defesa dos animais, lamentando que alguns estados no Brasil tenham proibido os paquidermes em espetáculos. "As pessoas não sabem que, em certas partes da Ásia, elefantes são animais tão domésticos quanto cães e cavalos. Para mim, o ideal seria que espécimes fora da natureza dividissem seu tempo entre zoológicos e circos onde fossem bem tratados. Só zoológico os deixa deprimidos, reumáticos, flácidos. Já o circo é um bom workout, e incita o contato com humanos. Precisam das duas coisas."

Para ilustrar, ele cita o caso do terceiro elefante real - Saba, uma quarentona vinda do zoológico de Dompierre-sur-Besbre, na França. "Lá, ela vivia com outra elefanta em regime de separação absoluta dos humanos, sendo alimentada e lavada através de uma grade. Mas o caso é que Saba não tem a menor paciência para elefantes e adora gente. Resultado: estava entediadíssima quando chegou." Koehl diz que nos bosques de sua majestade, a amiga tem espaço para passear e interagir com animais de outras espécies. Garante, inclusive, que ela gosta de música, com especial predileção pelo pop americano dos anos 60. "Como eu sei? Bom, se um bicho de 4 toneladas sai de onde está e pára do meu lado balançando a tromba quando eu canto Wooden Heart, do Elvis, ou Tomorrow Is a Long Time, do Bob Dylan, acho que é porque está se divertindo. Herbívoros encaram o silêncio como sinal de que há predadores por perto, sabe?" Para que nenhum elefante em cativeiro tenha que lidar com o angustiante ruído da solidão, Koehl tem empenhado grande parte do seu tempo nos últimos meses em um projeto de âmbito global: uma rede telefônica sem fronteiras, conectando animais de diferentes zoológicos. Ele explica que elefantes usam infra-sons para se comunicarem a grandes distâncias na natureza. O ruído dá conta de quem está falando, inclusive. "Por isso pensei: e se instalarmos microfones e alto-falantes em dois lugares diferentes para que eles se comuniquem? Veja o caso da Saba: ela está muito bem aqui, mas soube que a elefanta que ficou para trás andava triste, pensativa. Imagine: você vive com alguém por anos e de repente essa pessoa desaparece. Não seria genial que elas pudessem se falar de novo, dizer 'está tudo em ordem, pode ficar tranqüila' e tocar a vida adiante?"

O projeto experimental começa este mês com os elefantes do Zoológico de Colônia, na Alemanha. Para evitar qualquer desentendimento na conversa - a despeito do poliglotismo dos bichos -, Koehl preferiu que todos os elefantes nessa fase inicial fossem de origem asiática.

6.12.08

She is the walrus



Sim, é o que você está pensando. Não, não é uma montagem.

3.12.08

Algumas coisas aprendidas ou não

Tiros podem não doer se você estiver bem vestido. Esquilos comem nozes, mas também laranjas. Os de pelo preto parecem urubus. Nenhum parece um rato. Todos os policiais mexicanos têm esplêndidos uniformes. Nenhum tem bom caimento, mas penso que é por conta de carnes sobrando. Metade não é confiável, segundo o presidente do país. Políticos pegam aviões para morrer no meio da cidade. Traficantes preferem tiros. Mas também cortam cabeças. Elefantes preferem a estrada e bater de frente com um ônibus. Suecos gostam de elefantes. Ao menos um sueco. Chávez gosta de pintar. E o faz mal. Se é que faz. México, cactos, desertos, sombreros para aguentar o calor. Faz um frio enorme no México. Neva, dizem, mas eu não vi. Em várias cidades só há mulheres, crianças e velhos. Não houve guerra, mas uma espécie de conquista. Por pior que o país vizinho vá, é melhor que aqui. "Longe de Deus, perto dos EUA", disse um. Mexicanos são ruins de teatro (os que eu conheço). O melhor que vi era dirigido por um americano filho de judeus russos que fala pouco espanhol. A música é bruta, esporrenta em todos os sentidos, ou seja: de mau gosto, alegre. Andam muito de carro, até para chegar até a quadra seguinte. As mulheres se maquiam. Muito, em qualquer lugar. Para esperar o metrô, que não demora, senta-se no chão. Há uma fábrica estatal especializada em mastros e bandeiras monumentais. Há muitas pela cidade. No dia da Independência é carnaval. Há muito lixo nas ruas e poucas lixeiras. Há muitas cabeças cortadas, mas quase todas são de traficantes, assim todos continuam continuando. Lê-se jornais: La Jornada para os de esquerda, La Prensa para os qualqueres, Universal pra quem sabe dar descontos, os outros pros que têm bom gosto e melhor bolso. Em Polanco não é México. Em Índios Verdes acaba a linha verde do metrô e realmente há índios verdes. Ao menos dois, dizem. Eu não sei, e não me pareceu importante, já que só são dois em vinte milhões. Sinaliza-se a ré para um amigo com pancadinhas contínuas. Pára-se quando se quer que pare-se o carro. Sorvetes são bons e todos de Michoacán. Grilos são de Oaxaca (diga Oahaca ou te corrigem). Dizem que são bons, mais limpos que camarão. Qual será a graça deles, então? Pimenta, sal, açúcar, chocolate, azeite, milho mofado e flor de abóbora e cogumelos combinam. Qualquer coisa combina com feijão. O ar na saída do metrô é milho frito. Dentro do metrô é quente e cheio de música. Os cegos cantam e usam uma calhazinha para deslizar suas bengalas até o milho frito. Cantam bem. Quase tão alto quanto as mochilas amplificadas cheias de MP3. Lucy in the sky with diamonds esperando o trem (quase não se espera o trem, já disse). Não vi ninguém de sombreiro. Vi muita gente do campo de chapéu – um deles tinha uma cascavel seca e um ralador. Levanta a libido e evita a queda também do cabelo. Cinco estantes de gel para cabelo. Emos mais japoneses que os japoneses. All star, all star, all star. Roupa de listras. Tribos. Todo mundo igual. Preguiça no transporte. Pressa ao acordar. Guey, guey, guey. Poucos gays. Só num bairro chamado Condesa ou na Plaza Insurgentes. Deve ser piada de alguém. Mais mulheres que homens. Cílios postiços. Documentários. Cineteca. Tequila no masculino. Pão ruim. Tortillas azuis. Cabelos azuis. Sombras azuis. Paredes azuis. Paredes laranja. Esquilos equilibrando laranjas. Paredes de todas as cores, de todas as cores das roupas coloridas da sua namorada. Manhã depois da hora da manhã. Entardecer na hora certa. Bueno como alô. Padre como legal. Jitomate como tomate. Tu é tu, usted é muito mais sério. Presupuesto. Por supuesto. Guión. Betabel. De hecho. Así es. A lo mejor. Calderón. Huipile. Que tanto. Órale. "¿?"

Sim, fundamentalmente "¿?", México.

30.11.08

Economia


Mas se só houver tempo para ver um conjunto de fotos, faça o favor a si mesmo de deixar as minhas para lá e dar uma olhada em fotos de verdade. Nessa galeria virtual há um pouco do trabalho de Graciela Iturbide, mexicana fantástica que descobri aqui (talvez seja a última pessoa no mundo interessada em fotografia a fazer isso, aliás) e que ganhou faz um mês o Prêmio Hasselblad.

Escurinho


Saiu uma galeria pequenininha das minhas fotos no Gawker! Aí vai uma que ficou de fora.

29.11.08

Prazer para nerds


O post é para agradar poucos, afinal a banda nunca foi muito popular: a (para mim) obscura revista musical JamsBio destacou um fã monomaníaco dos Beatles (um pouco pleonásmico isso, mas vá lá) para fazer um ranking de todas as canções da banda. Chamam a coisa de Playing the Beatles backwards – "tocando os Beatles ao contrário".

É o tipo de iniciativa que fracassa se o condutor não tem ao teclado a mesma coisa que os Beatles tinham na música: verve e conhecimento. É aí que o tal JBev mostra a destreza de um Ringo ao manejar um catálogo de 184 canções sacrossantas para muitos de forma apaixonada, informativa, franca e – aleluia – irreverente.

Ainda que o site diga que para muitos isso seria como escolher entre um filho e outro, a verdade é que quase todo verdadeiro fã da banda tem sua lista mental, ainda que não tão organizada ou consciente.

Todo mundo vai ter reservas em alguns momentos para dizer "é isso!" em outros, claro. É particularmente divertido quando a machadada parte em direção a alguma vaca sagrada (consigo ouvir gente irada gritando "Penny Lane em 140º!?") ou quando aparece alguma interpretação que você, beatlemaníaco de quatro costados e duas décadas, nunca tinha pensado ou não tinha dados para pensar. Quão sintomático é o fato de que I me mine tenha sido a última música gravada por uma banda terminada pelo choque de egos? Por que quando os quatro cantam em coro é a voz de Ringo que se sobressai? Por que Lucy in the sky é boa, ma non troppo?

Uma agonia é ver favoritas pessoais serem sacrificadas no altar de uma análise idiossincrática, mas quase sempre justa. Aconteceu comigo aqui, aqui e aqui, por exemplo. Um prazer enorme é ver algumas porcarias receberem a devida sova, como aqui, aqui e aqui. Outro é descobrir alguns detalhes pequenos e sublimes em faixas apenas medianas. E há a expectativa à medida que o topo vai se aproximando (já estamos no top 100 quando escrevo isso) para ver como suas preferidas estão indo. É viciante. Eu cheguei no meio, mas desde então volto ao site diariamente para um novo lote de cinco sentenças.

A idéia é tão boba quanto divertida. Mais ou menos como escrever uma música dizendo a um amigo "ela te ama, sim, sim, sim".

Fragmentos mexicanos


"Guey, tinha um lugar aqui perto onde a minha mãe falou que tinha José Cuervo barata..."

•••

"Tem a tristeza de não ter, mas tem a de ter, também".

•••

E um homem de chapéu marrom e camisa meio puída, que navegava, meio bêbado, as pedras do calçamento da praça aqui perto. Levava pendurado nas pontas dos dedos um LP fora da capa.

28.11.08

Uma letra depois da outra


Não sei quem disse que é sempre bom prestar atenção em como você vê o futuro pra ter certeza de que está conduzindo as coisas do jeito certo hoje. Talvez tenha sido eu mesmo. Me lembro desse personagem do filme "The Commitments", de Alan Parker, o suposto agente da banda, que ensaia para uma entrevista usando a ducha da sua banheira como microfone, todo besta, contando vantagem. Obviamente, a banda acaba mal na história (embora tenha me surpreendido agora ao descobrir que há atores do filme de Parker se apresentando ainda hoje, 17 anos depois do lançamento do filme).

Por que digo isso tudo, em mais uma das minhas digressões? Porque estou cheio de orgulho de ver na minha frente pela primeira vez a impressão, toda bonita na sua simplicidade, do meu primeiro roteiro de ficção. Ver as folhas de papel e suas linhas de Courier 12, já com suas devidas revisões, as primeiras de muitas, é quase tão bom quanto uma réstia de sol nesse México friorento (e não, não ligo para o brega da metáfora nesse momento).

Uma pilha de folhas de papel é uma ótima razão para estar feliz.

24.11.08

No teatro com Malkovich



Desde que chegamos fomos quatro vezes ao teatro. Primeira peça, udigrudi de um autor catalão, anárquica, mas chata. Segunda peça, de um estimado autor mexicano, para lá de pretenciosa. Terceira, um clássico popularesco com suas três mil e tantas apresentações, deu pra rir, mas era boçal quase sempre.

Não ajuda muito a reputação das artes dramáticas mexicanas o fato de que a melhor vista aqui é baseada num texto de autor americano, com o diretor aí de cima se comunicando com o elenco mexicano em inglês. É fantástica.

16.11.08

Pauta

"Vê-se um céu escuro, uma lua alaranjada, uma guarita de vigilância e dois postes acesos, cada um com sua nuvem de cupins e mariposas. Grades cinzas quadriculam a composição. No pé do quadro, uma frase, não se sabe se pintada na parede original ou se inscrita pelo próprio comandante na sua obra: “O moinho dos deuses... Mói lento!!”

7.11.08

Pauta

"Bom, eu acho que se a Saba vem pra perto de mim e começa a sacudir as orelhas e balançar a tromba quando pego o violão e toco Bob Dylan, Simon & Garfunkel, é porque ela está gostando. Herbívoros encaram o silêncio como sinal de perigo, sabe?"

6.11.08

Queda de avião mata ministro mexicano


© La Jornada

Saiu nova matéria para a Folha, sobre a queda de um avião aqui na Cidade do México:

"O México foi forçado a desviar sua atenção da vitória do democrata Barack Obama na noite de anteontem, quando um jatinho do governo federal caiu a poucos metros de um dos principais cruzamentos da capital do país, matando o secretário de governo (Casa Civil) Juan Camilo Mouriño, braço direito do presidente Felipe Calderón, além de uma peça-chave no combate ao crime organizado, o secretário para a reforma da Segurança, José Luís Santiago Vasconcelos."
O texto completo, para assinantes da Folha, está aqui.


(Agora que já passaram dois dias e matéria virou embrulho de peixe, segue o resto)

Até o momento foram confirmadas mais 12 mortes, seis delas de pessoas que estavam no lugar do desastre, e 12 feridos com queimaduras graves. Não há confirmação sobre as razões da queda; a hipótese de um atentado não está descartada.

O avião se espatifou pouco depois das seis da tarde numa zona movimentada e luxuosa da Cidade do México, as Lomas de Chapultepec, próximo ao entroncamento entre o Paseo de la Reforma e o Anel Periférico, ambos coalhados de automóveis na hora do rush. Ao cair, o avião explodiu, incendiando trinta carros e rompendo os vidros de diversos prédios. A queda agravou o trânsito já habitualmente caótico da capital.

Mouriño era o número dois do governo federal, assessor mais próximo e amigo pessoal de Calderón. Com apenas 37 anos, era um dos cotados pelo Partido da Ação Nacional para a sucessão de 2012 e o principal articulador no governo da reforma do setor petroleiro. Sua segunda pauta era a segurança.

Desde a posse de Calderón, em 2006, as estatísticas de assassinatos e seqüestros dispararam graças, segundo o governo, a uma política de enfrentamento. Mouriño e Santiago Vasconcelos eram os principais funcionários federais envolvidos no combate ao crime.

O governo informou que o avião voava em rota e altitude normais, ainda que excessivamente próximo de outras aeronaves. Ficou a apenas 4,5 km de um Boeing 767 minutos antes da queda, quando o normal é 6,5 km. Não houve nenhum aviso de emergência para a torre.

Especula-se que o piloto estivesse buscando refúgio da turbulência gerada pelo Boeing ou um ponto para um pouso forçado nos Bosques de Chapultepec, vizinho ao ponto de impacto. Peritos afirmam que sabotagens geralmente deixam um rastro de destroços até o ponto da queda. Nesse caso, o avião caiu inteiro, despedaçando-se apenas no chão.

O governo tem se esquivado das fortes especulações de que a aeronave foi alvo de uma sabotagem por parte dos "zetas", como são chamados os membros do Cartel do Golfo do México. Não seria o primeiro atentado contra Santiago nem a primeira ação terrorista do cartel.

Os "zetas" são acusados pelo ataque do dia 15 de setembro em Morelia, capital do Estado de Michoacán, em meio às festas da independência. Duas granadas foram detonadas na praça principal, matando oito pessoas e ferindo mais de 150.

Já Santiago foi alvo de inúmeros atentados na época em que era o czar do combate às drogas e sub-procurador geral da República, responsável por mais de uma centena de extradições de "capos" aos EUA. Teve a cabeça posta a prêmio: nada menos que US$ 5 milhões.

A estratégia do governo no momento é levar "zetas" e membros dos cartéis de Sinaloa e de Juárez à extinção mútua. Das mais de 4.600 mortes registradas esse ano, estima-se que perto de 4.000 sejam de soldados dos cartéis.

5.11.08

O foguete e os peixes



Leio hoje uma notícia que me deixa muito feliz. Cito da Folha:

"O território reivindicado por cerca de cem comunidades quilombolas de Alcântara. no Maranhão, foi reconhecido oficialmente pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária). Em relatório publicado ontem no Diário Oficial da União, o órgão federal delimita a área que era motivo de conflito com a Agência Espacial Brasileira, que mantém um centro de lançamento de foguetes no município. Parte do território em disputa seria ocupado pela Alcântara-Cyclone, a empresa binacional Brasil-Ucrânia para lançamentos comerciais de satélite. A companhia já tinha anunciado em agosto sua desistência de ocupar a região. Em comunicado à imprensa, o Incra afirma que as 3.500 famílias quilombolas que vivem hoje na região ficarão com uma área total de 78 mil hectares."
No fim de 2004 estive em Alcântara para fazer uma reportagem sobre a conflituosa convivência entre os foguetes e os pescadores quilombolas para a rede de TV japonesa NHK. Acabei escrevendo também uma longa matéria para o JB sobre o assunto, que me fascina até hoje. Nos anos 80, o governo relocou na marra vilas inteiras, criando uma paura coletiva em relação à base. Espero o reconhecimento do Incra acabe com o desentendimento entre pescadores e cientistas espaciais.