
Mas se só houver tempo para ver um conjunto de fotos, faça o favor a si mesmo de deixar as minhas para lá e dar uma olhada em fotos de verdade. Nessa galeria virtual há um pouco do trabalho de Graciela Iturbide, mexicana fantástica que descobri aqui (talvez seja a última pessoa no mundo interessada em fotografia a fazer isso, aliás) e que ganhou faz um mês o Prêmio Hasselblad.
30.11.08
Economia
29.11.08
Prazer para nerds

O post é para agradar poucos, afinal a banda nunca foi muito popular: a (para mim) obscura revista musical JamsBio destacou um fã monomaníaco dos Beatles (um pouco pleonásmico isso, mas vá lá) para fazer um ranking de todas as canções da banda. Chamam a coisa de Playing the Beatles backwards – "tocando os Beatles ao contrário".
É o tipo de iniciativa que fracassa se o condutor não tem ao teclado a mesma coisa que os Beatles tinham na música: verve e conhecimento. É aí que o tal JBev mostra a destreza de um Ringo ao manejar um catálogo de 184 canções sacrossantas para muitos de forma apaixonada, informativa, franca e – aleluia – irreverente.
Ainda que o site diga que para muitos isso seria como escolher entre um filho e outro, a verdade é que quase todo verdadeiro fã da banda tem sua lista mental, ainda que não tão organizada ou consciente.
Todo mundo vai ter reservas em alguns momentos para dizer "é isso!" em outros, claro. É particularmente divertido quando a machadada parte em direção a alguma vaca sagrada (consigo ouvir gente irada gritando "Penny Lane em 140º!?") ou quando aparece alguma interpretação que você, beatlemaníaco de quatro costados e duas décadas, nunca tinha pensado ou não tinha dados para pensar. Quão sintomático é o fato de que I me mine tenha sido a última música gravada por uma banda terminada pelo choque de egos? Por que quando os quatro cantam em coro é a voz de Ringo que se sobressai? Por que Lucy in the sky é boa, ma non troppo?
Uma agonia é ver favoritas pessoais serem sacrificadas no altar de uma análise idiossincrática, mas quase sempre justa. Aconteceu comigo aqui, aqui e aqui, por exemplo. Um prazer enorme é ver algumas porcarias receberem a devida sova, como aqui, aqui e aqui. Outro é descobrir alguns detalhes pequenos e sublimes em faixas apenas medianas. E há a expectativa à medida que o topo vai se aproximando (já estamos no top 100 quando escrevo isso) para ver como suas preferidas estão indo. É viciante. Eu cheguei no meio, mas desde então volto ao site diariamente para um novo lote de cinco sentenças.
A idéia é tão boba quanto divertida. Mais ou menos como escrever uma música dizendo a um amigo "ela te ama, sim, sim, sim".
Fragmentos mexicanos

"Guey, tinha um lugar aqui perto onde a minha mãe falou que tinha José Cuervo barata..."
•••
"Tem a tristeza de não ter, mas tem a de ter, também".
•••
E um homem de chapéu marrom e camisa meio puída, que navegava, meio bêbado, as pedras do calçamento da praça aqui perto. Levava pendurado nas pontas dos dedos um LP fora da capa.
28.11.08
Uma letra depois da outra

Não sei quem disse que é sempre bom prestar atenção em como você vê o futuro pra ter certeza de que está conduzindo as coisas do jeito certo hoje. Talvez tenha sido eu mesmo. Me lembro desse personagem do filme "The Commitments", de Alan Parker, o suposto agente da banda, que ensaia para uma entrevista usando a ducha da sua banheira como microfone, todo besta, contando vantagem. Obviamente, a banda acaba mal na história (embora tenha me surpreendido agora ao descobrir que há atores do filme de Parker se apresentando ainda hoje, 17 anos depois do lançamento do filme).
Por que digo isso tudo, em mais uma das minhas digressões? Porque estou cheio de orgulho de ver na minha frente pela primeira vez a impressão, toda bonita na sua simplicidade, do meu primeiro roteiro de ficção. Ver as folhas de papel e suas linhas de Courier 12, já com suas devidas revisões, as primeiras de muitas, é quase tão bom quanto uma réstia de sol nesse México friorento (e não, não ligo para o brega da metáfora nesse momento).
Uma pilha de folhas de papel é uma ótima razão para estar feliz.
24.11.08
No teatro com Malkovich

Desde que chegamos fomos quatro vezes ao teatro. Primeira peça, udigrudi de um autor catalão, anárquica, mas chata. Segunda peça, de um estimado autor mexicano, para lá de pretenciosa. Terceira, um clássico popularesco com suas três mil e tantas apresentações, deu pra rir, mas era boçal quase sempre.
Não ajuda muito a reputação das artes dramáticas mexicanas o fato de que a melhor vista aqui é baseada num texto de autor americano, com o diretor aí de cima se comunicando com o elenco mexicano em inglês. É fantástica.
16.11.08
Pauta
"Vê-se um céu escuro, uma lua alaranjada, uma guarita de vigilância e dois postes acesos, cada um com sua nuvem de cupins e mariposas. Grades cinzas quadriculam a composição. No pé do quadro, uma frase, não se sabe se pintada na parede original ou se inscrita pelo próprio comandante na sua obra: “O moinho dos deuses... Mói lento!!”
7.11.08
6.11.08
Queda de avião mata ministro mexicano

© La Jornada
Saiu nova matéria para a Folha, sobre a queda de um avião aqui na Cidade do México:
"O México foi forçado a desviar sua atenção da vitória do democrata Barack Obama na noite de anteontem, quando um jatinho do governo federal caiu a poucos metros de um dos principais cruzamentos da capital do país, matando o secretário de governo (Casa Civil) Juan Camilo Mouriño, braço direito do presidente Felipe Calderón, além de uma peça-chave no combate ao crime organizado, o secretário para a reforma da Segurança, José Luís Santiago Vasconcelos."O texto completo, para assinantes da Folha, está aqui.
(Agora que já passaram dois dias e matéria virou embrulho de peixe, segue o resto)
Até o momento foram confirmadas mais 12 mortes, seis delas de pessoas que estavam no lugar do desastre, e 12 feridos com queimaduras graves. Não há confirmação sobre as razões da queda; a hipótese de um atentado não está descartada.
O avião se espatifou pouco depois das seis da tarde numa zona movimentada e luxuosa da Cidade do México, as Lomas de Chapultepec, próximo ao entroncamento entre o Paseo de la Reforma e o Anel Periférico, ambos coalhados de automóveis na hora do rush. Ao cair, o avião explodiu, incendiando trinta carros e rompendo os vidros de diversos prédios. A queda agravou o trânsito já habitualmente caótico da capital.
Mouriño era o número dois do governo federal, assessor mais próximo e amigo pessoal de Calderón. Com apenas 37 anos, era um dos cotados pelo Partido da Ação Nacional para a sucessão de 2012 e o principal articulador no governo da reforma do setor petroleiro. Sua segunda pauta era a segurança.
Desde a posse de Calderón, em 2006, as estatísticas de assassinatos e seqüestros dispararam graças, segundo o governo, a uma política de enfrentamento. Mouriño e Santiago Vasconcelos eram os principais funcionários federais envolvidos no combate ao crime.
O governo informou que o avião voava em rota e altitude normais, ainda que excessivamente próximo de outras aeronaves. Ficou a apenas 4,5 km de um Boeing 767 minutos antes da queda, quando o normal é 6,5 km. Não houve nenhum aviso de emergência para a torre.
Especula-se que o piloto estivesse buscando refúgio da turbulência gerada pelo Boeing ou um ponto para um pouso forçado nos Bosques de Chapultepec, vizinho ao ponto de impacto. Peritos afirmam que sabotagens geralmente deixam um rastro de destroços até o ponto da queda. Nesse caso, o avião caiu inteiro, despedaçando-se apenas no chão.
O governo tem se esquivado das fortes especulações de que a aeronave foi alvo de uma sabotagem por parte dos "zetas", como são chamados os membros do Cartel do Golfo do México. Não seria o primeiro atentado contra Santiago nem a primeira ação terrorista do cartel.
Os "zetas" são acusados pelo ataque do dia 15 de setembro em Morelia, capital do Estado de Michoacán, em meio às festas da independência. Duas granadas foram detonadas na praça principal, matando oito pessoas e ferindo mais de 150.
Já Santiago foi alvo de inúmeros atentados na época em que era o czar do combate às drogas e sub-procurador geral da República, responsável por mais de uma centena de extradições de "capos" aos EUA. Teve a cabeça posta a prêmio: nada menos que US$ 5 milhões.
A estratégia do governo no momento é levar "zetas" e membros dos cartéis de Sinaloa e de Juárez à extinção mútua. Das mais de 4.600 mortes registradas esse ano, estima-se que perto de 4.000 sejam de soldados dos cartéis.
5.11.08
O foguete e os peixes

Leio hoje uma notícia que me deixa muito feliz. Cito da Folha:
"O território reivindicado por cerca de cem comunidades quilombolas de Alcântara. no Maranhão, foi reconhecido oficialmente pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária). Em relatório publicado ontem no Diário Oficial da União, o órgão federal delimita a área que era motivo de conflito com a Agência Espacial Brasileira, que mantém um centro de lançamento de foguetes no município. Parte do território em disputa seria ocupado pela Alcântara-Cyclone, a empresa binacional Brasil-Ucrânia para lançamentos comerciais de satélite. A companhia já tinha anunciado em agosto sua desistência de ocupar a região. Em comunicado à imprensa, o Incra afirma que as 3.500 famílias quilombolas que vivem hoje na região ficarão com uma área total de 78 mil hectares."No fim de 2004 estive em Alcântara para fazer uma reportagem sobre a conflituosa convivência entre os foguetes e os pescadores quilombolas para a rede de TV japonesa NHK. Acabei escrevendo também uma longa matéria para o JB sobre o assunto, que me fascina até hoje. Nos anos 80, o governo relocou na marra vilas inteiras, criando uma paura coletiva em relação à base. Espero o reconhecimento do Incra acabe com o desentendimento entre pescadores e cientistas espaciais.
4.11.08
Adeus, caubói

© New Yorker
Tão importante quanto o (provável) começo de uma Era Obama na Casa Branca é o fim da Era Bush (esse, ainda bem, seguro). Nesses anos o mundo teve de se habituar a conviver com um vizinho forte e folgado. E a América teve de se habituar a ser desprezada não só por seus inimigos diretos, mas por quase todo o mundo.
Decidi aproveitar a oportunidade para escavar o pequeno baú desse blog, pôr online algumas reportagens que fiz ao longo desses anos (links simples) e adicionar alguns textos que acho fundamentais para entendê-los (links creditados). É uma retrospectiva de fundo de quintal, com tudo de parcial e pessoal que pode ter, tudo de bom e mau que isso acarreta.
Hoje é difícil lembrar, mas a eleição de 2000 era tida como algo desimportante. Ao contrário de hoje, o grande assunto não era o que faria esse ou aquele presidente, mas os defeitos do sistema eleitoral americano. É curioso ver como os entrevistados para essa matéria afirmam sem meias palavras que naquela eleição os americanos escolheram um presidente "de centro" e convocado a "governar pouco". Isso antes mesmo de se confirmar o resultado final. É curioso também ver como tudo parecia incerto naquele momento, um mês depois das eleições.
É igualmente interessante notar como Bush era um estranho ao establishment, um alien no sistema, uma mudança brusca da Era Clinton. Nossa visão sobre os americanos era diferente. A parvoíce de Bush ainda era vista como exceção e não regra. Nessa parcial, mas excelente matéria da Vanity Fair, Gail Sheely reconstrói a fabricação milimétrica do Bush propositalmente caubói/caipira.
Toda a conversa de "presidente desimportante" mudou, é claro, após os ataques de 11 de setembro, apenas alguns meses depois da posse. Era um sinal claro de que o anti-americanismo que ia se tornar regra nos anos seguintes já era professado por gente na frente de batalha, ex-aliados como Osama Bin Laden, um brilhante orador, ainda que, segundo alguns, estrategista de parcos resultados.
As especulações sobre o que seria a retaliação começaram minutos após o ataque às Torres Gêmeas. Naquela época, ainda se pensava se seria ao Afeganistão ou ao Iraque. Apenas depois percebemos que o plano era passar por cima do fato de que os bandos dos dois países não se bicavam e abrir duas frentes de batalha. A falta de lideranças alternativas e o excesso de candidatos ao trono eram patentes no Afeganistão. Já na época se questionava se não era melhor evitar a catástrofe humanitária que se seguiu e simplesmente "comprar" Bin Laden do regime talibã. A oferta que fizeram a Clinton, ao que tudo indica, ainda estava de pé na época da invasão, quando tive a sorte de conseguir a primeira confirmação oficial de que forças americanas e inglesas já estavam no país preparando clandestinamente a invasão. Na pressa de tantas análises e fatos, o furo acabou, justificadamente, passando despercebido.
Hoje o conflito se arrasta e o melhor retrato que conheço dele foi escrito por Jon Lee Anderson, da New Yorker. Aqui, ele fala dos problemas enfrentados pelo presidente do país, Hamid Karzai. Nessa reportagem, de como os talibãs têm ótimas razões para seguir lutando.
Apesar de muito cedo ficar claro que os Anos Bush seriam de guerra, houve quem quisesse indicá-lo – junto com seu fiel companheiro Tony Blair – ao Nobel da Paz. Logo ficou claro, contudo, que EUA e Inglaterra estava se preparando para o passo seguinte: tomar Bagdá. Chegar até lá custou uma montanha de mentiras, resumidas com competência por Craig Unger, da Vanity Fair. Apenas um ano antes, não sabíamos que Sérgio Vieira de Mello ia deixar seu cargo de Comissário para Direitos Humanos da ONU, para o qual acabava de ser nomeado, para morrer de forma estúpida em Bagdá, algo contado em detalhes por Samantha Power na New Yorker (e também na Piauí). Anderson fez a melhor crônica da guerra iraquiana, em diversos despachos que foram retrabalhados posteriormente em seu livro A queda de Bagdá. Aqui vão primeiro, segundo, terceiro e quarto. Igualmente incontornável é a reportagem de Seymour Hersh, na mesma New Yorker, sobre como o governo americano incentivou seus soldados a agir de forma pouco ortodoxa em busca de informações.
Mesmo antes das invasões, se especulava que as guerras desse século seriam lutadas de outra forma. Os EUA já tinham posto em prática em diversos países, especialmente na Colômbia, um modelo privatizado de combate. O que não sabíamos é a que ponto tanta instabilidade ia encher os bolsos de meia dúzia de empresas, como mostra Michael Schnayerson nessa reportagem para a Vanity Fair.
Realmente, difícil acreditar que tudo isso aconteceu sob a batuta do azarão que deixa o cargo – se tudo der certo – em 77 dias.
3.11.08
1.11.08
Diga "ômmmm"

Nada estranho que festivais de cinema tenham números músicais na festa de abertura. Nada mais apropriado, portanto, que o 1º Festival Internacional de Cinema Budista da Cidade do México tenha essa estranha bandinha de monges galupa tibetanos.
Espero que os filmes tenham mais suingue.
31.10.08
Morris e sua amiga – a ilógica
Standard Operating Procedure ("procedimento operacional padrão") finalmente está entrando em cartaz no Brasil, o que dá mais uma chance ao público pátrio de conhecer o trabalho de Errol Morris, dos ótimos A tênue linha da morte e Sob a névoa da guerra. A idiossincrasia do trabalho de Morris foi se perdendo ao longo dos anos à medida que seu estilo foi sendo imitado e diluído – e também à medida que ele foi ganhando estrada e encontrando-se repetidas vezes com a incoerência.
É apenas irônico que isso ocorra (e Morris tem um aguçado olho para a ironia), já que sua obra é calcada exatamente nas incoerências e no peculiar que cada pessoa guarda. Morris busca em situações extraordinárias – um assassinato mal investigado, na pesquisa de lulas gigantes ou em um centro de torturas americano no Iraque – o desvio de lógica que é comum a todos nós. O desvio de que nunca conseguimos nos desviar, por assim dizer.
Mas esse post não é sobre o filme que está estreando agora, um estudo sobre como pessoas normais podem abraçar a crueldade de forma tão cotidiana, mas sim sobre o mais recente trabalho de Morris, que pode ser visto na íntegra acima. Se chama Pessoas no meio.
É uma campanha para o candidato democrata à Casa Branca, Barack Obama. À primeira vista, não há nada demais: diversas pessoas à frente de um fundo branco contam porque, de indecisas, passaram a apoiar Obama. Os depoimentos são sintéticos, a edição que faz que uma frase complete a anterior é competente, a imagem é cuidada e as personagens são bem escolhidas, não só pelo que dizem mas pelo que parecem ser: gente comum. Nada disso, contudo, garantiria um trabalho de interesse artístico.
O que garante o interesse (ao menos o meu) nesse trabalho de Morris é o fato de que ele vai contra o conceito por trás da maioria de seus filmes: ele aposta na lógica, na argumentação racional. Mais que isso, ele julga que as pessoas são capazes de serem regidas pela razão.
Toda a sua filmografia é baseada nas incoerências, no oposto disso. O filme acaba apontando para as incoerências do próprio Morris. É um documentário de como seu autor sempre filmou um processo que é intrínseco a ele mesmo.
Não à toa, uma senhora numa jaqueta marrom, lá pelo final do vídeo, afirma que "todos sabemos, em nossos corações, que Obama é o melhor".
E se há alguma coisa que Morris afirma e reafirma ao longo da sua brilhante filmografia – de forma absolutamente consciente, o que é raro – é justo isso: o cérebro sabe muito pouco.
No site de Morris se pode ler um pouco sobre as pessoas que falam no spot. Na revista Believer, ele conversa sobre a loucura das pessoas com (logo quem) Werner Herzog. Numa entrevista em áudio à Salon, argumenta que não é razoável pedir que os carcereiros de Abu Ghraib se desculpem – e obriga o repórter de forma hilária a se desculpar por afirmar tal coisa. Em seu blog hospedado no New York Times ele faz uma curiosa retrospectiva de comerciais políticos desse corte e – na medida do impossível – se explica.
29.10.08
Caliente!

Mais fotos em Macorig Paolo
Sempre que comento com alguém como já estou cansado do frio mexicano o interlocutor se surpreende: "México? Frio?" Por obra e graça dos clichês, as pessoas vêem esse país todo como a foto acima: um grande deserto pontuado por cactos e castigado por um intenso sol, com uma orlinha cancúnesca que mais parece alguma Antilha.
Pois é. O México pode ser frio. Bem frio. Demonstra isso o fato de que todo mundo se veste em camadas aqui: camisa, suéter, jaqueta e às vezes até um sobretudo. E também que já nevou algumas vezes aqui na capital. Vai uma ilustração abaixo, uma foto em algum ponto da fronteira com o Arizona.
Mais no Snowboard Revolution
Para os defeños, ou seja, quem vive no Distrito Federal, não é raro ouvir que vão passar o fim de semana en tierra caliente. Ouvi o mesmo em Bogotá, outra cidade que surpreende todo mundo com seu frio e cinza londrinos. Agora, pelo jeito, parece que vem mais frio por aí e o governo teme que o binômio crise+frio mate alguns mexicanos.
Brrrr...
A prece diária do homem moderno
26.10.08
Parabéns aos perdedores
Difícil descrever o que o Rio acaba de fazer consigo mesmo. É quase como uma criança dando um tiro no pé com o revólver do pai. Preferiu eleger mais um político profissional de cabelo pastinha maquinado por uma campanha cara e, nesse ano, especialmente desonesta e por vezes violenta.
Paes teve o apoio de um PT federal que sempre meteu os pés pelas mãos no Rio e deu mais dinheiro para atacar Gabeira que para apoiar seu próprio candidato, Molon. De um PMDB que pretende resolver a segurança no Estado à bala. De aliados que têm milícias ou escravos. De candidatos derrotados no primeiro turno que decidiram perder a memória sobre o próprio passado ou nunca esqueceram que o objetivo é continuar por cima, seja como for.
Teve apoio – e isso é muito importante – da maioria dos cariocas. Que votaram mal de novo e se iludiram, de novo, com uma campanha promesseira. Os anos Garotinho ensinaram nada ou muito pouco. Teve apoio também dos que acharam razoável votar nulo numa eleição que caminha fechar a contagem com uma diferença de menos de 50 mil votos. Só de nulos foram mais de 200 mil.
Teve apoio, porque não dizer, do próprio Gabeira, que permaneceu um tanto elitista – alguém diria utópico, não sei se é o caso – em sua forma de agir. Achou que bastaria ser uma versão municipal de Obama, quando o Rio precisava de gana, de cojones, de alguém que quisesse muito vencer, propor em voz alta, catar voto no subúrbio não só porque isso era necessário para ganhar, mas porque é a parte da cidade que merece mais atenção mesmo. Gabeira afugentou muitos de seus eleitores-padrão com alianças de véspera de eleição que dificilmente se justificam. César Maia mostrou que tem incrível capital político para subtrair votos daqueles a quem apóia.
Gabeira perdeu, basicamente, porque queria governar um Rio que existe na sua cabeça. Ainda não existe a ponte entre o verdadeiro e este. Gabeira não soube que essa seria a primeira obra do seu governo. Mereceu perder tanto quanto Paes não merecia ganhar.
Com a vista nublada de coisas assessórias ou inventadas – tangas, baseados, sungas, inexperiências – os cariocas decidiram que um almofadinha que estudou Direito é mais administrador urbano que um homem que já viu e estudou boa parte das soluções que dezenas cidades no mundo todo deram para seus problemas.
Metade e mais pouco dos cariocas merece o que aconteceu hoje e o que vai se desdobrar pelos próximos quatro anos. Aos outros, uma minoria quase igual à maioria, restará reclamar, um esporte em que os nativos têm muita prática.
Parabéns aos perdedores.
21.10.08
Voltando ao Che
Anuncio aqui aos sete ventos: há uma mobilização do site MovieMobz em progresso. Nada menos que 36 pessoas já se puseram de acordo para ver Personal Che no Odeon BR, Rio de Janeiro. Seria genial que se conseguisse mobilizar o filme outra vez e ele voltasse às salas do Rio pelo voto democrático de internautas que gostam de cinema.
E como já faz tempo que não ponho vídeos aqui, volto a postar o trailer em português do filme. Na época do lançamento, a versão em inglês, completamente diferente, foi a que circulou mais. Não há qualquer razão pra que a anglofonia continue reinando em assunto tão latino – ainda que o filme seja falado em cantonês, árabe, inglês, alemão e espanhol. :-)
Aqui você vê o trailer em inglês.
E aqui, uma molecagem.
Bom sinal

Um dos cartazes rejeitados do filme. Che não parece distraído aí?
Hoje me tomou quarenta segundos até que eu desistisse de lembrar o que Che Guevara garantiu que se devia fazer "sin perder la ternura jamás".
Tive que ir ao google para lembrar o que era: "endurecerce", claro.
Levando-se em conta que é uma frase extremamente popular do nosso amigo argentino (mais de dez mil hits no google) e que eu passei quatro anos de minha vida pensando na vida desse cara ao menos uma vez ao dia por conta de Personal Che, isso pode querer duas coisas:
Ou finalmente estou saindo da minha chemania pessoal (milhares de fatos de quatro biografias memorizados, identificação imediata de qualquer efígie do homem em qualquer ambiente, entre outros sintomas) – algo, diga-se de passagem, extremamente saudável, já que a vida e os projetos continuam.
Ou lá vem o Alzheimer.
20.10.08
Blá, blá, blá
O site da Economist acaba de soltar uma interessante notinha com tabela em sua edição de hoje. Conta as frases e palavras dos dois candidatos à Casa Branca no último debate e as compara com os números dos pretendentes à vice-presidência e também dos candidatos à presidência americana em 2004 e 2000. (Se gráfico estiver pequeno demais, clique)
Pouco surpreendente, o eloqüente Obama sai na frente na média de palavras por frase: mais de 19. Menos surpreendente ainda, a rabeira no ranking é de Bush: entre 13 e 15. Surpresa sim está no despautério republicano chamado Sarah Palin, que venceu Obama tanto na média de palavras por frase quanto no número de frases. Um machista diria que mulher fala pelos cotovelos mesmo, e faria falta ver que contagem Hillary Clinton teria. Eu, que sou só um pouco machista graças à minha origem sergipo-alagoana, digo apenas que Sarah Palin fala pelos cotovelos. Leve em conta que os números são médias: um "yes, I did" equilibra um monólogo de quase um minuto com quase 60 palavras.
Mais importante: a contagem intui, mas não determina o tipo de discurso de um candidato. Você pode ter frases longas – e nos brasileiros isso é comum – em que o emissor faz digressões e remete você a outros assuntos, a histórias pessoais ou a anedotas (como acabo de fazer nesta frase de 29 palavras). Você, beletrista, pode adornar de bem-colocados e criativos adjetivos seu belo discurso para uma vasta platéia sedenta de retórica redentora (como fiz agora em 21 palavras). Você pode fazer listas virguladas contendo acusações, vitupérios, ilações, memórias, broncas, predicados, defeitos, tiques, traições e incoerências do adversário. (Palim aprovaria essa, de 19).
Ou você pode fazer propostas, como a idéia de que os números ajudam um pouco a entender como funciona a cabeça de um candidato, mas não definem nada sem um tanto de bom-senso – literário, até – para julgar o conteúdo do que se está ouvindo, quanto é sobrancelhas e gestos de mão e quanto é formado por conceitos concretos. Essa teve 59, e acho que sai mais ao estilo de Obama. E digo isso a despeito de todos os problemas e aliados que tem. Seria muito interessante trabalhar sobre as transcrições de nossos debates a prefeito e ver como os candidatos se saem.
Suponho que Gabeira seria nosso Obama – inclusive nos problemas e aliados – mas como saber?


